O impacto da crise do capital no mercado de trabalho global em 2020

Do blog Cem Flores 12.02.2021

Foto: Trabalhadores/as aguardam na fila para receber refeições gratuitas nos EUA. Com a explosão do desemprego em 2020, uma onda de fome se alastrou pelo país. Uma a cada quatro pessoas estão sofrendo de insegurança alimentar.

 

 

 

O ano de 2020 foi marcado por mais uma violenta crise do sistema imperialista mundial. A economia global, que em 2019 já se encaminhava para uma nova recessão, foi fortemente abalada pelos impactos da pandemia do novo coronavírus, detonador e agravante da crise. Além dos impactos imediatos, vários são seus efeitos permanentes, a aprofundar o atual estado depressivo do imperialismo e agravar suas contradições, como demonstrou o texto de Michael Roberts sobre as projeções para 2021Um desses efeitos permanentes, a ser analisado com muita atenção pelos comunistas pela sua relevância para a luta de classes, será no mercado de trabalho.

A elevação do desemprego e da miséria, a destruição de empregos e a piora no mercado de trabalho são características centrais das crises capitalistas. Como demonstrou Engels em sua genial, e gritantemente atual, análise das classes trabalhadoras na Inglaterra:

“[Nas crises] os salários caem, por causa da concorrência entre os desempregados, da redução do tempo de trabalho e da falta de vendas lucrativas; a miséria se generaliza entre os operários; as eventuais pequenas economias dos indivíduos são rapidamente devoradas; as instituições beneficentes se veem assoberbadas; o imposto para os pobres duplica, triplica e entretanto continua insuficiente; cresce o número de famintos; e de repente toda a massa da população ‘supérflua’ revela sua impressionante magnitude.

As crises acirram as contradições do sistema capitalista e modificam as condições da luta de classes. Por isso, dissemos recentemente: “as crises são também luta de classes”. A depender da organização e luta proletária, elas podem ser momentos de fortalecimento da nossa classe ou do reforço da burguesia, pela redução dos salários e aumento da exploração – construindo, assim, as bases para a recuperação das taxas de lucro e da acumulação capitalista.

Mas a intensidade e as formas dessas mudanças no mercado de trabalho a partir das crises são variadas ao longo da história e dos paísesA crise de 2020 gerou enormes impactos no mercado de trabalho e nas condições de vida das massas trabalhadoras em todo o mundo. Em alguns aspectos, impactos cuja magnitude não possui precedentes históricos.

Um panorama sobre essa devastação se encontra na sétima edição do relatório da OIT “COVID-19 e o mundo do trabalho”, lançado em 25 de janeiro. Esse relatório possui um conjunto de dados atualizados sobre a dramática situação do mercado de trabalho no mundo em 2020.

Trazemos aos/às leitores/as e camaradas alguns dados do relatório da OIT, fundamentais para compreender a situação concreta das classes trabalhadoras no mundo e as condições atuais da luta de classes, assim como fizemos no início de 2020, com o relatório da OIT sobre 2019. Começaremos com uma síntese da visão da OIT daquele ano, para compreender a situação do mercado de trabalho global pré-crise de 2020 e contextualizar os atuais impactos.

 

 

O mercado de trabalho global em 2019: enorme desemprego, informalidade e precariedade

 

Em 2019, a OIT já alertava para um mercado de trabalho global extremamente deteriorado. Para dimensionar tal deterioração, a medida clássica de desemprego era insuficiente. De acordo com essa medida, a taxa de desemprego no mundo seria de 5,4%, ou “apenas” 188 milhões de trabalhadores/as. No entanto, uma massa muito maior de trabalhadores/as estava de fato no desemprego, seja por compor a força de trabalho potencial, seja por insuficiência de horas trabalhadas, mas não era considerada nesses 5,4%. Caso se somasse esse conjunto de trabalhadores/as, compondo assim a taxa de subutilização da força de trabalho mundial, chegaríamos a 13,1%, ou 473 milhões de trabalhadores/as. Quase meio bilhão!

E dentre os/as empregados/as, 61% estavam informais, chegando a 2 bilhões de trabalhadores/as no mundo na informalidade. A OIT lembrava que a informalidade, globalmente, “registra as taxas mais altas de pobreza entre os trabalhadores e um elevado porcentual de pessoas que trabalham por conta própria ou de trabalhadores familiares auxiliares que carecem da proteção adequada”.

