Fatos & Crítica nº 27: Bolsonaro muda de tática?

 

 

Bolsonaro foi eleito em 2018 com 55% dos votos válidos, após vencer no segundo turno o seu oponente do PT. Sua vitória foi turbinada pela exploração ao máximo pela grande mídia e redes sociais dos escândalos de corrupção das administrações petistas, complementada por ações decisivas do Judiciário como a Operação Lava-jato e dos militares do Alto Comando do Exército para pavimentar o caminho do capitão rumo ao Palácio do Planalto.

A necessidade imperiosa da burguesia de implantar uma saída para a crise econômica à custa do aumento da exploração dos trabalhadores foi o combustível que alimentou o antipetismo, mas a grande burguesia tinha outros nomes de confiança para assumir o poder, como Henrique Meirelles e Geraldo Alckmin. Tendo-lhes faltado substância eleitoral, por se tratar de políticos tradicionais, a classe dominante como um todo não teve a menor dificuldade de apostar todas as suas fichas, no segundo turno das eleições, no candidato da extrema-direita.

A base eleitoral que elegeu Bolsonaro foi, assim, bastante ampla. Incluiu a extrema-direita, a direita, o centro e, devemos admitir, até setores do proletariado insatisfeitos com a crise econômica e com a insegurança pública.

Em termos sociais, tenderam a apoiar o bolsonarismo – da mesma maneira que fizeram no passado com Jânio Quadros, Carlos Lacerda e Fernando Collor – amplos setores da pequena-burguesia (pequenos comerciantes, caminhoneiros autônomos, militares de todos os tipos e graduações) e também do lumpemproletariado, mas nenhum desses setores sociais possui uma alternativa própria para conduzir o Estado, sendo assim facilmente hegemonizados pela ideologia e pela perspectiva do grande capital.

A nomeação do financista Paulo Guedes para Ministro da Economia, com plenos poderes, representou a garantia de que a plataforma do grande capital para a crise econômica seria seguida à risca: reforma previdenciária retirando direitos dos aposentados, aprofundamento da reforma trabalhista retirando ainda mais direitos dos trabalhadores, reforma administrativa retirando direitos dos funcionários públicos, privatizações beneficiando grandes grupos capitalistas e reforma tributária diminuindo os impostos sobre o capital.

A base política bolsonarista no Congresso após as eleições era formada essencialmente pelos famosos “três B”: representantes do aparato repressivo do estado (a bancada da bala), representantes das igrejas evangélicas neopentecostais (a bancada da Bíblia) e representantes do agronegócio (a bancada do boi), espalhados pelos mais diversos partidos da direita.

Porém, há também uma base política fora do Congresso, que deve ser considerada. Além dos grupos de militantes de extrema-direita organizados em torno das redes sociais, existem grupos paramilitares que congregam integrantes e ex-integrantes das forças de repressão e que dominam territórios urbanos, como favelas e bairros populares da zona oeste no Rio de Janeiro, e constituem a base potencial para a formação de um partido fascista.

Nenhuma força política fora do Poder Legislativo, entretanto, é mais importante para a sustentação do governo do capitão do que a dos militares. Tendo sido em grande parte os responsáveis pelas manobras pré-eleitorais que permitiram a vitória da chapa Bolsonaro-Mourão, integrantes das Forças Armadas hoje ocupam 6.157 cargos civis no Poder Executivo (contra 2.765 no final do governo Temer), sendo 342 cargos no alto escalão no Governo Federal (nada menos que 6,5% do total desses cargos, segundo recente pesquisa).

De início, Bolsonaro tentou fazer maiorias pontuais no parlamento, em torno de projetos específicos, mas não obteve bons resultados. Diante da dificuldade de implantar esse que era o seu Plano B, passou então a tentar a execução do Plano A, aquele no qual efetivamente acredita e se sente naturalmente mais à vontade para executar: o fomento de um golpe de estado com o apoio militar.

Como Jânio Quadros, que tentou o golpe da renúncia quando se sentiu sem apoio parlamentar, Bolsonaro conclamou os seus aliados militares para dissolver o STF. Ocorre, no entanto, que os militares também não constituem uma classe social com objetivos próprios. Pertencem a um segmento da pequena-burguesia formado e treinado para garantir em última instância a preservação do poder burguês e, especificamente no caso brasileiro, para a tutela permanente do poder civil.

