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Marxismo, uma filosofia da praxis para a revolução. JEAN SALEM*

 

O CVM publica este artigo em homenagem a Jean Salem, morto na noitede sábado (13/01) para domingo aos 65 anos, o filósofo, professor de Filosofia da Universidade de Sorbonne, era um especialista de renome mundial em Demócrito, Epicuro e Lucrécio. Fiel aos ideais de Marx, ele denunciou a perda de pontos de referência de uma esquerda fascinada pelas sirenes liberais.

Dentro de sua vasta obra, destaca-se o livro “Lenin e a Revolução”, um magnífico ensaio sobre a atualidade e a necessidade do leninismo.

Jean Salem era filho do jornalista e revolucionário Henri Alleg, protagonista do comunismo argelino que combateu pela independência do seu país contra o colonialismo francês e denunciou as torturas e a repressão do regime imperialista.

 

Jean Salem, 1952-2018…

Marx, mais actual que nunca

1. Marx não é apenas um «clássico» do pensamento filosófico. Estou convencido que Marx é hoje mais contemporâneo para nós do que era há trinta ou quarenta anos! Tomemos, por exemplo, o Manifesto do Partido Comunista. Lembro-me de, quando o lia pela primeira vez, ir perguntar ao meu pai: que significa essa «concorrência» entre operários que os autores falam em várias ocasiões? A concorrência entre capitalistas, a concorrência mesmo no seio da burguesia, isso era na verdade evidente; mas a possibilidade de que existisse uma concorrência entre trabalhadores não parecia tão evidente, numa época em que os sindicatos eram fortes, em que a classe operária estava poderosamente organizada, numa época de pleno emprego (ou quase) e de políticas «keynesianas». Hoje em dia, pelo contrário, qualquer pessoa remetida para empregos cada vez mais precários e menos frequentes compreenderia isto desde a primeira leitura: efectivamente, o sistema repete-lhe constantemente «se não estás contente, e mais ainda se protestares, há mais dez que estão dispostos a ocupar o teu lugar!». Penso também naquele trecho em que Marx e Engels falam da prostituição, na altura muito alargada entre a classe operária inglesa: não era um fenómeno de massas na década de 1960. Mas, nos nossos dias, depois da grande «libertação» de 1989-1991, há mais de 4 milhões de mulheres que foram – literalmente – vendidas: e esta atmosfera de mercantilização generalizada dos objectos e dos seres humanos, a nossa, facilita-nos, mais uma vez a compreensão imediata do texto do Manifesto. Definitivamente, há muitas coisas que poderemos encontrar em Marx adaptando-as, claro está, à nossa própria época. Por isso é que continuo a acreditar que o marxismo se mantém, como filosofia, inultrapassável do nosso tempo.

Em primeiro lugar não se pode falar, a não ser por graça, de desaparecimento da classe operária, visto que a China e a Índia, que têm quase metade da população humana, se converteram nas duas principais manufactureiras do mundo que alimentam o comércio mundial. Além disso, subsistem alguns operários ainda noutros lugares, não acham? Isto, sem contar com todos esses imigrantes que trabalham na Europa ou nos Estados Unidos, amiúde clandestinamente e, mais amiúde ainda, invisíveis ou quase. Isto parece-me dificilmente contestável… Na realidade, estas considerações relativas à pretensa extinção da classe operária parecem-me euro – ou «ocidental»-centrica. Em grande parte nascem sobre o húmus da antiga exploração colonial; germinam num mundo em que a classe operária ocidental pôde e pode continuar (ainda que em menor medida) a beneficiar, embora mais exiguamente, de migalhas provenientes da pilhagem de países pobres. Noutros tempos esta realidade contribuiu para prevenir a explosão de uma verdadeira revolução na Europa, e as estruturas capitalistas puderam assim manter-se, embora muito contestadas por correntes políticas poderosamente organizadas. Desindustrializai à toa; devastai regiões inteiras fechando os locais de produção em que antes se concentravam muito visivelmente operários qualificados. Não apanheis nunca o metro antes das 7H30 da manhã; olhai fixamente para a televisão, que não vos dá quase nunca a palavra; e sobretudo, não viajeis: tereis então suficientes razões para não ver a classe operária e até mesmo para imaginar que está morta… leia mais

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Plenária Nacional da Intersindical: enraizar a organização em cada local de trabalho, revelar o que o capital e seu estado tentaram esconder com suas reformas, para avançar na luta contra o brutal ataque à classe trabalhadora

Nos reunimos em Plenária Nacional nos dias 02 e 03 de dezembro, na cidade de Itapema/SC, vindos das intensas batalhas contra o Capital e seu Estado que intensificaram seus ataques, seja com suas reformas que atingem diretamente salários, direitos e empregos, seja com as medidas de congelamento dos gastos públicos, privatizações e mais concessões ao Capital, atingindo diretamente serviços básicos como saúde, educação, saneamento.

