Live de lançamento do livro ‘O Labirinto, Encontros clandestinos entre a Vida e a Morte’, de Victor A. Meyer

 
O livro O Labirinto – Encontros Clandestinos entre a Vida e a Morte, e outras narrativas, é composto por pequenos textos, com gêneros diversos, que retratam distintos momentos políticos, a partir de vivências da infância, da adolescência e da juventude do autor, sob o seu olhar sensível e arguto. Nela, acompanhamos as memórias do autor, que se deslocam ao longo dos anos da ditadura militar brasileira, narradas de modo envolvente. O livro contém também um texto analítico da organização política a que o autor pertencia durante os “Anos de Chumbo” e outros textos, com suas impressões de Paris e de Cuba.

Victor Augusto Meyer Nascimento (1948-2001) foi um intelectual militante marxista baiano, que pertenceu à Organização de Combate Marxista Leninista – Política Operária, nos tempos da ditadura militar. Era Mestre em Economia e Doutor em Administração Pública, pela Universidade Federal da Bahia. Foi Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana e da Universidade Católica de Salvador.

 

Fatos & Crítica nº 28: Brasil: o percurso de um Titanic sanitário

Ou como chegamos a este morticínio.

 

Não há nada mais parecido a um fascista do que um burguês assustado.
(Bertolt Brecht)

 

O sol esquentava o cemitério
Onde o soldado jazia em paz
Até que uma noite chegou ao front
Um médico militar
Tiraram então o soldado da cova
Ou o que dele sobrou
E o médico disse
“Tá bom pro serviço
ainda tem muito pra dar!”
(Idem)

 

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
– Sabe pensar
(Idem)

 

 

Prelúdios de uma longa noite de terror

O primeiro caso da Covid-19 foi confirmado no dia 26 de fevereiro de 2020. Um homem de 61 anos, morador de São Paulo, contraiu o coronavírus numa viagem à Itália entre os dias 9 e 21 de fevereiro. Passado um ano de seu início, a pandemia do coronavírus no Brasil alcançou hoje, 11/03/2021, a marca simbólica e estarrecedora de mais de 270 mil mortos, o equivalente a 3,4 Maracanãs lotados.

Que o coronavírus foi o agente etiológico dessa doença que causou o alto número de óbitos ocorridos até agora, disso não há a menor dúvida. Mas para chegar a essa dimensão monstruosa de mortes, o vírus contou com a enorme colaboração dos comandantes desse verdadeiro “Titanic sanitário” em que vivemos: o país é um navio afundando por negligência de seu comando político e econômico, e tal como o histórico Titanic, escapar vivo do naufrágio é um privilégio da primeira classe. Chegamos até este ponto porque existem responsáveis por essas mortes desenfreadas. Não é obra apenas de um governo tresloucado, habitado por um presidente desequilibrado, seu rebotalho de políticos e de militares dissimulados em administradores. Este governo, antes de tudo, é a expressão dos interesses de uma classe, a burguesia que lhe dá sustentação. Sua espinha dorsal está no consensual programa econômico colocado em prática para aumentar o grau de exploração da classe trabalhadora, aniquilar seus direitos e reduzir investimentos sociais, tornando ainda pior as condições sanitárias precárias em que vive o proletariado brasileiro.

Desde o início da crise pandêmica, o governo Bolsonaro e seus asseclas negacionistas agem deliberadamente para favorecer a propagação do vírus. A cumplicidade governamental com este morticínio pode ser identificada pela difusão da crença enganosa da “imunidade de rebanho”, termo epidemiológico assimilado e distorcido pelo bolsonarismo como sendo a inevitabilidade de contágio da população com o consequente sacrifício de morte daqueles que são socialmente mais “frágeis”, logicamente as classes mais pobres e exploradas, os doentes e idosos, “vítimas de um processo de seleção natural”, obviamente inspirado no conceito de direita de darwinismo social.

A afirmativa de Bolsonaro de que a Covid-19 seria apenas uma gripezinha, é uma torpeza que nos remete ao passado da Alemanha nazista. Naquele terrível momento histórico, os campos de extermínio eram convenientemente chamados de “campos de trabalho” e até “colônia de férias” com o objetivo de manter passiva a massa humana que rumava para os corredores da morte. Nesses campos, os prisioneiros eram levados para câmaras de gás onde morriam por asfixia (que curiosa coincidência), convencidos por seus algozes até as portas da morte de que iriam para um “banho coletivo de desinfecção”.

