Canal Novo Germinal, série ‘Maio de lutas operárias’: entrevista com Pery Fálcon

Nesta segunda-feira, 10/05, às 19h, o Maio das Lutas Operárias desembarca na Bahia.

Histórias e lições do movimento operário na Bahia

Quem nos conduz neste mergulho é Pery Fálcon, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Bahia, militante histórico da POLOP e fundador do Centro de Estudos Victor Meyer (CVM).

Na bancada deste Segunda Opinião, Glaudionor Barbosa, também integrante do CVM, assim como nosso âncora, Mandacaru.

Segunda-feira 10/05/2021, às 19 horas, no Canal Novo Germinal no Youtube (assista aqui clicando na tela acima).

De movimento a movimento: aliança campo e cidade por soberania alimentar nos territórios

do portal do CEAS, Centro de Estudos e Ação Social

 

Articulação e solidariedade entre comunidades rurais e urbanas são alternativas para fortalecimento territorial e defesa da vida

No dia 30 de abril, última sexta-feira, foi realizada mais uma importante ação de solidariedade entre movimentos do campo e da cidade com o objetivo de promover a segurança alimentar e a defesa dos territórios. Cerca de 2,4 toneladas de alimentos agroecológicos, distribuídos em 150 cestas, foram entregues a comunidades periféricas de Salvador. Os alimentos são oriundos de áreas de Reforma Agrária, organizadas pelo Movimento CETA, no sul da Bahia, e pela Pastoral Rural da Diocese de Paulo Afonso; os destinos das cestas na capital baiana, articulados através do trabalho do CEAS, foram: Alto das Pombas, com a liderança do GRUMAP (Grupo de Mulheres do Alto das Pombas), comunidades do Movimento Sem Teto da Bahia – ocupações do Centro Histórico e a Quilombo do Paraíso, no subúrbio, Artífices da Ladeira da Conceição da Praia e Vila Coração de Maria, no bairro 2 de julho.

Essa ação primeiro retoma articulações realizadas durante o ano passado pelo CEAS junto aos movimentos, que buscaram contribuir com o enfrentamento à pandemia e suas consequências sociais.  Em segundo, dá o pontapé para consolidação de uma campanha permanente para o fortalecimento da aliança entre campo e cidade, pautando a luta por soberania alimentar e a defesa territorial como pontos comuns e fundamentais para a construção de saídas no contexto de aprofundamento das crises sanitária, social e econômica no país.

Segundo um estudo lançado em abril deste ano, conduzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN), mais da metade dos lares brasileiros conviveu com algum grau de insegurança alimentar nos últimos três meses de 2020 e cerca de 19 milhões de pessoas passaram fome no período. A pesquisa foi realizada no período em que o auxílio emergencial foi reduzido à metade (de R$ 600 para R$ 300 mensais), e posteriormente cancelado entre janeiro e março de 2021. E mesmo em meio ao aumento da fome, do desemprego, do abandono das políticas sociais e do assustador número de mortes evitáveis por covid-19, ultrapassando 408 mil óbitos, a “boiada” não para de passar e há muita insegurança nos territórios.

Nas cidades, governos e poderes orquestram despejos em meio à pandemia, submetidos à pressão da especulação imobiliária, e o preço dos alimentos e de itens básicos, como gás e energia, só aumentam ao serem regulados pela lógica do capital financeiro. Paralelamente, para o campo, o governo federal legaliza a grilagem de terras, o desmatamento e a privatização dos bens comuns, como a água, além de autorizar a comercialização de dezenas de agrotóxicos já banidos em outros países via Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o mesmo órgão que atrasa a liberação do uso de vacinas contra a covid-19, por exemplo.

Diante desse cenário, a esperança de superação e proposição de alternativas emergem da organização coletiva e da luta popular comunitária. De um lado, a campanha fortalece a produção e comercialização de alimentos saudáveis – com respeito à natureza, sem uso de venenos e sem exploração do trabalho das camponesas e camponeses – chamando atenção para a importância da agricultura familiar e da luta pela terra. De outro, contribui com a resistência das comunidades nos seus territórios, desafiando a política de fome, insegurança e morte, e costurando uma rede solidária entre os povos por soberania e bem-viver.

