Fatos & Crítica nº 19: Por que Bolsonaro ganhou as eleições?

O que parecia bastante improvável há alguns meses acabou acontecendo. O país será comandado, a partir de 2019, por um presidente de extrema-direita, eleito nas urnas. Não é um fato único no mundo, afinal países como Hungria e Polônia, e mesmo a Itália e os Estados Unidos, são comandados por gente que provém do que existe de pior no espectro político burguês.

Como foi possível que alguém intelectualmente tão limitado, com uma visão de mundo que não ultrapassa os marcos de alguém habituado a ouvir no rádio programas policiais de nível rasteiro, tenha recebido mais de 57 milhões de votos no segundo turno das eleições presidenciais?

O quadro geral

Que o capitão recebesse os votos de uma pequena-burguesia reacionária, habituada historicamente a se perfilar à direita, desde os tempos do integralismo nos anos 30, não seria nenhuma surpresa. Esses setores sempre existiram no Brasil e costumam sair de sua toca, do seu tradicional silêncio e imobilismo, quando consideram que seus interesses materiais estão sob a ameaça do proletariado, seja o perigo real ou imaginário.

O que surpreende agora é que parte significativa do próprio proletariado tenha sido atraída pela opção bolsonarista, que foi amplamente majoritária nos centros industriais do Sul e Sudeste do país. Como exemplo emblemático, São Bernardo do Campo, berço do PT, deu quase 60% dos votos válidos no segundo turno ao capitão, acima da média nacional.

Contribuíram para isso o desgaste dos 13 anos de governo do PT, abreviados abruptamente pelo impeachment de Dilma, em meio a uma crise econômica sem precedentes e escândalos de corrupção envolvendo toda a sua base política de sustentação. A mídia burguesa cuidou de atribuir a crise econômica de caráter mundial, que afetou o preço das commodities que o país exporta e deu fim aos tempos de bonança, à má condução econômica dos governos petistas. Além disso, ficaram também na conta do PT as descobertas da operação Lava-Jato, revelando fabulosos esquemas de corrupção. É como se essas práticas seculares tivessem sido inventadas pelo Partido, e não adotadas por ele por simples pragmatismo, pelo menos de início.

Se esses dois fatores não fossem suficientes para justificar os gritos de “Fora PT”, o país foi afetado pela crise do sistema de representação democrático-burguês, incapaz de dar respostas à queda do padrão de vida da população, abrindo campo (em face da desmoralização da esquerda) para uma onda direitista de caráter mundial. Essa onda foi responsável pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia, pela eleição de Trump nos Estados Unidos e pela formação de governos reacionários em diversos países.

A maré direitista, além de eleger o PT como bode expiatório dos problemas nacionais, retirou o conservadorismo dos guetos em que se escondia, permitindo a sua difusão ampliada pelas seitas evangélicas neopentecostais e pelo uso intensivo das redes sociais. A disseminação do ódio ao PT foi acompanhada pela propaganda aberta da volta da ditadura militar, pela defesa da tortura, pela apologia ao uso de violência contra os movimentos sociais, pela defesa da censura no ensino e pela oposição feroz às pautas relacionadas com as mudanças de costumes. A histeria também foi alimentada pela propaganda negativa da situação na Venezuela, cuja crise social e econômica foi atribuída às políticas da esquerda, ligando o sinal de alarme para a pequena-burguesia do país, como se um hipotético governo Haddad pudesse ir pelo mesmo caminho.

A crise econômica

Com cerca de 12,4 milhões de desempregados e um crescimento econômico pífio ou negativo desde 2014, a crise foi colocada pela imprensa burguesa na conta dos governos petistas, mesmo que eles já tivessem deixado o poder há algum tempo, com o afastamento de Dilma em maio de 2016 e o seu posterior impedimento. Além disso, desde a posse da Presidente em janeiro de 2015, a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda já indicava um abandono pelo governo do PT das tentativas infrutíferas de debelar a crise com medidas keynesianas de estímulo aos gastos públicos.