Ademais, a defesa intransigente da “imunidade de rebanho” presta um serviço às bases sociais do bolsonarismo, quer dizer, à pequena-burguesia principalmente detentora de negócios nos ramos da indústria, do comércio e dos serviços que empregam força de trabalho a salários de fome.

Mas o discurso governamental que naturaliza o morticínio da pandemia vai ao encontro dos interesses materiais de toda a classe burguesa. Por trás da lógica perversa da inércia contra a pandemia está o sacrifício de vidas da classe trabalhadora para o “altar do Capital”. Há uma unanimidade da burguesia em torno da atualização da Medida Provisória 936 ou Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, que permitiu reduzir jornadas e salários ou suspender contratos de trabalho, contando com repasse governamentais para compensar parte do salário reduzido. Em 2020, o Ministério da Economia estimou um total de 20 milhões de acordos, envolvendo 1,5 milhão de empresários e 10 milhões de empregados. leia mais

Fatos & Crítica nº 27: Bolsonaro muda de tática?

 

 

Bolsonaro foi eleito em 2018 com 55% dos votos válidos, após vencer no segundo turno o seu oponente do PT. Sua vitória foi turbinada pela exploração ao máximo pela grande mídia e redes sociais dos escândalos de corrupção das administrações petistas, complementada por ações decisivas do Judiciário como a Operação Lava-jato e dos militares do Alto Comando do Exército para pavimentar o caminho do capitão rumo ao Palácio do Planalto.

A necessidade imperiosa da burguesia de implantar uma saída para a crise econômica à custa do aumento da exploração dos trabalhadores foi o combustível que alimentou o antipetismo, mas a grande burguesia tinha outros nomes de confiança para assumir o poder, como Henrique Meirelles e Geraldo Alckmin. Tendo-lhes faltado substância eleitoral, por se tratar de políticos tradicionais, a classe dominante como um todo não teve a menor dificuldade de apostar todas as suas fichas, no segundo turno das eleições, no candidato da extrema-direita.

A base eleitoral que elegeu Bolsonaro foi, assim, bastante ampla. Incluiu a extrema-direita, a direita, o centro e, devemos admitir, até setores do proletariado insatisfeitos com a crise econômica e com a insegurança pública.

Em termos sociais, tenderam a apoiar o bolsonarismo – da mesma maneira que fizeram no passado com Jânio Quadros, Carlos Lacerda e Fernando Collor – amplos setores da pequena-burguesia (pequenos comerciantes, caminhoneiros autônomos, militares de todos os tipos e graduações) e também do lumpemproletariado, mas nenhum desses setores sociais possui uma alternativa própria para conduzir o Estado, sendo assim facilmente hegemonizados pela ideologia e pela perspectiva do grande capital.

A nomeação do financista Paulo Guedes para Ministro da Economia, com plenos poderes, representou a garantia de que a plataforma do grande capital para a crise econômica seria seguida à risca: reforma previdenciária retirando direitos dos aposentados, aprofundamento da reforma trabalhista retirando ainda mais direitos dos trabalhadores, reforma administrativa retirando direitos dos funcionários públicos, privatizações beneficiando grandes grupos capitalistas e reforma tributária diminuindo os impostos sobre o capital.

A base política bolsonarista no Congresso após as eleições era formada essencialmente pelos famosos “três B”: representantes do aparato repressivo do estado (a bancada da bala), representantes das igrejas evangélicas neopentecostais (a bancada da Bíblia) e representantes do agronegócio (a bancada do boi), espalhados pelos mais diversos partidos da direita.

Porém, há também uma base política fora do Congresso, que deve ser considerada. Além dos grupos de militantes de extrema-direita organizados em torno das redes sociais, existem grupos paramilitares que congregam integrantes e ex-integrantes das forças de repressão e que dominam territórios urbanos, como favelas e bairros populares da zona oeste no Rio de Janeiro, e constituem a base potencial para a formação de um partido fascista.

Nenhuma força política fora do Poder Legislativo, entretanto, é mais importante para a sustentação do governo do capitão do que a dos militares. Tendo sido em grande parte os responsáveis pelas manobras pré-eleitorais que permitiram a vitória da chapa Bolsonaro-Mourão, integrantes das Forças Armadas hoje ocupam 6.157 cargos civis no Poder Executivo (contra 2.765 no final do governo Temer), sendo 342 cargos no alto escalão no Governo Federal (nada menos que 6,5% do total desses cargos, segundo recente pesquisa).

