Marc-Chagall-La-Vie-1964

Sobre a Humanidade Socialista

É verdade que os seus cientistas possuem neste momento um apoio mais firme no aparelho produtivo da nação que possuía qualquer geração anterior. Mas a grande massa de produtores – por mais que se fale sobre cibernética e a grande visão de um futuro supercibernético – a grande massa de produtores na sociedade de vocês são os trabalhadores. E não creio que possuam muitas outras razões para que estejam satisfeitos com esta sociedade, com sua condição de excluídos dela. O que então poderia deixá-los satisfeitos com essa sociedade, vocês jovens estudantes norte americanos?

Realmente, será que vocês olham com tal desprezo para as suas classes trabalhadoras que acham que somente vocês são tão sensíveis ou tão nobres para estar insatisfeitos com essa sociedade em decomposição e que eles não são capazes de estar insatisfeitos? Vocês acreditam realmente que eles estariam muito mais propensos e condicionados por sua natureza, a ser corrompidos pelas falsas vantagens deste capitalismo militarista do que vocês estariam?

Eu sei, eu sei que os grupos de mais experientes da classe trabalhadora norte americana provavelmente estão quase todos corrompidos. Eles comparam sua condição atual com a que conheceram na década de 1930. Mas com certeza não deram voltas na cabeça do jovem trabalhador norte americano nem este se sentiu confuso pelo fato de que na casa de seus pais tenha televisor e porque ele possa ter um automóvel. Essas coisas ele dá como assegurado. É parte do padrão de vida que encontra ao entrar na sua etapa adulta. Seguramente que não está corrompido por ela e que tem razões suficientes para se sentir insatisfeito. Estou convencido de que por trás de sua apatia política, existem camadas e camadas de dúvida e descontentamento e o sentimento de que precisam ganhar a vida trabalhando para a morte, trabalhando para a guerra.

Não poderiam se aproximar deste jovem trabalhador e dizer-lhe que o modo de viver é trabalhar para a vida e não para a morte? Não teria relevância para os estudiosos norte americanos a tentativa de fazer isso?

O professor Marcuse nos disse que não devemos mais seguir contando com a classe trabalhadora, porém não disse com quem devemos contar. Disse que devemos contar com a gente jovem que grita o seu descontentamento a respeito das convenções sexuais desta sociedade. Naturalmente, também devemos contar com eles. Afinal de contas, foi Engels quem escreveu sobre as origens da família e mostrou a família como uma instituição pertencente somente a uma fase, ou fases, da história da sociedade; e mostrou as convenções da moral burguesa construídas em torno da família.

Não devemos ignorar a insatisfação que existe contra a família e as convenções sexuais entre a nossa gente jovem, mas as vezes penso que esses velhos e veneráveis mestres como o professor Marcuse estão fazendo algumas piadas, simplesmente estão se divertindo as nossas custas. Primeiro, disse que o marxismo não era o bastante utópico; depois segue dizendo que o atual desenvolvimento sugere que a ideia de uma revolução socialista nas sociedades industriais avançadas não era ou não é realista e que é obsoleta, tão obsoleta como a ideia da transformação gradual do capitalismo no socialismo.

Agora, por favor, tirem suas conclusões. A revolução, disse ele, é uma ideia obsoleta e o reformismo é também uma ideia obsoleta. Ou seja, não há nenhum caminho do capitalismo ao socialismo, nem revolucionário, nem reformista. Para que então falar de socialismo?

O que nos disse o professor Marcuse é que o socialismo era utópico, depois disse que o socialismo não era suficientemente utópico. Fico impressionado como é possível que um mestre tão velho e respeitado possa cometer tantos non sequiturs [5] e tanta falta de lógica e jogar com tão vagas e irresponsáveis generalidades em tão poucos parágrafos.

Em muitos aspectos esta discussão tem sido para mim uma triste experiência. Mas sigo sendo um otimista inveterado. Creio que esses são os custos eventuais de um fermento intelectual criativo no meio de vocês. Lhes desejo clareza e honestidade de pensamento, e desejo que vocês possam se concentrar no essencial em vez de se deixar distrair por algumas manobras circenses que não têm nada a ver com o pensamento político sério.

Vocês não podem escapar da política. Os homens não vivem somente da política, isso é certo. Mas a não ser que resolvam por vocês mesmos em suas próprias mentes os grandes problemas políticos colocados pelo marxismo, pelas contradições da sociedade capitalista, pelas relações recíprocas do intelectual e o trabalhador nesta sociedade, a não ser que encontrem o caminho para chegar aos grupos jovens da classe trabalhadora norte americana e despertem este gigante adormecido, este gigante adormecido da classe trabalhadora norte americana, tirando-lhe do seu sono patológico que lhe provocaram, a não ser que vocês façam tudo isso, estarão perdidos.

A única salvação está em voltar a levar a ideia do socialismo à classe trabalhadora e com a classe trabalhadora voltar a tomar de assalto – de assalto, sim, de assalto – as trincheiras do capitalismo.


Notas do tradutor:

[1] O termo em latim “sub specie aeternitatis“, segundo o filósofo Spinoza quer dizer: do ponto de vista da eternidade. ou seja algo que descreve o que é universalmente verdadeiro, ou algo não efêmero.

[2] O mal-estar na civilização” é um texto do médico e fundador da psicanálise Sigmund Freud que discute o fato da cultura – termo que o autor iguala à civilização – produzir um mal-estar nos seres humanos, pois que existe uma dicotomia entre os impulsos pulsionais e a civilização. Portanto, para o bem da civilização, o indivíduo é oprimido em suas pulsões e vive em mal-estar. É um dos principais escritos onde Freud esboça a relação entre os elementos de sua teoria da consciência com uma teoria social (Wikipédia).

[3] ”A expressão latina petitio principii (“petição de princípio”) é uma retórica falaciosa, por vezes proposital, por cansaço no debate com um interlocutor persistente como, por exemplo, uma criança. Não necessariamente o argumento é falacioso, ou não pretende ser falacioso, contudo sarcástico e/ou admoestador. (Eu estou certo porque sou seu pai, e os pais estão sempre certos.) O recurso não necessariamente pretende ser falacioso, mas um dispositivo retórico para encerrar um diálogo por hierarquia ou pela persistência do locutor, que pode ser uma criança. (A igreja tem suas portas abertas. E por que o cachorro entrou na igreja? Porque as portas estavam abertas.) É firmar a conclusão que se utiliza para demonstrar uma tese partindo do princípio que ela é válida. (Wikipédia).

[4] Unbehagen (em alemão),traduz-se como: incômodo, desconforto.

[5] Non sequitur é uma expressão latina (em português “não se segue”) que designa a falácia lógica na qual a conclusão não decorre das premissas. (Wikipédia).

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SOBRE O HOMEM SOCIALISTA – ISAAC DEUTSCHER

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Comentários

  1. alberto herrera disse:

    Que argumentos mais poderíamos deduzir a partir do texto para encontrar na nossa consciência um conforto para a angústia teórica que eventualmente poderia visitar nossa alma? O texto, tão atual dentro do contexto relativo, estimula a possibilidade de uma análise dos tempos que vivemos e a fé no movimento da vida se renova e a aparente Utopia se projeta como real no movimento da história. Penso que a aparente crise do pensamento politico que permeia o mundo pode ser fictícia e o fermento necessário deve estar na sua primeira fase pois o processo é inevitável. Uma necessidade inerente à condição humana não permite que o processo da busca da felicidade seja interrompido. Esta afirmação aparentemente metafísica talvez seja apenas uma necessidade que vendo a história da vida se recusa a pensar diferente.