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Greve da Renault – ensinamentos do ponto de vista de classe

 

 

A greve dos trabalhadores da Renault iniciada em 21 de julho chegou ao seu fim ontem, dia 11 de agosto de 2020. Foram 21 dias de uma mobilização diária, com piquete organizado em barraca diante do portão principal da fábrica em São José dos Pinhais (PR) – uma paralisação conhecida pela luta em torno da reintegração dos 747 trabalhadores demitidos pela empresa. Mas que colocou em questão, do ponto de vista prático, o “Programa de Manutenção do Emprego e dos Salários” encaminhado pelo governo Bolsonaro na MP 936, transformado na lei 14.020 de 07 de julho de 2020, pelo Congresso Nacional. Os operários começaram a tomar consciência de que o sentido prático deste programa para os patrões tem sido o de descobrir como um número menor de trabalhadores pode produzir mais, de modo mais intenso, com um salário menor.

Apesar da intensa mobilização durante esses 21 dias e de sua repercussão nacional, o movimento não conseguiu se generalizar e construir a necessária solidariedade para travar uma luta enquanto classe, o que poderia acontecer se o “Programa de Manutenção de Emprego e dos Salários” fosse transformado em alvo da ação coletiva.

Tirante esta limitação, foi um passo importante neste rumo. Por isso nós temos de nos perguntar quais são os ensinamentos da paralisação da Renault, tanto para os operários da fábrica como para o conjunto classe operária no Brasil, neste momento em que ameaças aos que estão empregados persistem ao lado do desemprego crescente de outras parcelas, inclusive nas montadoras, com automação e robotização das plantas. O número de desempregados no setor deve alcançar 6.000 trabalhadores até o momento, podendo alcançar 10.000 em breve se as demissões na General Motors forem implementadas.

O que nos propomos nesta Nota é tomar em consideração o sentimento coletivo expresso na resistência à exploração – tal como se expressou nos comentários registrados nos meios de comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba – para fazer uma baliza, para demarcar uma orientação possível a seguir na perspectiva de classe, compreendida para além dos limites de uma empresa ou mesmo uma categoria específica de trabalhadores. [1]

Assim, vale inicialmente perguntar:

O que foi aprovado na assembleia que terminou a greve?

Os metalúrgicos da Renault aprovaram, por votação eletrônica após assembleia, a proposta negociada entre o sindicato e a empresa em São José dos Pinhais.

Em primeiro lugar a readmissão dos 747 metalúrgicos que permanecerão afastados, recebendo salário normalmente, até dia 20 de agosto, quando termina o Plano de Demissão Voluntária (PDV) aberto pela Renault. Os trabalhadores do grupo dos demitidos que não entrarem no PDV e nem retornarem para a fábrica serão colocados em “layoff” por prazo inicial de cinco meses. O retorno dos demais trabalhadores ao expediente normal a partir de 12 de agosto inclui, contudo, um “pacote” que contempla a data-base, a terceirização de atividades produtivas com redução de 15% no piso salarial, a Participação em Lucros e Resultados (PLR) doravante denominada Programa de Participação de Resultados (PPR), e a possibilidade de aplicação da redução de jornada e de salário e de “layoff” [2], medidas em vigência até 2021.

Eis a declaração do presidente do SMC:

“A reintegração e o fechamento de um acordo que mantém os empregos é uma vitória dos trabalhadores que mostraram união e mobilização num momento difícil como esse. A garantia para manter os empregos tem sido a nossa maior luta atualmente. Como ficou claro, existem ferramentas que podem ajudar nesse sentido. Basta ter boa vontade para sentar e negociar. No final, a mobilização e o diálogo prevaleceram. É o que temos procurado fazer aqui no Paraná”, disse o presidente do SMC e da Federação dos Metalúrgicos do Paraná (FETIM), Sérgio Butka.

O que significa a suposta garantia de emprego alegada pelo dirigente da Força Sindical?

Nas palavras de Butka, o compromisso do sindicato é com o “emprego”. Quer dizer, com a exploração da força de trabalho “sadia” e produtiva pelo capital aparentemente em condições mais “vantajosas” para o trabalhador. Contudo, esta é a lógica do capital: descartar aqueles cujo trabalho está abaixo da produtividade exigida pela concorrência intercapitalista da qual a Renault, em aliança com a Nissan e a Mitsubishi, faz parte num ramo automobilístico composto por 20 grandes empresas-marcas mundiais (Toyota, Honda, Volkswagen, General Motors, etc.).

