Boletim de Conjuntura Nacional

Fatos & Crítica nº 24: “Não é o momento para isso”

 

 

Assim teria se manifestado o General Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional de Bolsonaro, no dia 22 de maio, ao reagir aos ímpetos golpistas de seu chefe, que pretendia destituir à força os 11 ministros do STF. O motivo da irritação do Presidente era a consulta que um dos ministros do tribunal havia feito à Procuradoria Geral da República a respeito da apreensão dos celulares do capitão e de um de seus filhos, em função de uma ação judicial movida por três partidos de oposição.

Esta seria, para os militares do alto escalão do governo, a segunda interferência indevida do Poder Judiciário sobre o Poder Executivo: a primeira havia ocorrido quando outro ministro do STF impedira a nomeação de Alexandre Ramagem para a chefia da Polícia Federal, episódio que acabou por produzir também a saída de Sérgio Moro do cargo de Ministro da Justiça.

Entre estes dois episódios, os ânimos estiveram acirrados, quando uma sucessão de decisões do STF, com desdobramentos contrários aos interesses do Governo, tais como o inquérito das fake news, fechamento contas do facebook e investigação de seus financiadores, chegando ao “gabinete do ódio”.

Há muito tempo virou voz corrente entre os militares uma interpretação do Artigo 142 da Constituição – que diz que as Forças Armadas se destinam também a defender a “lei e a ordem” por “iniciativa dos poderes constitucionais” – segundo a qual é dada uma carta branca ao Executivo para garantir o seu “poder constitucional” com o emprego de força militar: o chamado “autogolpe”, já mencionado pelo General Mourão ainda na campanha eleitoral de 2018. E, para os militares, as duas atitudes do STF representariam um atentado ao “poder constitucional” de Bolsonaro.

Os militares brasileiros, entretanto, têm uma longa tradição de intervir nos rumos políticos do país, mesmo sem a interpretação duvidosa de dispositivos constitucionais, bastando citar a proclamação da República, a Revolução de 1930, a tentativa de golpes contra Getúlio, Juscelino e Goulart e a deposição deste último em 1964, abrindo 21 anos de controle direto do governo. Considerando esse passado e prevendo o futuro, jamais fizeram autocrítica das perseguições e torturas de opositores na ditadura militar, como se quisessem afirmar: “fizemos e faremos de novo, desde que as circunstâncias o exijam”.

Nunca é demais relembrar que a democracia burguesa se caracteriza também como uma ditadura direta e encoberta da burguesia, pois permite a essa classe exercer o seu domínio político, contando sobretudo (mas não apenas) com o emprego de sua força econômica avassaladora, antes, durante e depois das eleições. Ela põe em ação a máquina do Estado utilizando seus representantes diretos nos três poderes, ao lado da pressão de lobbies extraparlamentares e do uso da corrupção pura e simples.

Já a ditadura militar se caracteriza como uma ditadura aberta e indireta da mesma classe, mas, neste caso, a burguesia abre mão de exercer o seu poder político direto, por meio de seus representantes, para permitir aos militares o combate sem amarras a uma ameaça maior ao seu domínio de classe.

Como atualmente não existe ameaça dos trabalhadores ao domínio de classe da burguesia no Brasil, de fato ainda “não é o momento” para um golpe militar, máxima aspiração política de Bolsonaro e de seu grupo de extrema direita. Em troca, predominam as notas ameaçadoras endereçadas à “nação”, como a emitida pelo General Heleno, alertando para “consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”, caso o Judiciário continuasse a contrariar o Executivo. Ou como a nota redigida dias mais tarde pelos Generais Mourão e Azevedo e Silva, comunicando que as Forças Armadas não cumpririam “ordens absurdas” do Judiciário ou do Legislativo. Ou avisos pela imprensa, como o do General Ramos, para “não esticar a corda”.

O próprio vazamento do conteúdo da explosiva reunião do dia 22 de maio, presenciada por um público bastante restrito do Palácio do Planalto, tem o propósito de avisar aos navegantes que os militares conseguiram, desta vez, conter os ímpetos de Bolsonaro, mas nada poderiam garantir em relação ao futuro.