Mesmo o setor formal vinha em piora contínua, com um conjunto de reformas trabalhistas e elevação da automação, do trabalho parcial, intermitente, por hora. Esta foi uma das principais expressões da ofensiva burguesa após a grande crise imperialista de 2008, que trouxe mais exploração e pobreza para as classes trabalhadoras.

A OIT projetava, à época “que a escassez de postos de trabalho continue no futuro próximo. A taxa de desemprego mundial se situou em 5,4% em 2019 e não se prevê que haja variação essencial nos próximos dos anos”. Como se vê, uma projeção otimista, mesmo sem considerar a pandemia. Por fim, ela vinculava esse cenário ruim e de baixas expectativas aos protestos que, em vários países, explodiram em 2019 diante do descontentamento das massas trabalhadoras, após anos sucessivos de desemprego, arrocho e piora nas condições de trabalho. leia mais

O que virá?

Estamos perante uma disputa por protagonismo entre as forças de direita: como atuarão as forças de esquerda nesse novo cenário?

Do blog Passa Palavra21/01/2021

 

 

A falência do sistema de saúde em Manaus, com a falta generalizada de oxigênio, parece ter levado a situação brasileira a um outro estágio. A grande comoção causada pelos vídeos em direto, por depoimentos de médicos, pela necessidade de transferência de bebês prematuros, levou a uma mobilização de diferentes agentes sociais para além da simples denúncia proclamatória do absurdo. Algumas celebridades começaram a fazer campanhas de doação de cilindros, que, embora irrisórias em termos de escala, dão a ideia de que é preciso fazer algo, uma vez que o governo não faz. Ao mesmo tempo, surgiu nas redes o chamado por um panelaço, tanto pelo oxigênio quanto pela exigência da saída de Bolsonaro. Inicialmente esse chamado circulou nos meios de esquerda, que têm optado por ações do tipo desde abril do ano passado. No entanto, a circulação desse chamado ganhou muito destaque quando foi endossada pelo apresentador e aspirante a político Luciano Huck.

Isso se insere em um contexto em que o presidente aparenta estar enfraquecido interna e externamente. As eleições municipais de 2020 demonstraram um fortalecimento dos partidos de centro e um crescimento da direita, e ao mesmo tempo uma diminuição do capital político do bolsonarismo, que elegeu apenas 15 de seus 61 candidatos apoiados publicamente. A derrota de Trump e a invasão do Capitólio foram interpretadas, por parte dos gestores brasileiros, como uma profecia do que poderá vir a acontecer no Brasil, embora não tenha gerado mais que declarações públicas que sinalizam um movimento institucional. O desgaste em relação ao parlamento, que teve idas e vindas durante 2020, se agravou por conta da interferência que Bolsonaro tenta fazer na sucessão da presidência da Câmara.

Ao contrário do desgaste institucional que já se vinha sentindo no fim da gestão Trump, no Brasil as eleições de 2022 ainda estão a uma distância considerável. O Planalto se encontrava numa sensação de calmaria. Calmaria esta que parece ter se esvaído, abrindo espaço à direita não bolsonarista. Haverá fôlego daí em diante?

* * *

Do ponto de vista das relações internacionais, o Brasil colocou-se deliberadamente numa situação de isolamento, o que deverá prejudicar interesses brasileiros no exterior, a atração de investimentos estrangeiros e as relações comerciais com grandes parceiros, nomeadamente a China e os Estados Unidos pós-Trump. Contra essa tendência isolacionista, há uma posição de integração por parte de alguns governadores, em destaque para João Dória (PSDB), que conseguiu sair na frente do Governo Federal na corrida pela vacinação ao firmar uma parceria com um laboratório chinês, ignorando o desfavorecimento geopolítico da China na questão. Outros políticos, como o próprio vice-presidente Mourão e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, destoam publicamente das posições de desprestígio às parcerias econômicas e dos ataques políticos à China pela ala bolsonarista.

