Fim do Neoliberalismo Reformista

O Fim do Neoliberalismo Reformista

Foto: Manifestantes em Chicago na luta por $15/hora de trabalho, 11 de Fevereiro de 2016  (Bob Simpson/Flickr)

Num momento de convulsão política, cabe à esquerda rejeitar as falsas escolhas oferecidas e aproveitar o descontentamento generalizado para redefinir os termos do debate.[1]

Nancy Fraser [2]

 

A eleição de Donald Trump representa uma de uma série de dramáticas manifestações políticas que juntas sinalizam um colapso da hegemonia neoliberal. Essas manifestações incluem a votação do Brexit no Reino Unido, a rejeição das reformas de Renzi[3] na Itália, a campanha de Bernie Sanders para a indicação do Partido Democrata nos Estados Unidos e o crescente apoio à Frente Nacional na França, entre outros. Embora difiram em ideologia e objetivos, esses motins eleitorais compartilham um objetivo comum: todos são rejeições da globalização corporativa, do neoliberalismo e das instituições políticas que os promoveram. Em todos os casos, os eleitores estão dizendo “Não!” à combinação letal de austeridade, livre comércio, dívida predatória e trabalho precário e mal pago que caracterizam o capitalismo financeirizado atualmente. Seus votos são uma resposta à crise estrutural dessa forma de capitalismo, que apareceu inicialmente à plena vista com o quase colapso da ordem financeira global em 2008.

Até recentemente, no entanto, a resposta principal à crise era o protesto social – dramático e vigoroso, com certeza, mas em grande parte efêmero. Os sistemas políticos, ao contrário, pareciam relativamente imunes, ainda controlados pelos funcionários de partidos e pelas elites do establishment, pelo menos em estados capitalistas poderosos como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha. Agora, no entanto, ondas de choque eleitorais reverberam em todo o mundo, inclusive nas cidadelas das finanças globais. Aqueles que votaram em Trump, como aqueles que votaram no Brexit e contra as reformas italianas, levantaram-se contra seus senhores políticos. Empinando o nariz para os partidos do establishment, eles repudiaram o sistema que erodiu suas condições de vida nos últimos trinta anos. Que eles tenham feito isso não é surpresa, mas sim porque eles demoraram tanto.

Entretanto, a vitória de Trump não é apenas uma revolta contra as finanças globais. O que seus eleitores rejeitaram não foi o neoliberalismo tout court, mas o neoliberalismo reformista. Isso pode soar para alguns como um paradoxo, mas é um alinhamento político real, embora perverso, que detém a chave para entender os resultados das eleições nos EUA e talvez alguns desenvolvimentos em outros lugares também. Em sua forma norte-americana, o neoliberalismo reformista é uma aliança das principais correntes de novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBT), de um lado, e setores comerciais “simbólicos” e por outro de serviços de ponta (Wall Street, Vale do Silício e Hollywood). Nesta aliança, as forças reformistas estão efetivamente unidas às forças reconhecidas do capitalismo, especialmente à financeirização. No entanto, inadvertidamente, o primeiro empresta seu carisma ao segundo. Ideais como a diversidade e o empoderamento, que poderiam, em princípio, ter objetivos diferentes, agora refletem políticas que devastaram a indústria e o que antes eram vidas de classe média.

O neoliberalismo reformista se desenvolveu nos Estados Unidos nas últimas três décadas e foi ratificado com a eleição de Bill Clinton em 1992. Clinton foi o principal engenheiro e porta-estandarte dos “Novos Democratas”, o equivalente americano do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair. No lugar da coalizão do New Deal entre operários sindicalizados, afro-americanos e as classes médias urbanas, ele forjou uma nova aliança de empreendedores, suburbanos, novos movimentos sociais e jovens, proclamando sua boa-fé moderna e progressista ao abraçar a diversidade e o multiculturalismo, e os direitos das mulheres. Mesmo endossando tais noções progressistas, o governo Clinton cortejou Wall Street. Transferindo a economia para a Goldman Sachs, ela desregulamentou o sistema bancário e negociou os acordos de livre comércio que aceleraram a desindustrialização. O que caiu no esquecimento foi o Rust Belt[4] (Cinturão da Ferrugem) – outrora a fortaleza da democracia social do New Deal, e agora a região que entregou o colégio eleitoral a Donald Trump. Aquela região, junto com os centros industriais mais novos do Sul, sofreu um grande impacto à medida que a financeirização descontrolada se desdobrou ao longo das duas últimas décadas. Mantida por seus sucessores, incluindo Barack Obama, as políticas de Clinton degradaram as condições de vida de todos os trabalhadores, especialmente aqueles empregados na produção industrial. Em suma, o Clintonismo[5] tem uma grande parcela de responsabilidade pelo enfraquecimento dos sindicatos, o declínio dos salários reais, a crescente precariedade do trabalho e a ascensão da família de dois assalariados[6] no lugar do finado salário familiar.