O fato é que o STF continuou funcionando, emitindo ordens de prisão a membros de grupos bolsonaristas e proibindo as suas manifestações ameaçadoras nas redes sociais. Além disso, a situação de Flávio Bolsonaro no “escândalo das rachadinhas” piorou com a prisão de seu ex-assessor e homem de confiança, o miliciano Queiroz, e a descoberta de uma série de depósitos e pagamentos suspeitos envolvendo a família presidencial.

Não adiantou Bolsonaro se irritar mais uma vez diante da queda de seus aliados e vociferar: “acabou, porra!”, “chegamos ao limite!”. Parou de produzir incentivos diretos a sua militância de extrema direita e fortaleceu sua estratégia alternativa em direção ao chamado “centrão”, um conjunto de partidos políticos fisiológicos de direita, facilmente cooptáveis em troca de favores diversificados dentro da máquina estatal.

 

Um novo Bolsonaro?

A inauguração da nova fase de Bolsonaro foi marcada pela destituição de vários vice-líderes de seu governo na Câmara, entre eles o pastor Otoni de Paula – que utilizou o plenário para xingar de “lixo” um ministro do STF – e a ex-procuradora Bia Kicis, ambos radicais de direita.

Prosseguindo, o capitão trocou o próprio líder do governo, o fiel ex-paraquedista Major Vitor Hugo, por uma velha raposa do “Centrão”, Ricardo Barros, político camaleão que já havia prestado serviços aos governos de Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer. Incomodados com essa substituição e com as novas inclinações políticas de Bolsonaro em direção à “velha política”, que tanto haviam criticado, mais dois vice-líderes do governo, a PM Major Fabiana e o policial federal Ubiratan Sanderson, pediram dispensa de seus cargos. leia mais

Fatos & Crítica n° 23: A Pandemia para os trabalhadores

 

Desde março deste ano quando ocorreu o primeiro óbito pelo covid-19 e a pandemia começou a se disseminar pelo país, o governo Bolsonaro se negava a considerar a projeção feita pelos principais centros de pesquisa epidemiológica daqui e do exterior sobre o provável alto impacto em perdas de vidas humanas, caso medidas de mitigação não fossem adotadas para impedir a transmissão do vírus. Itália e Espanha passavam pelo auge da crise pandêmica com elevado número de óbitos, registrado nas imagens de centenas de corpos sendo levados da cidade de Bergamo para cidades vizinhas por caminhões do exército italiano [1] por falta de espaço no cemitério local.

Naquele momento o capitão prenunciava que, uma vez contaminado pelo novo vírus, sendo jovem e sem comorbidades, o vírus só poderia provocar nada mais do que uma “gripezinha”. Foi essa a lógica aplicada à maioria dos trabalhadores que mantiveram intacta sua rotina de exposição diária à aglomeração no trajeto ao trabalho em transportes lotados e mal arejados, submetidos aos riscos da contaminação nos locais de trabalho e ainda à precariedade sanitária das moradias populares, sobretudo nas favelas. Nenhuma precaução foi tomada para evitar essa forma de contaminação coletiva pelo vírus. A fórmula mágica de Bolsonaro para mitigar a doença foi a desinformação, apelando para cura milagrosa do covid-19 pela cloroquina, uma droga capaz de provocar graves efeitos colaterais como cegueira, arritmia cardíaca e morte súbita, menos curar a doença.

O cenário então já estava anunciado. Desde o início, o governo Bolsonaro optou por ignorar a pandemia e suas consequências, defendendo abertamente a manutenção das atividades econômicas sem a adoção de medidas preventivas de isolamento social e de controle sanitário interno e de fronteiras para impedir a transmissão do vírus. Como veremos a seguir, a política sanitária do governo pode ser resumida assim: isolamento social não é para quem quer, mas sim para quem pode.