A burguesia brasileira não considerou que estivessem configuradas as condições para a sua renúncia ao exercício direto do poder político em troca da manutenção do seu domínio social, já que este não se encontra minimamente ameaçado. Nessas circunstâncias, Bolsonaro não conseguiu convencer a cúpula militar a atravessar o Rubicão. Foi demovido da ação voluntarista por um dos generais que o cercam, com um argumento categórico: não era o momento.

 

Aliança com o Centrão

Com mais de 60 pedidos de impeachment acumulados no gabinete do presidente da Câmara, ações judiciais contra seus filhos e aliados da extrema-direita, pressionado pela gestão irresponsável das ações contra a pandemia e sem condições de virar a mesa e realizar o seu sonho de massacrar 30.000 pessoas, Bolsonaro teve que cuidar de sua blindagem no parlamento, mesmo que para isso tivesse que esquecer as críticas muito recentes ao fisiologismo dos políticos tradicionais ali abrigados.

Assim, estabeleceu-se uma aliança entre o executivo e o chamado Centrão: o capitão engolia suas críticas aos métodos corruptos de governar e, em troca, preservava o seu mandato. Os partidos e lideranças fisiológicas do parlamento, que já haviam participado da base aliada de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer, também se esqueciam das agressões do capitão, em troca de cargos e emendas parlamentares que lhe permitissem grandes lucros políticos e pecuniários. leia mais

8 de março – dia de luta da mulher trabalhadora

Andressa Fochesatto*
* Professora da rede estadual de ensino de Pernambuco, Formadora do Núcleo de Educação Popular 13 de Maio e integrante do coletivo Novo Germinal – Centro de Estudos Victor Meyer de Pernambuco.

 

É urgente e necessário retomarmos as raízes históricas do 8 de março, evocando o espírito de luta e mobilização das mulheres da classe trabalhadora do início do século XX, que inspiraram as socialistas alemãs Luise Zietz e Clara Zetkin a convocar um Dia Internacional das Mulheres da Classe Trabalhadora.

Vemos nos últimos anos uma série de greves e manifestações protagonizadas por mulheres em todo o mundo[1]​ ​ que coloca como possibilidade uma nova onda feminista combativa e classista, que rejeita a subvalorização do trabalho, tanto remunerado como não remunerado, das mulheres no capitalismo e lança os olhos para uma luta de classes feminista, internacionalista, antirracista e anticapitalista.

É principalmente sobre o trabalho das mulheres (remunerado e não remunerado) que o capitalismo se sustenta e se perpetua. Em se tratando do trabalho remunerado, nossas reivindicações vão muito além da luta por salário e jornada, ela também aborda, entre outros, o assédio e a violência sexual, assim como as barreiras à justiça reprodutiva.

No campo do trabalho não remunerado, é fundamental chamarmos a atenção para atividades das quais o capital se beneficia, mas pelas quais não paga, que possuem um papel indispensável e são majoritariamente desenvolvidos pelas mulheres. E não estamos falando apenas da criação e manutenção da vida no sentido biológico, mas também na criação da nossa capacidade de trabalhar.

Nesses termos, a base da sociedade capitalista não está ancorada apenas nas relações que diretamente exploram a força de trabalho, mas também nas relações que a geram e a repõem. O capital se vale do trabalho reprodutivo, ao mesmo tempo que renega o seu valor.

Assim, a luta de classes se amplia. Se até pouco tempo atrás era voltada exclusivamente aos locais de trabalho, hoje ela ocorre em diversos planos sociais e também gira em torno da reprodução social: por educação pública, gratuita e de qualidade; por um sistema de saúde universal; por moradia, transporte público e justiça ambiental.

A opressão que as mulheres sofrem assume diferentes formas. Sabemos que o capitalismo tem suas origens na violenta pilhagem colonial, expropriação de povos indigenas e no trabalho escravo oriundo do trafico de negros vindos da África. Vivemos numa sociedade extremamente racista e isso traz implicações para as mulheres negras e indígenas, que são as que se encontram nos piores postos de trabalho e com os menores rendimentos, sofrendo com as relações informais de trabalho ou ocupando a dianteira nos índices de desemprego. As mulheres negras são as que se encontram em maior vulnerabilidade social, são as maiores vítimas de violência[2]​ ​ e constituem a maioria das mulheres encarceradas em nosso país[3]​ ​, seus corpos são objetificados e sexualizados. As mulheres indígenas e quilombolas ainda precisam lutar contra a invisibilização, pelo direito ao território, saúde, educação e preservação da cultura e dos seus modos de vida. Nossa luta só será completa e vitoriosa se for capaz de abarcar todas as mulheres trabalhadoras numa luta que é também antirracista.