Ainda no plano internacional, há de se considerar o processo de recrudescimento do número de contágios e internações hospitalares devido à covid-19, obrigando os governos a aumentar as medidas restritivas por tempo indeterminado. A atual velocidade da vacinação e de produção de vacinas impõe a perspectiva de mais um ano de medidas restritivas rígidas para a diminuição dos contágios pelo coronavírus, o que pode colocar a economia global em marcha lenta (ou mesmo em marcha à ré). leia mais

Desafios da esquerda na UE

Ana Barradas

Publicado no blog bandeira vermelha em 17 de janeiro de 2021

 

 

Com a pandemia covídica a cumprir o seu curso inevitável, o ano terrível de 2020 terminou com a Europa esparvecida e paralisada pelo medo dos contágios, pelas restrições às liberdades individuais e pelos constantes confinamentos sanitários. Por cima disso, e perante o anunciado aprofundamento da crise económica iniciada em 2007, alargando ainda mais o fosso entre ricos e pobres, os trabalhadores receiam ser lançados numa crise muito grave de privações, fome e miséria.

De facto, torna-se desde já por demais evidente para os cidadãos em geral o alastramento do desemprego, da precariedade e da pobreza em todo o continente. Bombardeados a todo o momento pela propaganda oficial, esta prestamente secundada pelos média, os cidadãos têm sido intimidados, neutralizados e amestrados pelas medidas de excepção cada vez mais arbitrárias, e agora são atordoados com os prometidos sucessos da vacinação, também ela matéria de autoengrandecimento dos poderes centrais da União Europeia e respectivos governinhos nacionais. Estes surgem como salvadores da saúde pública, ao mesmo tempo que, prometendo tudo resolver, anunciam a distribuição de fundos comunitários para enfrentar a crise económica que se aprofunda.

Entretanto, uma grande proporção dos desempregados corre o risco de agravamento da pobreza e exclusão, condição social cada vez menos silenciosa, como se pode comprovar pelas longas filas de abastecimento alimentar, mesmo nos países mais afortunados. Antes da pandemia, esperava-se que a taxa de pobreza extrema caísse para 7,9%. Agora, ela deve atingir 9,1% a 9,4%.

Ao mesmo tempo, acumulam-se novas fortunas, conseguidas à custa da crise e de golpes financeiros, jogos bolsistas, reduções de encargos salariais por lockdown e despedimentos, inobservância da contratação laboral, tudo isto coadjuvado por prestações de fundos governamentais, favorecimentos bancários, perdões fiscais e regimes fiscais de excepção. Mais de 800 mil milhões de dólares foram arrecadados pelos 500 mais ricos do mundo em resultado da Covid, que os tornou 30% ainda mais ricos.

Apesar da intoxicação a que está sujeita a opinião pública, seria de esperar que pelo menos a esquerda não se deixasse neutralizar pela situação e reagisse como lhe compete. E no entanto, não é isso que acontece. Logo para começar a compreender o fenómeno, temos que nos pôr a questão: mas afinal o que é a esquerda?

Há que dizer claramente que em toda a Europa deixou de existir uma verdadeira esquerda anti-sistema. Desde os anos 80, assiste-se a uma viragem à direita em todo o mundo, com os partidos revolucionários e anticapitalistas a aderir à social-democracia, e os partidos social-democratas e a esmagadora maioria dos “comunistas” ortodoxos, a aderir aos liberalismos, em particular nos países de Leste, onde esse liberalismo económico se funde com o novo fascismo político. Esta deriva que a atrai para a social-democracia começou a acentuar-se nas últimas duas décadas e hoje acelera-se com o deslizamento mais ou menos acentuado das forças organizadas em partidos de esquerda na direcção do mergulho total no pântano do jogo institucional, parlamentar e eleitoral. Deslocando-se para fora do campo proletário e semiproletário, isto é, dos interesses dos trabalhadores produtivos e semiprodutivos, esses partidos conquistam para si as simpatias das camadas inferiores das classes intermédias pequeno-burguesas – pessoal dos serviços públicos, pequenos patrões, agricultores arruinados, professorado, estudantariado, uma parte do lumpen-proletariado e profissões liberais.