 

Uma política deliberada de morte

Desde o começo da pandemia o governo Bolsonaro se posicionou contra o isolamento social e a realização de testes em massa de rastreamento do vírus, medidas que já haviam sido tomadas em países que obtiveram a contenção do contágio e na redução do número de óbitos. Na ausência de uma diretriz nacional com base científica para prevenção coletiva ao vírus, as cidades e os estados passaram a estabelecer seus próprios protocolos. No início de abril [2] as prefeituras e governos estaduais receberam o apoio do STF que, com base no princípio federativo, lhes conferiu autonomia para adoção de medidas preventivas, frente ao franco e absoluto liberalismo viral do governo federal. A essa altura, a semelhança com os vizinhos norte-americanos não poderia ser maior. Nos EUA cada um dos seus 50 estados decide sua política sanitária com autonomia. Na prática, lá como cá, isso significa a desarticulação das medidas sanitárias adotadas entre autoridades locais e estaduais, já que esqueceram de combinar com o vírus, que desconhece essas fronteiras políticas. Logo, entre nós, as medidas sanitárias ficaram subordinadas a linha política local, com maior ou menor aproximação ao “liberou geral” do governo federal.

Na maioria dos estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, estados do Nordeste, mais envergonhados com essa deliberada política de morte, numa atitude de aparente oposição ao governo federal, as decisões sanitárias foram ancoradas num comitê científico, o que lhes provia um verniz de credibilidade. A preocupação então era a de “achatar a curva de contágio”. Assim, inicialmente  foi colocado em prática o isolamento social, tendo como mote a campanha #fique_em_casa!. Essa postura durou até o momento em que, passado cerca de dois meses de pandemia, setores do pequeno e médio do capital asfixiados pelo fechamento temporário dos negócios passaram a pressionar os governos locais pela imediata flexibilização do isolamento [3].

Mais uma vez não avisaram ao coronavírus que a pandemia vem acontecendo em ano de eleições municipais, e em se tratando de poder, a burguesia não descuida do seu curral eleitoral. Sem maiores alardes, a campanha passou a conclamar (cinicamente): #fique_em_casa,_se_puder!. Ou seja, não é outra coisa senão o salve-se quem puder! [4] Rapidamente os protocolos desses comitês científicos abriram brechas para uma gradual volta ao chamado “novo normal”, abstraindo naturalmente a realidade dos transportes públicos lotados de trabalhadores que circulam entre a periferia e os centros urbanos e as péssimas condições sanitárias nos bairros populares.

Enquanto isso, ao longo do período de agravamento da pandemia, o Ministério da Saúde passou pela troca de dois ministros, até que em 22 de abril [5] um general paraquedista especializado em logística passou a ocupar o cargo, tornando-se um autêntico ministro da negação da saúde. A primeira medida do general foi uma penada para atender ao capitão em chefe, adotando um protocolo de uso amplo da cloroquina para tratar a covid-19, sem qualquer aval da comunidade científica. Faltaram verbas para realizar testes em massa, equipar unidades intensivas em hospitais e fornecer insumos essenciais como medicamentos anestésicos para intubação de pacientes que precisam de respirador mecânico. O mesmo não se pode dizer para a fabricação da miraculosa cloroquina [6] cuja produção foi triplicada. Para deter no papel a curva de contágio e mortes, mudou-se o método de formular as estatísticas epidemiológicas para contagem do número de contaminados e óbitos pela covid-19, numa dissidência com o padrão adotado em todos os demais países do planeta. Mas diante da gritaria geral – principalmente porque a celeuma poderia afetar a credibilidade do governo junto aos investidores internacionais – e a inevitabilidade de contagens paralelas pela chamada grande imprensa, o Ministro recuou.

E assim, em 12 de junho, [7] o país ultrapassou o Reino Unido, outro errático liberal da pandemia, alcançando o infame segundo lugar com 828.810 em número de casos e 41.828 de mortes pelo coronavírus, perdendo apenas a liderança para os Estados Unidos. Eis aí o America First !

