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As duras condições de vida e de trabalho das classes trabalhadoras no Brasil atual. Resistir é preciso!

Do portal Cem Flores 14/05/2021

Foto em destaque acima: Fila de mulheres e crianças à espera da distribuição de marmitas em Paraisópolis (SP). A fome voltou com força na casa dos/as trabalhadores/as nesta crise do capital.

 

 

A situação da classe operária e das massas trabalhadoras no Brasil se agravou profundamente com as sucessivas crises econômicas dos últimos anos. Principalmente desde 2015, o mercado de trabalho brasileiro passa por uma profunda deterioração. E os patrões, para recuperar seus lucros e retomar a acumulação de seus capitais, aproveitam essa realidade para intensificar sua ofensiva de classe, com mais exploração e violência. A imensa reforma trabalhista de 2017 é um dos vários exemplos dessa ofensiva, que tem atravessado governos da “esquerda” à extrema-direita.

Essa situação difícil, bastante agravada pela crise e pela pandemia atuais, é semelhante a dos/as trabalhadores/as ao redor do mundoNa imensa maioria dos países, o desemprego, a desigualdade e a pobreza encontram-se em alta, sem perspectiva de melhoria. A exploração também se agrava, com várias derrotas impostas por reformas trabalhistas e novas formas de contratação e relações de trabalho.

A classe operária e demais trabalhadores/as ainda não responderam a essa crise e ofensiva de nossos inimigos de forma consistente. resistência, feita através de paralisações, greves, explosões de descontentamento e revolta, e reforço da solidariedade de classe, tem enfrentado dificuldades e limites. Mas será sob essas condições e lutas que uma posição proletária, revolucionária, hoje quase inexistente nas massas, pode ser retomada, dando outro horizonte para as classes dominadas, diferente da barbárie capitalista que se agrava ano após ano.

Em mais uma intervenção sobre os impactos da crise do capital no Brasil, o Cem Flores traz um panorama sobre situação atual das classes trabalhadoras. Essa análise visa não só desmontar as cínicas mentiras do governo de que o mercado de trabalho estaria em plena recuperação, mas sobretudo trazer um quadro concreto necessário ao avanço da luta e da organização dos/as explorados/as deste país.

Como os/as trabalhadores/as bem sabem, a conjuntura é dura. Mas é preciso e possível revertê-la, por nossas vidas e de nossos familiares!

 

A profunda crise do capital no Brasil e seu impacto no mercado de trabalho e na vida das massas exploradas

O capitalismo no Brasil tem enfrentado uma profunda crise, que faz parte do estado depressivo e da elevação de contradições do imperialismo hoje. A histórica recessão de 2014-2016, somada com a estagnação de 2017-2019 e a atual crise que se vinculou à pandemia, fez o país mergulhar na pior década econômica dos últimos 120 anos. As projeções de crescimento para esse ano, ou mesmo a melhoria do cenário externo nos últimos meses, nem de longe indicam uma recuperação dessa crise.

Soma-se a isso o aprofundamento da regressão da estrutura econômico-social do país, levando ao que temos chamado de situação colonial de novo tipo. Isso significa desindustrialização e reprimarização na economia brasileira, redução do valor agregado global das mercadorias produzidas no país, produtividade geral estagnada, e a combinação de elevada exploração da força de trabalho, enorme exército industrial de reserva, altas desigualdade, pobreza e miséria. leia mais

O impacto da crise do capital no mercado de trabalho global em 2020

Do blog Cem Flores 12.02.2021

Foto: Trabalhadores/as aguardam na fila para receber refeições gratuitas nos EUA. Com a explosão do desemprego em 2020, uma onda de fome se alastrou pelo país. Uma a cada quatro pessoas estão sofrendo de insegurança alimentar.

 

 

 

O ano de 2020 foi marcado por mais uma violenta crise do sistema imperialista mundial. A economia global, que em 2019 já se encaminhava para uma nova recessão, foi fortemente abalada pelos impactos da pandemia do novo coronavírus, detonador e agravante da crise. Além dos impactos imediatos, vários são seus efeitos permanentes, a aprofundar o atual estado depressivo do imperialismo e agravar suas contradições, como demonstrou o texto de Michael Roberts sobre as projeções para 2021Um desses efeitos permanentes, a ser analisado com muita atenção pelos comunistas pela sua relevância para a luta de classes, será no mercado de trabalho.

