August Thalheimer

Textos de autoria de August Thalheimer.

august thalheimerNota Biográfica

Texto “Notas sobre o autor”, escrito por Victor Meyer no início da década de 90 como parte de um projeto inacabado de estudo da obra de August Thalheimer.

Ao que consta há somente dois livros de August Thalheimer publicados no Brasil,
ambos versando sobre temas filosóficos: “Marxismo e Existencialismo” [1] e “Introdução ao Materialismo Dialético” [2], este último uma série de 6 conferências feitas inicialmente para estudantes chineses da Universidade de Berlim. Alguns outros textos foram divulgados de forma limitada e artesanal. Entre esses se incluem algumas análises sobre o fascismo, sobre os governos operários de transição e sobre a Frente Única – todos em edições mimeografadas e limitadas a círculos da esquerda brasileira.

Tal circunstância explica o virtual desconhecimento do nome de August Thalheimer nos meios acadêmicos brasileiros, não obstante a importância da sua obra para a historiografia do fascismo. Aliás, o interesse na obra de Thalheimer
não se prende apenas ao fato de conter subsídios fundamentais para a história
do fascismo alemão. Há um interesse teórico mais amplo, considerando que o
autor desenvolve uma vertente do pensamento marxista mantida na obscuridade
por circunstâncias políticas: em parte porque sofreu diretamente os golpes do
fascismo, mas também porque foi estigmatizado pelos diversos dogmatismos
que tão fortemente tem assediado o marxismo do nosso tempo. Thalheimer se
situa na tradição de Rosa Luxemburgo, Franz Mehring e outros expoentes do
socialismo alemão, cujo papel histórico cresceu desde o início do século,
particularmente durante a primeira guerra mundial e ao longo das lutas sociais
que antecederam a consolidação do nazismo.

Discípulo de Rosa Luxemburgo [3], com formação acadêmica na área de filosofia, Thalheimer já era nome destacado no socialismo alemão quando se formou a “Liga de Spartakus”, ainda no decorrer da primeira guerra. Em janeiro de 1919, participou da fundação do Partido Comunista Alemão (KPD, de acordo com a sigla em alemão), juntamente com Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht, Leo Jogiches, Ernst Meyer, Frolich e outros [4].

Inicialmente, o novo partido não passava de um pequeno grupo doutrinário, uma organização semelhante aos grupos propagandistas que marcaram a infância do socialismo europeu. Contudo, dadas às circunstâncias nas quais se formou, ou seja, em plena onda revolucionária, em meio às lutas insurrecionais imediatamente posteriores à queda da Monarquia dos Hohenzolern, o Partido Comunista Alemão rapidamente se transformou num partido de massas. Ainda não se havia completados os cinco primeiros anos da Republica de Weimar e o KPD já contava com 226.000 membros, passando a desempenhar papel ponderável na evolução política alemã nos anos que antecederam ao nazismo.

Em 1921, Thalheimer passa à direção nacional do Partido, juntamente com Brandler, Ernst Meyer e Frolich [5].

Em 1923, quando a França ocupa o Ruhr, nos desdobramentos do Tratado de Versalhes, a economia alemã estava arruinada, com uma inflação sem precedentes e desemprego em massa. Muitos socialistas sustentaram a crença de que a Alemanha estaria às vésperas da revolução proletária. A direção da Internacional, e mesmo expoentes da oposição, como Trotsky, alimentaram a expectativa da proximidade do “outubro alemão”, que deveria repetir o outubro russo de 1917.

August Thalheimer analisou a situação sobre outro prisma e sustentou que, apesar da crise econômica aguda, a situação alemã não poderia ser comparada àquela que originou a revolução russa. Para uma história do socialismo, 1923 tem a importância de um marco, talvez o mais importante marco entre 1917 e a guerra, pois selou o isolamento da revolução russa. O texto produzido por Thalheimer, intitulado “A lenda do Outubro Alemão”, permanece como análise clássica sobre os acontecimentos de 1923, contendo uma ótica dissidente. Infelizmente, nunca foi publicado no Brasil, embora se encontrem outras referências aos eventos de 1923: Isaac Deutscher, por exemplo, expõe a análise de Trotsky, e inúmeros textos históricos produzidos na União Soviética expõem a visão da 3ª Internacional. A única análise que parte de uma ótica semelhante à de Thalheimer (publicada no Brasil) é a de Victor Serge, que ironiza o marxismo oficial, “em suas buscas estéreis por paralelos históricos” [6].