Entendemos também que deve estar no nosso horizonte o combate ao feminismo liberal – que está tão em alta na sociedade hoje, com grande espaço inclusive nas mídias profissionais. É aquele feminismo que propõe, por exemplo, mais espaço para as mulheres e cargos de chefia nas empresas, e tem uma visão de igualdade baseada no mercado. Apresenta a ideia de representatividade e empoderamento da mulher ao garantir que ela possa ter os mesmos cargos e salários que os homens. Está totalmente ancorado na meritocracia e no individualismo.
Não devemos lutar para ter as mesmas oportunidades de dominação que os homens. Muito menos incentivar mulheres a serem serviçais do capitalismo. Ao contrário: nossa luta é pelo fim desse sistema baseado na dominação e exploração da nossa classe. É uma luta anticapitalista.

Neste ano de 2021, vivemos uma crise social ampla e cruel – uma crise que é sanitária, econômica, política e ambiental – que ameaça a vida humana. O capitalismo mostra que é um sistema extremamente predatório e totalmente insustentável. Explora o trabalho assalariado, mas também explora a natureza e o trabalho não remunerado que reproduz os seres humanos e as comunidades. A crise traz consigo um momento de grande sofrimento para nossa classe, mas também é uma grande oportunidade de um despertar político e de uma transformação social profunda e de longo alcance. E nós, mulheres trabalhadoras, estaremos ombro a ombro com os demais trabalhadores nas trincheiras dessa luta, honrando aquelas que vieram antes de nós e levando a cabo a necessária revolução socialista.

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notas:

[1]https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/mulheres-turbinam-protestos-com-dois-dias-de-ato-e-greve-na-am erica-latina.shtml

[2]https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/03/08/dia-da-mulher-e-marcado-por-greve-na-espanha-e-protestos-em- varios-paises.ghtml

[3]https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2018-03/greve-e-protestos-marcam-dia-internacional-da-mulher-pelo-mundo
 

O impacto da crise do capital no mercado de trabalho global em 2020

Do blog Cem Flores 12.02.2021

Foto: Trabalhadores/as aguardam na fila para receber refeições gratuitas nos EUA. Com a explosão do desemprego em 2020, uma onda de fome se alastrou pelo país. Uma a cada quatro pessoas estão sofrendo de insegurança alimentar.

 

 

 

O ano de 2020 foi marcado por mais uma violenta crise do sistema imperialista mundial. A economia global, que em 2019 já se encaminhava para uma nova recessão, foi fortemente abalada pelos impactos da pandemia do novo coronavírus, detonador e agravante da crise. Além dos impactos imediatos, vários são seus efeitos permanentes, a aprofundar o atual estado depressivo do imperialismo e agravar suas contradições, como demonstrou o texto de Michael Roberts sobre as projeções para 2021Um desses efeitos permanentes, a ser analisado com muita atenção pelos comunistas pela sua relevância para a luta de classes, será no mercado de trabalho.

A elevação do desemprego e da miséria, a destruição de empregos e a piora no mercado de trabalho são características centrais das crises capitalistas. Como demonstrou Engels em sua genial, e gritantemente atual, análise das classes trabalhadoras na Inglaterra:

“[Nas crises] os salários caem, por causa da concorrência entre os desempregados, da redução do tempo de trabalho e da falta de vendas lucrativas; a miséria se generaliza entre os operários; as eventuais pequenas economias dos indivíduos são rapidamente devoradas; as instituições beneficentes se veem assoberbadas; o imposto para os pobres duplica, triplica e entretanto continua insuficiente; cresce o número de famintos; e de repente toda a massa da população ‘supérflua’ revela sua impressionante magnitude.

As crises acirram as contradições do sistema capitalista e modificam as condições da luta de classes. Por isso, dissemos recentemente: “as crises são também luta de classes”. A depender da organização e luta proletária, elas podem ser momentos de fortalecimento da nossa classe ou do reforço da burguesia, pela redução dos salários e aumento da exploração – construindo, assim, as bases para a recuperação das taxas de lucro e da acumulação capitalista.

