Marc-Chagall-La-Vie-1964

Sobre a Humanidade Socialista

O homem socialista que Stalin apresentou ao mundo foi um operário ou o camponês faminto, mal vestido, mal calçado ou talvez descalço, que vendia ou comprava uma camisa, um móvel, algumas gramas de carne e até um pedaço de pão no mercado negro ou no mercado paralelo, que trabalha dez ou doze horas por dia sob uma disciplina de quartel numa fábrica, que pagava qualquer delito real ou suposto com anos de trabalhos forçados num campo de concentração. Não se atrevia a criticar a um diretor de fábrica, o que dizer então a um funcionário do partido. Não tinha direito a expressar nenhuma opinião sobre nenhuma questão relevante que afetasse seu destino ou do seu país. Tinha que votar como lhe era ordenado; aplaudir ao Chefe com frenético entusiasmo, como lhe era ordenado; e deixar que a sua dignidade e sua personalidade fossem enganadas pelo chamado culto da personalidade. Estes são os fatos, descritos oficialmente pelos dirigentes soviéticos e refletidos por uma vasta literatura soviética. Embora nos últimos anos as condições tenham sido mitigadas, a pobreza, a desigualdade, a falta de liberdade política e intelectual e o terror burocrático seguem existindo.

Meu propósito ao evocar tudo isso não é polêmico, embora somente seja porque eu vejo a causa principal destas condições não unicamente na má vontade dos dirigentes (que desde sempre nunca tem faltado), senão nas circunstâncias objetivas, na terrível pobreza herdada que a União Soviética (e agora a China) tem precisado superar em meio do isolamento, os bloqueios, as guerras e corridas armamentistas. Seria impossível que um país assim pudesse alcançar o socialismo sob tais circunstâncias. Precisava dedicar todas as suas energias a “acumulação primitiva”, quer dizer, a criação, sob a propriedade estatal, dos pré-requisitos econômicos mais essenciais para qualquer genuína construção do socialismo. Por consequência, a União Soviética é, ainda hoje, uma sociedade de transição que se encontra num ponto intermediário entre o capitalismo e o socialismo, que combina traços de um e outro e inclusive, exibe características de seu legado primitivo pré-capitalista. O mesmo pode ser dito, com certeza, da China, Vietnam, Coréia do Norte e a maior parte da Europa Oriental. Nós do Ocidente carregamos uma grande responsabilidade pelas dificuldades desses países: nosso fracasso na promoção do socialismo no Ocidente tem sido a causa determinante de seu fracasso. Porém, se tivermos que enfrentar a nossa tarefa novamente e capacitar a uma nova geração de socialistas para que prossiga na luta, devemos limpar definitivamente as nossas mentes das falsas concepções e dos mitos que tem crescido nas últimas décadas. Devemos desvincular o socialismo de uma vez por todas, não da União Soviética ou da China e de seus êxitos progressistas, mas sim da paródia stalinista e pós-stalinista da humanidade socialista.

Não posso me deter aqui na análise dos motivos do dogma e prestígio que levaram Stalin a proclamar que a União Soviética havia alcançado o socialismo e que ainda move os seus sucessores em manter esta ambição. O que me interessa aqui é unicamente o impacto que esse dogma ou alarde teve sobre o socialismo no Ocidente. Esse impacto foi desastroso. Nossos movimentos operários foram desmoralizados e o pensamento socialista foi turvado. Nossas classes trabalhadoras têm observado do seu ponto de vista o desenvolvimento dos acontecimentos na União Soviética e tem extraído suas próprias conclusões. “Se esse é o ideal da humanidade socialista” dizem por consequência, “então não temos nada a ver com ela”. Uma grande parte de nossa intelectualidade socialista tem reagido de forma similar ou tem se emaranhado de tal maneira na mitologia e na doutrina stalinista, que perderam o impulso e o poder de convicção socialista e ficaram desarmadas espiritualmente de tal sorte que tem sido incapaz de lutar contra a desilusão e a apatia das classes trabalhadoras.

