Arquivo da categoria: luta de classes

A lenda do outubro alemão de 1923

Republicado de Arbeiterstimme ”, nº 221, 2023

 

 

100 anos de 1923

A memória de 1923 é também uma ocasião para a mídia nacional. Foram publicadas pelo menos dez novas monografias que tratam deste ano econômica e politicamente agitado. Muitas vezes ele é visto como um ano chave para a história alemã do século XX.

Para o mainstream burguês, o foco da análise está frequentemente na hiperinflação, que atingiu o seu pico naquele ano, e na sua superação. Mas também o golpe de Hitler e aspectos culturais são discutidos detalhadamente em algumas publicações.

Para muitos na esquerda, porém, há outro foco de interesse. A saber, se a revolta comunista planejada pela Internacional Comunista (KI) para outubro de 1923 teria tido uma possibilidade realista de sucesso.

Se você estuda a história para aprender com ela, precisa em primeiro lugar estar consciente de que as condições estão sempre mudando.

Nos primeiros anos da República de Weimar, a ideia ou, se preferirem, o mito da crise final do capitalismo era largamente difundido também no KPD[1]. Há 100 anos, a possibilidade de uma derrubada revolucionária parecia estar ao nosso alcance.

Isto significa que a situação atual (e provavelmente no futuro previsível) não pode ser remotamente comparada à de 1923. Naquela época havia um movimento operário forte e consciente, com o KPD e o SPD[2]. A guerra e as suas consequências (Tratado de Versalhes) levaram a uma inflação galopante. O empobrecimento em massa prevaleceu numa escala hoje inimaginável na Alemanha.

Portanto, a história certamente não oferece orientações diretas para as nossas ações de hoje. A este respeito, não há aprendizado com a história, no sentido mais estrito!

Contudo, a polêmica em torno dessa história faz sentido e é necessária. As avaliações dos acontecimentos de outubro de 1923 ainda diferem amplamente na esquerda, assim como algumas questões estreitamente relacionadas, como a avaliação da política da Internacional Comunista na época ou de uma política “correta” de frente única.

Algumas pessoas ainda falam sobre a “Revolução Traída” e, portanto, assumem o fracasso pessoal do presidente do KPD, Heinrich Brandler, ou até mesmo a sua traição à classe trabalhadora. As circunstâncias e condições reais são frequentemente ignoradas.

Existem inúmeras revisões e análises científicas das condições da época, que chegam à conclusão de que não existia (mais) uma situação revolucionária naquela época e que a greve teria resultado numa derrota catastrófica com inúmeras mortes. Por exemplo, consultem-se as posições de Harald Jentzsch na revista “Z” nº 116, de dezembro de 2018, “O KPD de 1919 a 1924, Parte II: O ‘outubro alemão’ de 1923”, páginas 181-195, bem como a brochura de August Thalheimer “1923: Uma oportunidade perdida? A lenda do ‘outubro alemão’ e a verdadeira história de 1923”[3], que agora está sendo novamente republicada de forma corrigida.

Esta é razão suficiente para revisitarmos este tópico da nossa perspectiva após 100 anos. Para tanto, reimprimimos um artigo da Arbeiterstimme, que trata da avaliação dos acontecimentos e processos da época. Esta apresentação, que data de 1974, tem em si qualidade histórica e deve ser lida e apreciada tendo em mente este contexto.

Equipe editorial, setembro de 2023

 

A lenda do outubro alemão de 1923

Mas acreditamos que o primeiro pré-requisito para um partido comunista e uma liderança que saiba como vencer é que elimine todas as lendas e comece realmente a aprender. Enquanto esse aprendizado real da própria história real não tiver começado, o partido e com ele a classe trabalhadora apenas continuarão a andar em círculos, em vez de avançar, e o resultado serão novas derrotas e cada vez mais graves.