Como esse último ponto sugere, o ataque à seguridade social foi encoberto por um verniz de carisma emancipatório, emprestado dos novos movimentos sociais. Ao longo dos anos, quando a indústria produzia crateras, o país falava em “diversidade”, “empoderamento” e “não discriminação”. Identificando “progresso” com meritocracia em vez de igualdade, esses termos equacionavam “emancipação” com a ascensão de uma pequena elite de mulheres “talentosas”, minorias e gays na hierarquia corporativa do tipo “o vencedor leva tudo”, ao invés da abolição desta última. Essa compreensão liberal e individualista de “progresso” substituiu gradualmente uma compreensão mais ampla, anti-hierárquica, igualitária, classista e anticapitalista da emancipação que haviam florescido nas décadas de 1960 e 1970. À medida que a Nova Esquerda diminuía, sua crítica estrutural da sociedade capitalista desapareceu, e a mentalidade liberal-individualista característica do país reafirmou-se, encolhendo imperceptivelmente as aspirações dos “progressistas” e dos autoproclamados esquerdistas. O que selou o acordo, no entanto, foi a coincidência dessa evolução com a ascensão do neoliberalismo. Um partido empenhado em liberar a economia capitalista encontrou seu parceiro perfeito em um feminismo corporativo meritocrático focado em “inclinar-se” [7]e “quebrar a barreira invisível”.

O resultado foi um “neoliberalismo reformista” que misturou ideais truncados de emancipação e formas letais de financeirização. Foi essa mistura que foi rejeitada em grande parte pelos eleitores de Trump. Destacados entre aqueles deixados para trás neste admirável mundo cosmopolita estavam trabalhadores industriais, com certeza, mas também gerentes, pequenos empresários e todos que dependiam da indústria no Rust Belt e no Sul, bem como populações rurais devastadas pelo desemprego e drogas. Para essas populações, o prejuízo da desindustrialização fora agravado pelo insulto do moralismo reformista, que rotineiramente os considerava culturalmente atrasados. Rejeitando a globalização, os eleitores de Trump também repudiam o cosmopolitismo liberal identificado a ele. Para alguns (de modo algum a todos), foi um passo curto para culpar a piora das suas condições de vida quanto ao politicamente correto, pessoas de cor, imigrantes e muçulmanos. Aos seus olhos, feministas e Wall Street eram farinha do mesmo saco, perfeitamente unidos na pessoa de Hillary Clinton.

O que possibilitou essa amálgama foi a ausência de qualquer esquerda genuína. Apesar de explosões periódicas, como Occupy Wall Street, que se revelaram de curta duração, não tem havido uma presença continuada da esquerda há várias décadas nos Estados Unidos. Tampouco existiu qualquer narrativa abrangente da esquerda que pudesse, por um lado, ligar as reivindicações legítimas dos partidários de Trump com uma crítica sólida da financeirização, e por outro com uma visão anti-racista, anti-sexista e anti-hierárquica de emancipação. Igualmente devastador, os vínculos potenciais entre o trabalho e os novos movimentos sociais foram deixados a definhar. Separados um do outro, esses polos indispensáveis de uma esquerda viável estavam a quilômetros de distância, esperando para serem negados como oposição.

Finalmente até a notável campanha primária de Bernie Sanders, que lutou para uni-los depois de algum estímulo do Black Lives Matter[8]. Rompendo o bom senso neoliberal reinante, a sublevação de Sanders foi o paralelo do lado democrata com relação a Trump. Mesmo enquanto Trump estava derrubando o establishment republicano, Bernie ficou a um passo de derrotar o sucessor ungido por Obama, cujos apparatchiks[9] controlavam cada alavanca do poder no Partido Democrata. Entre eles, Sanders e Trump galvanizaram uma enorme maioria dos eleitores americanos. Mas apenas o populismo reacionário de Trump sobreviveu. Enquanto ele facilmente derrotou seus rivais republicanos, incluindo aqueles favorecidos pelos grandes doadores e chefes do partido, a insurreição de Sanders foi efetivamente enquadrada por um Partido Democrata muito menos democrático. Na época da eleição geral, a alternativa da esquerda havia sido suprimida. O que restou foi o “se só tem tu, vai tu mesmo”[10] entre o populismo reacionário e o neoliberalismo reformista. Quando a pretensa esquerda cerrou fileiras com Hillary Clinton, a sorte estava lançada.