A elevação do desemprego e da miséria, a destruição de empregos e a piora no mercado de trabalho são características centrais das crises capitalistas. Como demonstrou Engels em sua genial, e gritantemente atual, análise das classes trabalhadoras na Inglaterra:

“[Nas crises] os salários caem, por causa da concorrência entre os desempregados, da redução do tempo de trabalho e da falta de vendas lucrativas; a miséria se generaliza entre os operários; as eventuais pequenas economias dos indivíduos são rapidamente devoradas; as instituições beneficentes se veem assoberbadas; o imposto para os pobres duplica, triplica e entretanto continua insuficiente; cresce o número de famintos; e de repente toda a massa da população ‘supérflua’ revela sua impressionante magnitude.

As crises acirram as contradições do sistema capitalista e modificam as condições da luta de classes. Por isso, dissemos recentemente: “as crises são também luta de classes”. A depender da organização e luta proletária, elas podem ser momentos de fortalecimento da nossa classe ou do reforço da burguesia, pela redução dos salários e aumento da exploração – construindo, assim, as bases para a recuperação das taxas de lucro e da acumulação capitalista.

Mas a intensidade e as formas dessas mudanças no mercado de trabalho a partir das crises são variadas ao longo da história e dos paísesA crise de 2020 gerou enormes impactos no mercado de trabalho e nas condições de vida das massas trabalhadoras em todo o mundo. Em alguns aspectos, impactos cuja magnitude não possui precedentes históricos.

Um panorama sobre essa devastação se encontra na sétima edição do relatório da OIT “COVID-19 e o mundo do trabalho”, lançado em 25 de janeiro. Esse relatório possui um conjunto de dados atualizados sobre a dramática situação do mercado de trabalho no mundo em 2020.

Trazemos aos/às leitores/as e camaradas alguns dados do relatório da OIT, fundamentais para compreender a situação concreta das classes trabalhadoras no mundo e as condições atuais da luta de classes, assim como fizemos no início de 2020, com o relatório da OIT sobre 2019. Começaremos com uma síntese da visão da OIT daquele ano, para compreender a situação do mercado de trabalho global pré-crise de 2020 e contextualizar os atuais impactos.

 

 

O mercado de trabalho global em 2019: enorme desemprego, informalidade e precariedade

 

Em 2019, a OIT já alertava para um mercado de trabalho global extremamente deteriorado. Para dimensionar tal deterioração, a medida clássica de desemprego era insuficiente. De acordo com essa medida, a taxa de desemprego no mundo seria de 5,4%, ou “apenas” 188 milhões de trabalhadores/as. No entanto, uma massa muito maior de trabalhadores/as estava de fato no desemprego, seja por compor a força de trabalho potencial, seja por insuficiência de horas trabalhadas, mas não era considerada nesses 5,4%. Caso se somasse esse conjunto de trabalhadores/as, compondo assim a taxa de subutilização da força de trabalho mundial, chegaríamos a 13,1%, ou 473 milhões de trabalhadores/as. Quase meio bilhão!

E dentre os/as empregados/as, 61% estavam informais, chegando a 2 bilhões de trabalhadores/as no mundo na informalidade. A OIT lembrava que a informalidade, globalmente, “registra as taxas mais altas de pobreza entre os trabalhadores e um elevado porcentual de pessoas que trabalham por conta própria ou de trabalhadores familiares auxiliares que carecem da proteção adequada”.

Mesmo o setor formal vinha em piora contínua, com um conjunto de reformas trabalhistas e elevação da automação, do trabalho parcial, intermitente, por hora. Esta foi uma das principais expressões da ofensiva burguesa após a grande crise imperialista de 2008, que trouxe mais exploração e pobreza para as classes trabalhadoras.

A OIT projetava, à época “que a escassez de postos de trabalho continue no futuro próximo. A taxa de desemprego mundial se situou em 5,4% em 2019 e não se prevê que haja variação essencial nos próximos dos anos”. Como se vê, uma projeção otimista, mesmo sem considerar a pandemia. Por fim, ela vinculava esse cenário ruim e de baixas expectativas aos protestos que, em vários países, explodiram em 2019 diante do descontentamento das massas trabalhadoras, após anos sucessivos de desemprego, arrocho e piora nas condições de trabalho. leia mais