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Lenin: Palestra sobre a Revolução de 1905

É particularmente interessante comparar os levantamentos militares da Rússia de 1905 e a insurreição militar dos dezembristas em 1825. Em 1825 o movimento político era quase exclusivamente dirigido por oficiais, mais precisamente por oficiais nobres, ganhos pelas ideias democráticas da Europa durante as guerras napoleônicas. A massa dos soldados, então ainda formada por servos, era passiva.

A história de 1905 oferece-nos um quadro inteiramente diferente. Os oficiais, com poucas exceções, professavam ideias liberais burguesas, reformistas, ou então abertamente contra revolucionárias. Os operários e os camponeses fardados foram a alma das insurreições; o movimento tornou-se popular. Pela primeira vez na história da Rússia, abraçava a maioria dos explorados. O que lhe faltou foi, por um lado, a firmeza, a resolução das massas, demasiado sujeitas ao mal da confiança, e, por outro, uma organização dos operários social- democratas revolucionários fardados: estes não estavam em condições de assumir a direção do movimento, de se pôr à cabeça do exército revolucionário e desencadear a ofensiva contra as autoridades governamentais.

Refira-se, de passagem, que estas duas falhas serão eliminadas – talvez mais lentamente do que aquilo que desejamos, mas com certeza – não só pela evolução geral do capitalismo, mas também pela guerra em curso. . .

De qualquer forma, a história da revolução russa, tal como a da Comuna de Paris de 1871, traz-nos um ensinamento indiscutível: o militarismo nunca e em caso algum pode ser vencido e abolido senão pela luta vitoriosa de uma parte do exército nacional contra a outra. Não basta condenar, maldizer, “repudiar” o militarismo, criticá-lo e mostrar a sua nocividade; é estúpido recusar pacificamente o serviço militar; o que é necessário fazer é manter alerta a consciência revolucionária do proletariado e não apenas de uma forma geral, mas preparando concretamente os melhores elementos do proletariado para tomarem a cabeça do exército revolucionário no momento em que a efervescência no seio do povo tenha atingido o ponto culminante.

A experiência quotidiana de qualquer Estado capitalista traz-nos o mesmo ensinamento. Qualquer uma das “pequenas” crises que atravesse um desses Estados mostra-nos em miniatura os elementos e os embriões dos combates que inelutavelmente terão lugar em vasta escala numa grande crise: O que é, por exemplo, uma greve, senão uma pequena crise da sociedade capitalista? O ministro do Interior da Prússia, von Puttkamer, não tinha razão quando pronunciava a sua frase memorável: “Qualquer greve oculta a hidra da revolução”? O recurso à tropa quando das greves, em todos os países capitalistas, e até mesmo, se é possível usar este termo, nos mais pacíficos e nos mais “democráticos”, não nos ensina como se passarão as coisas em períodos de crise verdadeiramente graves?

Mas volto à história da revolução russa.

Tentei mostrar-vos de que maneira as greves agitaram todo o país e as camadas mais vastas, as mais atrasadas dos explorados, como se desencadeou o movimento camponês, como foi acompanhado de levantamentos militares.

O movimento atingiu o seu apogeu no curso do Outono de 1905. A 19 (6) de Agosto apareceu um manifesto do czar que anunciava a criação de uma assembleia representativa. A chamada Duma de Buliguine, devia ser fundada nos termos de uma lei eleitoral que só admitia um número ridiculamente reduzido de eleitores e atribuía a este “parlamento” original poderes somente consultivos, mas nenhum poder legislativo.

Os burgueses, os liberais, os oportunistas estavam prontos para agarrar com as duas mãos este “presente” do czar amedrontado. Como todos os reformistas, os nossos reformistas de 1905 não podiam entender que existem situações históricas nas quais as reformas, e sobretudo as promessas de reformas, têm por único objetivo acalmar a efervescência do povo e obrigar a classe revolucionária a cessar ou pelo menos a enfraquecer a sua ação.

A social-democracia revolucionária da Rússia compreendeu muito bem o verdadeiro caráter desta outorga de uma Constituição ilusória em Agosto de 1905. E foi por isso que lançou, sem qualquer hesitação, as palavras de ordem: “Abaixo a Duma consultiva! Boicote da Duma! Abaixo o governo czarista! Continuação da luta revolucionária para derrubar este governo! Não é o czar, mas um governo revolucionário provisório que deve convocar a primeira verdadeira assembleia representativa do povo na Rússia!”

A história deu razão aos social-democratas revolucionários, porque a Duma de Buliguine não chegou a ser convocada. A tormenta revolucionária varreu-a antes mesmo da sua convocação e obrigou o czar a promulgar uma nova lei eleitoral aumentando sensivelmente o número de eleitores, e a reconhecer o caráter legislativo da Duma.

Em Outubro e Dezembro de 1905, a curva ascendente da revolução russa atingiu o seu ponto mais alto. Todas as fontes de energia revolucionária do povo jorraram mais impetuosamente que como referi, a 440 000, ultrapassou em Outubro de 1905 o meio milhão (num único mês, reparem!). Mas a este número, que conta somente os operários das indústrias, deve juntar-se várias centenas de milhares de ferroviários, de empregados dos correios, etc.