 Esta aproximação da esquerda institucional às camadas intermédias faz-se à custa de se ocupar em primeira linha das causas que mais tocam estas camadas: criticam os governos anunciando-se como mais competentes que eles e capazes de os substituir, mas no seu próprio terreno institucional e cedendo às suas chantagens; apelam ao saneamento político e ao reforço da democraticidade das forças da ordem; reclamam contra a corrupção sem realmente a combater; silenciam a verdadeira causa dos estados de emergência em curso, acerca dos quais seria mais sério dizer que são de facto impostos à cidadania devido à incapacidade do governo de combater a epidemia, em razão do persistente desinvestimento estatal em recursos financeiros e humanos dos serviços de saúde pública, nos transportes públicos e na educação, desviados os fundos mais robustos para outras despesas como injecções no sistema bancário e nas grandes companhias e no perdão de dívidas aos grandes devedores); pronunciam inconsequentes profissões de fé contra a extrema-direita, sem lhe dar combate sério; esforçam-se por indicar soluções, dar conselhos sobre como actuar, chegando a tomar partido por uma parte da burguesia contra a outra (as vantagens da saúde pública sobre a privada e vice-versa, por exemplo); calam a falta de medidas que protejam os trabalhadores do empobrecimento e do desemprego, substituídas pelo tráfico humilhante da caridade e das sopas dos pobres, cada vez mais visto como uma alternativa aos sistemas de protecção social; abraçam causas identitárias sem as relacionar minimamente com o apodrecimento do capitalismo, etc. E tudo isto se processa sem um gesto ou uma palavra de incentivo às dispersas lutas laborais que ainda se vão organizando por pressão das bases sobre os burocratas sindicais ou aos surtos de revolta inorgânica que se acendem momentaneamente e depressa se extinguem por falta de enquadramento.

Competiria a uma esquerda digna desse nome denunciar que os governos e suas alianças regionais e internacionais, em particular a União Europeia, fazem uma gestão política da pandemia em que nos querem fazer crer que é aceitável e justificado suspender liberdades políticas, limitar direitos, reduzir salários e regalias laborais, etc., em nome da salvaguarda da saúde pública; além disso, haveria que denunciar que essa gestão não protege todos por igual, já que os trabalhadores do sector produtivo e outros que não podem resguardar-se com o teletrabalho, não têm maneira de se defender da contaminação porque só lhe resta a alternativa de utilizar transportes públicos superlotados e sujeitar-se a trabalhar nas condições sanitárias que os patrões entenderem.

Uma esquerda fiel aos trabalhadores devia-se sentir na obrigação de salientar que a intervenção selectiva e dominante do Estado nesta crise comprova mais uma vez a sua imensa fidelidade ao capital e aos seus interesses e que, até mesmo quando na aparência está a auxiliar as massas, na realidade está defendendo a reprodução do capital, pelo que a situação bárbara que vivemos hoje se deve à crise do capital e à pandemia sob o capitalismo. leia mais

Fatos & Crítica nº 26: Lutar contra a fome, o desemprego e a ameaça à vida

 

 

A situação atual vivida pelos trabalhadores em nosso país no início do ano é extremamente crítica e trágica.  Crítica sob qualquer ângulo que se observe e analise: o salário mínimo de fome vigente a partir de 01/01/2021, os reajustes salariais abaixo da inflação oficial ocorridas na grande maioria das categorias em 2020, os 48 milhões sem auxílio emergencial, o desemprego em elevação (a Ford acabou de anunciar o fechamento de suas fábricas no Brasil). Trágica pelo aumento do número de casos e da mortalidade por covid-19, a fome e a desnutrição, o desespero em torno da violência que acompanha a degradação das condições de vida e da falta de perspectivas. É a realização do quadro previsto no último F & C, cuja superação é urgente.

 

Salário mínimo necessário contra salário de fome

No dia 1º de janeiro de 2021 passou a ter vigência o novo salário mínimo decretado pelo governo Bolsonaro; o valor de R$1.045 vigente no ano passado foi alterado para R$1.100,00 ,  representando um aumento de 5,22% baseado na revisão do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), inflação das famílias com renda de até cinco salários mínimos.

Como viver com esse salário miserável de R$1.100,00 dado os aumentos em cascata decorrentes do preço do combustível? De imediato, como conseguir até mesmo pagar o gás de cozinha que aumentou por conta da valorização do petróleo? E a energia elétrica? (a propósito, por que será que o governo não decretou horário de verão este ano?).

Fatos importantes precisam ser citados, como o do valor da cesta básica calculado pelo DIEESE para uma pessoa até dezembro de 2020  ter sido de 629,63 reais — o que, face ao salário mínimo vigente até a data, comprometia 65,14% do salário líquido.

salário mínimo necessário para uma família de quatro (4) pessoas deveria alcançar  R$5.304,90 (estimativa do DIEESE para dezembro de 2020).