 

A curva e o coveiro

Os setores considerados essenciais nunca pararam [8], aqui incluídos a siderurgia, agronegócio, bens de consumo, transporte viário e portuário, grande varejo e setor bancário. Os trabalhadores desses setores não puderam permanecer em casa, ficaram mais suscetíveis à contaminação pelo vírus e consequentemente ao adoecimento e morte. Uma pesquisa realizada no início do mês de julho no município de São Paulo [9] demonstrou que o número de pessoas infectadas pelo novo coronavírus era 2,5 vezes maior nos bairros mais pobres da cidade em comparação com as regiões mais aburguesadas.

Em outra pesquisa [10], [11], realizada pela Universidade de Pelotas em 90 cidades do país ficou demonstrada a elevada subnotificação dos casos de contágio e mortes. Seriam 7 vezes maior o número de casos de contaminados em relação ao oficialmente anunciado, certamente porque os testes em massa não são realizados. O número de óbitos também escapa a estatística oficial. Estudos [12] demonstram que a notificação de morte pela Síndrome de Angústia Respiratória Aguda Grave (SARG) aumentou em 23 vezes, gerando a suspeita de subnotificação de morte pelo covid-19. Esse quadro trágico não para por aí. Repete-se no Rio de Janeiro o mesmo fato ocorrido em Manaus e São Paulo, o crescimento das mortes domiciliares, quando o doente não recebe o mínimo amparo do Estado com cuidados médicos, sem haver sequer uma chance para sobreviver [13]. Em epidemiologia, a ocorrência de morte domiciliar é um evento sentinela, isto é, um alerta sobre um agravo possível de prevenir, e que geralmente está associado à má qualidade de serviços médicos ou a falta de ações de saúde. Em outras palavras, as mortes domiciliares atestaram o colapso da rede de assistência médica e hospitalar em inúmeras cidades.

Os locais que conseguiram obter um índice maior de isolamento social baixaram a taxa de transmissão do vírus, reduziram assim o número de contaminados e casos sintomáticos, dentre esses os mais graves, desafogaram por consequência a rede hospitalar, e viram diminuir ou estabilizar o número de óbitos. É importante observar que esses números não refletem a forma desigual pela qual a pandemia afetou os diferentes segmentos da população e que estão indicadas pelos estudos acima citados. Atualmente, a realidade oficial é de redução de óbitos em somente 5 estados [14] como RJ, AC, AP, PA, PE. Nos demais estados, ou estão estáveis em índices elevados de óbitos ES, SP, AM, RO, RR, AL, BA, CE, MA, PE, PI e SE ou subindo como no PR, RS, SC, MG, DF, GO, MS, MT, TO e PB. Em 13 de julho, os dados divulgados mostram um total de 72.153 mortes e 1.866.416 casos confirmados da doença.

Se o objetivo da classe dominante fosse enfrentar minimamente essa situação dramática de mortes, o bom senso diria então que é preciso esperar a diminuição da taxa de contágio (que os epidemiologistas chama de R zero) para menos de 1 [15], quando de fato a curva de contágio do vírus começa a cair. Entende-se que a ordem natural de uma epidemia é essa: um vírus se espalha e é transmitido entre pessoas, produz doentes, muitos adoecem e eventualmente alguns morrem. Na ausência de vacina trata-se de criar barreiras para a transmissão do vírus e suas consequências. Não foi o que se passou aqui neste país.

Com a curva de contágio ainda em alta, as prefeituras e governos estaduais se apressaram em determinar a flexibilização do isolamento sob o argumento de que os leitos hospitalares, principalmente os intensivos, estavam com sua ocupação abaixo do limite. O que seria isso então? Numa inversão absoluta de princípios científicos, adotar o esdrúxulo parâmetro de leitos desocupados não é nada mais do que uma licença para aumentar a circulação do vírus, fabricar mais doentes e ocupar os leitos hospitalares vagos, sobretudo aqueles das unidades de tratamento intensivo. A taxa de ocupação de leito hospitalar passou a ser o principal indicador para flexibilizar as medidas de isolamento social. Portanto, para a classe dominante a curva epidêmica está afinada com o coveiro, não o sacrificado trabalhador dos cemitérios, mas do capitalismo em sua essência, que determina quem morre, quantos morrem, desde que a máquina de explorar o trabalhador não pare.

