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A trégua da Copa: turbulências no Chile e outras conversas ao pé do ouvido entre Dilma Rousseff e Michelle Bachelet

Nesta matéria, o CVM destaca a semelhança entre o projeto chileno em curso na área de educação, que se baseia na transferência de fundos públicos para a gestão privada e a crescente privatização da gestão da assistência à saúde no Brasil. Aqui os recursos públicos são injetados nas famigeradas organizações sociais (OS). Além disso, o governo federal criou a EBSERH, empresa estatal de direito privado para gestão dos hospitais públicos. Consequências imediatas: precarização do trabalho e compras sem licitação. Vai atender assim aos clamores do "saúde padrão FIFA", o que na prática quer dizer serviços públicos de saúde submetidos à lógica do lucro capitalista.  
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Por Frederico Füllgraf
do blog do Nassif

Santiago do Chile – Menos de 48 horas após as primeiras e gigantescas manifestações pelo Ensino Público e Gratuito, que na terça-feira, 10 de junho, voltaram a mobilizar dezenas de milhares de estudantes nas ruas das principais cidades do Chile – com 90 manifestantes presos e 6 policiais militares feridos – a presidente Michelle Bachelet realiza sua primeira visita de Estado desde sua posse em março último, para ratificar sua aliança estratégica com o Brasil.

Embora tenha reiterado que cumprirá sua promessa de devolver ao país um sistema de ensino que não penalize a classe média e os trabalhadores – punidos, sim, desde a ditadura Pinochet, com  impagáveis dívidas bancárias por mensalidades entre 400,00 e  1.000,00 dólares, até mesmo nas universidades estatais – agora Bachelet enfrenta também a oposição do Colégio (Federação de Sindicatos) de Professores do Chile, que rejeita frontalmente o projeto do ministro da educação, Nicolás Eyzaguirre, e conclama uma greve geral do setor de Educação a partir do dia 25 de junho.

Abancadas no Itaquerão, talvez durante o intervalo após um tedioso primeiro tempo do jogo inaugural, Brasil-Croácia, as presidentes Dilma Rouseff e Michelle Bachelet tenham trocado confidências e desabafado uma no ombro da outra.

A presidente brasileira por ter se tornado alvo predileto de uma sórdida campanha de mídias, nacionais e internacionais, que a culpabilizam desde torneiras que não doam água em algum estádio terminado às pressas, até as nuvens negras sobre a Economia do país, cujas sombras escrevem a palabra “estancamento”. Isso, sem falar no refrão “não vai ter copa!”, reverberado dentro e fora do país por grupúsculos entre si dessemelhantes, porém acampados na lateral direita das assim chamadas “redes sociais”. E sindicatos oportunistas – aeroviários, metroviários et allii – que se lixam um cazzo com vésperas de Natal, Carnaval ou Copa do Mundo, eventos de confraternização universal, aos quais os grevistas soem antepor reivindicações muitas vezes justas, mas que cobradas com truculência e na hora errada são mesmo atitude boçal.

Cruzada contra o “Santo Gral”.

Porém, se Dilma foi sincera, haverá confessado à compañera Michelle, que se arrepende de uma lição de casa não feita. Como bem lembrou Luis Nassif, em recente coluna, tivesse refletido e tornado ação política a sábia frase do esperto Confúcio – “Mais vale uma imagem do que mil palavras!” – e o estrago midiático teria sido evitado com respostas à altura: as literais imagens das obras. Afinal, o Planalto tem motivos, não para disparar rojões de soberba, mas contrarestar a campanha com dados e indicadores de inclusão social  irrefutáveis. Tëm motivos para dizer, mas não diz, e deixa seus adversários desdizerem. Então, ninguém menos que Jim Young Kim, presidente do Banco Mundial, teve que sair em socorro de Dilma Rousseff, carregando nas tintas: “O governo brasileiro conseguiu implementar o ´Santo Gral´, com investimentos que unem o bem-estar social, a educação e a saúde, através  de programas como o conhecido Bolsa Família e o Brasil Sem Miséria!” (Young Kim em Brasília, 02/06/2013).

Exatamente o que o México de Peña Nieto e o Chile de Bachelet agora imitam com outros nomes: “Oportunidades”, ou “Bono de las Famílias”. 

São modestas, mas exitosas ferramentas de inclusão social primária, forjadas pelos ferreiros da socialdemocracia latino-americana.

Aquém e além Andes, a ressaca da crise de 2008

O que terá cochichado Michelle Bachelet no ouvido de Dilma Rousseff?

Em primeiro lugar, que lhe fazem a mesma crítica: a do estancamento da Economia. Reverberado mundo afora como pupilo-modelo do projeto neoliberal em escala global, cujo PIB vinha crescendo acima dos 7,0% desde a década dos anos 1980 – ao custo de truculenta “desregulamentação” (desestatizações e privatizações a rodo)  e “flexibilização” do mercado de trabalho (esquartejamento dos sindicatos, liquidação da estabilidade, terceirização de mão-de-obra e privatização da seguridade social) – em 2013, último ano da administração Sebastián Piñera, a taxa de crescimento do Chile caiu para 4% e não deverá superar os 3% em 2014.

Então o refluxo não é um fenômeno exclusivo, “made in Brazil”, e “culpa da Dilma”? Não, não é. Bancos Centrais, banqueiros, UNCTAD e OECD são unânimes em seu prognóstico de uma retração em bloco nas Economias da América Latina em 2014, como ressaca da grande quebradeira global de 2008. É a sina dos exportadores de commodities, como o Chile, mas grupo ao que, apesar do diversificado perfil de industrialização, o Brasil ainda pertence.