Portanto, desde o início de 2015 o capital financeiro já pôde impor sem restrições o seu programa de austeridade ao governo Dilma, com a implantação de reajuste de tarifas de energia elétrica e de combustíveis, o que provocou o aumento da inflação e dos juros e agravou ainda mais um movimento de descenso econômico cujas origens remontam à crise financeira mundial de 2008. leia mais

O Fim do Neoliberalismo Reformista

Foto: Manifestantes em Chicago na luta por $15/hora de trabalho, 11 de Fevereiro de 2016  (Bob Simpson/Flickr)

Num momento de convulsão política, cabe à esquerda rejeitar as falsas escolhas oferecidas e aproveitar o descontentamento generalizado para redefinir os termos do debate.[1]

Nancy Fraser [2]

 

A eleição de Donald Trump representa uma de uma série de dramáticas manifestações políticas que juntas sinalizam um colapso da hegemonia neoliberal. Essas manifestações incluem a votação do Brexit no Reino Unido, a rejeição das reformas de Renzi[3] na Itália, a campanha de Bernie Sanders para a indicação do Partido Democrata nos Estados Unidos e o crescente apoio à Frente Nacional na França, entre outros. Embora difiram em ideologia e objetivos, esses motins eleitorais compartilham um objetivo comum: todos são rejeições da globalização corporativa, do neoliberalismo e das instituições políticas que os promoveram. Em todos os casos, os eleitores estão dizendo “Não!” à combinação letal de austeridade, livre comércio, dívida predatória e trabalho precário e mal pago que caracterizam o capitalismo financeirizado atualmente. Seus votos são uma resposta à crise estrutural dessa forma de capitalismo, que apareceu inicialmente à plena vista com o quase colapso da ordem financeira global em 2008.

Até recentemente, no entanto, a resposta principal à crise era o protesto social – dramático e vigoroso, com certeza, mas em grande parte efêmero. Os sistemas políticos, ao contrário, pareciam relativamente imunes, ainda controlados pelos funcionários de partidos e pelas elites do establishment, pelo menos em estados capitalistas poderosos como os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha. Agora, no entanto, ondas de choque eleitorais reverberam em todo o mundo, inclusive nas cidadelas das finanças globais. Aqueles que votaram em Trump, como aqueles que votaram no Brexit e contra as reformas italianas, levantaram-se contra seus senhores políticos. Empinando o nariz para os partidos do establishment, eles repudiaram o sistema que erodiu suas condições de vida nos últimos trinta anos. Que eles tenham feito isso não é surpresa, mas sim porque eles demoraram tanto.

Entretanto, a vitória de Trump não é apenas uma revolta contra as finanças globais. O que seus eleitores rejeitaram não foi o neoliberalismo tout court, mas o neoliberalismo reformista. Isso pode soar para alguns como um paradoxo, mas é um alinhamento político real, embora perverso, que detém a chave para entender os resultados das eleições nos EUA e talvez alguns desenvolvimentos em outros lugares também. Em sua forma norte-americana, o neoliberalismo reformista é uma aliança das principais correntes de novos movimentos sociais (feminismo, antirracismo, multiculturalismo e direitos LGBT), de um lado, e setores comerciais “simbólicos” e por outro de serviços de ponta (Wall Street, Vale do Silício e Hollywood). Nesta aliança, as forças reformistas estão efetivamente unidas às forças reconhecidas do capitalismo, especialmente à financeirização. No entanto, inadvertidamente, o primeiro empresta seu carisma ao segundo. Ideais como a diversidade e o empoderamento, que poderiam, em princípio, ter objetivos diferentes, agora refletem políticas que devastaram a indústria e o que antes eram vidas de classe média.