August Thalheimer

 

Mesmo depois de 50 anos, a lenda do “outubro alemão” ainda assombra as mentes das pessoas, a lenda da revolução perdida ou traída de 1923. Por outro lado, o verdadeiro significado do ponto de virada do outubro alemão” é mal compreendido: a ascensão ao poder da ultraesquerda no partido alemão e a liquidação dos sucessos anteriores dos comunistas, por meio de uma política que acabou por conduzir à maior derrota do movimento operário alemão. leia mais

Revogação da reforma trabalhista? O caminho da luta de classes

 

Do site Encontraponto – 05/05/2023

O dia Primeiro de Maio tem sido comemorado anualmente pelos trabalhadores do mundo inteiro desde 1890 – por iniciativa da Internacional Socialista – como um dia internacional de luta por suas reivindicações enquanto classe. Assim tem sido igualmente no Brasil – porém esse sentido tem dependido do grau de consciência e organização alcançado ao longo do tempo.

Neste ano de 2023, em São Paulo (capital), dirigentes das centrais sindicais dividiram o palanque com Lula e seus ministros no ato oficioso do 1º de Maio por “Emprego, Direitos, Renda e Democracia”. Sérgio Nobre, presidente da CUT, afirmou ao presidente da República que o movimento sindical realizará campanha permanente contra os juros altos, porque o Banco central está “sabotando o crescimento do país com a taxa de juros de 13,75%”. Palavras que Lula não poderia dizer com essas letras para não desagradar o capital financeiro, mas por ele endossadas na defesa de um “conserto” do Brasil, com a vinda de investimentos estrangeiros para obras de infraestrutura capazes de gerar empregos.

Nesse mesmo dia, a CSP-Conlutas e outras entidades realizaram um ato próprio em defesa da independência da classe na Praça da Sé. Essa também foi a perspectiva da Intersindical – instrumento de luta e organização dos trabalhadores que, no ato de 1º de Maio em Campinas, destacou a mobilização dos trabalhadores contra os ataques do capital ocorrida neste dia em todo o mundo e, no Brasil, onde:

Nós não podemos abandonar a pauta da revogação da reforma trabalhista e da reforma previdenciária, precisamos colocar a classe trabalhadora em movimento e pressionar por nossos direitos sejam devolvidos.

Ir para a luta, ir para a rua – essa convocação ressoou nos diversos discursos da marcha para o ato na praça. E novamente se falou em greve geral. Será esta uma possibilidade concreta?

Antes de mais nada, devemos lembrar que revogação da reforma trabalhista (lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017) foi de fato abandonada há bastante tempo, desde o momento em que, encaminhada pelo governo Temer, foi aprovada pelo Congresso Nacional. As centrais sindicais se apresentavam inclusive divididas quanto aos tópicos da Reforma, a exemplo da Força Sindical – que defendia a “terceirização” – enquanto a CUT era aparentemente contrária [1], mas defendia a prevalência do negociado sobre o legislado, no que, aliás, seguia a Força Sindical. Quando o assunto voltou à cena no final da campanha eleitoral de Lula, a revogação da reforma ficou fora da pauta devido à reação do capital financeiro e ao “arco de alianças” com os partidos de direita para eleger-se para a Presidência da República. Obviamente, qualquer apoio crítico à candidatura de Lula esbarraria nesta limitação. leia mais

Trabalhadores em greve na Europa: retomada da luta de classes

Reproduzimos a seguir alguns artigos publicados na imprensa europeia sobre as greves dos trabalhadores na França, Alemanha e Inglaterra. Com a inflação, o aumento do custo de vida e a consequente perda do poder aquisitivo dos salários, as classes trabalhadoras se mobilizam em manifestações de rua e greves gerais em protesto contra os patrões e seu governo.

Essas lutas possuem um caráter econômico, sem dúvida. Porém, rompem com o imobilismo e enfrentam a sanha capitalista de jogar a crise econômica nas costas da classe trabalhadora.

Na memória das gerações de operários há uma incontestável tradição de luta que pode vir a tona e fazer avançar a organização e a consciência de classe em oposição aos interesses da burguesia. Esse é o primeiro passo mas é um avanço fundamental para a classe  trabalhadora: divisar e enfrentar as classes exploradoras e não lhes dar sossego.     (CVM)

 

Maior greve em três décadas paralisa a Alemanha

Deutsche Welle 27/03/202327 de março de 2023

 

Trens, ônibus, aeronaves e embarcações não operam nesta segunda-feira, em pressão por aumento de salários. Entenda por que os sindicatos são tão fortes na Alemanha e seu grande poder de negociação

 

Boa parte da Alemanha está parada nesta segunda-feira (27/03): trens, ônibus, aviões e embarcações não estão operando, na maior greve do país em mais de 30 anos, com impactos em praticamente toda a sociedade alemã.

