Greve da Renault – ensinamentos do ponto de vista de classe

 

 

A greve dos trabalhadores da Renault iniciada em 21 de julho chegou ao seu fim ontem, dia 11 de agosto de 2020. Foram 21 dias de uma mobilização diária, com piquete organizado em barraca diante do portão principal da fábrica em São José dos Pinhais (PR) – uma paralisação conhecida pela luta em torno da reintegração dos 747 trabalhadores demitidos pela empresa. Mas que colocou em questão, do ponto de vista prático, o “Programa de Manutenção do Emprego e dos Salários” encaminhado pelo governo Bolsonaro na MP 936, transformado na lei 14.020 de 07 de julho de 2020, pelo Congresso Nacional. Os operários começaram a tomar consciência de que o sentido prático deste programa para os patrões tem sido o de descobrir como um número menor de trabalhadores pode produzir mais, de modo mais intenso, com um salário menor.

Apesar da intensa mobilização durante esses 21 dias e de sua repercussão nacional, o movimento não conseguiu se generalizar e construir a necessária solidariedade para travar uma luta enquanto classe, o que poderia acontecer se o “Programa de Manutenção de Emprego e dos Salários” fosse transformado em alvo da ação coletiva.

Tirante esta limitação, foi um passo importante neste rumo. Por isso nós temos de nos perguntar quais são os ensinamentos da paralisação da Renault, tanto para os operários da fábrica como para o conjunto classe operária no Brasil, neste momento em que ameaças aos que estão empregados persistem ao lado do desemprego crescente de outras parcelas, inclusive nas montadoras, com automação e robotização das plantas. O número de desempregados no setor deve alcançar 6.000 trabalhadores até o momento, podendo alcançar 10.000 em breve se as demissões na General Motors forem implementadas.

O que nos propomos nesta Nota é tomar em consideração o sentimento coletivo expresso na resistência à exploração – tal como se expressou nos comentários registrados nos meios de comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba – para fazer uma baliza, para demarcar uma orientação possível a seguir na perspectiva de classe, compreendida para além dos limites de uma empresa ou mesmo uma categoria específica de trabalhadores. [1]

Assim, vale inicialmente perguntar:

O que foi aprovado na assembleia que terminou a greve?

Os metalúrgicos da Renault aprovaram, por votação eletrônica após assembleia, a proposta negociada entre o sindicato e a empresa em São José dos Pinhais.

Em primeiro lugar a readmissão dos 747 metalúrgicos que permanecerão afastados, recebendo salário normalmente, até dia 20 de agosto, quando termina o Plano de Demissão Voluntária (PDV) aberto pela Renault. Os trabalhadores do grupo dos demitidos que não entrarem no PDV e nem retornarem para a fábrica serão colocados em “layoff” por prazo inicial de cinco meses. O retorno dos demais trabalhadores ao expediente normal a partir de 12 de agosto inclui, contudo, um “pacote” que contempla a data-base, a terceirização de atividades produtivas com redução de 15% no piso salarial, a Participação em Lucros e Resultados (PLR) doravante denominada Programa de Participação de Resultados (PPR), e a possibilidade de aplicação da redução de jornada e de salário e de “layoff” [2], medidas em vigência até 2021.

Eis a declaração do presidente do SMC:

“A reintegração e o fechamento de um acordo que mantém os empregos é uma vitória dos trabalhadores que mostraram união e mobilização num momento difícil como esse. A garantia para manter os empregos tem sido a nossa maior luta atualmente. Como ficou claro, existem ferramentas que podem ajudar nesse sentido. Basta ter boa vontade para sentar e negociar. No final, a mobilização e o diálogo prevaleceram. É o que temos procurado fazer aqui no Paraná”, disse o presidente do SMC e da Federação dos Metalúrgicos do Paraná (FETIM), Sérgio Butka.

O que significa a suposta garantia de emprego alegada pelo dirigente da Força Sindical?

Nas palavras de Butka, o compromisso do sindicato é com o “emprego”. Quer dizer, com a exploração da força de trabalho “sadia” e produtiva pelo capital aparentemente em condições mais “vantajosas” para o trabalhador. Contudo, esta é a lógica do capital: descartar aqueles cujo trabalho está abaixo da produtividade exigida pela concorrência intercapitalista da qual a Renault, em aliança com a Nissan e a Mitsubishi, faz parte num ramo automobilístico composto por 20 grandes empresas-marcas mundiais (Toyota, Honda, Volkswagen, General Motors, etc.).

