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Lenin: Palestra sobre a Revolução de 1905

O ódio do czarismo voltou-se sobretudo contra os judeus. Por um lado, estes forneceram uma percentagem particularmente elevada (em relação ao número total da população judaica) de dirigentes do movimento revolucionário. Repare-se, a propósito, que também hoje o número de internacionalistas entre os judeus é relativamente mais elevado do que entre os outros povos. Por outro lado, o czarismo sabia muito bem explorar os preconceitos mais infames das camadas mais incultas da população contra os judeus para organizar, se não mesmo para dirigir ele próprio, pogroms (contaram-se então em 100 cidades mais de 4000 mortos e mais de 10 000 mutilados), esses monstruosos massacres de judeus pacíficos, das suas mulheres e crianças, essas abominações que tornaram o czarismo tão odioso aos olhos do mundo civilizado. Estou a referir-me naturalmente aos membros verdadeiramente democráticos do mundo civilizado, que são exclusivamente os operários socialistas, os proletários.

Mesmo nos países mais livres, mesmo nas repúblicas da Europa Ocidental, a burguesia sabe muito bem associar as suas frases hipócritas contra as “atrocidades russas” às negociatas financeiras mais desavergonhadas, especialmente o apoio financeiro que concede ao czarismo e à exploração imperialista da Rússia pela exportação de capitais, etc.

A revolução de 1905 atingiu o seu ponto culminante quando da insurreição de Dezembro em Moscou. Um pequeno número de insurretos, operários organizados e armados – não eram mais de oito mil – resistiu durante nove dias ao governo do czar. Este não se podia fiar na guarnição de Moscou; pelo contrário, teve de mantê-la fechada, e foi só com a chegada do regimento Semionovski, chamado de Petersburgo, que pôde reprimir o levantamento.

A burguesia compraz-se em troçar da insurreição de Moscou e em qualificá-la de artificial. Por exemplo, entre as publicações alemãs ditas “científicas”, existe uma obra volumosa sobre o desenvolvimento político da Rússia, escrita pelo professor Max Weber que qualificou a insurreição de Moscou de “golpe”. “O grupo de Lenin – escreveu aquele “doutíssimo” professor – e uma parte dos Socialistas-Revolucionários tinham preparado desde há muito esse levantamento insensato.”

Para apreciar com o devido valor esta sabedoria professoral da burguesia covarde, basta recordar sem comentários os números da estatística das greves. Em Janeiro de 1905, havia apenas 130 000 grevistas na Rússia lutando por reivindicações puramente políticas; em Outubro, contavam-se 330 000, e o máximo foi atingido em Dezembro, quando, no espaço de um mês, existiram 370 000 grevistas por motivos estritamente políticos! Recordemos os progressos da revolução, os levantamentos dos camponeses e as revoltas militares e convencer-nos-emos de imediato de que o juízo sustentado pela “ciência” burguesa sobre a insurreição de Dezembro é não apenas inepto, mas é também um subterfúgio por parte dos representantes da burguesia covarde que encontra no proletariado o seu inimigo de classe mais perigoso.

Na realidade, todo o desenvolvimento da revolução russa conduzia inelutavelmente a uma luta armada, decisiva, entre o governo do czar e a vanguarda do proletariado consciente enquanto classe.

Já apontei, nas considerações anteriores, em que consistiu a fraqueza da revolução russa, a fraqueza que ocasionou a sua derrota temporária.

Depois de sufocada a insurreição de Dezembro, a revolução seguiu uma curva descendente. Mas este período compreende, também, fases com o maior interesse; basta evocarmos as duas tentativas feitas pelos elementos mais combativos da classe operária para pôr fim ao recuo da revolução e preparar uma nova ofensiva.

Mas o tempo que me foi atribuído está quase esgotado e não quero abusar da paciência dos meus ouvintes. Penso que já apontei – na medida em que um tema tão vasto possa ser exposto com brevidade – o essencial para a compreensão da revolução russa: o seu caráter de classe e as suas forças motoras, os seus meios de combate.