Junto a isso, no Parlamento, os projetos de urgência do Capital foram acelerados ao ritmo de seus interesses, como foi a votação da terceirização irrestrita, ampliação dos contratos temporários e para coroar a reforma trabalhista. Nesse mesmo Congresso Nacional se ampliam os ataques aos direitos das mulheres, como o projeto que tenta proibir até a realização do aborto legal, além de outros que estimulam a homofobia e o projeto de “escola sem partido”, que tem por objetivo alienar os filhos da classe trabalhadora para o Capital.

Um momento de ataque brutal à classe trabalhadora e às suas Organizações de Luta, como os Sindicatos, pois a reforma trabalhista construída principalmente pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI), além de abrir as portas para a redução do preço da força de trabalho, cria mecanismos para tentar intervir na ação sindical e conter a luta organizada pelos Sindicatos que de fato têm compromisso com os trabalhadores. leia mais

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AO INVÉS DE ESTAR NA CONSTRUÇÃO DA GREVE GERAL PRA VALER, MAIORIA DAS CENTRAIS SINDICAIS SE SUBMETE AOS INTERESSES DO CAPITAL

Intersindical – Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora

Por isso cancelaram o chamado para greve geral no dia 05 de dezembro

A serviço dos patrões, o governo Temer/PMDB e a maioria do Congresso Nacional aprovaram a reforma trabalhista – que é a reforma das reformas para o Capital pois significa novas condições para que os patrões reduzam salários e direitos, imponham jornadas cada vez piores precarizando ainda mais as condições de trabalho.

Com sua reforma trabalhista, os patrões conseguiram tornar mais distante as chances dos trabalhadores se aposentarem. Ou seja, com as alterações da jornada de trabalho e a possibilidade de mais redução salarial, é trabalhar até morrer, e se conseguir chegar ao tempo necessário para aposentadoria é ter que continuar a trabalhar para não morrer de fome.

O Capital mandou e o governo Temer obedeceu: para garantir esse massacre o que falta é o aumento da idade para aposentadoria e ampliar a dificuldade para que os trabalhadores tenham acesso a direitos básicos da Previdência. leia mais

Lenin addressing vsevobuch troops on red square in moscow on may 25, 1919.

QUAL É A HERANÇA DA REVOLUÇÃO RUSSA?

por Érico Sachs (Ernesto Martins)

Em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa, o Centro Victor Meyer publica um dos textos mais relevantes de Érico Sachs, o Ernesto Martins sobre a revolução socialista.  Embora tenha sido escrito em 1981, a análise de Érico Sachs se mantém atual.
O texto pode ser lido também em PDF clicando aqui.

 

“Do que se trata é de uma sociedade comunista não como se desenvolveu sobre as bases que lhe são próprias, mas, pelo contrário, tal como acaba de sair da sociedade capitalista; uma sociedade que, por conseqüência, em todos os aspectos, econômico, moral, intelectual, apresenta ainda os estigmas da antiga sociedade que a engendrou.”
(…)
“Mas esses defeitos são inevitáveis na primeira fase da sociedade comunista, tal como acaba de sair da sociedade capitalista, após um longo e doloroso parto. O direito nunca pode ser mais elevado que o estado econômico da sociedade e o grau de civilização que lhe corresponde.”
(K. Marx – “Crítica ao Programa de Gotha”. Portucalense Editora).

 

O que representa hoje a União Soviética para o proletariado mundial? Esta pergunta continua a preocupar as vanguardas teóricas e de luta em quase todos os países, tanto nos que já se livraram do domínio capitalista, como daqueles que ainda aspiram essa meta. As respostas variam de “socialismo” a “capitalismo de Estado”, incluindo até mesmo “potência imperialista igual às outras”. Mas aí se trata de definições de extremos. Entre elas há uma série de nuances.

A União Soviética de hoje, certamente, não corresponde à imagem que os revolucionários marxistas de todas as gerações fizeram de uma sociedade socialista. Trata-se de um sistema burocrático, com uma hierarquia levada ao excesso, com uma carência de democracia socialista em todos os níveis, sistema que deixa pouca ou nenhuma margem para a iniciativa e autogestão das massas trabalhadoras.