Assim é que os outros, ou seja, a maioria na lista dos 747 demitidos, são “improdutivos”, por estarem adoecidos, “lesionados” ou “compatíveis” ou, ainda, por serem considerados de “baixa performance”. Eles receberão vantagens financeiras adicionais se aderirem ao PDV. Em outros termos: a porta da rua, com um pequeno saco de dinheiro nas mãos para sobreviver pouco tempo.

Por outro lado, o aprofundamento da terceirização, quando a fábrica retomar o patamar de produção de 2019, vai contar com o novo salário de contratação que até a deflagração da greve ficaria 20% abaixo do piso salarial atual, mas então será de “apenas” 15%. Somente a partir de 2022 haverá aumento real, o que, entretanto, representa o agravamento da exploração absoluta da força de trabalho, ao lado da exploração relativa baseada na PLR, este um verdadeiro salário por produção.

 

O balanço da greve feita pelos operários

Um balanço da greve ainda será certamente realizado pelos próprios trabalhadores e nesta avaliação tanto a representação interna de fábrica (delegados sindicais de base) como a dos diretores sindicais que foram incluídos na demissão dos 747 trabalhadores terá um importante papel. Mas o processo de aprendizagem se faz principalmente no calor da luta, depois se sistematiza e aprofunda em busca da explicação dos processos mais amplos e dos desafios para assumir a luta num patamar mais elevado.

A luta foi organizada em torno do piquete-barraca no portão principal da fábrica, com um revezamento por turnos, ao longo dos 21 dias de paralisação. Participaram delegados e diretores do sindicato, alguns dos quais incluídos no “facão” dos #747; os trabalhadores do chão de fábrica, vindos de municípios dormitórios limítrofes, como Fazenda Rio Grande; e trabalhadores de outras empresas metalúrgicas da base sindical. Menção especial merece as companheiras dos grevistas que foram “muito guerreiras”, bem como os familiares deles.

Muitos operários descobriram a ilusão de fazerem parte da empresa enquanto “colaboradores”, uma suposta colaboração que apenas existiu enquanto foram considerados produtivos. O orgulho de vestir a camisa da empresa acabou para eles, apesar de vários puxa sacos continuarem a defender a empresa.

Muitos criticaram a posição da diretoria do sindicato por ter aceito as demissões dos 350 temporários que não foram efetivados em maio, sem mobilizar os demais para defender o emprego. Perguntaram: “que papo é esse de ‘mexeu com um mexeu com todos?” Então, com os 747 demitidos em julho, o total das demissões alcançou 1.097 trabalhadores. leia mais

Sindicato por empresa – a ameaça de um novo atrelamento ao Estado burguês

 

Ataques aos direitos dos trabalhadores continuam

 

A grave crise política, econômica e sanitária não mexeu um centímetro na disposição do governo Bolsonaro para atacar os direitos dos trabalhadores. É notório que a cada momento em que se vê ameaçado pela ação de impeachment, Bolsonaro se ancora no ministro da Economia, Paulo Guedes, um bálsamo para a burguesia por representar o seu programa econômico de consenso. Embora o Congresso viva aparentemente às turras, no jogo de pressões para arrancar vantagens do Executivo, de uma forma ou de outra, ambos acabam convergindo na agenda ultraliberal que visa o arrocho da classe trabalhadora. Toda vez que farsa de conflitos entre os poderes é amenizada pela aprovação de leis de interesse da classe dominante, os representantes do capital se apresentam em público para declarar que as instituições estão funcionando. E se as instituições burguesas estão funcionando, sem dúvida quem perde é o proletariado.

No início deste mês de julho, a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, órgão do Ministério da Economia, reuniu o grupo de especialistas organizado com a tarefa de elaborar novos projetos para mudar as leis trabalhistas [1]. Criado no ano passado, o GAET (Grupo de Altos Estudos do Trabalho) é formado por ministros, desembargadores, juízes, advogados e economistas escolhidos a dedo pelos representantes do Capital e assumiu para si a reforma da legislação. Para os trabalhadores, chamar essas medidas de reforma seria a mesma coisa que chamar urubu de meu louro. Não passam de ataques a conquistas históricas de direitos da classe, que foram arrancadas com luta, suor e sangue.