No entanto, e a partir daí, essa é uma escolha que a esquerda deve recusar. Em vez de aceitar os termos que nos são apresentados pelas máquinas políticas, que se opõem à emancipação da proteção social, deveríamos trabalhar para redefini-los, aproveitando a vasta e crescente base de repulsa social contra a ordem atual. Em vez de nos aliarmos à financeirização-emancipação contra a proteção social, deveríamos construir uma nova aliança de emancipação e proteção social contra a financeirização. Neste projeto, que se baseia no de Sanders, a emancipação não significa diversificar a hierarquia corporativa, mas sim aboli-la. E prosperidade não significa aumento do valor da ação ou lucro corporativo, mas os pré-requisitos materiais de uma vida boa para todos. Esta combinação continua sendo a única resposta de princípio e vencedora na atual conjuntura.

Eu, por exemplo, não derramo lágrimas pela derrota do neoliberalismo reformista. Certamente, há muito a temer de uma administração Trump racista, anti-imigração e antiecológica. Mas não devemos lamentar nem a implosão da hegemonia neoliberal nem a quebra do controle com mão de ferro do Clintonismo sobre o Partido Democrata. A vitória de Trump marcou uma derrota para a aliança da emancipação e financeirização. Mas sua presidência não oferece resolução da crise atual, nenhuma promessa de um novo regime, nenhuma hegemonia segura. O que enfrentamos, ao contrário, é um interregno, uma situação aberta e instável em que corações e mentes estão em disputa. Nesta situação, não há apenas perigo, mas também oportunidade: a chance de construir a renovação da Nova Esquerda[11].

Se isso acontecer, dependerá em parte de uma séria busca de consciência entre os progressistas que se uniram à campanha de Clinton. Eles precisarão abandonar o mito reconfortante, mas falso, que perderam para um “bando de deploráveis” (racistas, misóginos, islamofóbicos e homofóbicos) auxiliados por Vladimir Putin e o FBI. Eles precisarão reconhecer sua própria parcela de culpa por sacrificar a causa da proteção social, bem-estar material e dignidade da classe trabalhadora a falsos entendimentos de emancipação em termos de meritocracia, diversidade e empoderamento. Eles precisarão pensar profundamente sobre como podemos transformar a economia política do capitalismo financeirizado, reviver o bordão “socialismo democrático” de Sanders e descobrir o que ele pode significar no século XXI. Eles precisarão, acima de tudo, alcançar a massa de eleitores Trump que não são nem racistas nem empenhados como direitistas, mas eles mesmos vítimas de um “sistema fraudulento” que podem e devem ser recrutados para o projeto antineoliberal de uma esquerda rejuvenescida.

Isso não significa silenciar preocupações prementes sobre racismo ou sexismo. Mas isso significa mostrar como essas antigas opressões históricas encontram novas expressões e fundamentos hoje, no capitalismo financeirizado. Refutando o pensamento falso e de soma zero que dominou a campanha eleitoral, devemos articular os danos sofridos por mulheres e pessoas de cor àqueles experimentados pelos muitos que votaram em Trump. Dessa forma, uma esquerda revitalizada poderia lançar as bases para uma nova e poderosa coalizão comprometida em lutar por todos.

Notas:


[1] Publicado em Dissent - https://www.dissentmagazine.org/online_articles/progressive-neoliberalism-reactionary-populism-nancy-fraser , em 02 de Janeiro de 2017.

[2] Nancy Fraser é professora de Filosofia e Política na The New School for Social Research, Nova York, EUA, e mais recentemente autora do livro Fortunas do feminismo: do capitalismo controlado pelo Estado à crise neoliberal (Fortunes of Feminism: From State-Managed Capitalism to Neoliberal Crisis , ed. Verso, 2013).

[3] Nota da Tradução: Matteo Renzi, Primeiro-ministro da Itália de 22 de fevereiro de 2014até 12 de dezembro de 2016, renunciando em meio a crise em torno de mudanças da lei eleitoral. Prometera “reformar o Senado para que deixe de ser um inconveniente à ingovernabilidade da Itália, construir uma nova lei eleitoral que retire dos pequenos partidos a possibilidade de bloquear a política, simplificar uma burocracia capaz de arruinar qualquer projeto. Mas, além disso, com uma linguagem direta que deixa o mais populista no chinelo, Renzi começou a vender carros oficiais, a distribuir uma ajuda de 80 euros –cerca de 240 reais– por mês aos cidadãos de rendas mais baixas em troca de diminuir os salários astronômicos dos dirigentes públicos, a ridicularizar a contribuição ao bem comum dos sindicatos, da cúpula empresarial, da RAI.” (Pablo Ordaz, El País, 23/06/2014,  https://brasil.elpais.com/brasil/2014/06/23/internacional/1403548979_022204.html)

[4] NT: O Cinturão da Ferrugem é um termo pejorativo para a região dos Estados Unidos, composto principalmente pela região do Meio-Oeste e dos Grandes Lagos, embora o termo possa ser usado para incluir qualquer local onde a indústria tenha declinado a partir de 1980.