Dois dos mais importantes sindicatos da Alemanha, que juntos somam mais de dois milhões de membros – o Sindicato dos Ferroviários (EVG) e sindicato do setor público alemão(Verdi) – convocaram uma greve conjunta, planejada para coincidir com o início da terceira rodada de negociações salariais. Os sindicatos exigem aumentos de pelo menos 10,5%, devido à alta histórica na inflação alemã, que afeta diretamente os custos de vida. Nas outras rodadas, aumentos de 5% e pagamentos de bônus únicos foram rejeitados.

O tráfego de longa distância nas ferrovias está quase completamente interrompido, afetando também países vizinhos, visto que muitas linhas têm trajetos além das fronteiras alemãs. No tráfego regional, a maioria dos trens também não circula, de acordo com a companhia ferroviária alemã Deutsche Bahn (DB).

Todos os grandes aeroportos estão em greve, com exceção do de Berlim-Brandemburgo, que está operando voos internacionais, já que os domésticos não estão chegando nem partindo devido à paralisação nos outros aeroportos do país. Estima-se que 400 mil passageiros sejam afetados.

Além disso, em sete estados – Baden-Württemberg, Hesse, Baixa Saxônia, Renânia do Norte-Vestfália, Renânia-Palatinado, Saxônia e grandes partes da Baviera – ônibus urbanos, metrôs e bondes também estão parados.

O transporte de cargas, tanto na rede ferroviária quanto nos portos, também é atingido, pois os estivadores se juntaram aos grevistas. Consequentemente, entregas de mercadorias que seguiriam por barcos e trens também foram afetadas.

Outro reflexo da greve é a maior circulação de carros nas rodovias, devido aos transportes públicos e de longa distância parados.

O que pedem os sindicatos

Os dois grandes sindicatos estão em um impasse nas negociações com os empregadores do setor público federal e locais em vários setores de transporte – incluindo ferroviário, transporte público local e pessoal de terra em aeroportos.

Para pressionar um acordo, 350 mil trabalhadores de diferentes setores foram convocados a aderir a chamada “greve de advertência” nesta segunda-feira, que foi precedida por paralisações menores nas últimas semanas.

No caso do Verdi, uma nova rodada de negociações, ao lado da Federação Alemã de Funcionários Públicos e União Salarial (DBB), com representantes do governo federal e dos governos locais começa nesta segunda-feira em Potsdam para definir o destino dos salários de 2,4 milhões de pessoas. O sindicato exige 10,5% e pelo menos 500 euros a mais de salário por mês. Anteriormente, os empregadores oferecem um aumento salarial de 5% por um período de 27 meses e uma compensação 2,5 mil euros em um pagamento único, isento de impostos.

O EVG, por sua vez, recomeça no meio da semana negociações coletivas com a Deutsche Bahn e cerca de 50 outras empresas. Se não houver um acordo, o sindicato não descarta novas paralisações no feriado de Páscoa. O EVG pede aumentos salariais de 12% ao longo de um período de um ano, mas pelo menos 650 euros como “componente social”.

A Deutsche Bahn criticou a paralisação, que classificou como “exagerada”. “Milhões de passageiros que dependem de ônibus e trens estão sofrendo com essa greve excessiva e exagerada”, disse o porta-voz da Deutsche Bahn, Achim Strauss. “Nem todo mundo pode trabalhar remotamente”, acrescentou.

“Milhares de empresas que normalmente enviam ou recebem suas mercadorias por via férrea também vão sofrer”, disse, destacando que “o meio ambiente e o clima também sofrerão” e que os vencedores serão “as empresas petrolíferas”.

Por que os sindicatos são tão fortes na Alemanha?