Limito-me a acrescentar algumas observações sumárias sobre o alcance mundial da revolução russa.

Do ponto de vista geográfico, econômico e histórico, a Rússia pertence não só à Europa, mas também à Ásia. Por isso vemos que a revolução russa conseguiu não apenas retirar definitivamente do seu torpor o maior e mais atrasado país da Europa e criar um povo revolucionário conduzido por um proletariado revolucionário.

Isto não foi tudo. A revolução russa também agitou toda a Ásia. As revoluções da Turquia, da Pérsia e da China mostram que a insurreição grandiosa de 1905 deixou marcas profundas e que é inapagável a sua influência, manifestada no movimento ascendente de centenas e centenas de milhões de pessoas.

Indiretamente, a revolução russa também exerceu a sua influência nos países do Ocidente. Não podemos esquecer que a 30 de Outubro de 1905, desde a chegada a Viena do telegrama anunciando o manifesto constitucional do czar, a notícia teve um papel decisivo na vitória do sufrágio universal na Áustria.

No congresso da social-democracia austríaca, quando o camarada Ellenbogen – à data não era ainda um social-patriota, ainda era um camarada – apresentava o seu relatório sobre a greve política, colocaram aquele telegrama à sua frente. Os debates foram imediatamente interrompidos. “O nosso lugar é na rua!” exclamaram os delegados da social-democracia austríaca. E nos dias seguintes viram-se gigantescas manifestações de rua em Viena, e barricadas em Praga. A vitória do sufrágio universal na Áustria estava definitivamente conquistada.

Encontramos frequentemente ocidentais que falam da revolução russa como se os acontecimentos, as relações e os meios de luta daquele país atrasado fossem muito pouco comparáveis com os da Europa Ocidental e não pudessem, portanto, ter qualquer alcance prático.

Nada de mais errado do que esta opinião.

Decerto, as formas e os objetivos das próximas lutas da revolução europeia do futuro serão diferentes sob vários aspectos das formas da revolução russa.

Mas a revolução russa não deixa de ser – devido precisamente ao seu caráter proletário, com o sentido particular que já indiquei – o prelúdio da revolução europeia iminente. Não restam dúvidas que esta terá que ser uma revolução proletária, e num sentido ainda mais profundo da palavra: uma revolução proletária e também socialista no seu conteúdo. Esta revolução que se aproxima mostrará com ainda maior amplidão, por um lado, que só os combates aguerridos, nomeadamente, as guerras civis, podem libertar a humanidade do jugo do capital e, por outro, que só os proletários com uma consciência de classe desenvolvida podem intervir e intervirão na qualidade de chefes da imensa maioria de explorados.

O silêncio de morte que reina atualmente na Europa não pode nos iludir. A Europa está prenhe de uma revolução. As atrocidades monstruosas da guerra imperialista, os tormentos da carestia da vida geram por todo o lado um estado de espírito revolucionário, e as classes dominantes, a burguesia assim como os seus lacaios, os governos, estão cada vez mais empurrados para um impasse, do qual não podem escapar sem muito graves perturbações.

Tal como em 1905 o povo da Rússia, conduzido pelo proletariado, se sublevou contra o governo do czar para conquistar uma república democrática, veremos nos próximos anos, na sequência desta guerra de pilhagem, os povos da Europa sublevarem-se sob a condução do proletariado, contra o poder do capital financeiro, contra os grandes bancos, contra os capitalistas; e estes levantes só poderão terminar com a expropriação da burguesia e a vitória do socialismo.

Nós os mais velhos, não veremos talvez as lutas decisivas da revolução iminente. Mas creio poder transmitir com grande segurança a esperança de que os jovens, que militam tão admiravelmente no movimento socialista da Suíça e do mundo inteiro, terão a felicidade não só de combater na revolução proletária de amanhã, mas também de levá-la ao triunfo.

Tradução para o português: José André Lôpez Gonçâlez.e Fernando A. S. Araújo, maio de 2007.

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