Mas a intensidade e as formas dessas mudanças no mercado de trabalho a partir das crises são variadas ao longo da história e dos paísesA crise de 2020 gerou enormes impactos no mercado de trabalho e nas condições de vida das massas trabalhadoras em todo o mundo. Em alguns aspectos, impactos cuja magnitude não possui precedentes históricos.

Um panorama sobre essa devastação se encontra na sétima edição do relatório da OIT “COVID-19 e o mundo do trabalho”, lançado em 25 de janeiro. Esse relatório possui um conjunto de dados atualizados sobre a dramática situação do mercado de trabalho no mundo em 2020.

Trazemos aos/às leitores/as e camaradas alguns dados do relatório da OIT, fundamentais para compreender a situação concreta das classes trabalhadoras no mundo e as condições atuais da luta de classes, assim como fizemos no início de 2020, com o relatório da OIT sobre 2019. Começaremos com uma síntese da visão da OIT daquele ano, para compreender a situação do mercado de trabalho global pré-crise de 2020 e contextualizar os atuais impactos.

 

 

O mercado de trabalho global em 2019: enorme desemprego, informalidade e precariedade

 

Em 2019, a OIT já alertava para um mercado de trabalho global extremamente deteriorado. Para dimensionar tal deterioração, a medida clássica de desemprego era insuficiente. De acordo com essa medida, a taxa de desemprego no mundo seria de 5,4%, ou “apenas” 188 milhões de trabalhadores/as. No entanto, uma massa muito maior de trabalhadores/as estava de fato no desemprego, seja por compor a força de trabalho potencial, seja por insuficiência de horas trabalhadas, mas não era considerada nesses 5,4%. Caso se somasse esse conjunto de trabalhadores/as, compondo assim a taxa de subutilização da força de trabalho mundial, chegaríamos a 13,1%, ou 473 milhões de trabalhadores/as. Quase meio bilhão!

E dentre os/as empregados/as, 61% estavam informais, chegando a 2 bilhões de trabalhadores/as no mundo na informalidade. A OIT lembrava que a informalidade, globalmente, “registra as taxas mais altas de pobreza entre os trabalhadores e um elevado porcentual de pessoas que trabalham por conta própria ou de trabalhadores familiares auxiliares que carecem da proteção adequada”.

Mesmo o setor formal vinha em piora contínua, com um conjunto de reformas trabalhistas e elevação da automação, do trabalho parcial, intermitente, por hora. Esta foi uma das principais expressões da ofensiva burguesa após a grande crise imperialista de 2008, que trouxe mais exploração e pobreza para as classes trabalhadoras.

A OIT projetava, à época “que a escassez de postos de trabalho continue no futuro próximo. A taxa de desemprego mundial se situou em 5,4% em 2019 e não se prevê que haja variação essencial nos próximos dos anos”. Como se vê, uma projeção otimista, mesmo sem considerar a pandemia. Por fim, ela vinculava esse cenário ruim e de baixas expectativas aos protestos que, em vários países, explodiram em 2019 diante do descontentamento das massas trabalhadoras, após anos sucessivos de desemprego, arrocho e piora nas condições de trabalho. leia mais

O que virá?

Estamos perante uma disputa por protagonismo entre as forças de direita: como atuarão as forças de esquerda nesse novo cenário?

Do blog Passa Palavra21/01/2021

 

 

A falência do sistema de saúde em Manaus, com a falta generalizada de oxigênio, parece ter levado a situação brasileira a um outro estágio. A grande comoção causada pelos vídeos em direto, por depoimentos de médicos, pela necessidade de transferência de bebês prematuros, levou a uma mobilização de diferentes agentes sociais para além da simples denúncia proclamatória do absurdo. Algumas celebridades começaram a fazer campanhas de doação de cilindros, que, embora irrisórias em termos de escala, dão a ideia de que é preciso fazer algo, uma vez que o governo não faz. Ao mesmo tempo, surgiu nas redes o chamado por um panelaço, tanto pelo oxigênio quanto pela exigência da saída de Bolsonaro. Inicialmente esse chamado circulou nos meios de esquerda, que têm optado por ações do tipo desde abril do ano passado. No entanto, a circulação desse chamado ganhou muito destaque quando foi endossada pelo apresentador e aspirante a político Luciano Huck.