[5] NT: Clintonismo é um termo que designa a política econômica de Bill Clinton e sua esposa Hillary Rodham Clinton, bem como a era de sua presidência nos Estados Unidos.

[6] NT: two–earner family , isto é, casais com renda dupla, ambos os cônjuges ganham para a família, sendo que um dos cônjuges o trabalho é geralmente considerado secundário.

[7] NT: Lean in traduzido aqui como “inclinar-se” fisicamente (aproximar-se) para se fazer ouvir, expressão relacionada a ascensão das mulheres numa empresa.

[8] NT: Black Lives Matter,(BLM) traduzido como As Vidas Negras Importam, movimento ativista internacional, originada na comunidade Afro-americana, contra a violência direcionada as pessoas negras. Teve início em 2013 com o uso da hashtag #BlackLivesMatter em mídias sociais, após a absolvição de George Zimmerman na morte a tiros do adolescente afro-americano Trayvon Martin.

[9] NT: Apparatchik é um termo coloquial russo que designa um funcionário em tempo integral, um agente do “aparato” governamental ou partidário que ocupa qualquer cargo de responsabilidade burocrática ou política. Atualmente o termo é utilizado para descrever pessoas que tenham sido indicadas para um determinado cargo com base em sua lealdade ideológica ou política e não por sua competência, ou até mesmo alguém que se dedica cegamente a uma causa. (adaptado da Wikipedia)

[10] NT: Hobson’s choice, a escolha de Hobson, expressão que também signiifica “é pegar ou largar”, “ou tudo ou nada”.

[11] NT: A Nova Esquerda (New Left em inglês) refere-se aos movimentos políticos de esquerda surgidos em vários países a partir da década de 1960, se diferenciando dos movimentos de esquerda anteriores, voltados para um ativismo trabalhista, adotando um ativismo social. Nos Estados Unidos, a Nova Esquerda está associada aos movimentos populares, como o Hippie, os de protesto à Guerra do Vietnã e pelos direitos civis, que visavam a acabar com a opressão de classe, gênero sexual, raça e sexualidade. Na Europa, a Nova Esquerda foi um movimento intelectualmente dirigido, que buscava corrigir os erros dos antigos partidos de esquerda no período do pós-guerra. A Nova Esquerda voltou sua atenção para a cultura ocidental, tratando de temas como raça, gênero, sexualidade e elitismo, com a proposição de que o desenvolvimento deve ocorrer antes, ou pelo menos junto ao crescimento econômico. (adaptado da Wikipedia).

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É PRECISO LUTAR CONTRA O QUE REPRESENTA A CANDIDATURA DE BOLSONARO: O AUMENTO DA VIOLÊNCIA E DA RETIRADA DE DIREITOS CONTRA A CLASSE TRABALHADORA. O VOTO É 13 SEM NENHUM APOIO AO PT

do portal da Intersindical – Instrumento de Organização e Luta da Classe Trabalhadora

O VOTO É 13 PARA SE CONTRAPOR AO FASCISMO E FORTALECER A LUTA CONTRA TODOS OS GOVERNOS QUE ATACAM DIREITOS DA CLASSE TRABALHADORA.

As saídas impostas pelo Capital para superação de mais uma de suas crises periódicas mostram que a brutalidade contra a classe trabalhadora só aumenta: milhões de desempregados, miséria, retirada de direitos, arrocho salarial, violência e morte contra os jovens e a população trabalhadora – principalmente nas periferias.

As saídas impostas pelo Capital, principalmente através do Estado, seja no Executivo, ou como no Congresso Nacional, através da PEC de congelamento dos gastos públicos em saúde, educação, segurança, assistência social; da liberação geral da terceirização, e da reforma trabalhista, que além de diminuir salários e direitos, mantém as demissões, vieram acompanhadas de uma grande crise política, muito bem aproveitada pelos detentores do poder econômico.

Quando a burguesia instalada no Brasil decidiu trocar seu gerente na máquina do Estado, além do impeachment de Dilma, o que fizeram foi mais do que liberar sua direita raivosa à ir para as ruas gritar por intervenção militar, carregaram suas armas ideológicas para submeter os trabalhadores a ver a superficialidade e estagnar tanto sua compreensão da realidade, como sua consciência de classe.

E o PT foi servil à burguesia que agora o sangra: o governo de conciliação de classes do PT durante mais de uma década, foi útil ao Capital para manter e aprofundar mecanismos que garantissem o aumento dos lucros. Na máquina do Estado administrou os interesses burgueses com várias medidas que prejudicaram os trabalhadores, como a Reforma da Previdência de 2003, medidas que atacaram direitos como: pensões, abono, seguro desemprego, entre outros. E o mais importante para burguesia foi ter um governo que conseguiu apassivar a luta dos trabalhadores como classe organizada.