Assim é que os outros, ou seja, a maioria na lista dos 747 demitidos, são “improdutivos”, por estarem adoecidos, “lesionados” ou “compatíveis” ou, ainda, por serem considerados de “baixa performance”. Eles receberão vantagens financeiras adicionais se aderirem ao PDV. Em outros termos: a porta da rua, com um pequeno saco de dinheiro nas mãos para sobreviver pouco tempo.

Por outro lado, o aprofundamento da terceirização, quando a fábrica retomar o patamar de produção de 2019, vai contar com o novo salário de contratação que até a deflagração da greve ficaria 20% abaixo do piso salarial atual, mas então será de “apenas” 15%. Somente a partir de 2022 haverá aumento real, o que, entretanto, representa o agravamento da exploração absoluta da força de trabalho, ao lado da exploração relativa baseada na PLR, este um verdadeiro salário por produção.

 

O balanço da greve feita pelos operários

Um balanço da greve ainda será certamente realizado pelos próprios trabalhadores e nesta avaliação tanto a representação interna de fábrica (delegados sindicais de base) como a dos diretores sindicais que foram incluídos na demissão dos 747 trabalhadores terá um importante papel. Mas o processo de aprendizagem se faz principalmente no calor da luta, depois se sistematiza e aprofunda em busca da explicação dos processos mais amplos e dos desafios para assumir a luta num patamar mais elevado.

A luta foi organizada em torno do piquete-barraca no portão principal da fábrica, com um revezamento por turnos, ao longo dos 21 dias de paralisação. Participaram delegados e diretores do sindicato, alguns dos quais incluídos no “facão” dos #747; os trabalhadores do chão de fábrica, vindos de municípios dormitórios limítrofes, como Fazenda Rio Grande; e trabalhadores de outras empresas metalúrgicas da base sindical. Menção especial merece as companheiras dos grevistas que foram “muito guerreiras”, bem como os familiares deles.

Muitos operários descobriram a ilusão de fazerem parte da empresa enquanto “colaboradores”, uma suposta colaboração que apenas existiu enquanto foram considerados produtivos. O orgulho de vestir a camisa da empresa acabou para eles, apesar de vários puxa sacos continuarem a defender a empresa.

Muitos criticaram a posição da diretoria do sindicato por ter aceito as demissões dos 350 temporários que não foram efetivados em maio, sem mobilizar os demais para defender o emprego. Perguntaram: “que papo é esse de ‘mexeu com um mexeu com todos?” Então, com os 747 demitidos em julho, o total das demissões alcançou 1.097 trabalhadores. leia mais

Trabalhadores da Renault continuam em greve !! A luta continua !

A exemplo dos trabalhadores da NISSAN BARCELONA (leia aqui) que impediram o fechamento da fábrica e garantiram a manutenção dos empregos até o final de 2021, em assembleia a peãozada decide manter a greve até que haja garantia do emprego.

Mesmo com a decisão judicial de reintegração dos 741 operários demitidos, a peãozada demonstra que é preciso ir mais além e depende mais da luta do que o tapetão, sempre mais inclinado para o patrão. Sem garantia no emprego, máquinas paradas ! 

 

Deu no Paraná Portal de 07/08/2020:

Trabalhadores da montadora Renault, em São José dos Pinhais, decidiram continuam com a greve até que a empresa aceite atender a segunda reivindicação da categoria: negociar um acordo que garanta a manutenção dos empregos. Na última quarta-feira (5), a juíza Sandra Mara de Oliveira determinou a reintegração dos trabalhadores que foram dispensados no dia 21 de julho.

 

Na tarde desta quinta-feira (6), houve assembleia com os trabalhadores reintegrados pela empresa, que optaram em continuar com a paralisação. “A decisão judicial que determinou a reintegração dos trabalhadores foi um primeiro passo alcançado. Agora esperamos o bom senso por parte da empresa para sentarmos e negociarmos um acordo que garanta os empregos. Precisamos dessa garantia. Não tem como encerrarmos a greve sem nada acordado”, disse o presidente do SMC (Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba), Sérgio Butka.

 

O sindicato quer negociar o acordo temendo demissões futuras. “Esperamos maturidade por parte da Renault. Queremos negociar uma situação que fique razoável tanto para os trabalhadores como para empresa”, concluiu Butka.