Isso se insere em um contexto em que o presidente aparenta estar enfraquecido interna e externamente. As eleições municipais de 2020 demonstraram um fortalecimento dos partidos de centro e um crescimento da direita, e ao mesmo tempo uma diminuição do capital político do bolsonarismo, que elegeu apenas 15 de seus 61 candidatos apoiados publicamente. A derrota de Trump e a invasão do Capitólio foram interpretadas, por parte dos gestores brasileiros, como uma profecia do que poderá vir a acontecer no Brasil, embora não tenha gerado mais que declarações públicas que sinalizam um movimento institucional. O desgaste em relação ao parlamento, que teve idas e vindas durante 2020, se agravou por conta da interferência que Bolsonaro tenta fazer na sucessão da presidência da Câmara.

Ao contrário do desgaste institucional que já se vinha sentindo no fim da gestão Trump, no Brasil as eleições de 2022 ainda estão a uma distância considerável. O Planalto se encontrava numa sensação de calmaria. Calmaria esta que parece ter se esvaído, abrindo espaço à direita não bolsonarista. Haverá fôlego daí em diante?

* * *

Do ponto de vista das relações internacionais, o Brasil colocou-se deliberadamente numa situação de isolamento, o que deverá prejudicar interesses brasileiros no exterior, a atração de investimentos estrangeiros e as relações comerciais com grandes parceiros, nomeadamente a China e os Estados Unidos pós-Trump. Contra essa tendência isolacionista, há uma posição de integração por parte de alguns governadores, em destaque para João Dória (PSDB), que conseguiu sair na frente do Governo Federal na corrida pela vacinação ao firmar uma parceria com um laboratório chinês, ignorando o desfavorecimento geopolítico da China na questão. Outros políticos, como o próprio vice-presidente Mourão e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, destoam publicamente das posições de desprestígio às parcerias econômicas e dos ataques políticos à China pela ala bolsonarista.

Ainda no plano internacional, há de se considerar o processo de recrudescimento do número de contágios e internações hospitalares devido à covid-19, obrigando os governos a aumentar as medidas restritivas por tempo indeterminado. A atual velocidade da vacinação e de produção de vacinas impõe a perspectiva de mais um ano de medidas restritivas rígidas para a diminuição dos contágios pelo coronavírus, o que pode colocar a economia global em marcha lenta (ou mesmo em marcha à ré). leia mais

Desafios da esquerda na UE

Ana Barradas

Publicado no blog bandeira vermelha em 17 de janeiro de 2021

 

 

Com a pandemia covídica a cumprir o seu curso inevitável, o ano terrível de 2020 terminou com a Europa esparvecida e paralisada pelo medo dos contágios, pelas restrições às liberdades individuais e pelos constantes confinamentos sanitários. Por cima disso, e perante o anunciado aprofundamento da crise económica iniciada em 2007, alargando ainda mais o fosso entre ricos e pobres, os trabalhadores receiam ser lançados numa crise muito grave de privações, fome e miséria.

De facto, torna-se desde já por demais evidente para os cidadãos em geral o alastramento do desemprego, da precariedade e da pobreza em todo o continente. Bombardeados a todo o momento pela propaganda oficial, esta prestamente secundada pelos média, os cidadãos têm sido intimidados, neutralizados e amestrados pelas medidas de excepção cada vez mais arbitrárias, e agora são atordoados com os prometidos sucessos da vacinação, também ela matéria de autoengrandecimento dos poderes centrais da União Europeia e respectivos governinhos nacionais. Estes surgem como salvadores da saúde pública, ao mesmo tempo que, prometendo tudo resolver, anunciam a distribuição de fundos comunitários para enfrentar a crise económica que se aprofunda.

Entretanto, uma grande proporção dos desempregados corre o risco de agravamento da pobreza e exclusão, condição social cada vez menos silenciosa, como se pode comprovar pelas longas filas de abastecimento alimentar, mesmo nos países mais afortunados. Antes da pandemia, esperava-se que a taxa de pobreza extrema caísse para 7,9%. Agora, ela deve atingir 9,1% a 9,4%.

Ao mesmo tempo, acumulam-se novas fortunas, conseguidas à custa da crise e de golpes financeiros, jogos bolsistas, reduções de encargos salariais por lockdown e despedimentos, inobservância da contratação laboral, tudo isto coadjuvado por prestações de fundos governamentais, favorecimentos bancários, perdões fiscais e regimes fiscais de excepção. Mais de 800 mil milhões de dólares foram arrecadados pelos 500 mais ricos do mundo em resultado da Covid, que os tornou 30% ainda mais ricos.