Não há dúvidas também que a União Soviética passou por profundas mudanças desde os dias de Lênin. Mas, o que significam essas mudanças, qualitativamente?

A Revolução Russa e a tomada do poder pelos bolcheviques representou uma das transformações mais radicais e mais profundas da história da humanidade. Estudando essa revolução, inclusive a sua fase pós-revolucionária, verifica-se que ela passou por uma série de estágios diferentes, mas nunca sofreu uma contrarrevolução. Surgem dificuldades quando se pretende provar o contrário, de um ponto de vista marxista. Trotsky, em diversas versões, afirmara que a Revolução Russa sofrera um “terminador”. Mas o terminador – paralelo tirado da Revolução Francesa e que marca o fim do domínio dos jacobinos – implicou na passagem do poder da pequena-burguesia para as mãos da burguesia propriamente dita, isto é, significou uma mudança do regime de classes. E quem teria realizado esse “terminador” na União Soviética? A burocracia? Neste caso, a burocracia seria uma classe – afirmação que o próprio Trotsky sempre rejeitou. Essa contradição no seu esquema interpretativo do desenvolvimento pós-revolucionário da URSS, ele nunca chegou a superar.

Mais frágil ainda é o esquema dos maoístas. Segundo eles, houve uma contrarrevolução por ocasião da morte de Stalin. A burocracia representa a “nova classe”, que tomou o poder e restaurou o capitalismo na União Soviética. Trata-se, aí, de afirmações puramente polêmicas, sem nenhuma tentativa analítica.

Todos esses esquemas explicativos (há outros) não nos podem satisfazer e não satisfarão a ninguém habituado a raciocinar com categorias marxistas. Já salientamos que não encontramos na história da URSS nenhum momento de contra-revolução, que tenha alterado as bases de classes da sociedade. Isso poderá parecer estranho, em vista das críticas ao sistema soviético atual que esboçamos no início. Mas, para compreender o fenômeno da União Soviética de hoje, não se pode partir de esquemas preconcebidos de revolução e de socialismo (esquemas que, na maioria das vezes, em nenhum lugar foram comprovados). Para compreender o desenrolar da Revolução Russa é preciso, antes de tudo, estudar as suas particularidades, as condições concretas nas quais se realizou. Tentaremos esboçá-las em seguida. leia mais

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Reflexões sobre o texto de Michael Roberts quanto ao resultado das eleições alemãs

Lothar Wentzel

 

A análise de Michael Roberts (ver nota do CVM) é muito interessante e contém muitas observações corretas, mas não aborda o ponto crucial do problema.

Roberts constata um forte deslocamento para a direita. As direitas radicais até agora estavam divididas em diferentes partidos, que compreendiam cerca de 10% dos votos. A novidade é que elas se juntaram num partido (AfD) que agora obteve 12,6%. Isso ainda não significa um forte deslocamento para a direita.

Os votos se redistribuíram de novo no campo burguês, tendo o lado da direita liberal ganhado em influência. O que é mais característico é uma insatisfação geral dirigida contra os partidos do governo. O número de eleitores que não compareceram às eleições continuou alto como antes.

A propósito, os membros da AfD começam agora novamente a se dividir, por isso vale a pena examinar mais de perto os seus eleitores:

  •  Na antiga DDR (Alemanha Oriental) a participação relativa dos eleitores de direita é de duas a três vezes maior do que na Alemanha Ocidental, apesar de quase não haver estrangeiros por lá. O fracasso da DDR deixou atrás de si uma grande desorientação política. Movimentos sociais como os de estudantes, de mulheres ou ecológicos nunca existiram ali. Há pouca experiência com a auto-organização das pessoas e o pensamento autoritário é fortemente difundido. Economicamente, o leste ainda não atingiu a unificação  com o oeste. O pensamento nacional tem ali um grande significado, pois a nação  comum é o fundamento ideológico para exigir a continuidade do apoio financeiro da parte ocidental. O medo de que o apoio do oeste vinha a diminuir, por causa do dinheiro recebido pelos „refugiados“,  foi promovido pela direita. Ali também sobrevivem ambientes „conservadores“, que se sentem fortemente repelidos pelo ambiente liberal nas grandes cidades alemãs-ocidentais, a exemplo da igualdade de direitos para os homossexuais. leia mais