 

JUSTIÇA MANDA RENAULT REINTEGRAR 747 TRABALHADORES NO PARANÁ

 

Segundo a decisão da juíza, a Renault não respeitou um acordo firmado com o MPT (Ministério Público do Trabalho) de negociar as demissões em massa com a entidade sindical que representa os trabalhadores. “Desse modo, tem-se por configurada a inconstitucionalidade de dispensas coletivas sem prévia negociação coletiva”, explica a decisão.

Além disso, a juíza apontou que os trabalhadores da fábrica da Renault em São José dos Pinhais foram demitidos em período de pandemia e, com isso, foram expostos ao desemprego involuntário, “ficando sem renda e estando impossibilitado de procurar nova colocação no mercado de trabalho, em decorrência das medidas de distanciamento social”.

 

“Declara-se a nulidade das 747 dispensas, determinando-se a reintegração dos  trabalhadores dispensados na data de 21 de julho de 2020, sob pena de multa diária no valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais), nos termos do art. 297 e 536 do CPC”, diz o texto da decisão da juíza Sandra Mara de Oliveira Dias.

Uma audiência virtual de conciliação foi marcada para o dia 13 de agosto, próxima quinta-feira, às 10h. A Renault afirmou que irá recorrer da decisão da 3ª Vara do Trabalho de São José dos Pinhais.

OPERÁRIOS EM GREVE NA RENAULT CONTRA O FACÃO!

em O Corneta de 05.08.2020 

 

Os trabalhadores de São José dos Pinhais, no Paraná, decidiram dar um basta em tanto descaso depois do anúncio de novas 747 demissões, iniciando a greve no dia 21 de julho. Um operário da Renault que foi demitido, do setor de montagem, terceiro turno,  atendeu o Corneta e respondeu nossas perguntas.

 

Nos conte como é ser demitido em meio a pandemia:

“É… Em primeiro lugar mesmo, pessoal, tá feio, ainda bem que eu levo sorte aqui, minha mulher tá trabalhando, né? Mas se não fosse, agora eu tava passando dificuldade, entendeu?”

“é complicado, como está a atual situação do mercado de trabalho, por causa dessa pandemia fechou tudo […] nós estamos jogados”

E o que vc acha dos patrões tarem lucrando em cima da nossa desgraça? Tem demitidos em todo canto… Como fica o sustento da sua família?

“É nisso que eu fico ligado. Eu vi recentemente uma pesquisa aí que os mais ricos tão ficando cada vez mais ricos, aí o que eles estão querendo fazer, redução de custos justamente nessa época da pandemia. Injustificável.”

E como era o regime de trabalho dentro da Renault? Tava muito puxado, rolava muito assédio?

“Ah, lá dentro é pauleira, é bem puxado, nós fazemos um carro por minuto, a operação no carro você tem que fazer em segundos e tem diversas operações, não dá tempo nem de beber água de direito. Um galão de água do seu lado, assim, você não pode ir no banheiro também, você tem que chamar o sênior pra ir no banheiro, segurar, e a cobrança só tem quando você erra alguma operação, manda o defeito…”

O que mais chama atenção dentro da fábrica sobre como a chefia trata a peãozada?

“É o seguinte, do rodízio que nós fazia lá de posto, que dependendo do posto que você fizesse, você podia tá suscetível a doença ocupacional. Porque era muito movimento repetitivo, de ficar arqueado ou de se abaixar, e pense bem, isso no caso do terceiro turno é seis horas, o primeiro e o segundo que era oito horas de trabalho e ficar direto assim, é foda”

Como ficou o clima entre seus amigos de fábrica, como foi o anúncio das demissões. E como tá o sentimento em favor da greve?

“Ah, então, eu trabalhei segunda, no caso, né? Do dia vinte pro dia vinte e um, o terceiro turno, daí vim pra casa, foi a tarde lá pras dezessete horas, recebi o email de desligamento. E sobre os meus colegas de linha, eles tão apoiando nós, todos eles, mas eu vejo que no grupo aqui do sindicato que tem bastante operário que não quer, fica fazendo fervo, assim.”

“Ah, e sobre meu sentimento em favor da greve, é, eu torço, né? Pra que o sindicato consiga reverter as demissões em massa. Se ele conseguir vai ser uma marca histórica, porque nessa pandemia aí tá difícil, né? Mas se isso conseguir, olha, eu tiro o chapéu, né?.”

E quem ficou tem alguma reivindicação? Teve prejuízo pra quem ficou?