A onda de ódio que se espalha pelo país parte dos trabalhadores entendendo a corrupção como principal problema que existe, e só consegue enxergar o PT como responsável disso. A maneira distorcida de ver a realidade e a ausência de conhecimento de sua própria história como classe, tem relação direta com esses anos de apassivamento das lutas como classe trabalhadora.

Tudo isso que foi patrocinado pelos instrumentos da burguesia, faz com que parte de nossa classe aponte para o rumo errado, acreditando num militar que tem saudades da ditadura bancada pela burguesia, que prendeu, torturou e matou centenas de trabalhadores.

Esse atraso na consciência de parte expressiva de nossa classe não é um problema individual, é de responsabilidade do Partido que nasceu com os Trabalhadores e de várias Organizações sindicais e de movimentos sociais que ao longo das últimas décadas abdicaram do enfrentamento contra o Capital e se submeteram a ele.

Essa é a dura e sombria realidade em que vivemos no Brasil. Os homens e mulheres que não abriram mão de seguir lutando por outra sociedade sem explorados e sem exploradores, uma sociedade de fato socialista, não podem fugir da tarefa que se coloca nesse momento. É hora de reafirmar não ao fascismo, a qualquer candidatura saudosa do regime militar, e avançar no processo de organização e luta da classe trabalhadora.

A candidatura de Jair Bolsonaro vem escancarando a tempos, mais do que seu apreço pelos ideais fascistas que se revelam nos ataques e declarações homofóbicas, racistas, machistas que estimulam o ódio e a violência, também seu caráter de classe. Seu objetivo é ter um governo composto por militares para avançar na criminalização e na violência contra as Organizações e trabalhadores que não abriram mão do enfrentamento contra o Capital. Para atender aos interesses capitalistas avançando na retirada de direitos, Bolsonaro quer impor o uso da força da repressão do Estado para a  contenção das lutas.

Junto a isso, Bolsonaro quer intensificar a discriminação e violência contra negros, indígenas, homossexuais e mulheres, e avançar contra direitos da classe trabalhadora. A burguesia que tinha escolhido Alckmin/PSDB como seu, vendo sua candidatura derreter, logo já se entusiasmou com o capitão da reserva, seja a burguesia industrial, financeira, ou agronegócio.

As posições de Bolsonaro, combinadas ao momento de medo do desemprego, do refluxo das lutas gerais da classe trabalhadora provocadas por mais de uma década de conciliação de classes fizeram das eleições de 2018, o espaço para que o que há de mais reacionário se apresente. Ancorados no medo e na indignação, vários candidatos que se elegeram para o Parlamento defendem a criminalização dos jovens pobres, a retirada de direitos, o uso da força repressiva do Estado para conter os necessários avanços para a classe trabalhadora.

Bolsonaro em todo seu percurso mostrou que quer ser o servil presidente do Capital para atacar as Organizações de luta da classe trabalhadora: disse que movimentos que lutam por terra e moradia devem ser tratados à bala, que Sindicatos dos Trabalhadores devem ser eliminados e na primeira entrevista logo após o primeiro turno, afirmou seu propósito de acabar com todos os  Ativismos existentes no país. Ou seja, seu propósito é atacar os direitos da classe trabalhadora, avançando contra suas Organizações de resistência e luta.

É preciso firmeza e coerência para enfrentar o momento em que vivemos: por tudo isso a Intersindical- Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora, nesse segundo turno das eleições de 2018, chama o voto na candidatura de Haddad/13,  negando qualquer apoio ao governo do PT, se mantendo em oposição a qualquer governo que ataque os direitos dos trabalhadores. Seguiremos em luta com a classe, com independência em relação ao Capital, seu Estado enfrentando os ataques contra o conjunto dos trabalhadores.

Reafirmamos que só as eleições não resolvem os problemas da classe trabalhadora, como também que o momento de hoje exige das Organizações da Classe Trabalhadora a tarefa de se contrapor à candidatura que representa o avanço brutal da criminalização das lutas e o retrocesso da consciência de classe.

A tarefa central segue sendo em cada local de trabalho, moradia e estudo, revelar aos trabalhadores que as reformas iniciadas por governos anteriores e aprofundadas pelo governo agonizante de Temer/MDB têm como objetivo concentrar riqueza para os capitalistas, na exata medida que aumenta a exploração e a miséria da classe trabalhadora e contra isso é preciso LUTAR.

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REDUÇÃO DE DIREITOS E SALÁRIOS, MAIS VIOLÊNCIA E MISÉRIA

Intersindical – Instrumento de Organização e Luta da Classe Trabalhadora

Quem tem que dar duro todos os dias para garantir comida, moradia e estudo vive dias muito difíceis.