Desde que a crise econômica recrudesceu em 2013, a classe dominante vem revisando as leis que regem a relação entre capital e trabalho. De lá até o momento atual, tem sido o pior período histórico para a classe trabalhadora, com o desemprego em índices crescentes e hoje batendo recordes. Acrescentando aqueles que estão no desalento, desempregados que desistiram de procurar trabalho, a massa composta de homens e mulheres atingida pelo desemprego chega à casa dos 18,5 milhões de pessoas.[2]

Não é de espantar que o governo avance o serviço sujo de liquidação das leis trabalhistas justamente neste momento de maior fragilidade para os trabalhadores, no estilo “passar a boiada”, enquanto a maioria da população busca meios de sobreviver ao desemprego e à pandemia que já matou mais de 90 mil brasileiros. Tais medidas têm por objetivo dificultar e impedir a organização da luta dos trabalhadores contra a intensificação da exploração capitalista de forma relativa e absoluta, seja através da redução de salários, do aumento da jornada de trabalho ou ainda da redução de salários e de jornada para “manutenção” do emprego. [3]

 

O centro da questão

Após a sua formulação, essas novas medidas ganharão forma de Projeto de Lei e em seguida o Congresso ainda deve apreciá-las e votar. Uma vez nas mãos do Congresso, não há de se ter a menor ilusão quanto ao resguardo dos interesses do Capital pelos ilustres parlamentares, que em sua maioria chegaram lá pela força do voto conquistado graças ao poder econômico.

Entre as medidas estudadas pelo GAET, a que mais nos chama a atenção é a proposta chamada de “liberdade sindical plena”. Este engodo passa pela criação de sindicatos por empresas, que favorece o controle e manipulação da representação dos trabalhadores, aprofundando a fragmentação e dificultando as ações comuns entre o conjunto dos trabalhadores.

A proposta de sindicato por empresa se espelha no sindicalismo norte-americano, onde a implantação dos chamados locals reduziu enormemente a força de reivindicação do conjunto da classe trabalhadora frente à classe patronal e seu governo. O resultado lá foi um enfraquecimento da luta sindical e consequente poder de barganha, com achatamento de salários e perda de direitos, além de uma redução drástica de trabalhadores americanos sindicalizados, a menos de 7% no setor privado e em cerca 10,7% no setor público.

Outro ponto cogitado pelo GAET é acabar com a unicidade sindical, quando uma única entidade de trabalhadores a representa por base territorial: município, uma região, estado ou país. Ao contrário do que parece à primeira vista, essa medida não tem efeito de conferir liberdade de organização aos trabalhadores. O sentido é de conferir ampla liberdade para empresa enquadrar os contratos de trabalho de modo individual ou pelo acordo coletivo que estabelece menores salários e direitos, uma prática recorrente com a terceirização. Trata-se também de uma medida para responder iniciativas sindicais dos trabalhadores que confrontam a organização por categoria profissional como atualmente em curso na indústria do petróleo. Portanto, tudo que os patrões querem é justamente impor a disciplina de controle patronal no chão de fábrica e combater as ações sindicais  dos trabalhadores na perspectiva da luta do conjunto da classe.[4]

Os tecnocratas também pretendem acabar com o registro sindical. Não é bem isso que o governo sinaliza com a publicação recente da Portaria 17.593 de 24/07/2020 que transferiu o registro sindical do Ministério da Justiça para o Ministério da Economia [5], mais diretamente sintonizado com a classe patronal e capitaneado por um banqueiro. Nessa ampla engenharia política dos patrões na legislação trabalhista, o fim do registro sindical teria como efeito o aumento da competição entre as diferentes correntes de representação sindical. Porém, se caberá aos patrões a regulação sobre como e onde os trabalhadores podem se organizar, o fim do registro sindical estaria longe de significar sindicatos livres do atrelamento pelo Estado, uma vez que o sindicato por empresa passa a ser o novo e poderoso grilhão que fragmenta a luta do conjunto da classe. [6]

O esboço do GAET almeja sancionar a transferência do controle direto e manipulação da representação dos trabalhadores para cada capitalista individual. O Estado burguês não se afasta inteiramente, pois ele é quem sancionará as medidas. Além disso, desde a CF, a Justiça do Trabalho e outras permanecem e permanecerão na tutela dos sindicatos.

Pretende converter em lei geral o que é hegemônico em alguns setores na prática patronal e de sindicatos de trabalhadores. Ou seja, o sindicato por empresa é prática comum há muitos anos em determinados setores.

Vejamos então:

Desde os anos 1990, um conjunto de medidas legais e por acordo entre capital e trabalho (por exemplo, a PLR e o banco de horas) em importantes setores econômicos, notadamente na indústria, estabeleceu a empresa como lócus da negociação. Progressivamente a negociação passou da categoria ao setor e, em seguida, do setor a empresa. Os dois casos ilustrativos desse processo são o do “sindicalismo de resultados”, dos metalúrgicos de São Paulo pela Força Sindical e também o do “sindicalismo propositivo”, dos metalúrgicos do ABC pela CUT. Em ambos os casos, a prática sindical prioriza a negociação por empresa com prevalência desta sobre a lei, princípio incorporado à reforma trabalhista.