Diferentemente do Brasil, a Alemanha adota, desde 1945, um modelo de unidade sindical. Além disso, a associação a um sindicato ocorre de forma espontânea, sem qualquer imposição normativa e sem qualquer restrição legal. No final de 2018, por exemplo, aproximadamente 7,8 milhões de pessoas pertenciam a um sindicato, de acordo com estudo da Fundação Friederich Ebert.

O nível de sindicalização na Alemanha é considerado alto, mas concentrado em um pequeno número de entidades, que, portanto, tem maior representatividade e, consequentemente, mais poder de negociação coletiva. O Verdi, por exemplo, reúne trabalhadores de mais de mil profissões e é o segundo maior do país em número de filiados.

Em outras palavras: enquanto no Brasil os sindicatos são mais numerosos e bastante segmentados por áreas e por regiões, na Alemanha são mais abrangentes, em menor número e com mais filiados. Assim, greves gerais como a desta segunda-feira se tornam possíveis, com um alto impacto em todo a sociedade.

O modelo de sindicato unitário foi adotado na Alemanha logo após o fim Segunda Guerra Mundial. De acordo com a Fundação Friederich Ebert, um dos motivos foi que a divisão política do movimento sindical foi considerada uma das causas de sua destruição quase sem resistência pelos nacional-socialistas em 1933.

Outro ponto fundamental é que não existem vínculos formais entre as centrais sindicais e os partidos políticos e nem repasses de verbas por parte das legendas aos sindicatos.

A contribuição sindical pode ser deduzida do imposto de renda, e os dias de greve não pagos pelos empregadores são ressarcidos pelos sindicatos aos trabalhadores.

Custos da greve

Apesar dos transtornos causados aos cidadãos, principalmente a dificuldade para chegar ao trabalho, especialistas financeiros avaliam que as consequências da greve desta segunda-feira na economia alemã são bastante limitadas.

“A megagreve é ​​um problema para os cidadãos e prejudica a reputação da Alemanha como um país de negócios”, disse o economista-chefe do Commerzbank, Jörg Kramer, em entrevista à agência de notícias Reuters. “Mas os impactos econômicos de uma greve de um dia são limitados, já que quase todas as empresas, exceto as diretamente afetadas, continuarão [trabalhando] normalmente”.

Os portos bloqueados, voos cancelados e linhas de trem paradas podem gerar prejuízos de até 181 milhões de euros, estima Klaus Wohlrabe, especialista do Instituto de Pesquisa Econômica (Ifo), da Alemanha.

le (Reuters, ots)

 

Grã-Bretanha: Onda de greve continua adiante no 15 de Março

Trabalhadores e trabalhadores em greve no Reino Unido voltam às ruas hoje em sua jornada de lutas.

SUSAN PRICE E TERRY CONWAY 15 MAR 2023, 14:37 – Revista Movimento

Via Green Left

Diante de um dia significativo de ação industrial em toda a Grã-Bretanha em 15 de março – Dia do Orçamento – Susan Price, da Green Left australiana, perguntou à integrante da Resistência Anticapitalista (A*CR) Terry Conway sobre o significado da onda de greve e o que será necessário para forçar o governo a tomar a mão.

Os professores estão em greve rolante de 28 de fevereiro em toda a Inglaterra, e até 100.000 sindicalistas de todo o setor público estão planejando uma ação industrial em 15 de março (Dia do Orçamento). O que os trabalhadores estão exigindo e quão significativa é esta onda de greve?

A greve vem ocorrendo intermitentemente desde junho passado: particularmente por trabalhadores ferroviários e de correio, professores universitários e universitários, funcionários públicos e, mais recentemente, em partes do serviço de saúde e escolas.

Os trilhos e o correio são, em sua maioria, privatizados – mas são lugares nos quais os governos têm mais impacto nas negociações do que em outras partes da economia. Uma ética de serviço público também é esperada tanto pelos trabalhadores quanto pelos usuários. Assim, embora o pagamento seja central, a prestação de serviços também é um problema. Assim, por exemplo, quando os patrões falam sobre a necessidade de aumentar a produtividade a fim de financiar um aumento de salário – não que eles estejam dispostos a dar muito terreno lá – os sindicatos respondem que os cortes de empregos ameaçam a saúde e a segurança e, em particular, os direitos de muitas pessoas deficientes que precisam de assistência para usar trens inacessíveis. Para os sindicatos de educação e saúde, estas questões são ainda mais centrais para as disputas – e para o nível de apoio público que elas atraem.