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Fatos & Crítica n° 22: Pandemia, impeachment e autogolpe

 

 

Chegando aos 240.000 casos notificados, com cerca de 16.000 mortes, o Brasil se credencia para ocupar um lugar vergonhoso no topo da lista dos países mais atingidos pelo novo coronavírus.

Na propaganda da televisão, uma prefeitura alertou a todos que a doença não escolhia classe social para atingir. Isso é verdade, mas só em parte, pois a burguesia e a pequena-burguesia têm melhores condições de cumprir as regras de distanciamento social que o proletariado, que vive e trabalha em lugares insalubres e densamente povoados, tendo que se deslocar todos os dias em transportes superlotados, para garantir o sustento da família.

Também é diferente a maneira com que as classes sociais reagem a uma eventual contaminação pelo vírus. Enquanto os trabalhadores têm que enfrentar uma romaria em busca de leitos hospitalares, muitas vezes infrutífera, por conta da superlotação do sistema público de saúde, membros da burguesia contratam UTIs aéreas para se deslocar para os melhores hospitais de São Paulo, na busca do tratamento que os salve das complicações causadas pela doença.

Também é diferente a forma como as classes sociais se posicionam em relação às medidas de combate à Covid-19. A burguesia e a pequena-burguesia proprietárias de estabelecimentos comerciais e de serviços, bem como a burguesia industrial de setores não essenciais e o pequeno e médio capital em geral são contra o isolamento social, pois ele implica no fechamento de seus negócios e, consequentemente, da fonte de seus lucros.

Não se importam se seus empregados ou clientes se contaminam pela doença, desde que o seu lucro seja garantido, como se isso fosse possível. Mas é preciso dizer que também os trabalhadores informais desorganizados fazem parte dos setores prejudicados pelas medidas de isolamento, pois perdem as condições para ganhar o seu pão de cada dia.

Já algumas empresas, como as de telecomunicações, aparelhos eletrônicos, supermercados, indústrias de alimentos e de logística, mantiveram ou até aumentaram o seu faturamento com as medidas de confinamento. Para o capital financeiro, blindado com a promessa da compra de títulos podres em seu poder pelo governo e já adaptado em grande parte às operações digitais, a quarentena é menos impactante do que para outros setores do grande capital.

Para os trabalhadores, o fechamento dos postos de trabalho é um desastre, pois coloca de imediato a questão do desemprego e das condições imediatas de sobrevivência. Por isso nos interessa que haja na pandemia a garantia da manutenção dos empregos, do pagamento integral dos salários – seja pelas empresas, seja pelo governo – e da proteção com equipamentos individuais nos locais de trabalho onde a produção ou os serviços não podem parar.

Assim, os trabalhadores do setor formal, inclusive os bancários e os funcionários públicos, são favoráveis ao isolamento social e à manutenção do funcionamento dos setores essenciais, desde que venham acompanhadas de medidas destinadas à preservação dos empregos e dos salários, bem como da garantia de utilização de equipamentos de proteção individual no trabalho, em conjunto com outras medidas coletivas de segurança sanitária.

Medidas do governo

O fechamento dos locais de produção também é um problema para a classe dominante, pois sem trabalho não há extração de mais-valia nem acumulação do capital. A burguesia, em tempos normais, finge não se dar conta dessa realidade: atribui a acumulação do capital ao seu talento gerencial e aos meios de produção que possui, mas basta uma greve ou um momento de calamidade como o atual para que fique evidente para todos que sem a força de trabalho a roda da economia capitalista simplesmente não gira. leia mais