“Então, pra quem ficou, esses dias parados estão sendo descontados, né? O holerite deles vieram zerado esse mês e tem outra também, se o sindicato perder essa luta, ocorre que a empresa daqui dois anos vai terceirizar postos de trabalho, já tem um número X já, e também pros funcionários novos que entrar vai ter vinte e cinco por cento de redução do salário.”

Quando teve as demissões na Renault França, houve protestos de rua lá contra as demissões. Vcs ficaram sabendo? Como ficou o clima? Havia expectativa pro facão?

“Sim, isso aí eu fiquei de cara, que a Renault por causa do CEO brasileiro, eles falaram que sofreram por causa disso aí, e também outra, eles falaram que tiveram queda de vendas lá na Europa, no mundo a fora e eles fizeram uma reestruturação mundial da aliança, né? Renault, Mitsubishi e Nissan. Daí eles falaram que ia mandar quinze mil pessoas embora mundialmente, sendo dez mil na França e o restante no redor do mundo, eu acho. E nós sabíamos que ia vim pra cá, né? Mas o que eles fizeram na época de pandemia, isso é inaceitável […]”

Queria que você comentasse o que mais falta hj em dia pro trabalhador poder defender seu salário e o seu emprego

“Ah, eu acho que hoje em dia é o sindicato, né? O sindicato dos metalúrgicos de Curitiba que é forte, é o mais forte que tem aqui, né? Ele que sempre defende, briga pelo salário com a empresa. Fora isso, se não tivesse ele ia ser difícil, entendeu? Porque tem empresa aqui que não tem sindicato, e o salário é o empresário que manda e a justiça não vai fazer nada.”

Aqui em SP em 2019 teve fechamento da Ford, ameaça de fechamentos da GM. A reestruturação produtiva já acontecia antes da pandemia. Sempre rebaixando salários e criando demissões. Você pode comentar sobre isso? Como a crise da Renault tem a ver com algo que não depende da pandemia? Depende de quê? da sede de lucro dos patrões?

“A Renault aqui, antes da pandemia, nossa, tava lucrando bastante […] aqui em Curitiba. Era um dos melhores anos pra ela, chegou a ficar em quarto no mercado automobilístico em vendas, e isso foi um passo gigante pra ela, entendeu? Em relação aos outros que você falou, eu acho que é administração, né? Também uma má administração, pode ser, mas a Renault, não, a Renault tava lucrando, nossa, lucrou muito. E agora, por causa dessa reestruturação mundial aí dessa pandemia, ela tá ligando que tá perdendo também.”

E como vc acha que é possível unir empregados com desempregados?

“Ah, o sindicato tá fazendo a frente, ele que fala pras pessoas que os empregos deles também tão ameaçados, se eles ficarem […] na empresa, entendeu? E eles apoiam nós também, os que saíram, no caso, depois nós somos tudo unido, né? […] Porque se o sindicato perder, quem ficar lá também corre o risco de ser mandado embora e piorar a situação pra eles lá.”

E houve outras levas de demissão antes quando você estava lá?

“Sim, houve, desligamento das pessoas que era temporária, que tava por contrato, trezentos e cinquenta pessoas que não foram efetivadas, que foram desligadas. Tudo por causa disso também, o terceiro turno tava rodando cheio, daí aconteceu isso, a empresa foi lá e desligou trezentos e cinquenta postos que era por contrato e ficou o restante rodando e com a metade da capacidade da linha […].”

Essa demissão de 350 foi quando?

“Aconteceu de março pra abril esses desligamentos. No começo da pandemia.”

E o total de demitidos no ano é de quantos?

“Deu 1100 já. 1100 pessoas.”

Outra coisa: não foram só lesionados né, teve demissão de tudo quanto é gente, confere?

“Sim, foi desligamento de qualquer pessoa, mas a maioria era lesionado, mas teve de tudo.”

Teve algum setor mais atacado?

“Setores mais atacados foram montagem, carroceria e pintura, ou seja, mais quem trabalhava no chão de fábrica mesmo…. O RH não (risada).”

Tava vigorando lá a MP da pandemia de redução de jornada e salário?

“Então, tava funcionando sim, mas só por dois meses, a empresa não quis renovar essa MP.”

E o governo do país? Como tá avaliação dos operários e a sua sobre como o governo Bolsonaro está lidando com a economia?