Igualmente, agora, as medidas esboçadas pelo GAET para uma “reforma sindical” pretendem transformar em lei de caráter geral o que se encontra na prática hegemônico dos patrões e desse sindicalismo. O ataque central vislumbrado pelos capitalistas como classe (Estado burguês) está dirigido ao conjunto mas, não tenhamos dúvida, especialmente aos sindicatos que resistem e buscam ampliar sua ação para a categoria e especialmente desta para o conjunto dos trabalhadores, como é o caso da Intersindical, Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora e de outros.

A fúria reacionária não para por aí. Outra frente de ofensiva do capital é a chamada “reforma tributária” que está sendo preparada pelo mesmo Ministério da Economia em “diálogo” com o Congresso Nacional: o governo Bolsonaro pretende unificar e simplificar os diferentes impostos (PIS, Confins. ICMS, ISS) por um imposto sobre “transações digitais”, considerado como uma “nova CPFM”, em troca da desoneração da contribuição patronal de 20% sobre a folha de salários, que sustenta a Previdência Social. Outra mordida que a burguesia pretende dar no bolso do trabalhador é no Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, o FGTS. A contribuição ao FGTS paga pelos empresários sobre salários dos empregados passaria dos atuais 8% para 6%. Logo, o trabalhador receberia menos 25%, aliviando a parte do patrão! É um assalto tão descarado que nem precisa do tradicional anúncio de mãos ao alto! [7]. Em tempos de crise, esta é a diretriz primeira com a qual os capitalistas fazem a sua reforma tributária: como diz a letra de um velho samba de Bezerra da Silva,

Se a farinha pouca,
Meu pirão primeiro,
Este é um velho ditado,
Do tempo do cativeiro.

Embora o ataque aos direitos da classe trabalhadora esteja neste horizonte mais visível, é preciso distinguir entre o que é “lei trabalhista escrita” e a “lei trabalhista real”. Esta última é escrita na luta diária dos trabalhadores contra a exploração. É na luta que se forja o grau de consciência e organização de classe em oposição ao capital. É na luta que os trabalhadores podem mudar a correlação de forças em direção a novas conquistas e romper com as artimanhas legais dos patrões e seu Estado. Nenhuma lei por si só obtém a trégua dos trabalhadores contra a opressão do capital.

 

Notas sobre a Pandemia

Não bastasse a recente intensificação da exploração e da miséria dos trabalhadores, a pandemia demonstra que a luta de classes está presente em qualquer lugar, mesmo se tratando de ter acesso aos meios de proteção contra o terrível coronavírus.

Os moradores da Rocinha, a maior favela do país, situada na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro, com uma população estimada em 120.000 habitantes, enfrentam falta d’água em meio à pandemia. [8]

O desabastecimento d’água vem afetando os moradores da favela há oito dias, desde a publicação da matéria pelos jornais, no dia 22/07/2020. Os técnicos da companhia de saneamento alegam ter dificuldades de encontrar o vazamento. [9] O presidente da Associação de Moradores, Wallace Pereira, denunciou através de vídeos em redes sociais os buracos abertos pelos funcionários da companhia em vias importantes do bairro, sem encontrar o problema no abastecimento. A urbanização e o saneamento já foram vãs promessas de muitos carnavais atrás. A burguesia carioca e do país prefere alocar investimentos em sistemáticas ações policiais que, a pretexto de combater o tráfico, vem produzindo vítimas fatais entre trabalhadores e seus familiares e, como efeito prático, abre o caminho nas comunidades para outro tipo de opressão, a das milícias, já incrustradas em todo aparelho do Estado.

Mas os bravos moradores da comunidade da Rocinha resistem.  Passando por toda sorte de adversidades materiais, a epidemia já matou 62 pessoas na favela e contabilizava 308 casos em 23 de julho de 2020, segundo os seus próprios moradores [10]. Porém, a contabilidade oficial da Prefeitura na mesma data só reconhece 48 mortes e 271 infectados [11].

Para o governo, essas mortes não contabilizadas permitem vender publicamente uma realidade sanitária diferente, vamos dizer assim, mais cor de rosa e menos onerosa aos cofres públicos com os moradores das favelas, deixando de lhes prover os meios básicos necessários para amenizar o contágio e a doença.