De início, Bolsonaro tentou fazer maiorias pontuais no parlamento, em torno de projetos específicos, mas não obteve bons resultados. Diante da dificuldade de implantar esse que era o seu Plano B, passou então a tentar a execução do Plano A, aquele no qual efetivamente acredita e se sente naturalmente mais à vontade para executar: o fomento de um golpe de estado com o apoio militar.

Como Jânio Quadros, que tentou o golpe da renúncia quando se sentiu sem apoio parlamentar, Bolsonaro conclamou os seus aliados militares para dissolver o STF. Ocorre, no entanto, que os militares também não constituem uma classe social com objetivos próprios. Pertencem a um segmento da pequena-burguesia formado e treinado para garantir em última instância a preservação do poder burguês e, especificamente no caso brasileiro, para a tutela permanente do poder civil.

A burguesia brasileira não considerou que estivessem configuradas as condições para a sua renúncia ao exercício direto do poder político em troca da manutenção do seu domínio social, já que este não se encontra minimamente ameaçado. Nessas circunstâncias, Bolsonaro não conseguiu convencer a cúpula militar a atravessar o Rubicão. Foi demovido da ação voluntarista por um dos generais que o cercam, com um argumento categórico: não era o momento.

 

Aliança com o Centrão

Com mais de 60 pedidos de impeachment acumulados no gabinete do presidente da Câmara, ações judiciais contra seus filhos e aliados da extrema-direita, pressionado pela gestão irresponsável das ações contra a pandemia e sem condições de virar a mesa e realizar o seu sonho de massacrar 30.000 pessoas, Bolsonaro teve que cuidar de sua blindagem no parlamento, mesmo que para isso tivesse que esquecer as críticas muito recentes ao fisiologismo dos políticos tradicionais ali abrigados.

Assim, estabeleceu-se uma aliança entre o executivo e o chamado Centrão: o capitão engolia suas críticas aos métodos corruptos de governar e, em troca, preservava o seu mandato. Os partidos e lideranças fisiológicas do parlamento, que já haviam participado da base aliada de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer, também se esqueciam das agressões do capitão, em troca de cargos e emendas parlamentares que lhe permitissem grandes lucros políticos e pecuniários. leia mais

8 de março – dia de luta da mulher trabalhadora

Andressa Fochesatto*
* Professora da rede estadual de ensino de Pernambuco, Formadora do Núcleo de Educação Popular 13 de Maio e integrante do coletivo Novo Germinal – Centro de Estudos Victor Meyer de Pernambuco.

 

É urgente e necessário retomarmos as raízes históricas do 8 de março, evocando o espírito de luta e mobilização das mulheres da classe trabalhadora do início do século XX, que inspiraram as socialistas alemãs Luise Zietz e Clara Zetkin a convocar um Dia Internacional das Mulheres da Classe Trabalhadora.

Vemos nos últimos anos uma série de greves e manifestações protagonizadas por mulheres em todo o mundo[1]​ ​ que coloca como possibilidade uma nova onda feminista combativa e classista, que rejeita a subvalorização do trabalho, tanto remunerado como não remunerado, das mulheres no capitalismo e lança os olhos para uma luta de classes feminista, internacionalista, antirracista e anticapitalista.

É principalmente sobre o trabalho das mulheres (remunerado e não remunerado) que o capitalismo se sustenta e se perpetua. Em se tratando do trabalho remunerado, nossas reivindicações vão muito além da luta por salário e jornada, ela também aborda, entre outros, o assédio e a violência sexual, assim como as barreiras à justiça reprodutiva.

No campo do trabalho não remunerado, é fundamental chamarmos a atenção para atividades das quais o capital se beneficia, mas pelas quais não paga, que possuem um papel indispensável e são majoritariamente desenvolvidos pelas mulheres. E não estamos falando apenas da criação e manutenção da vida no sentido biológico, mas também na criação da nossa capacidade de trabalhar.

Nesses termos, a base da sociedade capitalista não está ancorada apenas nas relações que diretamente exploram a força de trabalho, mas também nas relações que a geram e a repõem. O capital se vale do trabalho reprodutivo, ao mesmo tempo que renega o seu valor.