O neoliberalismo reformista se desenvolveu nos Estados Unidos nas últimas três décadas e foi ratificado com a eleição de Bill Clinton em 1992. Clinton foi o principal engenheiro e porta-estandarte dos “Novos Democratas”, o equivalente americano do “Novo Trabalhismo” de Tony Blair. No lugar da coalizão do New Deal entre operários sindicalizados, afro-americanos e as classes médias urbanas, ele forjou uma nova aliança de empreendedores, suburbanos, novos movimentos sociais e jovens, proclamando sua boa-fé moderna e progressista ao abraçar a diversidade e o multiculturalismo, e os direitos das mulheres. Mesmo endossando tais noções progressistas, o governo Clinton cortejou Wall Street. Transferindo a economia para a Goldman Sachs, ela desregulamentou o sistema bancário e negociou os acordos de livre comércio que aceleraram a desindustrialização. O que caiu no esquecimento foi o Rust Belt[4] (Cinturão da Ferrugem) – outrora a fortaleza da democracia social do New Deal, e agora a região que entregou o colégio eleitoral a Donald Trump. Aquela região, junto com os centros industriais mais novos do Sul, sofreu um grande impacto à medida que a financeirização descontrolada se desdobrou ao longo das duas últimas décadas. Mantida por seus sucessores, incluindo Barack Obama, as políticas de Clinton degradaram as condições de vida de todos os trabalhadores, especialmente aqueles empregados na produção industrial. Em suma, o Clintonismo[5] tem uma grande parcela de responsabilidade pelo enfraquecimento dos sindicatos, o declínio dos salários reais, a crescente precariedade do trabalho e a ascensão da família de dois assalariados[6] no lugar do finado salário familiar. leia mais

É preciso lutar contra o que representa a candidatura de Bolsonaro: a aumento da violência e da retirada de direitos contra a classe trabalhadora. O voto é 13 sem nenhum apoio ao PT

do portal da Intersindical – Instrumento de Organização e Luta da Classe Trabalhadora

O VOTO É 13 PARA SE CONTRAPOR AO FASCISMO E FORTALECER A LUTA CONTRA TODOS OS GOVERNOS QUE ATACAM DIREITOS DA CLASSE TRABALHADORA.

As saídas impostas pelo Capital para superação de mais uma de suas crises periódicas mostram que a brutalidade contra a classe trabalhadora só aumenta: milhões de desempregados, miséria, retirada de direitos, arrocho salarial, violência e morte contra os jovens e a população trabalhadora – principalmente nas periferias.

As saídas impostas pelo Capital, principalmente através do Estado, seja no Executivo, ou como no Congresso Nacional, através da PEC de congelamento dos gastos públicos em saúde, educação, segurança, assistência social; da liberação geral da terceirização, e da reforma trabalhista, que além de diminuir salários e direitos, mantém as demissões, vieram acompanhadas de uma grande crise política, muito bem aproveitada pelos detentores do poder econômico.

Quando a burguesia instalada no Brasil decidiu trocar seu gerente na máquina do Estado, além do impeachment de Dilma, o que fizeram foi mais do que liberar sua direita raivosa à ir para as ruas gritar por intervenção militar, carregaram suas armas ideológicas para submeter os trabalhadores a ver a superficialidade e estagnar tanto sua compreensão da realidade, como sua consciência de classe. leia mais

Redução de direitos e salários, mais violência e miséria

Intersindical – Instrumento de Organização e Luta da Classe Trabalhadora

Quem tem que dar duro todos os dias para garantir comida, moradia e estudo vive dias muito difíceis.

Enquanto a vida das mulheres, dos jovens, do conjunto dos trabalhadores está cada vez mais difícil, para os empresários, os lucros voltam a crescer na exata medida que eles aumentam as demissões, retiram direitos e diminuem os salários. Conseguiram isso com sua reforma trabalhista que foi aprovada pelo governo Temer e pela maioria dos deputados e senadores que estão em Brasília.

A miséria aumenta, as mortes nas periferias também, sendo que a maior parte por causa da repressão da Polícia Militar. E depois do congelamento dos gastos do Estado, o que já estava muito ruim na saúde e na educação piorou. Pessoas vão para os hospitais e não conseguem atendimento e nas escolas até merenda falta. leia mais