“Ah, então, uma coisa que eu não concordei muito é com as mudanças que teve nas leis trabalhistas e também é o que ele pretende implantar, carteira verde amarela, eu também não concordo, fora isso eu não sei, entendeu…”

Pra finalizar… Qual a sua mensagem para os trabalhadores que estão perdendo seus empregos nesse momento. Como é que deve ser a luta pra manter o nosso ganha pão?

“Posso falar é que num pode abaixar a cabeça, né? Tem que erguer a cabeça também e bola pra frente, entendeu? Tem a vida inteira ainda, tem novos desafios, oportunidade não faltará no futuro, entendeu? É só ter fé, acreditar e esperar que tudo melhore e pra nós aqui também o sindicato fazer alguma coisa, entendeu, Até passar essa pandemia aí […].”

A GREVE NA RENAULT: OS OPERÁRIOS EM LUTA CONTRA A EXPLORAÇÃO CAPITALISTA

 (atualizado em 31/07/2020, 10:49 h)

 

Na tarde de terça-feira, 21 de julho de 2020, uma assembleia dos operários da fábrica de automóveis da Renault em São José dos Pinhais (PR) decidiu paralisar a produção em protesto contra a demissão de 747 trabalhadores. Foram 10 dias de intensa mobilização, com assembleias diárias nos portões da empresa.

A luta começou antes, com a pressão para a empresa garantir a proteção contra a pandemia do coronavírus: no dia 08 de maio, os metalúrgicos da Renault, em assembleia na porta de fábrica, deram 72 horas para a empresa negociar a quarentena com o sindicato. Cinco dias depois, em assembleia na porta da fábrica, a maioria dos metalúrgicos da Renault aprovou a proposta de redução de jornada com garantia de 100% do salário líquido. Ainda durante o mês de maio, a empresa demitiu 300 trabalhadores, em sua maioria com contrato temporário que estavam para ser efetivados. Também ocorreram (e ocorrem) demissões em outras empresas do setor metalúrgico na Região O Sindicato dos Metalúrgicos de Curitiba dos Metalúrgicos de Curitiba não reagiu, o que fez muitos operários se perguntarem: “que papo é de ‘mexeu com um mexeu com todos?”

No mês de julho, a Renault apresentou ao Sindicato uma proposta para a demissão de 800 operários, com um Plano de Demissão Voluntária (PDV), Plano de Demissão Involuntária (PDI), Participação nos Lucros e Resultados (PLR), incluindo ainda uma redução de jornada de trabalho com redução de salários. O Sindicato negociava com a empresa, mas no dia 17 deste mês, a maioria dos metalúrgicos reprovou a proposta apresentada pela empresa que, além do PDV, pretendia reduzir os salários em 25% por tempo indeterminado e deu 72 horas para empresa voltar a negociar com o SMC, caso contrário, entrariam em greve por tempo indeterminado. Declararam-se em estado de greve. Entretanto, antes do prazo se cumprir, a Renault demitiu de 747 trabalhadores da fábrica de São José dos Pinhais (PR) e suspendeu o terceiro turno de trabalho. Em resposta, os trabalhadores pararam a produção, organizando piquete na entrada da fábrica com apoio do sindicato e somente voltarão a negociar com a readmissão dos companheiros desempregados pela empresa.

Apesar do silêncio da mídia burguesa, todo movimento operário e sindical do Brasil está com os olhos voltados para o que acontece em São José dos Pinhais.

Os dirigentes sindicais metalúrgicos de Curitiba promovem atos e manifestações mas não tem espírito de combatividade, torcem pela negociação, falam contra o perigo da “radicalização” e defendem o direito da empresa demitir, embora sejam contra a forma “desumana” como estas demissões ocorreram. Por isso, tendem a separar os empregados dos desempregados.

De acordo com relatos dos trabalhadores, grande parte dos 747 demitidos eram “lesionados”, “hospitalizados”, “afastados por Covid-19” ou “com problemas osteomusculares”. Eles foram notificados de sua demissão por mensagens enviadas por e-mail, alguns inclusive estavam ainda trabalhando quando a família tomou conhecimento, antes dele. O capital, na Renault, Volks, Usiminas, Petrobrás ou qualquer outra empresa, aqui ou fora do país, funciona como uma moenda de cana de açúcar em grande escala, uma tipo de usina que extrai toda a energia da força de trabalho e depois cospe fora o bagaço. Mas isto não é “desumanidade”, simplesmente é da natureza do capitalismo que não conhece moral ou limite a não ser aquele imposto pela resistência dos trabalhadores.