 

 

Canal Novo Germinal, série ‘Maio de lutas operárias’: entrevista com Maria Rosangela Batistoni

Nesta segunda -feira, 03/05, às 19h, no canal Novo Germinal, o programa de debates Segunda Opinião dá início à série Maio das Lutas Operárias.

A cada semana, traremos militantes que ajudaram a construir lutas históricas da classe operária brasileira.

Na abertura da série, a entrevistada é a professora aposentada da UNIFESP Maria Rosangela Batistoni, ex-militante da OCML – POLOP, que ajudou a construir a Oposição Metalúrgica de São Paulo (OSMSP), um dos marcos da reorganização operária pela base nos anos 70.

Na bancada do programa, o também ex-POLOP Glaudionor Barbosa, integrante do Centro de Estudos Victor Meyer, assim como Mandacaru, mediador da Live.

Leia aqui a tese de doutorado de Maria Rosangela Batistoni ENTRE A FÁBRICA E O SINDICATO: OS DILEMAS DA OPOSIÇÃO SINDICAL METALÚRGICA DE SÃO PAULO (1967-1987)

 

 

 

Portugal 1974: Liquidação das conquistas democráticas

Neste 25 de abril em Portugal, há precisamente 47 anos, irrompia a Revolução dos Cravos que derrubou a ditadura de Salazar que vigorava  desde 1933. O CVM publica a análise de Ernesto Martins (Érico Sachs) sobre este momento histórico, que foi escrita originalmente para a Revista Marxismo Militante Nº 2 exterior em fevereiro de 1976.  (CVM)

 

 

Ernesto Martins (Érico Sachs)

 

O Segundo Pacto, concluído entre militares e representantes dos partidos políticos, deverá marcar a volta de Portugal a um regime democrático-parlamentar burguês. Embora os militares resguardassem o direito de intervenção política nos próximos quatro anos, o princípio da divisão dos poderes e o acesso dos políticos ao governo foram garantidos pelo Pacto.

Estamos em plena fase de liquidação das conquistas revolucionárias do movimento desencadeado pelo 25 de Abril. O marco visível para o declínio do processo revolucionário foi o 25 de novembro do ano passado, a fracassada rebelião dos paraquedistas. Representou, entretanto, somente um marco externo, pois de outro modo não seria compreensível a relativamente fácil vitória da reação. Desde agosto, pelo menos, as forças revolucionárias e a esquerda em geral se encontram na defensiva. Apesar de ter havido contra-ataques e do movimento de polarização no seio da própria esquerda, todos os sucessos momentâneos, aparentes ou reais, não conseguiram anular a tendência geral da ofensiva das forças da direita.

Não pretendemos aqui reconstruir essa evolução em todos os seus detalhes. Nos limitaremos a destacar os seus pontos altos, que permitem uma compreensão melhor da situação atual e uma avaliação das perspectivas.

Em agosto de 1975, as ações terroristas no Centro e no Norte de Portugal, dirigidas contra o PC, sindicatos e outras forças de esquerda, tinham atingido o seu ponto culminante. Quase todas as sedes do partido tinham sido destruídas, mormente nas localidades menores. Ao norte de rio Tejo, o PC e organizações à esquerda dele tinham voltado a uma existência semiclandestina ou mesmo clandestina. Se os bandos terroristas diminuíram então as suas atividades ostensivas, isto se deu não só porque tinham cumprido as suas tarefas. No quadro de uma estratégia geral da ofensiva da direita, a iniciativa foi deixada então a cargo do grupo Melo Antunes no seio do MFA, o que em espaço de tempo relativamente curto levou a queda do Governo Gonçalves.