Os níveis de ação industrial na Grã-Bretanha têm sido incrivelmente baixos desde a derrota da emblemática greve dos mineiros de 1984-85 pelo governo de Margaret Thatcher. Muitos dos trabalhadores em greve nos últimos meses nunca testemunharam uma ação sindical bem sucedida – não importa a participação ativa nela.

O pico da ação até agora foi em 1º de fevereiro, com mais sindicalistas na Grã-Bretanha em greve em um único dia do que durante décadas. Cerca de meio milhão de trabalhadores de seis grandes sindicatos saíram na primeira tentativa séria de coordenação interprofissional desde que as greves começaram em junho passado. Mas havia um milhão de trabalhadores que poderiam ter sido chamados legalmente naquele dia – que tinham um mandato existente para greve – então esta ação só alcançou metade de seu potencial.

O dia 15 de março parece desigual porque existe uma situação contraditória. No entanto, há algumas boas notícias. Em 1º de fevereiro, o sindicato do funcionalismo público trouxe membros em 124 departamentos. Eles falharam no “limiar de participação” – ditado pelas leis anti-sindicalistas extremamente reacionárias da Grã-Bretanha – em nove outros departamentos por margens estreitas. Eles se reequilibraram nesses departamentos e conseguiram, portanto, em 15 de março, mais 33.000 trabalhadores estaram em greve.

Os dois maiores sindicatos do metrô de Londres estão em greve no dia, o que significa que a rede de metrôs será fechada – e os manifestantes de toda a capital se amontoarão em ônibus para se juntarem aos que vêm em ônibus de fora da cidade para o comício central.

Talvez o elemento novo mais excitante seja os médicos juniores – um termo confuso que cobre os médicos que se qualificaram até 20 anos atrás. Mais de 35.000 deles votaram esmagadoramente a favor da greve e imediatamente anunciaram que fariam uma greve total de 72 horas que terminaria na madrugada do dia 16 de março.

Mas também houve fragmentação em três áreas: educação superior, correio e grande parte do serviço de saúde.

Em 17 de fevereiro, a secretária-geral do Sindicato das Universidades e Faculdades (UCU), Jo Grady, anunciou que a greve planejada seria pausada para negociações intensivas. Ela o fez unilateralmente sem nenhuma consulta – e sem mostrar nenhum progresso concreto na oferta de gestão. Membros furiosos e ativistas foram apresentados com um fato consumado.

Os trabalhadores dos correios não estão em greve desde antes do Natal – após 18 dias de ação antes. Uma nova convocação ocorreu com uma maioria de 96,9% para novas ações. Vários representantes do local de trabalho foram perseguidos e os gerentes estão impondo novos padrões de trabalho – um aspecto significativo da disputa, em primeiro lugar. Apesar disso, a liderança e a gerência do sindicato emitiram uma declaração conjunta em 2 de março. As autoridades afirmam que outras mudanças não serão feitas sem consulta – mas isto poderia ser facilmente utilizado para vincular os representantes do local de trabalho ao policiamento de negócios duvidáveis. Há muita raiva, mas não há um verdadeiro fórum para os ativistas lutarem por uma estratégia alternativa.

Na saúde, há duas áreas principais onde a ação industrial já vem ocorrendo – entre enfermeiros e no serviço de ambulância. O principal sindicato envolvido na primeira é o Royal College of Nursing (RCN), que até pouco tempo atrás tinha uma proibição de ação industrial, mas começou a atacar em dezembro de 2022. Ficou claro desde o início que sua liderança queria que as enfermeiras fossem tratados como um caso especial.