Enquanto a vida das mulheres, dos jovens, do conjunto dos trabalhadores está cada vez mais difícil, para os empresários, os lucros voltam a crescer na exata medida que eles aumentam as demissões, retiram direitos e diminuem os salários. Conseguiram isso com sua reforma trabalhista que foi aprovada pelo governo Temer e pela maioria dos deputados e senadores que estão em Brasília.

A miséria aumenta, as mortes nas periferias também, sendo que a maior parte por causa da repressão da Polícia Militar. E depois do congelamento dos gastos do Estado, o que já estava muito ruim na saúde e na educação piorou. Pessoas vão para os hospitais e não conseguem atendimento e nas escolas até merenda falta.

Coisas que você talvez não saiba ou não consegue acreditar, mas são a pura verdade.

Em momentos tão difíceis como esse, aparecem aqueles que se utilizam do seu sofrimento, da sua revolta para se aproveitar. Mentem descaradamente e se comportam como salvadores da pátria, mas na realidade o que querem é apenas seu voto, te passar a perna para piorar o que já está muito ruim.

Abra bem os olhos e enxergue o que o tal salvador da pátria na realidade defende:

– Os patrões e seus governos tentaram apagar a história dos trabalhadores no Brasil, para que você não enxergue que os direitos que temos hoje foram conquistados através de muita luta. Os direitos como 13֩ salário, férias, licença maternidade não caíram do céu, muita gente deu a vida para garantir esses direitos.

Bolsonaro candidato a presidente pelo PSL já disse que vai reduzir direitos, ele defende a informalidade dos contratos de trabalho, ou seja, trabalhar recebendo menos e sem nenhum direito. Não é só o vice dele, o general da reserva Hamilton Mourão que defende o fim de direitos, como o 13֩ e o 1/3 das férias, o próprio Bolsonaro já disse para os empresários que se ele for presidente vai acabar com os direitos para garantir vida boa para os patrões. E agora nas vésperas da eleição, ele mente descaradamente, dizendo que não vai mexer em direitos, tudo isso para enganar os trabalhadores.

– Ele se aproveita da religião de cada um, para atacar mulheres e homossexuais, se dizendo um defensor da moral e dos bons costumes. Para Bolsonaro, mulher tem que receber menos que os homens e para ele, a licença maternidade é um problema. Ou seja, esse cara está dizendo que sua mãe, sua filha, sua companheira são seres inferiores que não devem ter igualdade de direitos. Esse cara, diz que homossexuais têm que ser tratados na porrada e morrer. Se ele foi capaz de dizer que preferia que um filho homossexual morresse, imagina o que ele faria se fosse presidente, com os filhos e filhas homossexuais dos outros?

– Bolsonaro defende a ditatura militar, uma forma de governo que prendeu e matou muitos trabalhadores. Os militares fizeram isso para que os patrões conseguissem reduzir direitos e diminuir ainda mais os salários dos trabalhadores. Quem Bolsonaro chama de vagabundo e terrorista que mereciam morrer, eram pais, mães, jovens trabalhadores que lutaram para que tivéssemos os direitos que temos hoje.

Não desrespeite sua inteligência: esse cara que diz que vai fazer e acontecer, votou a favor da reforma trabalhista dos patrões que acaba com os direitos, votou para que não vá nenhum centavo para saúde e educação, ele que diz que defende a liberação das armas, na realidade vai armar ainda mais quem já mata os jovens, negros e trabalhadores na periferia.

Bolsonaro, zomba e tenta enganar quem mais sofre com a situação de desemprego, arrocho salarial e péssimas condições de vida e trabalho.

Então se respeite e respeite os seus. Nesse dia 07 de outubro, não dê seu voto para quem vai atirar contra você, abra bem os olhos e enxergue que com Bolsonaro, o que já está ruim, vai ficar pior e que não tem outro caminho que não seja se mexer, se colocar em luta pois só assim vamos conseguir melhores condições de vida e trabalho.

 

 

 

 

 

 

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Fatos & Crítica nº 18: Faca, fuzis e a resposta dos trabalhadores no presente cenário eleitoral

A faca que feriu o candidato da extrema-direita Bolsonaro, provocou consequências políticas. Excluindo-se o próprio esfaqueado, a primeira vítima do mal esclarecido incidente foi a propaganda eleitoral do candidato favorito da burguesia e membro da Opus Dei, Geraldo Alckmin, que tinha como alvo de suas críticas a retórica violenta do militar. Tendo que arquivar essa propaganda e centrar o discurso nas suas realizações como administrador, o político do PSDB vem assistindo à desidratação da sua candidatura nas pesquisas eleitorais, apesar do enorme tempo que tem na propaganda gratuita na televisão.