De acordo com o DIEESE o salário mínimo serve de referência para 50 milhões de trabalhadores. Como é possível constatar na tabela abaixo, dos que recebem salário mínimo e serão “beneficiados” com o aumento de 55 reais para sobreviver em 2021, há um total de 12.092.000 empregados.

 

Impacto anual decorrente do aumento do salário mínimo em R$ 55,00

Tipo Número de Pessoas

(mil)

Valor Adicional da Renda Anual – R$ (2) Arrecadação Tributária Adicional R$ (3)
Beneficiários do INSS (1) 24.180 18.618.302.780 10.035.265.198
Empregados 12.092 9.310.661.897 5.018.446.762
Conta-própria 10.490 7.500.324.776 4.042.675.054
Trabalhadores Domésticos 3.295 2.536.898.811 1.367.388.459
Empregadores 285 187.991.895 101.327.632
Total 50.341 38.154.180.159 20.565.103.106

Fonte: DIEESE. Nota Técnica 249, de 04 de janeiro de 2021

Provavelmente a maioria dos 1 milhão e 300 mil trabalhadores temporários contratados no ano passado deve estar recebendo na faixa de até 2 SM. E a projeção é a de um aumento do emprego de trabalho temporário pelas empresas em 2021.

Trata-se de uma realidade bem diferente daquela vivida pelos trabalhadores contratados por tempo indeterminado e, sobretudo, dos mensalistas empregados nas grandes indústrias, cujos salários são mais elevados principalmente por receberem a chamada Participação nos Lucros ou Resultados (PLR). Além disso, podem ir e voltar do trabalho em seus pequenos automóveis e se não quiserem usá-los tem ônibus exclusivos à disposição para evitar o risco de contágio no transporte público superlotado, plano de saúde e outros mais benefícios garantidos pelas empresas.

Estarão eles, contudo, satisfeitos de forjar as “correntes douradas” com quais as quais a classe capitalista a arrasta a seu reboque?

Não acreditamos. Apesar de alguns jovens operários adultos, aliás, a maioria empregada nas grandes indústrias, poderem apensar ou alegar: “estamos felizmente, muito acima da miséria em que você (outros) mal sobrevivem” sabem não ser uma afirmação que se sustente. Pela experiência tem consciência de que o valor do piso salarial é extremamente baixo (e que foi praticamente esquecido pela maioria das direções sindicais), enquanto a PLR é o seu “salário variável”, o acréscimo do equivalente a um salário mínimo mensal, como “pagamento” da produtividade, isto é, do trabalho mais intenso na mesma jornada diária, mediante o esforço extremo de seus nervos, músculos e emoções. A alienação da realidade que os separa daqueles outros setores presos às correntes de ferro da condição assalariada é muitas vezes consciente para suportar a realidade da exploração intensiva que exaure suas forças e do medo de deparar-se, repentinamente, com o desemprego em decorrência das oscilações dos negócios capitalistas em acirrada concorrência mundial.

 

Leia aqui o artigo da Intersindical “Isso é capitalismo: Ford também se aproveita da pandemia para demitir milhares de trabalhadores” e do blog do CEM FLORESO Fechamento da Ford no Brasil e a Luta da Classe Operária“.

 

Quais são as prioridades imediatas do Estado do capital?

Vejamos agora a outro lado da situação. As notícias da mídia burguesa sempre destacam (e criticam) a correlação entre o aumento do SM e do gasto público social. A matéria “Governo publica MP e define salário mínimo de R$ 1.100 em 2021” refere-se ao impacto do aumento do mínimo com um gasto público adicional em 4 bilhões em 2021. Pode parecer muito dinheiro, mas corresponde a apenas ¼  do montante dos juros da dívida pública no valor de 1 trilhão e 300 bilhões de reais, a serem embolsados pelo capital financeiro (na maioria representado pelos credores das empresas capitalistas, nacionais e estrangeiras, bancárias, industriais, comerciais, etc.) durante o corrente ano.

