Uma conversa sobre a atual situação na Palestina

Reproduzimos aqui em nosso portal especialmente para os nossos leitores um interessante diálogo sobre a situação atual na Palestina (naturalmente fictício) entre o Professor Moha Mud e seu colega Eurides Frates.

— Professor Moha Mud, boa noite.

A impressão que eu tive de todo esse trágico processo para os palestinos, a ponto de correrem o risco desaparecem nesta região de Gaza, foi a de que Hamas e outras organizações associadas deram um tiro no pé.

A essa altura será que ainda existem reféns? Se existirem seria o momento de liberta-los. Não lhe parece?

 

— Olá Prof. Eurides.  Você está protagonizando o Hamas no interior da agenda de relações públicas do sionismo.  A questão não pode ser vista simplesmente como um cálculo político preciso, como em nossa sociedade.  Nem em nosso meio os cálculos dão certo.  A avaliação se foi correta ou não a avaliação do Hamas em atacar não nos cabe; só o povo palestino de alguma forma (se possível) irá avaliar o que aconteceu.  Mas não acredito que seja uma condenação tão visceral, se houver.  As violências contra os palestinos beiram à aberração (prisões de menores e outros, mortes, roubo de órgãos dos cadáveres para o sistema de saúde pública do sionismo, etc.).  Veja na internet o que os palestinos chamam de ZANANA  e avalie se é possível tomar decisões com cálculos políticos precisos.   As exigências do Hamas para libertar os reféns sionistas é… a libertação de reféns palestinos nas prisões deles sem processo ou culpa formada (ou com processos judiciais absurdos).  Dado o isolamento da causa palestina, com a aproximação da Arábia Saudita e outros, o Hamas (deve ter) vislumbrado que a libertação de lideranças políticas palestinas presas há décadas nas prisões sionistas seria um caminho para reinventar um movimento nacionalista palestino.  Marwan Barghouti (o Mandela palestino) está preso há 22 anos por acusações forjadas.  Ele seria o primeiro presidente de um Estado palestino (conhecido também como sucessor de Arafat).  Ele está na lista de exigências de libertação do Hamas. leia mais

Gaza, ano zero: as raízes do Holocausto palestino [parte 6]

Bernardo Kocher
Prof.  História Contemporânea
Universidade Federal Fluminense
Publicado no Opera Mundi em 23 de maio de 2024.

 

 

A invasão de Rafah indica um ponto crucial sobre a relação de Israel com os países vizinhos; alguns deles já estão em prontidão para uma futura crise política

 

Nos últimos quinze dias a situação na Faixa de Gaza continuou a se deteriorar, expondo a cada momento os efeitos cumulativos da destruição de vidas e da infraestrutura sobre a sobrevivência do povo palestino, afetado pela política social genocida praticada pelo Estado sionista. A aplicação em Rafah da mesma conduta contra a população civil indefesa do norte do enclave indica que a crise aberta com os episódios de 7 de outubro está alcançando um novo “ponto de não retorno”. Ou seja, em meio a uma crise que aos olhos de muitos é estratosférica, o governo sionista indica que está disposto iniciar outra(s), buscando agora objetivos estratégicos mais amplos. Como veremos abaixo, uma fase significativa do que chamamos de “sionismo interno” está por se encerrar, e outra, do “sionismo externo”, poderá ser iniciada logo em seguida.

Nossa análise nesta coluna não trará detalhes sobre as barbaridades possíveis de serem lançadas sobre os palestinos em Rafah, nem suas consequências duradouras. Elas já são visíveis, mas podem piorar. O que importa neste momento é perceber que a situação nesta localidade, com o enorme afluxo de população que para lá se dirigiu para tentar se preservar da carnificina, gerou um timing (temporalidade) que precisa ser catalogado e analisado para que se dê conta da sua inteireza dentro da política social genocida dos sionistas. Esta temporalidade deve ser vista em função: a) do início da incursão em outubro de 2023; e, b) do início da ação do Estado sionista após a incursão, que ocorrerá em data ainda não prevista. leia mais

Gaza, ano zero: as raízes do Holocausto palestino [parte 5]

Bernardo Kocher
Prof.  História Contemporânea
Universidade Federal Fluminense
Publicado no Opera Mundi em 10 de maio de 2024.