Os operários, contudo, não baixaram a cabeça e estão resistindo. No dia 22 de julho, quatro ativistas sindicais foram presos em frente à fábrica porque estavam se manifestando contra as demissões. Um dos policiais militares chamados pela empresa sob a acusação dos ativistas estarem armados, apontou uma arma para eles quando se recusaram a aceitar voz de prisão mas não conseguiu intimidá-los. Os operários têm comparecido em massa às assembleias e sustentam o piquete com água, café e sanduíches durante a noite. Chegam camuflados porque a empresa tem câmeras de vigilância instaladas por todo o lado. Os dirigentes sindicais percebem a radicalização vem de dentro, manifesta a revolta dos trabalhadores, então muitas vezes radicalizam o discurso. Falam em criar um fundo de greve na Renault, lembrando o acontecido no caso da Volks em 2011, numa paralisação que durou 37 dias na luta por um aumento da Participação nos Lucros e Resultados sem contudo aceitar metas de produção.

O movimento atual na Renault é pela reintegração dos 747 demitidos, mas vai além: os trabalhadores não aceitam que a redução de 25% dos salários prevista no “Programa de Manutenção do Emprego e dos Salários” do governo federal seja utilizada nas novas contratações. Assim, a luta é contra a exploração capitalista, mesmo que não esteja sendo colocada nestes termos. Os trabalhadores sabem muito bem o que depois a imprensa publica; no primeiro semestre de 2020 foram fechadas 1.190.000 vagas formais de trabalho (carteira assinada) e o resultado são fatos como este:

O salário médio de admissão nos empregos com carteira assinada caiu de R$ 1.741,73, em maio, para R$ 1.696,22 em junho.”

O sentido prático do “Programa de Manutenção do Emprego e dos Salários” para os patrões é aprender a descobrir como um número menor de trabalhadores pode produzir mais, de modo mais intenso, com um salário menor. O emprego interessa apenas para aumentar a exploração e, deste modo, a taxa de lucro. Um representante da burguesia declarou: “Na crise, muitas coisas são teste para discutir lá na frente como permanente”.

É na luta que os trabalhadores aprendem quais são os seus verdadeiros interesses e quem de fato está de seu lado. Na Renault os operários metalúrgicos estão dando o exemplo para toda a classe trabalhadora brasileira de que, em meio a pandemia, não se submetem aos patrões que querem cortar salários e empregos com apoio dos governos estaduais e federal.

O SMC abriu o Fundo de greve para os trabalhadores sacarem o valor de R$1.000,00. Os operários devem pressionar para divulgar nacional e internacionalmente a conta bancária de modo a viabilizar o apoio financeiro direto, demonstrando assim uma forma de solidariedade ativa, para além de simples notas de apoio. A direção sindical, por sua vez, está nervosa com a radicalização dos operários e provavelmente tentará separar os empregados dos demitidos, estes últimos, por sua vez, pela condição (afastados por Covid, “compatíveis”, etc.), propondo negociar com a empresa melhor indenização para cada segmento e assim, numa próxima assembleia, com os operários divididos, por fim à paralisação. Nenhuma novidade: é assim que funciona o chamado “sindicalismo de resultados” ou “de negociação”, seja ele da Força Sindical, da CUT ou de outra central sindical empenhada em “conciliar” o inconciliável conflito entre o trabalho e o capital. A luta, entretanto, continua!

 

Todo apoio à luta dos trabalhadores da Renault!

Contra a redução dos salários e do emprego!

Nenhum direito a menos!

Pela mobilização independente dos trabalhadores!

OPERÁRIOS DA RENAULT EM GREVE: Ouça aqui a Rádio Corneta

Da Rádio Corneta

 

  • Mortes por coronavírus e demissões em massa massacram operários
  • Renault demite 747 trabalhadores em São José dos Pinhais (PR), mas operários resistem contra o facão, o PDV e reduções salariais com a melhor ferramenta: greve!

 

OUÇA AQUI:

 

 

E na Termomecânica perdemos mais um companheiro pra covid-19! Marrafão trabalhava no laminador de rebaixamento da fábrica 2. “Estamos trabalhando com medo! Vários casos confirmados e alguns companheiros mortos. Está osso! Precisamos levar o nosso pão pra casa, não o coronavírus!”

E mais uma enquete! Hoje, no Brasil, mais da metade dos trabalhadores não têm trabalho. Tem algum desempregado aí na sua família? Como estão se virando? Conte para o Corneta!

Ouça a voz dos operários sobre sua situação nas fábricas!

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