Assim, a luta de classes se amplia. Se até pouco tempo atrás era voltada exclusivamente aos locais de trabalho, hoje ela ocorre em diversos planos sociais e também gira em torno da reprodução social: por educação pública, gratuita e de qualidade; por um sistema de saúde universal; por moradia, transporte público e justiça ambiental.

A opressão que as mulheres sofrem assume diferentes formas. Sabemos que o capitalismo tem suas origens na violenta pilhagem colonial, expropriação de povos indigenas e no trabalho escravo oriundo do trafico de negros vindos da África. Vivemos numa sociedade extremamente racista e isso traz implicações para as mulheres negras e indígenas, que são as que se encontram nos piores postos de trabalho e com os menores rendimentos, sofrendo com as relações informais de trabalho ou ocupando a dianteira nos índices de desemprego. As mulheres negras são as que se encontram em maior vulnerabilidade social, são as maiores vítimas de violência[2]​ ​ e constituem a maioria das mulheres encarceradas em nosso país[3]​ ​, seus corpos são objetificados e sexualizados. As mulheres indígenas e quilombolas ainda precisam lutar contra a invisibilização, pelo direito ao território, saúde, educação e preservação da cultura e dos seus modos de vida. Nossa luta só será completa e vitoriosa se for capaz de abarcar todas as mulheres trabalhadoras numa luta que é também antirracista.

Entendemos também que deve estar no nosso horizonte o combate ao feminismo liberal – que está tão em alta na sociedade hoje, com grande espaço inclusive nas mídias profissionais. É aquele feminismo que propõe, por exemplo, mais espaço para as mulheres e cargos de chefia nas empresas, e tem uma visão de igualdade baseada no mercado. Apresenta a ideia de representatividade e empoderamento da mulher ao garantir que ela possa ter os mesmos cargos e salários que os homens. Está totalmente ancorado na meritocracia e no individualismo.
Não devemos lutar para ter as mesmas oportunidades de dominação que os homens. Muito menos incentivar mulheres a serem serviçais do capitalismo. Ao contrário: nossa luta é pelo fim desse sistema baseado na dominação e exploração da nossa classe. É uma luta anticapitalista.

Neste ano de 2021, vivemos uma crise social ampla e cruel – uma crise que é sanitária, econômica, política e ambiental – que ameaça a vida humana. O capitalismo mostra que é um sistema extremamente predatório e totalmente insustentável. Explora o trabalho assalariado, mas também explora a natureza e o trabalho não remunerado que reproduz os seres humanos e as comunidades. A crise traz consigo um momento de grande sofrimento para nossa classe, mas também é uma grande oportunidade de um despertar político e de uma transformação social profunda e de longo alcance. E nós, mulheres trabalhadoras, estaremos ombro a ombro com os demais trabalhadores nas trincheiras dessa luta, honrando aquelas que vieram antes de nós e levando a cabo a necessária revolução socialista.

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notas:

[1]https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/mulheres-turbinam-protestos-com-dois-dias-de-ato-e-greve-na-am erica-latina.shtml

[2]https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/03/08/dia-da-mulher-e-marcado-por-greve-na-espanha-e-protestos-em- varios-paises.ghtml

[3]https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2018-03/greve-e-protestos-marcam-dia-internacional-da-mulher-pelo-mundo
 

O impacto da crise do capital no mercado de trabalho global em 2020

Do blog Cem Flores 12.02.2021

Foto: Trabalhadores/as aguardam na fila para receber refeições gratuitas nos EUA. Com a explosão do desemprego em 2020, uma onda de fome se alastrou pelo país. Uma a cada quatro pessoas estão sofrendo de insegurança alimentar.

 

 

 

O ano de 2020 foi marcado por mais uma violenta crise do sistema imperialista mundial. A economia global, que em 2019 já se encaminhava para uma nova recessão, foi fortemente abalada pelos impactos da pandemia do novo coronavírus, detonador e agravante da crise. Além dos impactos imediatos, vários são seus efeitos permanentes, a aprofundar o atual estado depressivo do imperialismo e agravar suas contradições, como demonstrou o texto de Michael Roberts sobre as projeções para 2021Um desses efeitos permanentes, a ser analisado com muita atenção pelos comunistas pela sua relevância para a luta de classes, será no mercado de trabalho.