Para enfrentar essa manobra contábil do quadro de saúde, ou, quem sabe, uma “pedalada sanitária”, como a chamariam cinicamente os articulistas preferidos pela burguesia, moradores de diversas favelas organizados em coletivos começaram a realizar sua própria contagem e lançaram o Painel Unificador Covid-19 nas Favelas do Rio de Janeiro [12]. O grupo possui o apoio técnico de centros de epidemiologia ligados a uma universidade pública e contabiliza 751 óbitos em 36 comunidades do Rio. O número de casos chega a 5.410 desde o início da pandemia. O levantamento feito pelos coletivos considera a autodeclaração dos sintomas da doença. Parte do princípio da medicina baseado em evidência, confirmando a Covid-19 na presença dos sintomas característicos dessa doença. Em meio à pandemia, a perda de paladar e olfato, cefaleia, febre e falta de ar são Covid-19, até prova em contrário. Da mesma forma que a prefeitura vem omitindo os casos da doença, as mortes classificadas como SARG também escamoteiam o diagnóstico provável da Covid-19 como causa de óbito [13].

O Painel Unificador Covid-19 nas Favelas informa que o Complexo do Alemão contabiliza 37 óbitos e 339 casos confirmados da doença. Nos dados da prefeitura, o local tem três mortes e dez ocorrências da doença.

O Complexo do Jacaré já contou 41 mortes e 330 casos de Covid-19 confirmados. A Cidade de Deus tem 50 óbitos e 244 casos; Manguinhos, 49 óbitos e 207 casos confirmados; e Gardênia Azul, 33 óbitos e 195 confirmações. Na Vila Kennedy, são 34 óbitos e 192 casos.

Essa atitude independente dos moradores nas favelas do Rio de Janeiro de buscar fontes alternativas de informação sobre o que realmente vem acontecendo na saúde dos moradores dos bairros populares. Demonstra também que os trabalhadores percebem a necessidade se organizar para defender seus próprios interesses, agindo em autodefesa para enfrentar governantes descomprometidos com a assistência à saúde e até com a realidade dos fatos.

CVM, 08/08/2020

Referências:

[1] Governo retoma reforma trabalhista em meio a crise do coronavírus – Folha de São Paulo, 08/07/2020 – https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/07/governo-retoma-reforma-trabalhista-em-meio-a-crise-do-coronavirus.shtml;

[2] 8,9 milhões perderam o emprego no 2º tri, no pico da pandemia, diz IBGE… – UOL, 06/08/2020https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2020/08/06/pnad-continua-desemprego-ibge.htm;

[3] As novidades da Lei 14.020 em relação à MP 936, Conjur, 07/07/2020https://www.conjur.com.br/2020-jul-07/cni-novidades-lei-14020-relacao-mp-936. Ver também a Lei Nº 14.020, que institui o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda – DOU 06/07/2020 – https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.020-de-6-de-julho-de-2020-265386938?fbclid=IwAR0jayM_OWGVT1g0-kvs3kNmMYwt6WuATD6BORq49Yc17dypWqVJoQlBu3Y;

[4] Petroleiros terceirizados pedem demissão em massa na refinaria de Cubatão – SindiPetro LP, 27/01/2020 – http://www.sindipetrolp.org.br/noticias/27186/petroleiros-terceirizados-pedem-demissao-em-massa-na-refinaria-de-cubatao;

[5] Portaria 17.593: entenda as mudanças no registro sindical – DIAP 28 Julho 2020 – http://www.diap.org.br/index.php/noticias/agencia-diap/89948-entenda-as-mudancas-no-registro-sindical-promovida-pela-portaria-17-593-2020;

[6] Nota da Redação: sobre os ataques aos direitos trabalhistas, leia o Fatos & Crítica nº 14: ofensiva patronal – CVM de 19/08/2017 – http://centrovictormeyer.org.br/fatos-critica-14-ofensiva-patronal/;

[7] Governo avalia reduzir de 8% para 6% contribuição sobre salário do trabalhador para o FGTS – O Globo, 04/08/2020 – https://oglobo.globo.com/economia/governo-avalia-reduzir-de-8-para-6-contribuicao-sobre-salario-do-trabalhador-para-fgts-24566773#:~:text=BRAS%C3%8DLIA%20%2D%20O%20governo%20estuda%20reduzir,tributo%20nos%20moldes%20da%20CPMF.;

[8] Moradores da Rocinha enfrentam falta d’água em meio à pandemia da Covid-19, que já matou 62 pessoas na favela – O Globo, 22/07/2020 – https://oglobo.globo.com/rio/moradores-da-rocinha-enfrentam-falta-dagua-em-meio-pandemia-da-covid-19-que-ja-matou-62-pessoas-na-favela-1-24545415;

