Marc-Chagall-La-Vie-1964

Sobre a Humanidade Socialista

Nós não sustentamos que o socialismo vá remediar todas as aflições da raça humana. Estamos lutando, em primeira instância, com as aflições que são produto do homem e que o homem pode remediar. Permitam-me recordar que Trotsky, por exemplo, fala de três tragédias básicas – a fome, o sexo e a morte – que perturbam ao homem. A fome é o inimigo ao qual o marxismo e o movimento operário moderno têm combatido. Ao fazê-lo, tende naturalmente a ignorar ou subestimar as outras aflições do homem. Mas, não é certo que a fome ou, em termos mais gerais, a desigualdade social e a opressão têm complicado e intensificado enormemente para um número incontável de seres humanos os tormentos do sexo e da morte também? Ao lutar contra a desigualdade e a opressão, lutamos também pela mitigação dos golpes que a natureza nos aflige. Eu creio que o marxismo está correndo pelo lado correto das tarefas que a nossa sociedade deve enfrentar. Os freudianos têm se concentrado na questão sexual e por isso têm ignorado ou subestimado os problemas sociais do homem. E qual é o resultado? Em que pese toda a importância teórica da psicanálise, os benefícios práticos de sua terapia em nossa sociedade somente estão ao alcance de uma pequena minoria privilegiada. Nossa visão da humanidade socialista, por outro lado, tem inspirado um enorme setor da humanidade; e mesmo que tenhamos lutado com pouca sorte e tenhamos sofrido terríveis derrotas, temos logrado mover montanhas, enquanto que toda a psicanálise do mundo não pode reduzir uma ponta da agressividade que preenche o nosso mundo.

Sim, a humanidade socialista seguirá perseguida pelo sexo e pela morte; porém estamos convencidos de que estará mais bem preparado que nós para enfrentá-los. E se a sua natureza permanece sendo agressiva, sua sociedade lhe oferecerá oportunidades infinitamente maiores e mais variadas que as do homem burguês para sublimar seus impulsos instintivos e canalizá-lo para vias criativas. Mesmo quando o homem socialista não esteja completamente “livre de culpa e de dor”, como o sonho de Shelley, ainda poderá existir “sem cetro, livre, irrestrito, homem comum, sem classe, sem tribo, e sem nação, isento de toda adoração e assombro”. O membro comum e frequente da sociedade socialista poderá ser elevado, como o pressupõe Trotsky, a estatura de Aristóteles, Goethe, Marx, os quais, qualquer que tenham sido os seus instintos sexuais e seus impulsos agressivos, encarnaram algumas das mais altas conquistas da humanidade até esta data. Vamos supor que “sobre esse patamar se alcançarão novas alturas”. Não vemos no homem socialista o produto último e perfeito da evolução, ou o fim da história, senão, em certo sentido, somente o seu começo. O homem socialista poderá sentir o Unbehagen [4], o desconforto e o desassossego que a civilização impõe à besta que há no homem. Esta poderá ser inclusive, a mais essencial de suas contradições íntimas que o impulsionarão a evoluir mais ainda e a buscar patamares que nós não podemos sequer imaginar.

Estas ideias são ou devem ser verdades evidentes para qualquer marxista, e eu talvez deva me desculpar por enunciá-las numa Conferência de Catedráticos Socialistas. Desgraçadamente, na condição em que se encontra atualmente o movimento operário e o pensamento socialista é necessário reafirmar certas verdades elementares, já que muitas vezes são omitidas ou falsificadas em favor de causas com duvidosa conveniência política. Eu tenho ouvido dizer, por exemplo, que o sujeito adequado da minha análise deveria ser o homem socialista que vive hoje na URSS ou na China. Eu compartilharia essa opinião somente se acreditasse que esses países tivessem alcançado ou estão em vias de alcançar o socialismo. Não creio em tal coisa e não creio que o indivíduo típico, nem sequer o indivíduo avançado, da sociedade soviética ou chinesa atual possa ser descrito como homem socialista.