Durante a segunda metade da década de vinte, Thalheimer sustenta intensa polêmica com a direção comunista oficial (sediada em Moscou) sobre o caráter do fascismo e sobre a tática a ser seguida pelas organizações operárias. A controvérsia sobre o caráter da “Frente Única” levaria o grupo alemão (Thalheimer, Brandler e outros) a romper oficialmente com a 3ª Internacional, precisamente no momento em que a política oficial russa recomendava o confronto entre as organizações operárias comunistas e as social-democratas, circunstância decisiva para a precipitação da derrota do movimento operário frente ao nazismo. Rompendo com a política ultra-esquerdista da 3ª Internacional, o grupo alemão funda a Oposição Comunista, em 1928 (KPO, de acordo com a sigla em alemão), passando a publicar o órgão “Gegen den Strom” (Contra a Corrente). Nesse órgão seria publicada a clássica análise sobre o fascismo, de autoria de Thalheimer. Há uma tradução para o português, embora parcial, publicada na Alemanha por um grupo de exilados brasileiros, em 1976 [7].

O único teórico marxista que analisou o fascismo partindo de premissas semelhantes a Thalheimer foi Gramsci. Mas as conclusões tiradas por Gramsci estão em parte obscurecidas pelo estilo cifrado de quem escrevia na prisão, sob vigilância da repressão fascista. Thalheimer, assim como Gramsci, buscam fundamento teórico no clássico “Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte”, de Karl Marx, para analisar o governo de exceção como um momento especial das relações de classes, no qual uma burguesia ferida mortalmente em sua luta contra o proletariado encontra-se extenuada e sem instrumentos eficazes para levar a luta adiante. Recorre ao poder de tutores, de “heróis” aparentemente situados acima das classes, abdica do próprio poder político para salvar o poder social, para sustentar a ordem social. A burguesia está exausta, mas o proletariado também jaz sem forças, enquanto uma classe intermediária, a pequena-burguesia, fornece os contingentes e o discurso (de um anticapitalismo paradoxal e confuso) com os quais se formarão os bandos fascistas. O poder executivo paira autonomizado, mas o poder tornado autônomo outra coisa não faz senão gerir a sociedade burguesa com poderes tutelares.

Somente Gramsci partiu de enfoque semelhante: para Gramsci, o fascismo surge quando há um equilíbrio catastrófico nas lutas de classes: as classes A e B estão lutando, mas nem A nem B consegue vencer, desfalecem reciprocamente, enquanto emerge uma terceira força, aparentemente “arbitral”, e geralmente apoiada numa das forças intermediárias da sociedade.[8]

A contribuição de Thalheimer se estende para além da segunda guerra mundial. No imediato pós-guerra, analisou o quadro mundial decorrente da consolidação de um bloco socialista simultaneamente à reorganização do sistema imperialista. É de sua autoria o conceito de “cooperação antagônica”, em cujos marcos se desenvolveriam os conflitos inter-capitalistas no novo quadro histórico decorrente da guerra. Tratava-se de uma atualização da teoria marxista sobre o imperialismo que até então pressupunha uma repetição intensificada de conflitos bélicos no interior do sistema. Num mundo marcado pela consolidação de bloco socialista, as relações internacionais teriam que se processar segundo uma nova lógica. Efetivamente, estamos hoje a quase quarenta e cinco anos desde o final da guerra, e os conflitos inter-capitalistas não voltaram a gerar novas guerras mundiais (não obstante a permanência e o acirramento das contradições entre os grandes monopólios capitalistas).

Vários autores brasileiros referem-se a Thalheimer e à “cooperação antagônica” como categoria analítica das relações internacionais no pós-guerra. Contudo, seus textos sobre o assunto não foram publicados no Brasil.[9]

Thalheimer morreu em 1948 exilado em Cuba.

Notas:
[1] Gráfica Editora Laemmert, Rio de janeiro, 1970. Publicado pela primeira vez em português pelo “Estado de são Paulo”, em 1947.
[2] Livraria Editora Ciências Humanas Ltda, São Paulo, 1979.
[3] Cf. Peter Netl in “Rosa Luxemburgo”.
[4] Cf. E.H. Carr – História da Rússia Soviética – 3º vol: “A Rússia Soviética e o mundo”. Ver também A. Ramos Oliveira: “História Social e Política da Alemanha”.
[5] E. H. Carr, ob. cit.
[6] Serge, Vitor, “Memórias de um Revolucionário”, Companhia das Letras, São Paulo, 1987. (pgs. 194 a 201).
[7] Revista Marxismo Militante Exterior, publicado em Heidelberg (Alemanha) por um grupo de exilados oriundos da organização “Política Operária”, sob a liderança de Eric Sachs.
[8] Gramsci, “Maquiavel a Política e o Estado”.
[9] Vejam-se citações de Thalheimer em Rui Mauro Marini, Eric Sachs, Antônio Cândido, Eder Sader e outros.