Fatos & Crítica nº 26: Lutar contra a fome, o desemprego e a ameaça à vida

 

 

A situação atual vivida pelos trabalhadores em nosso país no início do ano é extremamente crítica e trágica.  Crítica sob qualquer ângulo que se observe e analise: o salário mínimo de fome vigente a partir de 01/01/2021, os reajustes salariais abaixo da inflação oficial ocorridas na grande maioria das categorias em 2020, os 48 milhões sem auxílio emergencial, o desemprego em elevação (a Ford acabou de anunciar o fechamento de suas fábricas no Brasil). Trágica pelo aumento do número de casos e da mortalidade por covid-19, a fome e a desnutrição, o desespero em torno da violência que acompanha a degradação das condições de vida e da falta de perspectivas. É a realização do quadro previsto no último F & C, cuja superação é urgente.

 

Salário mínimo necessário contra salário de fome

No dia 1º de janeiro de 2021 passou a ter vigência o novo salário mínimo decretado pelo governo Bolsonaro; o valor de R$1.045 vigente no ano passado foi alterado para R$1.100,00 ,  representando um aumento de 5,22% baseado na revisão do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), inflação das famílias com renda de até cinco salários mínimos.

Como viver com esse salário miserável de R$1.100,00 dado os aumentos em cascata decorrentes do preço do combustível? De imediato, como conseguir até mesmo pagar o gás de cozinha que aumentou por conta da valorização do petróleo? E a energia elétrica? (a propósito, por que será que o governo não decretou horário de verão este ano?).

Fatos importantes precisam ser citados, como o do valor da cesta básica calculado pelo DIEESE para uma pessoa até dezembro de 2020  ter sido de 629,63 reais — o que, face ao salário mínimo vigente até a data, comprometia 65,14% do salário líquido.

salário mínimo necessário para uma família de quatro (4) pessoas deveria alcançar  R$5.304,90 (estimativa do DIEESE para dezembro de 2020).

De acordo com o DIEESE o salário mínimo serve de referência para 50 milhões de trabalhadores. Como é possível constatar na tabela abaixo, dos que recebem salário mínimo e serão “beneficiados” com o aumento de 55 reais para sobreviver em 2021, há um total de 12.092.000 empregados.

 

Impacto anual decorrente do aumento do salário mínimo em R$ 55,00

Tipo Número de Pessoas

(mil)

Valor Adicional da Renda Anual – R$ (2) Arrecadação Tributária Adicional R$ (3)
Beneficiários do INSS (1) 24.180 18.618.302.780 10.035.265.198
Empregados 12.092 9.310.661.897 5.018.446.762
Conta-própria 10.490 7.500.324.776 4.042.675.054
Trabalhadores Domésticos 3.295 2.536.898.811 1.367.388.459
Empregadores 285 187.991.895 101.327.632
Total 50.341 38.154.180.159 20.565.103.106

 

Provavelmente a maioria dos 1 milhão e 300 mil trabalhadores temporários contratados no ano passado deve estar recebendo na faixa de até 2 SM. E a projeção é a de um aumento do emprego de trabalho temporário pelas empresas em 2021.

Trata-se de uma realidade bem diferente daquela vivida pelos trabalhadores contratados por tempo indeterminado e, sobretudo, dos mensalistas empregados nas grandes indústrias, cujos salários são mais elevados principalmente por receberem a chamada Participação nos Lucros ou Resultados (PLR). Além disso, podem ir e voltar do trabalho em seus pequenos automóveis e se não quiserem usá-los tem ônibus exclusivos à disposição para evitar o risco de contágio no transporte público superlotado, plano de saúde e outros mais benefícios garantidos pelas empresas.

Estarão eles, contudo, satisfeitos de forjar as “correntes douradas” com quais as quais a classe capitalista a arrasta a seu reboque?

Não acreditamos. Apesar de alguns jovens operários adultos, aliás, a maioria empregada nas grandes indústrias, poderem apensar ou alegar: “estamos felizmente, muito acima da miséria em que você (outros) mal sobrevivem” sabem não ser uma afirmação que se sustente. Pela experiência tem consciência de que o valor do piso salarial é extremamente baixo (e que foi praticamente esquecido pela maioria das direções sindicais), enquanto a PLR é o seu “salário variável”, o acréscimo do equivalente a um salário mínimo mensal, como “pagamento” da produtividade, isto é, do trabalho mais intenso na mesma jornada diária, mediante o esforço extremo de seus nervos, músculos e emoções. A alienação da realidade que os separa daqueles outros setores presos às correntes de ferro da condição assalariada é muitas vezes consciente para suportar a realidade da exploração intensiva que exaure suas forças e do medo de deparar-se, repentinamente, com o desemprego em decorrência das oscilações dos negócios capitalistas em acirrada concorrência mundial.