Todos, supostamente, falamos informalmente sobre a URSS, a China e os Estados associados e dissociados como “socialistas”; e temos direito de fazê-lo embora nossa proposta seja simplesmente opor esses regimes aos Estados capitalistas, indicar seu caráter pós-capitalista ou nos referir às origens e inspiração socialista de seus governos e suas políticas. Mas o que nos interessa aqui é uma descrição teoricamente correta da estrutura de sua sociedade e da natureza da relação humana que evolui dentro desta estrutura. Vocês recordam que há mais de trinta anos, Stalin proclamou que a União Soviética havia concluído a construção do socialismo, e até agora, em que pese a desestalinização e a demolição de tantos mitos stalinistas, este continuou sendo um princípio central da ideologia soviética oficial. Mais ainda, os sucessores de Stalin pretendem que a União Soviética esteja empenhada agora na transição do socialismo ao comunismo ou que venha a entrar nesta etapa superior da sociedade sem classes, que precisa completar o ciclo da transformação socialista inaugurado pela revolução de outubro. Os porta-vozes da República Popular da China têm manifestado pretensões similares em relação ao seu país. Então, o dogma stalinista sobre o êxito do socialismo na União Soviética tem afetado e alterado de maneira significativa a imagem pública do homem socialista e também o pensamento de um número considerável de estudiosos socialistas. Entretanto, uma coisa deveria ser imediatamente óbvia: o homem típico da sociedade soviética, sob Stalin ou sob seus sucessores, oferece um contraste tão notável com a concepção marxista da humanidade socialista, que somos obrigados a fazer uma coisa ou outra: ou nos negamos a considerá-lo como homem socialista, ou então deixamos de lado a concepção marxista, tal como a escola de pensamento stalinista tacitamente o fez. Não se trata de uma disputa sobre a letra do Evangelho, mas sim uma questão da maior importância teórica e prática para nós. Se a nossa meta é a humanidade socialista, logo a nossa concepção ou a imagem desta humanidade socialista é de importância vital para o nosso pensamento teórico, para o clima moral e político do movimento operário e para nossa própria capacidade ou incapacidade de inspirar as nossas classes trabalhadoras.

Assim, o homem socialista foi concebido por Marx e por todos seus seguidores até Stalin, como um produtor livremente associado que trabalha, mesmo na chamada fase inferior do comunismo, sob uma economia planejada, não como um comprador ou vendedor que comercia produtos nos mercados, mas como alguém que produz bens para a sociedade em geral e os recebe para consumo pessoal do fundo comum da sociedade. Por definição, o homem socialista vive numa sociedade sem classes e sem Estado, livre da opressão social ou política, mesmo quando a princípio ainda pese sobre ele um fardo – o fardo em diminuição constante da desigualdade herdada. A sociedade na qual se vive deverá ser tão desenvolvida, tão rica, instruída e civilizada que não dê lugar a nenhuma necessidade objetiva que possa permitir um recrudescimento da desigualdade ou da opressão. Isto é o que todos os marxistas antes de Stalin davam como certo. Este é o ideal que tem inspirado a gerações de socialistas; sem ele, o socialismo nunca teria chegado ser a força dinâmica do século. O marxismo tem demonstrado o caráter realista deste ideal tornando claro que todo o desenvolvimento da sociedade moderna, com sua tecnologia, sua indústria e seu processo produtivo cada vez mais socializado, tende a este resultado. No entanto, o homem socialista que Stalin e seus sucessores têm mostrado ao mundo é uma lamentável paródia do homem socialista. O fato é que o cidadão soviético tem vivido numa sociedade em que o Estado, e não os capitalistas possuem os meios de produção. Mas a sociedade soviética tem sofrido, e sofre ainda, de uma escassez material, de uma escassez aguda de bens de consumo em primeiro lugar, que tem conduzido ao longo de várias décadas num inevitável recrudescimento e agravamento das desigualdades sociais, numa profunda divisão entre uma minoria privilegiada e uma maioria indigente, numa reafirmação espontânea das forças econômicas do mercado, e num ressurgimento e um incremento aterrador das funções opressivas do Estado.

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Comentários

  1. alberto herrera disse:

    Que argumentos mais poderíamos deduzir a partir do texto para encontrar na nossa consciência um conforto para a angústia teórica que eventualmente poderia visitar nossa alma? O texto, tão atual dentro do contexto relativo, estimula a possibilidade de uma análise dos tempos que vivemos e a fé no movimento da vida se renova e a aparente Utopia se projeta como real no movimento da história. Penso que a aparente crise do pensamento politico que permeia o mundo pode ser fictícia e o fermento necessário deve estar na sua primeira fase pois o processo é inevitável. Uma necessidade inerente à condição humana não permite que o processo da busca da felicidade seja interrompido. Esta afirmação aparentemente metafísica talvez seja apenas uma necessidade que vendo a história da vida se recusa a pensar diferente.