Em certa ocasião, disseram que os jesuítas não haviam conseguido elevar a terra até o céu, então fizeram com que o céu declinasse até a terra. De maneira similar, Stalin e o stalinismo, ao não conseguir elevar a Rússia carente e miserável até o socialismo, fizeram com que o socialismo declinasse ao nível da miséria russa. Poderia ser argumentado que foram compelidos a fazer assim. Então, se esse fosse o caso, nós teríamos que fazer outra coisa: teríamos que explicar às nossas classes trabalhadoras e à nossa intelectualidade porque a União Soviética e a China não puderam nem poderiam produzir a humanidade socialista, apesar dos grandes êxitos de que são credoras, de nosso reconhecimento e nossa solidariedade. Devemos restaurar a imagem do homem socialista em todo seu esplendor espiritual. Devemos restaurá-la primeiro em nossas próprias mentes e depois, nos fortalecer em nossa convicção e nos rearmar politicamente. Devemos levar uma vez mais a consciência socialista e a ideia socialista à classe trabalhadora.

Neste ponto foi lida uma carta de Herbert Marcuse. Ele propunha a tese de que as conclusões do marxismo tradicional estavam fora de moda e necessitavam ser revisadas; em particular, sugeria que a classe trabalhadora já não podia seguir sendo considerada como agente da revolução. Depois de uma discussão seguida de perguntas e comentários do público sobre a carta de Marcuse, Deutscher se referiu à tese de Marcuse em suas observações finais.

Senhor Presidente, creio que você exagerou quando disse que agora eu faria a réplica. Estou, todavia, me recobrando da penosa surpresa, pelo menos, da primeira metade de nossa discussão. Inclusive na minha idade, se aprende o tempo todo.

Sinto-me agradecido aos dois últimos oradores que de alguma maneira restabeleceram meu sentido de realidade. Posso estar ou não de acordo com eles, mas podemos discutir. Entretanto, sinto que devo dedicar a maior parte da minha resposta aos oradores que participaram na primeira parte do debatem porque na primeira metade do debate percebo haver um sintoma inquietante por outro fermento intelectual criativo que está surgindo nas mentes da inteligência norte americana, na jovem geração de estudiosos norte americanos. Mas existem estranhos subprodutos disso, que me parecem na verdade, muito, muito perigosos.

E estou quase perplexo pela declaração que nos enviou o professor Marcuse. Como os primeiros oradores estavam formando verdadeiramente um coro de apoio ao seu inspirador ausente, eu, afortunadamente, tive que me concentrar na declaração do professor Marcuse. Ele propõe três ou quatro pontos importantes, mas os apresenta de forma tão vaga e evasiva que também isto torna a discussão algo difícil.

Antes de tudo, afirma que estamos muito a frente de Marx e do marxismo, que nossa avançada sociedade ocidental tornou o marxismo obsoleto, e, por conseguinte, devemos seguir avançando a partir do marxismo. Eu sempre me inclino a dizer que sim, quando me dizem que o marxismo não é sem dúvida a última palavra no desenvolvimento do pensamento humano, que temos que ir mais além do marxismo. Esta é uma objeção muito marxista ao marxismo e me inclino a aplaudi-la. Mas também devemos refletir por um momento em que aspecto o marxismo é tão obsoleto e de onde se supõe que devemos avançar nos distanciando dele.

Em primeiro lugar devo perguntar: a contradição básica da sociedade capitalista, tal como o marxismo tem analisado e diagnosticado, a contradição entre o processo socializado da produção e o caráter antissocial do controle da produção pela propriedade privada, teria sido superada esta contradição básica? Ou esta contradição estaria ficando vez mais e mais profunda, mais e mais irracional, a cada década que passa?

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Comentários

  1. alberto herrera disse:

    Que argumentos mais poderíamos deduzir a partir do texto para encontrar na nossa consciência um conforto para a angústia teórica que eventualmente poderia visitar nossa alma? O texto, tão atual dentro do contexto relativo, estimula a possibilidade de uma análise dos tempos que vivemos e a fé no movimento da vida se renova e a aparente Utopia se projeta como real no movimento da história. Penso que a aparente crise do pensamento politico que permeia o mundo pode ser fictícia e o fermento necessário deve estar na sua primeira fase pois o processo é inevitável. Uma necessidade inerente à condição humana não permite que o processo da busca da felicidade seja interrompido. Esta afirmação aparentemente metafísica talvez seja apenas uma necessidade que vendo a história da vida se recusa a pensar diferente.