Apesar da intoxicação a que está sujeita a opinião pública, seria de esperar que pelo menos a esquerda não se deixasse neutralizar pela situação e reagisse como lhe compete. E no entanto, não é isso que acontece. Logo para começar a compreender o fenómeno, temos que nos pôr a questão: mas afinal o que é a esquerda?

Há que dizer claramente que em toda a Europa deixou de existir uma verdadeira esquerda anti-sistema. Desde os anos 80, assiste-se a uma viragem à direita em todo o mundo, com os partidos revolucionários e anticapitalistas a aderir à social-democracia, e os partidos social-democratas e a esmagadora maioria dos “comunistas” ortodoxos, a aderir aos liberalismos, em particular nos países de Leste, onde esse liberalismo económico se funde com o novo fascismo político. Esta deriva que a atrai para a social-democracia começou a acentuar-se nas últimas duas décadas e hoje acelera-se com o deslizamento mais ou menos acentuado das forças organizadas em partidos de esquerda na direcção do mergulho total no pântano do jogo institucional, parlamentar e eleitoral. Deslocando-se para fora do campo proletário e semiproletário, isto é, dos interesses dos trabalhadores produtivos e semiprodutivos, esses partidos conquistam para si as simpatias das camadas inferiores das classes intermédias pequeno-burguesas – pessoal dos serviços públicos, pequenos patrões, agricultores arruinados, professorado, estudantariado, uma parte do lumpen-proletariado e profissões liberais.

 Esta aproximação da esquerda institucional às camadas intermédias faz-se à custa de se ocupar em primeira linha das causas que mais tocam estas camadas: criticam os governos anunciando-se como mais competentes que eles e capazes de os substituir, mas no seu próprio terreno institucional e cedendo às suas chantagens; apelam ao saneamento político e ao reforço da democraticidade das forças da ordem; reclamam contra a corrupção sem realmente a combater; silenciam a verdadeira causa dos estados de emergência em curso, acerca dos quais seria mais sério dizer que são de facto impostos à cidadania devido à incapacidade do governo de combater a epidemia, em razão do persistente desinvestimento estatal em recursos financeiros e humanos dos serviços de saúde pública, nos transportes públicos e na educação, desviados os fundos mais robustos para outras despesas como injecções no sistema bancário e nas grandes companhias e no perdão de dívidas aos grandes devedores); pronunciam inconsequentes profissões de fé contra a extrema-direita, sem lhe dar combate sério; esforçam-se por indicar soluções, dar conselhos sobre como actuar, chegando a tomar partido por uma parte da burguesia contra a outra (as vantagens da saúde pública sobre a privada e vice-versa, por exemplo); calam a falta de medidas que protejam os trabalhadores do empobrecimento e do desemprego, substituídas pelo tráfico humilhante da caridade e das sopas dos pobres, cada vez mais visto como uma alternativa aos sistemas de protecção social; abraçam causas identitárias sem as relacionar minimamente com o apodrecimento do capitalismo, etc. E tudo isto se processa sem um gesto ou uma palavra de incentivo às dispersas lutas laborais que ainda se vão organizando por pressão das bases sobre os burocratas sindicais ou aos surtos de revolta inorgânica que se acendem momentaneamente e depressa se extinguem por falta de enquadramento.

Competiria a uma esquerda digna desse nome denunciar que os governos e suas alianças regionais e internacionais, em particular a União Europeia, fazem uma gestão política da pandemia em que nos querem fazer crer que é aceitável e justificado suspender liberdades políticas, limitar direitos, reduzir salários e regalias laborais, etc., em nome da salvaguarda da saúde pública; além disso, haveria que denunciar que essa gestão não protege todos por igual, já que os trabalhadores do sector produtivo e outros que não podem resguardar-se com o teletrabalho, não têm maneira de se defender da contaminação porque só lhe resta a alternativa de utilizar transportes públicos superlotados e sujeitar-se a trabalhar nas condições sanitárias que os patrões entenderem.

Uma esquerda fiel aos trabalhadores devia-se sentir na obrigação de salientar que a intervenção selectiva e dominante do Estado nesta crise comprova mais uma vez a sua imensa fidelidade ao capital e aos seus interesses e que, até mesmo quando na aparência está a auxiliar as massas, na realidade está defendendo a reprodução do capital, pelo que a situação bárbara que vivemos hoje se deve à crise do capital e à pandemia sob o capitalismo. leia mais