Outros candidatos puros-sangues da burguesia, como João Amoêdo (ex-vice-presidente do Unibanco), Henrique Meirelles (ex-presidente do Bank Boston) e Álvaro Dias, jamais decolaram na campanha, pois o seu discurso liberal não atrai mais do que uma pequena faixa do eleitorado, aquela situada no ápice da pirâmide social, enquanto o discurso raivoso antipetista e antiesquerdista já tem um dono inequívoco: o militar que sofreu o atentado. A proposta de resolver os problemas do país a bala continua sendo a principal bandeira do capitão e, para não deixar margens para dúvidas, deixou-se fotografar no leito do hospital simulando o porte de um fuzil, colocando em risco uma eventual simpatia que o atentado pudesse ter-lhe produzido junto ao público em geral.

O capitão-candidato tem como companheiro de chapa um general reformado que também tem ideias racistas, admira torturador da época da ditadura e defende abertamente um golpe militar em caso de necessidade, a critério das Forças Armadas. O General Mourão, presidente do Clube Militar, aventa também a possibilidade de um “autogolpe”, quando é o próprio presidente eleito que executa a medida, sinalizando para uma das possibilidades que teria um governo liderado por Bolsonaro, em caso de dificuldades institucionais.

Agindo com desenvoltura após o atentado, o que vem preocupando até o líder da chapa, que vê a sua liderança ameaçada, o general vem expondo abertamente o que passa por sua cabeça – e certamente pela de outros militares – chegando mesmo a propor uma nova Constituição, elaborada por não eleitos, que seria a consequência natural de um golpe militar.

As ameaças não se restringem, entretanto, aos desdobramentos de um eventual governo Bolsonaro. O capitão já exercita desde agora um discurso de denúncia de fraude eleitoral, pela utilização do voto eletrônico que, no seu entender, seria passível de manipulação. Rosa Weber, Presidente do Tribunal Superior Eleitoral rebateu a crítica e o Ministro Dias Toffoli a ridicularizou, mas o capitão já pavimentou o seu caminho, em caso de derrota eleitoral.

E como se isso não bastasse, a faca que feriu o candidato produziu também manifestações ainda mais preocupantes, pois provêm de um militar na ativa, mais precisamente do atual Comandante do Exército, o General Villas Bôas, que externou suas preocupações com a ingovernabilidade que afetaria o próximo Presidente e com a legitimidade das eleições após o atentado, por afastar da campanha um dos candidatos favoritos. Também se achou na obrigação de criticar a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU sobre a candidatura de Lula, caracterizando-a como uma “invasão da soberania nacional”.

O crescimento das preferências eleitorais pelo candidato da extrema-direita tem sua origem no descontentamento de amplos setores da pequena-burguesia com a crise econômica que se instalou no país após 2014, atribuída por eles aos governos petistas. Formada em grande parte por pequenos empresários, altos assalariados, profissionais liberais e autônomos, entre os quais se situam os caminhoneiros que produziram a recente paralisação, essa parte da pequena-burguesia partilha das ideias burguesas de superação da crise à custa do proletariado, ou seja, pela redução drástica de direitos trabalhistas e previdenciários. Que isso seja feito à força, inclusive, não lhes parece um problema, pois chegam a advogar abertamente uma intervenção militar. As manifestações xenófobas contra os venezuelanos em Roraima também são uma expressão do comportamento ao estilo fascista dessas camadas sociais.

A atual polarização eleitoral entre a extrema-direita e a centro-esquerda, deixando pouco espaço para centristas como Marina Silva e direitistas clássicos como Alckmin, deriva do fato de que não existe espaço econômico atualmente para uma política de conciliação de classes, nos moldes da que foi praticada nos governos de Lula e no primeiro mandato de Dilma.

A burguesia sabe disso, mas seus candidatos preferenciais (Alckmin, Meirelles, Álvaro Dias e João Amoêdo) foram esvaziados pela retórica antipetista agressiva de Bolsonaro. Além disso, Meirelles e Alckmin estão apoiados por partidos envolvidos em escândalos de corrupção até às raízes dos cabelos, o que desagrada à pequena-burguesia, ajudando a atraí-la para a extrema-direita.

Para a burguesia, não podendo contar com a vitória dos seus candidatos orgânicos, só lhe resta apoiar Bolsonaro, embora isso implique em risco de perda de sua dominação direta sobre o Estado, no caso de um golpe militar ou de um “autogolpe”. A presença de um representante do mercado financeiro na chapa, Paulo Guedes, não é uma garantia suficiente de que as políticas liberais, como as privatizações, serão implantadas na íntegra, considerando a trajetória errática do capitão nas votações de que participou enquanto deputado.