Em contraposição, o que passa a dominar o cenário nacional do ponto de vista da informação pública é a necessidade da prorrogação do auxílio emergencial subordinada à disputa pela sucessão da presidência da Câmara dos Deputados, prevista para acontecer no próximo mês. Assim a fome e o desespero dos trabalhadores torna-se moeda de troca política entre os partidos de apoio e oposição institucional do/ao governo Bolsonaro.

Novo ataque virá em seguida se for aprovada a nova versão da carteira Verde e Amarela para “combater o desemprego no pós-covid”, sem encargos trabalhistas e com remuneração na faixa de valor entre o auxílio emergencial e o salário mínimo. Esta nova versão foi enviada pelo governo Bolsonaro ao Congresso. Uma medida que vai esperar o desfecho da disputa pela sucessão da presidência na Câmara dos deputados e no Senado Federal, mas que significará um aceno para os investidores externos para aplicarem capitais no Brasil, onde existe uma verdadeira floresta de braços erguidos pedindo trabalho.

Mas o silêncio sobre o salário de fome e da escravidão assalariada feita pela mídia burguesa não é rompido sequer pela maior central sindical brasileira, pois apenas faz uma denúncia para remontar ao pequeno incremento real do salário mínimo baseado na variação do Produto Interno Bruto durante os governos de Lula e Dilma, sem convocar os trabalhadores para a luta.

 

A necessidade da resistência operária

É urgente, pois, a resistência a este estado de coisas, tendo em vista conseguir o salário mínimo necessário, o aumento do seguro-desemprego, a redução dos preços do gás de cozinha, da energia elétrica e da cesta básica.

Poder-se-ia argumentar, com espanto: mas isso não passa de voluntarismo! Nada disso é possível na atual correlação de força. Exatamente! Mas se trata de lutar para modificar a correlação de forças mediante a ação coletiva, orientada pela defesa das reivindicações de classe, de não ficar ao sabor dos partidos burgueses e seus sócios menores oportunistas.

Lembremos, a propósito, do Movimento do Custo de Vida sustentado pelas mulheres dos trabalhadores na periferia da zona sul de São Paulo quando, em 1978, enfrentou a ditadura militar num ato de mais de 20.000 pessoas realizado na Praça da Sé. Ato no qual foi dirigido um abaixo-assinado ao governo do general Geisel, na forma de 1 milhão e 300.00 assinaturas, com as reivindicações de congelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade, de aumento dos salários acima do aumento do custo de vida e de abono salarial emergencial imediato e sem desconto para todas as categorias de trabalhadores. Na época, os sindicatos estavam sob controle dos pelegos e em estrita vigilância policial, atitude permitida pela própria legislação sindical-trabalhista de atrelamento ao Estado herdada do primeiro período do varguismo.

Desde sua instituição em 1934 e regulamentação em 1939 o salário mínimo é a remuneração capaz de garantir uma “ração essencial” ou cesta básica e despesas de sobrevivência para um trabalhador adulto. Não deveria o salário do(a) chefe de família ser suficiente para a sua sustentação? Os capitalistas e os seus governos não se importam que sirva apenas para um(a) trabalhador(a) enquanto conseguir obrigar o restante  da família a procurar emprego a um preço vil, mesmo ao custo de sacrificar vidas humanas.

Durante a greve da Renault ocorrida em São José dos Pinhais (Paraná) entre junho e agosto de 2020, um delegado de fábrica deixou bem claro ter sido a paralisação uma oportunidade para demonstrar que os capitalistas negociam com os trabalhadores apenas quando são pressionados, na luta. Quase certamente ele não leu, mas iria sentir-se contemplado na frase do informe de Karl Marx, proferido na sessão de 27 de junho de 1865 do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, publicada sob o título “Salário, preço e lucro” que aqui sintetizamos numa redação própria:

Se em seus conflitos diários com o capital os operários cedessem covardemente ficariam, decerto, desmoralizados para realizar outros movimentos de maior envergadura, como os exigidos para questionar e lutar pela abolição do sistema de trabalho assalariado.

Sem a luta, a existência das massas operárias reduz-se de fato à miséria, à escravidão e a sucessiva perda de direitos como anunciada na nova versão da carteira verde e amarela.

 

Nota: Manaus urgente! A tragédia das mortes por asfixia

No momento em que a mortalidade por covid-19 no Brasil alcança a média diária próxima daquela ocorrida no auge da pandemia, observada em julho de 2020 (1.554 em 29/07/2020), somos atingidos pela tragédia que se abate sobre a população de Manaus, com mortes ocorrendo por asfixia devido à falta de oxigênio.