 

Leia aqui o artigo da Intersindical “Isso é capitalismo: Ford também se aproveita da pandemia para demitir milhares de trabalhadores” e do blog do CEM FLORESO Fechamento da Ford no Brasil e a Luta da Classe Operária“.

 

Quais são as prioridades imediatas do Estado do capital?

Vejamos agora a outro lado da situação. As notícias da mídia burguesa sempre destacam (e criticam) a correlação entre o aumento do SM e do gasto público social. A matéria “Governo publica MP e define salário mínimo de R$ 1.100 em 2021” refere-se ao impacto do aumento do mínimo com um gasto público adicional em 4 bilhões em 2021. Pode parecer muito dinheiro, mas corresponde a apenas ¼  do montante dos juros da dívida pública no valor de 1 trilhão e 300 bilhões de reais, a serem embolsados pelo capital financeiro (na maioria representado pelos credores das empresas capitalistas, nacionais e estrangeiras, bancárias, industriais, comerciais, etc.) durante o corrente ano.

Em contraposição, o que passa a dominar o cenário nacional do ponto de vista da informação pública é a necessidade da prorrogação do auxílio emergencial subordinada à disputa pela sucessão da presidência da Câmara dos Deputados, prevista para acontecer no próximo mês. Assim a fome e o desespero dos trabalhadores torna-se moeda de troca política entre os partidos de apoio e oposição institucional do/ao governo Bolsonaro.

Novo ataque virá em seguida se for aprovada a nova versão da carteira Verde e Amarela para “combater o desemprego no pós-covid”, sem encargos trabalhistas e com remuneração na faixa de valor entre o auxílio emergencial e o salário mínimo. Esta nova versão foi enviada pelo governo Bolsonaro ao Congresso. Uma medida que vai esperar o desfecho da disputa pela sucessão da presidência na Câmara dos deputados e no Senado Federal, mas que significará um aceno para os investidores externos para aplicarem capitais no Brasil, onde existe uma verdadeira floresta de braços erguidos pedindo trabalho.

Mas o silêncio sobre o salário de fome e da escravidão assalariada feita pela mídia burguesa não é rompido sequer pela maior central sindical brasileira, pois apenas faz uma denúncia para remontar ao pequeno incremento real do salário mínimo baseado na variação do Produto Interno Bruto durante os governos de Lula e Dilma, sem convocar os trabalhadores para a luta.

 

A necessidade da resistência operária

É urgente, pois, a resistência a este estado de coisas, tendo em vista conseguir o salário mínimo necessário, o aumento do seguro-desemprego, a redução dos preços do gás de cozinha, da energia elétrica e da cesta básica.

Poder-se-ia argumentar, com espanto: mas isso não passa de voluntarismo! Nada disso é possível na atual correlação de força. Exatamente! Mas se trata de lutar para modificar a correlação de forças mediante a ação coletiva, orientada pela defesa das reivindicações de classe, de não ficar ao sabor dos partidos burgueses e seus sócios menores oportunistas.

Lembremos, a propósito, do Movimento do Custo de Vida sustentado pelas mulheres dos trabalhadores na periferia da zona sul de São Paulo quando, em 1978, enfrentou a ditadura militar num ato de mais de 20.000 pessoas realizado na Praça da Sé. Ato no qual foi dirigido um abaixo-assinado ao governo do general Geisel, na forma de 1 milhão e 300.00 assinaturas, com as reivindicações de congelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade, de aumento dos salários acima do aumento do custo de vida e de abono salarial emergencial imediato e sem desconto para todas as categorias de trabalhadores. Na época, os sindicatos estavam sob controle dos pelegos e em estrita vigilância policial, atitude permitida pela própria legislação sindical-trabalhista de atrelamento ao Estado herdada do primeiro período do varguismo.

Desde sua instituição em 1934 e regulamentação em 1939 o salário mínimo é a remuneração capaz de garantir uma “ração essencial” ou cesta básica e despesas de sobrevivência para um trabalhador adulto. Não deveria o salário do(a) chefe de família ser suficiente para a sua sustentação? Os capitalistas e os seus governos não se importam que sirva apenas para um(a) trabalhador(a) enquanto conseguir obrigar o restante  da família a procurar emprego a um preço vil, mesmo ao custo de sacrificar vidas humanas.