A elevação do desemprego e da miséria, a destruição de empregos e a piora no mercado de trabalho são características centrais das crises capitalistas. Como demonstrou Engels em sua genial, e gritantemente atual, análise das classes trabalhadoras na Inglaterra:

“[Nas crises] os salários caem, por causa da concorrência entre os desempregados, da redução do tempo de trabalho e da falta de vendas lucrativas; a miséria se generaliza entre os operários; as eventuais pequenas economias dos indivíduos são rapidamente devoradas; as instituições beneficentes se veem assoberbadas; o imposto para os pobres duplica, triplica e entretanto continua insuficiente; cresce o número de famintos; e de repente toda a massa da população ‘supérflua’ revela sua impressionante magnitude.

As crises acirram as contradições do sistema capitalista e modificam as condições da luta de classes. Por isso, dissemos recentemente: “as crises são também luta de classes”. A depender da organização e luta proletária, elas podem ser momentos de fortalecimento da nossa classe ou do reforço da burguesia, pela redução dos salários e aumento da exploração – construindo, assim, as bases para a recuperação das taxas de lucro e da acumulação capitalista.

Mas a intensidade e as formas dessas mudanças no mercado de trabalho a partir das crises são variadas ao longo da história e dos paísesA crise de 2020 gerou enormes impactos no mercado de trabalho e nas condições de vida das massas trabalhadoras em todo o mundo. Em alguns aspectos, impactos cuja magnitude não possui precedentes históricos.

Um panorama sobre essa devastação se encontra na sétima edição do relatório da OIT “COVID-19 e o mundo do trabalho”, lançado em 25 de janeiro. Esse relatório possui um conjunto de dados atualizados sobre a dramática situação do mercado de trabalho no mundo em 2020.

Trazemos aos/às leitores/as e camaradas alguns dados do relatório da OIT, fundamentais para compreender a situação concreta das classes trabalhadoras no mundo e as condições atuais da luta de classes, assim como fizemos no início de 2020, com o relatório da OIT sobre 2019. Começaremos com uma síntese da visão da OIT daquele ano, para compreender a situação do mercado de trabalho global pré-crise de 2020 e contextualizar os atuais impactos.

 

 

O mercado de trabalho global em 2019: enorme desemprego, informalidade e precariedade

 

Em 2019, a OIT já alertava para um mercado de trabalho global extremamente deteriorado. Para dimensionar tal deterioração, a medida clássica de desemprego era insuficiente. De acordo com essa medida, a taxa de desemprego no mundo seria de 5,4%, ou “apenas” 188 milhões de trabalhadores/as. No entanto, uma massa muito maior de trabalhadores/as estava de fato no desemprego, seja por compor a força de trabalho potencial, seja por insuficiência de horas trabalhadas, mas não era considerada nesses 5,4%. Caso se somasse esse conjunto de trabalhadores/as, compondo assim a taxa de subutilização da força de trabalho mundial, chegaríamos a 13,1%, ou 473 milhões de trabalhadores/as. Quase meio bilhão!

E dentre os/as empregados/as, 61% estavam informais, chegando a 2 bilhões de trabalhadores/as no mundo na informalidade. A OIT lembrava que a informalidade, globalmente, “registra as taxas mais altas de pobreza entre os trabalhadores e um elevado porcentual de pessoas que trabalham por conta própria ou de trabalhadores familiares auxiliares que carecem da proteção adequada”.

Mesmo o setor formal vinha em piora contínua, com um conjunto de reformas trabalhistas e elevação da automação, do trabalho parcial, intermitente, por hora. Esta foi uma das principais expressões da ofensiva burguesa após a grande crise imperialista de 2008, que trouxe mais exploração e pobreza para as classes trabalhadoras.

A OIT projetava, à época “que a escassez de postos de trabalho continue no futuro próximo. A taxa de desemprego mundial se situou em 5,4% em 2019 e não se prevê que haja variação essencial nos próximos dos anos”. Como se vê, uma projeção otimista, mesmo sem considerar a pandemia. Por fim, ela vinculava esse cenário ruim e de baixas expectativas aos protestos que, em vários países, explodiram em 2019 diante do descontentamento das massas trabalhadoras, após anos sucessivos de desemprego, arrocho e piora nas condições de trabalho. leia mais