A situação de Manaus se tornou emblemática desde 14/01/2021 com a falta de oxigênio para atender pacientes em insuficiência respiratória, insumo fundamental para suporte da vida em casos moderados e graves da Covid-19. Além dos doentes pela pandemia, inúmeras outras situações rotineiras exigem suporte de oxigênio como condição básica de vida. Estão em risco de morte, por exemplo, recém-nascidos prematuros, pacientes submetidos a cirurgias de emergência, internados com doenças respiratórias causadas por infecções diversas e doenças degenerativas.

Este é o segundo colapso sanitário enfrentado pela população manauara. No primeiro, em abril de 2020, houve o colapso de atendimento, com pacientes falecendo em casa e em macas por falta de vaga em hospitais da rede pública, e quando havia acesso, os leitos de cuidados intensivos eram insuficientes. O segundo colapso que vemos agora é mais grave ainda pois soma-se à falta de assistência hospitalar a falta de um insumo básico, o oxigênio, que é fundamental para o suporte da vida humana. Atinge até mesmo os pacientes já internados, que dependem desse suporte. Sem oxigênio, para essas pessoas só resta esperar a morte. Os hospitais de Manaus se transformaram em grandes câmaras de morte. E seguem as cenas dantescas de pessoas carregando pelas ruas cilindros de oxigênio para seu familiar internado ou doente em casa, o que pouco ou nada resolve, pois um cilindro pode servir para cerca de 24 horas, se muito.

Manaus tornou-se um campo de experiência para a classe dominante, se encaixando perfeitamente ao ideário do governo Bolsonaro, que não escamoteia o interesse da burguesia de privilegiar a economia acima de todos e os lucros acima de tudo.  Para isso se utilizou da teoria da imunidade de rebanho, quando uma parte significativa da população infectada poderia conter a disseminação do vírus. Essa é uma tese que não se sustenta em relação ao Covid-19, cujo comportamento é ainda relativamente desconhecido da ciência. Estudos recentes demonstram que o vírus não confere imunidade duradoura aos infectados, os anticorpos dariam proteção por cerca de 5 meses, ao mesmo tempo em que poderiam permanecer transmitindo o vírus. A falsa ideia de que a cidade estaria imune contra a Covid-19 forneceu o argumento para relaxamento de medidas de isolamento. Apesar da crise, o governador do Amazonas Wilson Lima, do PSC, não cogita a medida sanitária de confinamento (lockdown) para enfrentar o novo colapso. O secretário de Saúde do Amazonas Marcellus Campêlo, recentemente declarou que “a sociedade amazonense fez uma “opção” pela contaminação”. Que “sociedade” é essa? As medidas tomadas por decreto pelo governo do estado em 23 de dezembro de 2020, véspera de Natal, que proibia a abertura de atividades não essenciais por 15 dias foram revogadas quatro dias depois, devido a protestos de empresários e lojistas. Logo, ficou cristalino que a “opção” criminosa pela contaminação foi da burguesia e seu governo.

Mas não se pode dizer que em outros estados a situação está sendo diferente, com políticas sanitárias que atendem à ciência e a proteção à saúde dos trabalhadores. Muito pelo contrário. O aumento da transmissão e do número de casos em novembro de 2020 já alertava para necessidade de novas medidas de confinamento mas foram ignoradas ao longo das eleições municipais, certamente com a preocupação dos candidatos em não desagradar suas bases empresariais capitalistas no comércio e na indústria. Os protocolos que criavam restrições, ainda que tímidos, foram sistematicamente burlados, com a vista grossa geral da parte de prefeituras e dos governos estaduais. O retrato dessa política de “imunidade de rebanho” da direita que finge não ser “negacionista” é a invisibilidade dos meios de transporte coletivos lotados de trabalhadores no trajeto diário ao local de trabalho. E por opção própria, grande parte da pequena burguesia vem ignorando as regras sanitárias, seja em favor de seus negócios ou pela simples ignorância de suas convicções. Por consequência, a fila de pacientes graves com Covid-19à espera de um leito de tratamento intensivo já é a realidade em diversas cidades do país, como Senador Canedo (GO), Rio de Janeiro e nos estados do Ceará, Rio Grande do Sul. Temos em curso um significativo aumento de internações e mortes em São Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso e em diversos outros estados. Destaca-se o Estado do Rio de Janeiro, que possui o maior número de unidades públicas de saúde, sucateadas, subutilizadas, e que apresenta uma das mais altas taxas de letalidade em proporção a sua população.