A greve geral dos ferroviários parou o tráfego ferroviário em toda a Rússia e paralisou seriamente as forças do governo. As portas das universidades abriram-se e das salas de conferências, exclusivamente destinadas, em tempo de paz, à intoxicação dos jovens espíritos com a sabedoria professoral para fazer deles lacaios dóceis da burguesia e do czarismo, passaram a servir então de salas de reuniões para milhares e milhares de operários, de artesãos e empregados, que aí discutiam aberta e livremente questões políticas.

A liberdade de imprensa foi conquistada com grande luta. A censura foi pura e simplesmente abolida. Já nenhum editor ousava submeter às autoridades o exemplar obrigatório previsto pela lei, e estas não ousavam reagir. Pela primeira vez na história da Rússia, jornais revolucionários foram publicados sem entraves em Petersburgo e noutras cidades. Só em Petersburgo eram editados três diários social-democratas com uma tiragem de 50 000 a 100 000 exemplares.

O proletariado estava à cabeça do movimento. Propunha-se arrancar a jornada de oito horas pela via revolucionária. Em Petersburgo, a palavra-de-ordem era então: “A jornada de oito horas e armas!” Tornou-se claro para um número sempre crescente de operários que a sorte da revolução não podia ser e não seria decidida senão através da luta armada.

Uma organização de massa com um caráter original foi formada no calor do combate: os célebres Sovietes de deputados operários, assembleias de delegados de todas as fábricas. Em várias cidades da Rússia, estes Sovietes de deputados operários assumiram cada vez mais o papel de um governo revolucionário provisório, o papel de órgãos e de guias dos levantamentos. Tentou-se criar Sovietes de deputados de soldados e de marinheiros, e associá-los aos Sovietes de deputados operários.

Algumas cidades da Rússia tornaram-se então minúsculas “repúblicas” locais onde a autoridade do governo foi varrida e onde os Sovietes de deputados operários funcionavam realmente como um novo poder de Estado. Infelizmente, estes períodos foram demasiado breves, as “vitórias” demasiado fracas e demasiado isoladas.

Durante o Outono de 1905 o movimento camponês tomou proporções ainda maiores. Mais de um terço dos distritos do país foram então teatro “de perturbações agrárias” e de verdadeiros levantamentos de camponeses que incendiaram cerca de 2000 propriedades e partilharam os bens arrancados ao povo pelos escroques da nobreza.

Infelizmente, esta ação foi muito superficial! Infelizmente, os camponeses só destruíram um quinze avos das propriedades, uma pequena fração do que deveriam ter destruído para libertar definitivamente a terra russa dessa ignomínia que é a grande propriedade fundiária feudal. Infelizmente, os camponeses agiram numa ordem demasiadamente dispersa, não estavam suficientemente organizados nem eram suficientemente combativos, e foi esta uma das razões essenciais da derrota da revolução.

Um movimento de emancipação nacional sublevou os povos oprimidos da Rússia. Mais de metade, quase três quintos (exatamente 57 por cento) dos povos do país sofrem a opressão nacional, nem sequer têm o direito de falar livremente a sua língua materna, são russificados à força. Os muçulmanos, por exemplo, que são na Rússia dezenas de milhões, fundaram então com uma prontidão admirável uma liga muçulmana; em geral, foi uma época em que as mais diversas organizações se multiplicaram prodigiosamente.

Para dar particularmente aos jovens uma ideia da amplitude que tomou o movimento de emancipação nacional na Rússia de então, em ligação com o movimento operário, citarei este simples fato.

Em Dezembro de 1905, em centenas de escolas, os estudantes polacos queimaram todos os livros e quadros russos, e retratos do czar; agrediram e expulsaram das escolas os professores russos e mesmo os seus colegas russos aos gritos de: “Vão-se embora, voltem para a Rússia!” Os alunos das escolas secundárias da Polônia enunciaram, entre outras, as seguintes reivindicações: 1) todas as escolas secundárias devem estar subordinadas ao Soviete dos deputados operários; 2) serão convocadas reuniões conjuntas de estudantes e operários nas escolas; 3) os estudantes dos liceus estarão autorizados a vestir camisas vermelhas, para marcar a sua adesão à futura república proletária, etc.

Quanto mais amplas se tornavam as ondas do movimento, mais energicamente a reação se armou para combater a revolução. A revolução russa de 1905 confirmou o que Karl Kautsky escreveu em 1902 no seu livro A Revolução social (Kautsky, diga-se de passagem, era ainda então um marxista revolucionário e não, como hoje, um defensor dos sociais-patriotas e dos oportunistas). Dizia:

“A próxima revolução… assemelhar-se-á menos a um levantamento espontâneo contra o governo e mais a uma guerra civil de longa duração.”

E foi mesmo o que aconteceu! E assim será certamente na próxima revolução na Europa!

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