[9] Nota da Redação: só em 26/07/2020 a companhia restabeleceu a normalidade no fornecimento d’água na comunidade – https://www.cedae.com.br/Noticias/detalhe/cedae-conclui-reparo-na-rocinha/id/573.
Entretanto, em 07/08/2020 obtivemos informações de uma moradora da Rocinha que a água é fornecida dia sim, dia não;

[10] Favelas contestam dados oficiais de mortes pelo coronavírus em comunidades do Rio e criam painel próprio – O Globo23 de julho de 2020 – https://br.noticias.yahoo.com/favelas-contestam-dados-oficiais-mortes-073005264.html;

[11] Painel Rio COVID-19 – https://experience.arcgis.com/experience/38efc69787a346959c931568bd9e2cc4/;

[12] Painel Unificador Covid-19 nas Favelas do Rio de Janeirohttps://experience.arcgis.com/experience/8b055bf091b742bca021221e8ca73cd7/

[13] Subnotificação: Boletim aponta 26 mil óbitos por causas respiratórias “indeterminadas” – Esquerda Diário, 02/07/2020 – https://www.esquerdadiario.com.br/SUBNOTIFICACAO-Boletim-aponta-26-mil-obitos-por-causas-respiratorias-indeterminadas.

Trabalhadores da Renault continuam em greve !! A luta continua !

A exemplo dos trabalhadores da NISSAN BARCELONA (leia aqui) que impediram o fechamento da fábrica e garantiram a manutenção dos empregos até o final de 2021, em assembleia a peãozada decide manter a greve até que haja garantia do emprego.

Mesmo com a decisão judicial de reintegração dos 741 operários demitidos, a peãozada demonstra que é preciso ir mais além e depende mais da luta do que o tapetão, sempre mais inclinado para o patrão. Sem garantia no emprego, máquinas paradas ! 

 

Deu no Paraná Portal de 07/08/2020:

Trabalhadores da montadora Renault, em São José dos Pinhais, decidiram continuam com a greve até que a empresa aceite atender a segunda reivindicação da categoria: negociar um acordo que garanta a manutenção dos empregos. Na última quarta-feira (5), a juíza Sandra Mara de Oliveira determinou a reintegração dos trabalhadores que foram dispensados no dia 21 de julho.

 

Na tarde desta quinta-feira (6), houve assembleia com os trabalhadores reintegrados pela empresa, que optaram em continuar com a paralisação. “A decisão judicial que determinou a reintegração dos trabalhadores foi um primeiro passo alcançado. Agora esperamos o bom senso por parte da empresa para sentarmos e negociarmos um acordo que garanta os empregos. Precisamos dessa garantia. Não tem como encerrarmos a greve sem nada acordado”, disse o presidente do SMC (Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba), Sérgio Butka.

 

O sindicato quer negociar o acordo temendo demissões futuras. “Esperamos maturidade por parte da Renault. Queremos negociar uma situação que fique razoável tanto para os trabalhadores como para empresa”, concluiu Butka.

 

JUSTIÇA MANDA RENAULT REINTEGRAR 747 TRABALHADORES NO PARANÁ

 

Segundo a decisão da juíza, a Renault não respeitou um acordo firmado com o MPT (Ministério Público do Trabalho) de negociar as demissões em massa com a entidade sindical que representa os trabalhadores. “Desse modo, tem-se por configurada a inconstitucionalidade de dispensas coletivas sem prévia negociação coletiva”, explica a decisão.

Além disso, a juíza apontou que os trabalhadores da fábrica da Renault em São José dos Pinhais foram demitidos em período de pandemia e, com isso, foram expostos ao desemprego involuntário, “ficando sem renda e estando impossibilitado de procurar nova colocação no mercado de trabalho, em decorrência das medidas de distanciamento social”.

 

“Declara-se a nulidade das 747 dispensas, determinando-se a reintegração dos  trabalhadores dispensados na data de 21 de julho de 2020, sob pena de multa diária no valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais), nos termos do art. 297 e 536 do CPC”, diz o texto da decisão da juíza Sandra Mara de Oliveira Dias.

Uma audiência virtual de conciliação foi marcada para o dia 13 de agosto, próxima quinta-feira, às 10h. A Renault afirmou que irá recorrer da decisão da 3ª Vara do Trabalho de São José dos Pinhais.