Elas se mantiveram bem afastadas da ação em 1º de fevereiro. Portanto, não foi uma grande surpresa quando anunciaram em 22 de fevereiro que estavam em discussões com o governo. Não inesperadamente, desde então não ouvimos nada sobre o que poderia estar sendo oferecido.

Na última semana, os trabalhadores das ambulâncias concordaram em conversar e cancelaram a ação. O que parece estar em oferta é um pagamento único para o salário do ano passado – que nada faz para combater o salário real perdido durante a última década.

Qual é a profundidade da crise do custo de vida/salário na Grã-Bretanha? Qual é o seu impacto sobre as pessoas comuns?

Existem diferentes elementos para a crise do “custo de vida”. Para a maioria dos grevistas, o valor real de seus salários caiu durante uma década ou mais. Os serviços têm sido minados pela privatização e casualização, o que significa que trabalhadores e usuários têm ressentimentos de longo prazo.

A inflação galopante subiu formalmente no outono passado para mais de 11% – mas com um impacto ainda pior no nível de vida da classe trabalhadora. Os alimentos básicos, combustível e custos de moradia constituem os elementos mais significativos disto.

Muitos têm sido confrontados com dificuldades – com uma escolha entre aquecimento e alimentação. O uso do banco de alimentos elevou-se a um nível em que uma em cada cinco pessoas no trabalho está usando-os!

Esta é uma das principais razões pelas quais as greves têm um apoio público muito amplo. Isto é particularmente verdadeiro para os trabalhadores dos serviços de saúde. A grande maioria das pessoas está desesperada para ver um financiamento adequado para o Serviço Nacional de Saúde, um fim da privatização e um salário decente para acabar com a situação em que, por exemplo, enfermeiras estão saindo para trabalhar em supermercados para ganhar uma taxa horária mais alta lá.

Qual tem sido a resposta do governo Rishi Sunak às exigências dos trabalhadores até agora? O que será necessário para forçar a mão deles?

Este tem sido um momento de turbulência política com três Primeiros Ministros Conservadores diferentes – Boris Johnson, Liz Truss e agora Sunak. Inicialmente todos adotaram uma abordagem de lavar as mãos – enquanto utilizavam a mídia para culpar a inflação salarial pela crise do custo de vida.

Quando ficou claro que os sindicatos não estavam recuando, eles mudaram de rumo. Apesar da Grã-Bretanha já ter as leis anti-sindicalistas mais repressivas, eles começaram a introduzir uma “lei de nível mínimo de serviço” que obrigaria muitos a trabalhar, mesmo votando para a greve. A ironia é que esses níveis muitas vezes não são atingidos mesmo quando não há greves – portanto, certamente não estão ganhando nenhum concurso de popularidade com isso. Eles também começaram a tentar algumas lideranças sindicais em conversações que não abordam as verdadeiras preocupações que levaram às disputas em primeiro lugar.

A geografia política destas greves é complicada – diferentes sindicatos se organizam em diferentes países – Escócia, País de Gales, Irlanda como um todo e às vezes o norte da Irlanda, assim como a Inglaterra. Enquanto os Conservadores estão no governo em Westminster, em Edimburgo há um governo do SNP e em Cardiff um governo trabalhista – ambos fizeram ofertas separadas e melhores para alguns trabalhadores cujas contas de pagamento vêm de seus orçamentos.

Esta onda industrial tem o potencial de gerar um movimento político que poderia desafiar os partidos de austeridade e privatização? Que postura o Partido Trabalhista de Kier Starmer está adotando em relação a ele? Quais são as perspectivas de unir a esquerda em torno de um projeto desse tipo?

A posição do Starmer tem sido terrível – proibir os membros de seu Gabinete Sombra de se unirem às linhas de piquete. Na medida em que ele mencionou as queixas dos trabalhadores, ele enfatizou o quão fiscalmente responsável seria o trabalho no governo.

Alguns sindicatos fizeram movimentos para estabelecer uma campanha política mais ampla, indo além das questões do local de trabalho, para questões mais amplas como moradia e o direito à alimentação. No entanto, isto murchou na videira por falta de estruturas democráticas que pudessem unir aqueles com o compromisso de construí-la. Comitês de solidariedade grevista se desenvolveram em algumas áreas, mas estes não têm uma agenda política ampla.