É possível que os atos estudantis estejam adiando (ou impedindo) o ataque mais mortal de todos os até agora praticados contra o povo palestino, em Rafah

 

 

Neste início de maio de 2024, é imprescindível considerar que um fator indiretamente vinculado à política genocida aplicada pelo Estado sionista na Faixa de Gaza está se tornando relevante na opinião pública mundial: as manifestações dos estudantes universitários norte-americanos e, a partir deste “ponto zero”, o espraiamento dos protestos para vários centros acadêmicos da Europa, Ásia, Oceania e América Latina. É relevante e também alvissareiro que finalmente um verdadeiro movimento com base social de massas tenha ao menos potencialmente atingido a autoestima e, eventualmente, os interesses dos apoiadores da política social genocida em curso. Isto ocorre para além da imersão destes discentes na cultura humanística na qual eles foram formados, de respeito aos direitos humanos. Após meses de massivas manifestações de rua que se replicaram em várias cidades daqueles continentes, um verdadeiro ponto nevrálgico da questão foi finalmente criado com a inserção estudantil no processo de denúncia do que está ocorrendo. As passeatas e comícios desde o início da “guerra” não haviam logrado sensibilizar as forças políticas da sociedade civil do sistema imperial para o cometimento de seus crimes.

Embora não possa haver um levantamento preciso das instituições paralisadas, já que o número de instituições é crescente, sabe-se que a maior parte está nos EUA (principalmente), Reino Unido, França e Austrália. Encontram-se disponíveis na internet ações estudantis da mesma monta na Alemanha e Suécia. Temos ainda como inicial as informações de que o movimento alcançou a Cidade do México. É emblemático também que no interior dos próprios países perpetradores de uma barbárie inaudita contra uma população civil indefesa são produzidos os movimentos sociais contestatórios mais expressivos. A repressão para a retirada dos acampamentos já se iniciou, produzindo nos EUA alguns milhares de manifestantes presos, por vezes professores destes, e alguns feridos. Mimeticamente, replica-se em escala reduzida a conduta e o ódio contra os palestinos na conduta crítica dos jovens, que não raras vezes são vistos como “terroristas”. leia mais

Fatos & Crítica 46: A tragédia das inundações no Rio Grande do Sul: de quem é a responsabilidade?

 

 

As inundações no Rio Grande do Sul afetaram mais de dois milhões de pessoas, obrigaram cerca de 530 mil a abandonar as suas casas e 80 mil a buscar acolhimento em abrigos. Até agora, foram confirmados 169 óbitos e quase mil feridos. A economia da maioria dos municípios do estado, em todos os seus setores, foi profundamente abalada.

Calamidades com tamanha gravidade nunca haviam ocorrido no Rio Grande do Sul e o evento soma-se a muitas outras catástrofes climáticas – sejam elas ondas de calor e incêndios ocasionados por secas, sejam furacões, deslizamentos de terra ou inundações provocadas por chuvas torrenciais – que vêm ocorrendo nos últimos anos de forma cada vez mais comum e intensa por toda a superfície do planeta e, obviamente, no Brasil.

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Não à tropa!

Colectivo Bandeira Vermelha –

 

Recentemente surgiram vozes defendendo o regresso do Serviço Militar Obrigatório (“a tropa”). Como que vindos do nada, generais, políticos e comentadores descobrem ameaças à segurança nacional, à democracia e à liberdade; que as forças armadas portuguesas não têm condições de responder às ameaças dos tempos actuais e defender a integridade e a soberania nacional, que são obsoletas, insuficientes e, por via disso, incapazes de cumprir satisfatoriamente os seus compromissos no quadro da NATO. Tudo isto devidamente embrulhado em bafientos discursos militaristas, em que não falta a estafada “honra e orgulho de morrer pela pátria” e os apelos patrioteiros.

De onde vem esta “descoberta”, dado que, olhando à nossa volta, não está o país em risco de ser invadido nem a ser ameaçado por espanhóis, norte-africanos ou árabes?
A resposta é simples, e nada tem a ver com qualquer suposto “interesse nacional” ou ameaça à “soberania nacional” mas com o desastre que está a ser a guerra na Ucrânia.
Falhadas as perspectivas iniciais de uma derrota rápida da Rússia que, dizia-se, seria posta de joelhos pela capacidade e superioridade da indústria de guerra ocidentais, pelas sanções, pelo boicote económico, o confisco dos milhares de milhões depositados pelos russos nos bancos ocidentais, e pelo envio de armas e mercenários, o que se prefigura é a derrota da Ucrânia – o mesmo é dizer, dos EUA, NATO e União Europeia. Algo tido como intolerável por estes, e que coloca a questão de se ter de vir a enviar tropas europeias (não norte-americanas, dado que quer Biden quer Trump já disseram que não o fariam) para combater na Ucrânia contra os russos, mesmo correndo-se o risco bem real de isso nos conduzir a uma terceira guerra mundial e ao holocausto nuclear. Macron foi o primeiro a apontar essa necessidade, ideia que lentamente vai fazendo o seu caminho e a ser secundada por responsáveis da NATO e da União Europeia. leia mais