OPERÁRIOS EM GREVE NA RENAULT CONTRA O FACÃO!

em O Corneta de 05.08.2020 

 

Os trabalhadores de São José dos Pinhais, no Paraná, decidiram dar um basta em tanto descaso depois do anúncio de novas 747 demissões, iniciando a greve no dia 21 de julho. Um operário da Renault que foi demitido, do setor de montagem, terceiro turno,  atendeu o Corneta e respondeu nossas perguntas.

 

Nos conte como é ser demitido em meio a pandemia:

“É… Em primeiro lugar mesmo, pessoal, tá feio, ainda bem que eu levo sorte aqui, minha mulher tá trabalhando, né? Mas se não fosse, agora eu tava passando dificuldade, entendeu?”

“é complicado, como está a atual situação do mercado de trabalho, por causa dessa pandemia fechou tudo […] nós estamos jogados”

E o que vc acha dos patrões tarem lucrando em cima da nossa desgraça? Tem demitidos em todo canto… Como fica o sustento da sua família?

“É nisso que eu fico ligado. Eu vi recentemente uma pesquisa aí que os mais ricos tão ficando cada vez mais ricos, aí o que eles estão querendo fazer, redução de custos justamente nessa época da pandemia. Injustificável.”

E como era o regime de trabalho dentro da Renault? Tava muito puxado, rolava muito assédio?

“Ah, lá dentro é pauleira, é bem puxado, nós fazemos um carro por minuto, a operação no carro você tem que fazer em segundos e tem diversas operações, não dá tempo nem de beber água de direito. Um galão de água do seu lado, assim, você não pode ir no banheiro também, você tem que chamar o sênior pra ir no banheiro, segurar, e a cobrança só tem quando você erra alguma operação, manda o defeito…”

O que mais chama atenção dentro da fábrica sobre como a chefia trata a peãozada?

“É o seguinte, do rodízio que nós fazia lá de posto, que dependendo do posto que você fizesse, você podia tá suscetível a doença ocupacional. Porque era muito movimento repetitivo, de ficar arqueado ou de se abaixar, e pense bem, isso no caso do terceiro turno é seis horas, o primeiro e o segundo que era oito horas de trabalho e ficar direto assim, é foda”

Como ficou o clima entre seus amigos de fábrica, como foi o anúncio das demissões. E como tá o sentimento em favor da greve?

“Ah, então, eu trabalhei segunda, no caso, né? Do dia vinte pro dia vinte e um, o terceiro turno, daí vim pra casa, foi a tarde lá pras dezessete horas, recebi o email de desligamento. E sobre os meus colegas de linha, eles tão apoiando nós, todos eles, mas eu vejo que no grupo aqui do sindicato que tem bastante operário que não quer, fica fazendo fervo, assim.”

“Ah, e sobre meu sentimento em favor da greve, é, eu torço, né? Pra que o sindicato consiga reverter as demissões em massa. Se ele conseguir vai ser uma marca histórica, porque nessa pandemia aí tá difícil, né? Mas se isso conseguir, olha, eu tiro o chapéu, né?.”

E quem ficou tem alguma reivindicação? Teve prejuízo pra quem ficou?

“Então, pra quem ficou, esses dias parados estão sendo descontados, né? O holerite deles vieram zerado esse mês e tem outra também, se o sindicato perder essa luta, ocorre que a empresa daqui dois anos vai terceirizar postos de trabalho, já tem um número X já, e também pros funcionários novos que entrar vai ter vinte e cinco por cento de redução do salário.”

Quando teve as demissões na Renault França, houve protestos de rua lá contra as demissões. Vcs ficaram sabendo? Como ficou o clima? Havia expectativa pro facão?

“Sim, isso aí eu fiquei de cara, que a Renault por causa do CEO brasileiro, eles falaram que sofreram por causa disso aí, e também outra, eles falaram que tiveram queda de vendas lá na Europa, no mundo a fora e eles fizeram uma reestruturação mundial da aliança, né? Renault, Mitsubishi e Nissan. Daí eles falaram que ia mandar quinze mil pessoas embora mundialmente, sendo dez mil na França e o restante no redor do mundo, eu acho. E nós sabíamos que ia vim pra cá, né? Mas o que eles fizeram na época de pandemia, isso é inaceitável […]”

Queria que você comentasse o que mais falta hj em dia pro trabalhador poder defender seu salário e o seu emprego

“Ah, eu acho que hoje em dia é o sindicato, né? O sindicato dos metalúrgicos de Curitiba que é forte, é o mais forte que tem aqui, né? Ele que sempre defende, briga pelo salário com a empresa. Fora isso, se não tivesse ele ia ser difícil, entendeu? Porque tem empresa aqui que não tem sindicato, e o salário é o empresário que manda e a justiça não vai fazer nada.”