Se algo disto poderia contribuir para o desenvolvimento de um novo partido político é algo que eu não posso abordar neste artigo.

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Trabalhadores contra bolsonaristas | “Vamo liberar, trabalhei o dia todo!”, metalúrgicos enfrentam bloqueio e liberam Rio-Santos

Do site Esquerda Diário –  01.11.2022 

Na noite de ontem (31/10), trabalhadores do estaleiro da BrasFels, impedidos de passar quando voltavam da rotina exaustiva de trabalho, desceram do ônibus fretado e obrigaram os bolsonaristas em locaute patronal golpista a liberar passagem. É a força da classe trabalhadora que pode derrotar o bolsonarismo!

Ao fim da noite de ontem (31 de outubro), os trabalhadores do estaleiro da BrasFels destravaram o curso da rodovia Rio-Santos, obstruída pelo locaute patronal golpista promovido por bolsonaristas enfurecidos com os resultados das urnas.

No vídeo que circula nas redes é possível ver os trabalhadores dizendo: “Vamos liberar… trabalhei o dia todo! Tô cansado! Quero jantar!” Em seguida, liberando a via e os estragos provocados pelos bolsonaristas. Os trabalhadores relatam que também foram feridos. leia mais

Carta aos companheir@s sobre a greve na CSN

 

 

  A Carta do Novo Germinal, ora publicada neste portal, tem por objetivo refletir e debater a experiência da greve dos operários da CSN – motivo de artigos, vídeos e áudios, dos participantes da paralisação ou de seus apoiadores. A greve na CSN delineia, apesar do seu caráter localizado até o momento, uma tendência nacional, cujas limitações e possibilidades precisam ser compreendidas e assimiladas sob a perspectiva da independência política da classe operária.

  Destina-se principalmente aos companheiros da Comissão de Base da Fábrica criada e eleita pelos operários em greve. Mas também à Federação Nacional dos Petroleiros (por meio do Sindipetro-RJ), assim como ao site Passa Palavra e aos dois grupos da Oposição Sindical Metalúrgica do Sul Fluminense, que tomaram posição no processo da paralisação.

  Novo Germinal é uma ferramenta de comunicação e formação do Centro de Estudos Victor Meyer, cuja programação encontra-se disponível como um canal no Youtube no endereço https://www.youtube.com/c/NovoGerminal

  

 

Vivemos uma época marcada pelo aumento da exploração, pela fome e opressão política. No meio do tormento, porém, irrompem lutas, esperanças de outro futuro. Esta tem sido a característica das greves desde 2020 e agora na greve dos operários da Companhia Siderúrgica Nacional, de Volta Redonda, ocorrida entre 11 e 22 de abril do corrente ano.

Porém o evento massivo da paralisação teve pouca repercussão pública, nos meios de comunicação da burguesia ou do movimento sindical dos trabalhadores. Pode-se até afirmar que entre a maioria absoluta dos sindicatos houve um silêncio gritante. O temor à “radicalização” das massas trabalhadoras e a atitude subserviente às leis e instituições da burguesia explica a omissão, inclusive das organizações pretensamente de esquerda. Nosso dever consiste exatamente em proceder de modo contrário, em dar o devido destaque para a luta e contribuir para o movimento comum de enfrentamento das forças do capital.

A presente Carta tem por objetivo refletir e debater a experiência da greve dos operários da CSN, motivo de artigos, vídeos e áudios, dos participantes da paralisação ou de seus apoiadores. Destina-se principalmente aos companheiros da Comissão de Base da Fábrica criada e eleita pelos operários em greve. Mas também à Federação Nacional dos Petroleiros (por meio do Sindipetro-RJ), assim como ao site Passa Palavra e aos dois grupos da Oposição Sindical Metalúrgica do Sul Fluminense, que tomaram posição no processo da paralisação.

A greve na CSN delineia, apesar do seu caráter localizado até o momento, uma tendência nacional, cujas limitações e possibilidades precisam ser compreendidas e assimiladas sob a perspectiva da independência política da classe operária. leia mais