Mas estará essa socialdemocracia promovendo reformas estruturais, capazes de desafiar a dominação dos mercados, com modelos sócio-econômicos efetivamente profundos e não apenas paleativos?

Eyzaguirre, o “socialista arrependido”

Apesar das boas intenções, com suas hesitações, os nem tão novos ferreiros socialdemocráticos teimam em dar uma cravo, e outra na ferradura, isto é: namorar os pobres, sem trair “os mercados”. Exemplo disso é a turbulenta reforma educacional cobrada pela sociedade chilena nas ruas.

Estudantes e, agora, os professores insistem que, apesar do diálogo mantido com o ministro da educação, Nicolás Eyzaguirre, o projeto de reforma elaborado pelo governo não contempla suas demandas, pois prevê um “parcelamento” inaceitável de medidas, das quais a mais esperada é o ensino público universal gratuito. Prometido apenas para 2026, até lá Inês é morta!

Contudo, o pivô da crise entre estudantes e professores de um lado, e o governo, de outro, é o inabalável credo de Eyzaguirre na redenção pelo mercado.

De raízes democrata-cristãs, o ministro foi membro dos partidos Esquerda Cristã e Comunista durante o governo da Unidade Popular de Salvador Allende. Obrigado a refugiar-se após o golpe civil-militar de 11 de setembro de 1973, decidiu exilar-se nos EUA. Engenheiro comercial diplomado pela Universidade do Chile, Eyzaguirre doutorou-se em Macro-Economia e Comércio Exterior na Universidade de Harvard, instituição que, segundo tem afirmado, alterou radicalmente sua visão de Economia, pois ali adotaria sua crença nos princípios do “livre mercado”, reconhecendo seu “erro”, ao abraçar anteriormente o ideário socialista. De Harvard para as instituições reguladoras foi um pulo, pois tempos depois Eyzaguirre chefiava o Departamento para o Hemisfério Ocidental do FMI-Fundo Monetário Internacional, de onde foi guindado para o ministério da fazenda no Governo do socialista Ricardo Lagos (2000-2006).

O lucrativo business da educação

Com seu perfil declaradamente neoliberal, mal fora empossado por Bachelet, e Eyzaguirre bateu de frente com os estudantes: ele promete a reforma, mas adverte que os “sostenedores” (patrocinadores) privados das redes pública e privada de ensino querem garantias de retorno seu “investimento”.

Quem são estes “patrocinadores”?

São empresas privadas, autorizadas pela ditadura Pinochet (1973-1990) para gerenciar  colégios e universidades. Apesar dos 25 anos do retorno da democracia, o sistema pinochetista sobrevive: a educação pública chilena é oferecida pelos municipios e os assim chamados “sostenedores”. Que não tiram dinheiro do próprio bolso, mas recebem fundos do Estado para a administração do ensino em caráter privado.

Uma aberração!

Mas Eyzaguirre propõe a sobrevida do “sistema misto”, no qual o Estado faz uma “oferta de conhecimento” e os estudantes registram sua “demanda”. Ao que, com razão, os estudantes respondem nas ruas: “Basta à mercantilização da educação!”.

Fogo amigo

Com a adesão do Colégio de Professores do Chile ao movimento pela reforma educacional autêntica, abriu-se nova trincheira não apenas em frente ao ministério da educação, mas dentro da própria coligação do Governo Bachelet.

Apoiado pela Central Unitária de Trabajadores (CUT), à qual é filiada, a federação sindical dos professores é presidida por Jaime Gajardo, que com Bárbara Figueroa, presidente da CUT, integra o Diretório Nacional do Partido Comunista, que é integrante do Governo Bachelet, e cujo ministo da educação é o socialista arrependido Nicolás Eyzaguirre.

Ex-preso político da ditadura Pinochet – que no Estádio Nacional, em 1973, viu morrer o lendário cantor Víctor Jara, e que sofreu expulsão da universidade – o matemático Gajardo é taxativo: “Acreditamos que este projeto, ao caminhar de forma parcelada, não aborda problemas que são estruturais… e que a coluna vertebral deste sistema – que é o financiamento competitivo, por assistencia média  – deve ser quebrada, porque do contrário a educação pública se debilitará ainda mais”.

Como advertência ao governo, no próximo dia 25 de junho os professores do Chile cruzarão os braços: ou Eyzaguirre, que insiste no diálogo, escuta de verdade seus pares, mudando conteúdo e abreviando prazos da agenda, ou uma greve geral com duração indefinida paralisará o setor de Educação no Chile.

Hoje, numa emblemática sexta-feira, 13, Michelle Bachelet desembarca emCuiabá, onde, em companhia do governador Silval da Cunha Barbosa, visitará uma  exposição fotográfica arranjada em última hora: “Chile–Brasil unidos pelo futebol”.

Às 17:30, no Estádio Arena Pantanal, a mandatária assistirá então o enfrentamento da “roja”, a seleção do Chile, com a Austrália.

Se há poucos fenômenos memoráveis que unam  Chile e Brasil, no futebol une-os a paralisia: o Chile também pára com a Copa.

Será que em sua trégua, longe das trincheiras escaldantes, Bachelet ligará para Eyzaguirre, dizendo: “É bom parar para pensar”?

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