Aqui em SP em 2019 teve fechamento da Ford, ameaça de fechamentos da GM. A reestruturação produtiva já acontecia antes da pandemia. Sempre rebaixando salários e criando demissões. Você pode comentar sobre isso? Como a crise da Renault tem a ver com algo que não depende da pandemia? Depende de quê? da sede de lucro dos patrões?

“A Renault aqui, antes da pandemia, nossa, tava lucrando bastante […] aqui em Curitiba. Era um dos melhores anos pra ela, chegou a ficar em quarto no mercado automobilístico em vendas, e isso foi um passo gigante pra ela, entendeu? Em relação aos outros que você falou, eu acho que é administração, né? Também uma má administração, pode ser, mas a Renault, não, a Renault tava lucrando, nossa, lucrou muito. E agora, por causa dessa reestruturação mundial aí dessa pandemia, ela tá ligando que tá perdendo também.”

E como vc acha que é possível unir empregados com desempregados?

“Ah, o sindicato tá fazendo a frente, ele que fala pras pessoas que os empregos deles também tão ameaçados, se eles ficarem […] na empresa, entendeu? E eles apoiam nós também, os que saíram, no caso, depois nós somos tudo unido, né? […] Porque se o sindicato perder, quem ficar lá também corre o risco de ser mandado embora e piorar a situação pra eles lá.”

E houve outras levas de demissão antes quando você estava lá?

“Sim, houve, desligamento das pessoas que era temporária, que tava por contrato, trezentos e cinquenta pessoas que não foram efetivadas, que foram desligadas. Tudo por causa disso também, o terceiro turno tava rodando cheio, daí aconteceu isso, a empresa foi lá e desligou trezentos e cinquenta postos que era por contrato e ficou o restante rodando e com a metade da capacidade da linha […].”

Essa demissão de 350 foi quando?

“Aconteceu de março pra abril esses desligamentos. No começo da pandemia.”

E o total de demitidos no ano é de quantos?

“Deu 1100 já. 1100 pessoas.”

Outra coisa: não foram só lesionados né, teve demissão de tudo quanto é gente, confere?

“Sim, foi desligamento de qualquer pessoa, mas a maioria era lesionado, mas teve de tudo.”

Teve algum setor mais atacado?

“Setores mais atacados foram montagem, carroceria e pintura, ou seja, mais quem trabalhava no chão de fábrica mesmo…. O RH não (risada).”

Tava vigorando lá a MP da pandemia de redução de jornada e salário?

“Então, tava funcionando sim, mas só por dois meses, a empresa não quis renovar essa MP.”

E o governo do país? Como tá avaliação dos operários e a sua sobre como o governo Bolsonaro está lidando com a economia?

“Ah, então, uma coisa que eu não concordei muito é com as mudanças que teve nas leis trabalhistas e também é o que ele pretende implantar, carteira verde amarela, eu também não concordo, fora isso eu não sei, entendeu…”

Pra finalizar… Qual a sua mensagem para os trabalhadores que estão perdendo seus empregos nesse momento. Como é que deve ser a luta pra manter o nosso ganha pão?

“Posso falar é que num pode abaixar a cabeça, né? Tem que erguer a cabeça também e bola pra frente, entendeu? Tem a vida inteira ainda, tem novos desafios, oportunidade não faltará no futuro, entendeu? É só ter fé, acreditar e esperar que tudo melhore e pra nós aqui também o sindicato fazer alguma coisa, entendeu, Até passar essa pandemia aí […].”

USADOS E DESCARTADOS! A GREVE NA RENAULT CONTINUA

 

Rádio Corneta – Episódio 39

 

Operário demitido explica a greve exemplar na montadora

 

Confira aqui:

 

 

 

Os operários da Renault em São José dos Pinhais, Paraná, decidiram dar um basta depois do anúncio de 747 demissões e estão em greve desde 21 de julho! Um operário demitido, do setor de montagem, e uma professora que integra o Movimento Mulheres em Luta (CSP CONLUTAS) conversaram com o Corneta para explicar a situação atual dos trabalhadores.

“Lá dentro é pauleira, bem puxado, nós fazemos um carro por minuto! A operação no carro você tem que fazer em segundos e tem diversas operações, não dá tempo nem de beber água direito!”

Não esqueça de responder a nossa enquete sobre desemprego! Hoje, no Brasil, mais da metade dos trabalhadores não têm trabalho. Tem algum desempregado aí na sua família? Como estão se virando? Conte para o Corneta!

Ouça a voz de quem tudo produz!