Não bastasse toda essa tragédia sanitária, o circo montado em torno do início da vacinação está submetido a lógica dos interesses da disputa por espaço político com vistas as eleições presidenciais de 2022. O país conta com um imenso parque bioindustrial e capacidade tecnológica de produção de vacinas em larga escala, dispõe de vacinas suficientes para iniciar a vacinação imediata que vem sendo postergada pela burocracia de uma agência reguladora recheada de militares ignorantes e que faz o jogo do governo Bolsonaro. Estes crimes ficarão registrados para história, para que no futuro os seus autores sejam julgados pelos tribunais da classe trabalhadora. Enquanto este dia de ajuste de contas revolucionário não chega, a mobilização de classe dos trabalhadores precisa impor sua força, inclusive com a importante ação coletiva dos trabalhadores da saúde que estão na linha de enfrentamento da pandemia e do governo criminoso e seus cúmplices.

Coletivo do CVM – 17/01/2021

 

LEIA EM PDF: Fatos & Crítica nº 26: Lutar contra a fome o desemprego e a ameaça à vida

O Fechamento da Ford no Brasil e a Luta da Classe Operária

Do portal do Cem Flores 15.01.2021

 

Em 11 de janeiro a Ford anunciou o fechamento de todas as suas fábricas no Brasil, após pouco mais de um século de atuação no país. Em todo esse tempo, esse que foi um dos primeiros monopólios imperialistas a abrir fábricas no Brasil se beneficiou de todo o tipo de incentivos e privilégios estatais e governamentais, juntamente com seus “rivais”. Nas duas primeiras décadas deste século, o conjunto das montadoras recebeu, apenas do governo federal e apenas de forma direta, incentivos de R$ 69 bilhões. Só nos últimos seis anos essas mesmas empresas já remeteram ao exterior US$ 36,9 bilhões como remessas de lucros e pagamento de dívidas com suas matrizes.

Foi anunciado o fechamento imediato da principal planta da marca no país, em Camaçari (BA), e também da de Taubaté (SP). A planta de Horizonte (CE) continuará operando até o final do ano. Como consequência, haverá a demissão de 5.000 operários/as da Ford, além de outros milhares ao longo da cadeia produtiva.

As razões estão no comunicado da empresa:

“… descontinuidade de produtos não lucrativos e a saída do segmento de caminhões … Além de reduzir custos em todos os aspectos do negócio … Esses esforços melhoraram os resultados nos últimos quatro trimestres, entretanto a continuidade do ambiente econômico desfavorável e a pressão adicional causada pela pandemia deixaram claro que era necessário muito mais para criar um futuro sustentável e lucrativo”.

“A Ford está constantemente avaliando seus negócios em todo o mundo, incluindo a América do Sul, fazendo escolhas e alocando capital de forma a avançar em seu plano de atingir uma margem corporativa EBIT de 8% e gerando um forte e sustentável fluxo de caixa”.

Ou seja, lucros, mais lucros, sempre os lucros! Mas também poderíamos dizer: exploração, mais exploração, sempre a exploração! No capitalismo uma coisa não vive sem a outra. A diferença é o ponto de vista das duas classes antagônicas e inconciliáveis: a burguesia e o proletariado.

 

Patrões não têm “sensibilidade social”! A única coisa que importa são os seus lucros!

A reação dos pelegos da Força Sindical ao anúncio foi sintomática da sua subserviência aos patrões. Primeiro, criticaram a falta de “sensibilidade social” dos patrões. Depois, sentiram-se traídos por não terem sido informados em primeira mão do anúncio. Então eles, que são os maiores aliados dos patrões, reclamaram que “a Ford age sem diálogo”. Por fim, depositam todas suas esperanças não na categoria metalúrgica e na classe operária, mas no “governo Federal e [n]os governos estaduais de São Paulo, da Bahia e do Ceará” que, segundo esses pelegões, devem cobrar da Ford um tal de “compromisso produtivo com o País”. Fora pelegos traidores da classe! leia mais