 

A FUNÇÃO DO GOVERNO AZEVEDO

A formação do próximo governo Azevedo, foi precedida por negociações prolongadas e penosas. Finalmente aceitou-se a plataforma apresentada pelo PS e apoiada pelo PPD, a qual visava o “restabelecimento da legalidade”, isto é, o “saneamento” da imprensa e rádio de elementos comunistas e de esquerda, a demissão dos Presidentes dos Conselhos (prefeitos) comunistas e seus aliados, o restabelecimento da disciplina nas FFAA, a reorganização da economia, etc. Era óbvio que se tratava de uma plataforma de repressão, pois nenhum ponto deste programa poderia ser realizado sem despertar a resistência dos operários e de demais camadas da população interessadas nas conquistas revolucionárias.

O PC ingressou também neste governo, fornecendo um ministro, aceitando dessa maneira as condições impostas pelo OS e o PPD. Estava claro, porém, que o PC não tinha voz ativa no governo. Ou ficava em minoria no Gabinete, ou então, nem sequer foi informado de certas medidas, como no caso da destruição da torre de emissão da Rádio Renascença. O PC tinha entrado no governo com a justificativa de querer “evitar o pior”. O fato de ter sido convidado a entrar nesse governo, evidentemente não se deve a considerações de ordem democráticas de representatividade, e sim, ao predomínio, que o Partido exercia sobre o proletariado de Lisboa. Para um confronto aberto com essa parte mais coesa da classe operária portuguesa, reformistas e burgueses não queriam arriscar ainda.

O programa governamental não funcionava. O Gabinete Azevedo fracassava continuamente pelo fato de não dispor das FFAA como instrumento de repressão. E sem um movimento de repressão adequado era difícil impor medidas reacionárias. Nas FFAA tinha se dado um adiantado processo e deterioração da hierarquia. No Sul havia poucas unidades, que se prestavam a medidas repressivas contra a esquerda. No Norte, no Porto, tinha sido fundado o SUV (Soldados Unidos Vencerão) e a rebelião da Unidade de Transportes, RASP, igualmente no Porto, tinha se tornado prova de força, na qual o governo se viu obrigado a fazer concessões. O “restabelecimento da disciplina” no seio das FFAA tornou-se a tarefa principal para o governo, mas toda tentativa neste sentido provocava nova oposição e novas rebeliões nas fileiras.

A classe operária soube aproveitar a evidente fraqueza do governo, desencadeando novos movimentos de massas pela defesa do nível de vida, que deteriorava rapidamente sob a inflação. Começou com a greve vitoriosa dos metalúrgicos e atingiu um auge como o cerco da Assembleia Constituinte pelos operários de construção. Em Lisboa começou-se a falar de transferência do governo e Constituinte para o Porto, a fim de livrá-los da pressão direta dos operários da capital.

Nessas condições, o PC começou a mudar de atitude. Sob a pressão do movimento de massas apoiou as greves (embora condenasse o cerco da Constituinte). Em breve foi acusado de estar “com um pé na oposição e com outro no governo”. No seio da fração governamental, por outro lado, começou a esboçar-se uma cisão. Otelo de Carvalho, ainda chefe do COPCON [1] – ver Nota no final do texto – e o chefe do Estado Maior, Fabião, começaram a distanciar-se do programa repressivo, que ganhara força entre os militares governamentais.

A situação se tornou tão insustentável para o governo, que decidiu parar as suas atividades. Não se demitiu para evitar nova crise ministerial mas transferiu todas as responsabilidades para o Presidente da República. Este se apoiou no Conselho da Revolução.

Entrementes, medidas decisivas tinham sido tomadas nos bastidores, sem que algo de concreto transpirasse para fora. Em virtude da impotência do governo de impor o “restabelecimento da disciplina” nas FFAA, a tarefa foi confiada a um restrito grupo de oficiais “apolíticos”, que desfrutou do apoio do Conselho da Revolução e da fração Antunes. Como chefe desse grupo operacional foi escolhido o General Ramalho Eanes, atual chefe do Estado Maior, e a figura mais ativa foi sem dúvida, o coronel Jaime Neves, chefe das unidades de comando da Amadora. leia mais