A luta dos trabalhadores em tempos de crise e pandemia no Brasil

Cem Flores
21.04.2020

A última crise econômica no Brasil, iniciada em 2014 e ainda não superada, somada à ofensiva da burguesia para recuperar seus lucros, aumentou o desemprego e a informalidade, rebaixou os salários e as condições de trabalho, e tornou mais críticas as condições de luta dos trabalhadores e das trabalhadoras. Ou seja, deteriorou o mercado de trabalho brasileiro e a vida da grande massa trabalhadora. A atual crise, de caráter global, combinada com a pandemia do novo coronavírus, tem conseguido piorar rapidamente o que já estava muito ruim, com mais desemprego, menores salários, mais exploração… 

A absoluta maioria dos trabalhadores e das trabalhadoras está ameaçada, dia após dia, por demissões e suspensões de contrato de trabalho em massa, e a tendência é que esse cenário se agrave.As atuais projeções do Instituto Brasileiro de Economia da FGV apontam para redução recorde da população ocupada nessa recessão de 2020 no Brasil. A taxa de desemprego pode subir para 18%, ou até 24%. Ou seja, entre 6 e 12 milhões de novos desempregados ao longo deste ano, que se somarão aos outros 12 milhões que já estavam desempregados antes do início dessa crise.

Se, de um lado, os patrões estão demitindo ou suspendendo os contratos em plena pandemia, de outro, e concomitantemente, eles têm continuado a exploração de sempre com a parcela da força de trabalho que permanece empregada. E sem hesitar na hora de reduzir os salários e/ou impor condições de trabalho que colocam ainda mais a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras em risco. 

Como sempre, o patronato possui a ajuda de seu Estado para atingir seus objetivos e defender seus interesses. Diante da nova crise, o “Comitê Central da Burguesia”, como definiam Marx e Engels o Estado Capitalista, em todos os seus “poderes”, tem agido diretamente em defesa dos patrões, seja com suspensão de impostos e de obrigações trabalhistas, com linhas de crédito baratas etc., seja facilitando o massacre da força de trabalho. Analisamos recentemente algumas medidas do governo federal que legalizam e incentivam reduções drásticas no salário e a ampliação da exploração, tanto no atual período de calamidade pública, quanto posteriormente a ele.

Tais medidas emergenciais somam-se e se complementam com o profundo ataque que as classes dominadas já vinham sofrendo com as ditas reformas (trabalhista, sindical, previdência e outras).

O cenário de caos da crise e da pandemia tem servido para destravar a aprovação de algumas dessas reformas “antigas”, como é o caso da Carteira de Trabalho Verde Amarela, que pretende criar uma subespécie de contratação ainda mais precária. Mesmo essa medida estando revogada no momento, após ser aprovada na câmara na madrugada do dia 15/04, a promessa e o acordo entre governo e senado é que esse ataque seja reeditado e “aperfeiçoado” (sic!) o mais breve possível. Isso nos mostra, mais uma vez, que, apesar das brigas palacianas e de palanque dos representantes políticos da burguesia, há um interesse fundamental, de classe, que os unifica: a manutenção dos lucros e a exploração das classes dominadas.

Mas não só o Estado Capitalista se apresenta como auxiliar nessa ofensiva contra a classe operária realizada pelo capital. Mais uma vez, os pelegos, representantes da burguesia no movimento sindical, como aprofundaremos a frente, estão sendo peças fundamentais para novas derrotas nesse momento tão dramático.

Por isso temos dito: Matar de corona, de fome e de exploração: eis a pacote de “salvação” da burguesia e seu governo para as massas trabalhadoras no Brasil!

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Fatos & Crítica n° 21: Bolsonaro e o capitalismo diante da pandemia

No dia 26 de fevereiro um empresário paulista recém regressado do norte da Itália foi diagnosticado com o novo coronavírus, tornando-se o primeiro brasileiro atingido pela pandemia mundial. Apenas três semanas depois, o país já contabilizava 428 casos e 4 mortes pela COVID-19.