Após sua indicação como substituto de Lula como candidato do PT, Fernando Haddad vem experimentando um grande crescimento nas intenções de voto, de tal forma que as candidaturas de centro (Ciro Gomes e Marina Silva) estagnaram ou se esvaziam gradativamente, tudo levando a crer que o confronto final, desenhado para o segundo turno, será entre ele e Bolsonaro, com virtual empate das intenções de voto no segundo turno, conforme indicam as últimas pesquisas.

A possibilidade real de vencer as eleições com o apoio de Lula, já está induzindo Haddad a se aproximar do centro político e a sinalizar para o mercado financeiro com a indicação de economistas neoliberais, como Marcos Lisboa, para o Ministério da Fazenda. Isso indica uma repetição da situação vivida nas eleições de 2014, quando Dilma fez uma campanha com retórica à esquerda, mas, ao assumir o governo, não teve vergonha em nomear Joaquim Levy, representante do mercado financeiro, para Ministro da Fazenda. Também repete a situação que produziu a famosa “Carta aos Brasileiros”, em 2002, quando Lula prometeu a manutenção das linhas mestras da política econômica de Fernando Henrique Cardoso.

Porém, se a burguesia não tem confiança total em Bolsonaro, tem muito menos em Haddad, que a faz lembrar a “nova matriz macroeconômica”, política nacional-desenvolvimentista de caráter anticíclico, implantada por Guido Mantega. Não lhe agradam também reformas antissociais e privatizações realizadas a conta-gotas, submetidas a longas e demoradas negociações com entidades sindicais. A burguesia tem pressa e não foi por outra razão que apoiou a retirada de Dilma do poder e a sua entrega a Temer, apesar de este possuir um extenso currículo de práticas corruptas.

A burguesia deseja retomar as suas taxas de lucros e, em consequência, o crescimento econômico, com a aprovação da reforma previdenciária, a manutenção da reforma trabalhista, o corte de gastos sociais e o saque das propriedades públicas, por meio das privatizações. Uma volta do PT ao poder, mesmo com alguém de confiança do mercado financeiro conduzindo a economia, significaria para ela um retrocesso ao início do governo Dilma.

Para a pequena-burguesia, que atribui ao petismo a origem de todas as suas mazelas econômicas, seria intolerável a posse de um novo governo do PT. Essa situação poderia ensejar ações questionando a legitimidade de Haddad para assumir a Presidência, no âmbito judicial. Uma ação de improbidade administrativa contra ele foi proposta recentemente pelo Ministério Público de São Paulo e poderia ser o mote para impedir a sua posse, em caso de vitória, pois o STF já decidiu anteriormente que alguém na condição de réu não poderia assumir a Presidência da República.

Ou seja, em caso de vitória de Haddad, os ingredientes para um golpe judicial ou militar não estão fora do cenário político. Já uma vitória de Bolsonaro traria consigo a possibilidade de um “autogolpe”, em caso de falta de apoio no Congresso.

As duas possibilidades apontam para crises institucionais com desfechos imprevisíveis.

O antipetismo fomentado pela mídia burguesa para retirar Dilma do poder foi o terreno fértil no qual cresceu Bolsonaro. Agora, a extrema-direita adquiriu vida própria e passou a ser uma força política relevante no país, que se manterá ativa mesmo depois do desfecho das eleições.

Para o proletariado, os cenários que se abrem não poderiam ser piores. A escolha eleitoral estará entre um fascista que não hesitará em usar a força bruta contra os trabalhadores e um candidato de centro-esquerda com toda a tendência a se compor mais à frente com a burguesia, abrindo mão da defesa dos seus direitos sociais.

Para enfrentar a investida da extrema-direita ou um possível golpe militar, em função da radicalização política, Haddad não é uma opção com que se possa contar. Não será com conciliação e uma política de “paz e amor” que essas ameaças serão combatidas. Será necessário que os trabalhadores se defendam com a sua organização e com o instrumento mais poderoso que possuem, mas já não utilizam há muito tempo, como a greve geral.

O recente movimento espontâneo das mulheres contra Bolsonaro, que em pouco tempo congregou mais de dois milhões de participantes, mostra que em conjunturas políticas radicalizadas, avanços que necessitariam décadas são realizados em poucos dias. Atrasos no processo de organização independente dos trabalhadores podem ser recuperados de forma mais acelerada nas conjunturas de crise.

Lutar contra a reforma previdenciária, a reforma trabalhista, a lei das terceirizações e o monopólio burguês dos meios de comunicação são as questões centrais que pautam a ação dos trabalhadores nos dias de hoje. É em torno dessas bandeiras que a greve geral dos trabalhadores deve ser organizada para deter as investidas da extrema-direita e as ameaças de golpe que se apresentam no horizonte.

 

CVM 20/09/2018