Erico Sachs

Textos de autoria de Erico Sachs.

erico sachs

Nota Biográfica

Extraído da apresentação de Victor Meyer para a coletânea “Qual a Herança da revolução russa e outros textos”. (Segrac, BH 1988).

Ernesto Martins, Eric Czaczkes Sachs [1]

A recente publicação do livro “Marxismo e Luta de Classes” [2], fez despertar em  determinadas áreas interesse pela obra de Eric Sachs [Nota da redação: no portal você encontrará registrado mais frequentemente o nome Erico Sachs, como ele próprio desejava ser chamado]. Quem foi e onde viveu esse marxista, aparentemente desconhecido, que deixou no Brasil uma obra presumidamente tão importante? A explicação é simples: para mais de uma geração de marxistas brasileiros, Eric Sachs não era um desconhecido. Sob os nomes de Eurico Mondes, Eurico Linhares ou, especialmente, Ernesto Martins, seus textos foram passados de mão em mão e, durante pelo menos 25 anos, sustentaram uma das mais originais correntes da esquerda brasileira, associada ao extinto grupo “Política Operária”. Mas somente agora sua obra pode ser colocada, abertamente, à disposição de todos os interessados em conhecer as diversas vertentes do marxismo no nosso país.

Eric Czaczkes Sachs não era brasileiro: nasceu em Viena, em 1922. Filho único numa família judia, proveniente de Tchernowitz (fronteira da Áustria-Hungria com a Rússia até 1919), seu pai era membro destacado da Social-Democracia austríaca e sua mãe, nascida na Rússia, conhecia de perto o Partido Bolchevique, dada a circunstância de ter um irmão militante nas fileiras do partido russo.

Em 1934, Eric acompanha a sua mãe, Sinaida Czaczkes, numa viagem que representaria a sua primeira emigração: mudam-se para a Rússia, em consequência do recrudescimento das perseguições aos judeus na Áustria. Instalados em Moscou, Eric passa a frequentar a Escola Karl Liebknecht, onde permaneceria até 1938. Os quatro anos em Moscou marcaram decisivamente a sua formação intelectual. A escola era frequentada principalmente por filhos de refugiados alemães, embora também abrigasse jovens de outras nacionalidades. Foi nesse período que Eric estudou pela primeira vez o marxismo, ao tempo em que obtinha informações da oposição a Stalin. Seus contatos com os militantes da Oposição valeram-lhe a expulsão da Rússia, em 1937. O episódio seria relembrado posteriormente por um dos alunos da Escola Karl Liebknecht, o alemão Wolfgang Leonhardt, no livro “A revolução Despachou suas Crianças”.

De volta para a Áustria, Eric e sua mãe lá não permanecem mais que alguns meses: o clima de perseguições aos judeus tornava impraticável a sua permanência na Áustria. Para Eric, com apenas dezesseis anos, já era a terceira vez em que se via obrigado a abandonar um país. Foge da Áustria a pé, alcançando a Bélgica através de território alemão e daí chega até a França. Em Paris, procura Thalheimer e Brandler, os líderes da Oposição Alemã. Torna-se o mais jovem militante da KPO (Oposição Comunista Alemã) no exílio. Morando com Thalheimer, além das discussões sistemáticas que mantem com o principal líder da Oposição Alemã, encontra-se com outras figuras destacadas do comunismo, como Victor Serge, e com militantes do POUN. Esse é também, para Eric, o primeiro período em que vive dentro de agudas privações materiais. A Oposição Alemã vive sérias dificuldades financeiras e é grande o número de exilados. Passa a trabalhar numa Escola de Agricultura, destinada a jovens refugiados judeus. Em 1939, com o começo da guerra, a situação se torna ainda mais insegura para os judeus comunistas. Muitos já haviam decidido rumar para a América – para Cuba, Brasil, Chile etc. Eric e sua mãe decidem emigrar para o Brasil. 

Em seus primeiros passos no ambiente brasileiro, aos poucos foi conhecendo a realidade do nosso movimento operário. Trabalhando como gráfico, participou da organização dos gráficos paulistas. Posteriormente – a partir do final da década de quarenta – foi jornalista, e seus artigos publicados no Correio da Manhã dão uma rica visão panorâmica do mundo no pós-guerra. Progressivamente, sua influência intelectual foi se firmando junto a segmentos da esquerda brasileira.

Acontece que no Brasil, a história da esquerda praticamente gravitava em torno das influências provindas do PC soviético, reproduzindo-se aqui o cenário das lutas de facções ligadas aos nomes de Stalin e Trotski. Há muito que o centro comunista, em Moscou, havia deformado completamente um dos pontos de honra dos primeiros tempos da Terceira Internacional: o respeito à autonomia dos PCs internacionais. O PCB não fugia à regra e já se tornara um mero reflexo da política stalinista. Eric chegava ao Brasil trazendo uma tradição ideológica inteiramente diversa, e não por acaso: o Partido Comunista Alemão fora, durante toda a década de vinte, o mais forte partido depois do russo, o único que incorporava sólida trajetória teórica e prática, mantendo por isso reservas internas de autonomia frente ao rolo compressor da luta de facções na Rússia. Pesava, nesse sentido, a tradição aberta por Rosa Luxemburgo e outros. Cindindo-se do partido alemão oficial somente quando a convivência tornara-se impossível – ao ser decretada a política ultraesquerdista da guerra contra o “social-fascismo” – a Oposição Alemã tornou-se um baluarte sobrevivente da convicção de que a luta do proletariado de qualquer país não pode se submeter ao modelo de alguma revolução vitoriosa. Eric trouxe para o Brasil o fio condutor dessa tradição e independência: cada nova revolução é uma fonte de novas experiências, mas não cabe acatar o stalinismo, o trotskismo (nem o maoismo ou o castrismo) como métodos ou sistemas. (…)

O texto na íntegra encontra-se a seguir.