No mesmo período de tempo em que o vírus iniciava sua trajetória expansionista, Jair Bolsonaro se ocupava em desgastar os poderes legislativo e judiciário, mobilizando a sua base política para uma manifestação nacional em 15 de março em favor do fechamento dessas instituições. Embora não existam atualmente condições políticas e sociais para o almejado “auto-golpe” do capitão, isso não o vem impedindo de esticar a corda sempre que possível, se preparando para uma hipotética conjuntura em que as suas pretensões tenham chances de se viabilizar.

Não contava, entretanto, com a aparição em cena de um minúsculo microrganismo capaz de causar não apenas uma pandemia, como também de potencializar e aprofundar uma depressão econômica em nível mundial cujos sinais começaram a se manifestar há meses, com todas as consequências políticas e sociais que essa sinergia pode produzir.

O novo coronavírus, embora tenha uma letalidade relativamente baixa, tem a propriedade de ser altamente contagioso e atinge principalmente pessoas com comorbidades (a exemplo de diabéticos e hipertensos com elevada prevalência na população brasileira), embora mais freqüente na faixa de acima de 60 anos. Esta situação pode aumentar rápida e drasticamente a demanda pela assistência hospitalar e levar ao colapso o sistema de saúde pública já normalmente precário, depois de anos e anos de políticas neoliberais de corte de gastos.

No caso brasileiro, um estudo do Imperial College de Londres projetou cenários que variam de 44.200 mortos, se forem tomadas todas as medidas de isolamento social, a 1.150.000 mortos, caso a epidemia siga o seu curso normal, sem nenhuma medida de proteção à população.

O capitão que dirige o governo brasileiro, cujas características pessoais incluem baixos recursos intelectuais, ignorância de fatos básicos e desequilíbrio emocional, desdenhou do potencial destrutivo do novo vírus e fez questão de comparecer pessoalmente às manifestações da extrema direita de 15 de março, mesmo depois de saber que parte significativa de sua comitiva, que havia ido ao encontro de Donald Trump, encontrava-se infectada pelo coronavírus.

Insistindo em esticar a corda, Bolsonaro ainda foi capaz de se contrapor às medidas de isolamento colocadas em prática pelos governadores de São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados, acusando-os de tentar prejudicá-lo politicamente. Em rede nacional caracterizou a nova doença como uma “gripezinha”, visitou o pequeno comércio de Taguatinga e o seu gabinete providenciou peça publicitária com o mote “O Brasil não pode parar”, na qual defende o isolamento apenas para idosos e pessoas com deficiência imunológica, como se fosse possível separá-las das demais.

É certo que o comportamento de Bolsonaro não pode ser debitado apenas às características nefastas de sua personalidade. Ele vem recebendo o apoio – público, inclusive – de vários empresários, em especial aqueles proprietários de empresas de comércio e serviços, que, não sendo essenciais ao abastecimento, terão que fechar as portas e amargar prejuízos. Em sua visão de curto prazo esses capitalistas pouco se importam com o número de mortes que a epidemia ocasionará, desde que os seus lucros sejam de alguma forma preservados.

Incluem-se também entre os ramos de atividade prejudicados pelas medidas de isolamento social aqueles destinados aos serviços espirituais, pois a proibição de cultos tem também como consequência a queda do recolhimento dos dízimos e outras contribuições dos fiéis. Não foi à toa que Bolsonaro, que tem aí outra base de apoio, tenta incluir os cultos entre os setores “essenciais”, isentos de cumprir as regras de isolamento social.

Isolamento político

O comportamento irresponsável de Bolsonaro diante da pandemia acelerou o seu isolamento político, que já era progressivo após um ano de desgastes do governo. Os panelaços que se ouvem nos bairros burgueses e pequeno-burgueses das principais cidades brasileiras provêm das mesmas caçarolas que soaram pelo impeachment de Dilma Rousseff em passado recente e é bastante provável que muitos dos que hoje se manifestam sejam compostos por eleitores arrependidos de Bolsonaro. Os débeis resultados econômicos, mesmo antes da pandemia, já fomentavam esse desgaste de parte significativa da pequena-burguesia da base de apoio do capitão. leia mais