Durante a greve da Renault ocorrida em São José dos Pinhais (Paraná) entre junho e agosto de 2020 [inserir link para o artigo no portal], um delegado de fábrica deixou bem claro ter sido a paralisação uma oportunidade para demonstrar que os capitalistas negociam com os trabalhadores apenas quando são pressionados, na luta. Quase certamente ele não leu, mas iria sentir-se contemplado na frase do informe de Karl Marx, proferido na sessão de 27 de junho de 1865 do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, publicada sob o título “Salário, preço e lucro” que aqui sintetizamos numa redação própria:

Se em seus conflitos diários com o capital os operários cedessem covardemente ficariam, decerto, desmoralizados para realizar outros movimentos de maior envergadura, como os exigidos para questionar e lutar pela abolição do sistema de trabalho assalariado.

Sem a luta, a existência das massas operárias reduz-se de fato à miséria, à escravidão e a sucessiva perda de direitos como anunciada na nova versão da carteira verde e amarela.

 

Nota: Manaus urgente! A tragédia das mortes por asfixia

No momento em que a mortalidade por covid-19 no Brasil alcança a média diária próxima daquela ocorrida no auge da pandemia, observada em julho de 2020 (1.554 em 29/07/2020), somos atingidos pela tragédia que se abate sobre a população de Manaus, com mortes ocorrendo por asfixia devido à falta de oxigênio.

A situação de Manaus se tornou emblemática desde 14/01/2021 com a falta de oxigênio para atender pacientes em insuficiência respiratória, insumo fundamental para suporte da vida em casos moderados e graves da Covid-19. Além dos doentes pela pandemia, inúmeras outras situações rotineiras exigem suporte de oxigênio como condição básica de vida. Estão em risco de morte, por exemplo, recém-nascidos prematuros, pacientes submetidos a cirurgias de emergência, internados com doenças respiratórias causadas por infecções diversas e doenças degenerativas.

Este é o segundo colapso sanitário enfrentado pela população manauara. No primeiro, em abril de 2020, houve o colapso de atendimento, com pacientes falecendo em casa e em macas por falta de vaga em hospitais da rede pública, e quando havia acesso, os leitos de cuidados intensivos eram insuficientes. O segundo colapso que vemos agora é mais grave ainda pois soma-se à falta de assistência hospitalar a falta de um insumo básico, o oxigênio, que é fundamental para o suporte da vida humana. Atinge até mesmo os pacientes já internados, que dependem desse suporte. Sem oxigênio, para essas pessoas só resta esperar a morte. Os hospitais de Manaus se transformaram em grandes câmaras de morte. E seguem as cenas dantescas de pessoas carregando pelas ruas cilindros de oxigênio para seu familiar internado ou doente em casa, o que pouco ou nada resolve, pois um cilindro pode servir para cerca de 24 horas, se muito.

Manaus tornou-se um campo de experiência para a classe dominante, se encaixando perfeitamente ao ideário do governo Bolsonaro, que não escamoteia o interesse da burguesia de privilegiar a economia acima de todos e os lucros acima de tudo.  Para isso se utilizou da teoria da imunidade de rebanho, quando uma parte significativa da população infectada poderia conter a disseminação do vírus. Essa é uma tese que não se sustenta em relação ao Covid-19, cujo comportamento é ainda relativamente desconhecido da ciência. Estudos recentes demonstram que o vírus não confere imunidade duradoura aos infectados, os anticorpos dariam proteção por cerca de 5 meses, ao mesmo tempo em que poderiam permanecer transmitindo o vírus. A falsa ideia de que a cidade estaria imune contra a Covid-19 forneceu o argumento para relaxamento de medidas de isolamento. Apesar da crise, o governador do Amazonas Wilson Lima, do PSC, não cogita a medida sanitária de confinamento (lockdown) para enfrentar o novo colapso. O secretário de Saúde do Amazonas Marcellus Campêlo, recentemente declarou que “a sociedade amazonense fez uma “opção” pela contaminação”. Que “sociedade” é essa? As medidas tomadas por decreto pelo governo do estado em 23 de dezembro de 2020, véspera de Natal, que proibia a abertura de atividades não essenciais por 15 dias foram revogadas quatro dias depois, devido a protestos de empresários e lojistas. Logo, ficou cristalino que a “opção” criminosa pela contaminação foi da burguesia e seu governo.

Mas não se pode dizer que em outros estados a situação está sendo diferente, com políticas sanitárias que atendem à ciência e a proteção à saúde dos trabalhadores. Muito pelo contrário. O aumento da transmissão e do número de casos em novembro de 2020 já alertava para necessidade de novas medidas de confinamento mas foram ignoradas ao longo das eleições municipais, certamente com a preocupação dos candidatos em não desagradar suas bases empresariais capitalistas no comércio e na indústria. Os protocolos que criavam restrições, ainda que tímidos, foram sistematicamente burlados, com a vista grossa geral da parte de prefeituras e dos governos estaduais. O retrato dessa política de “imunidade de rebanho” da direita que finge não ser “negacionista” é a invisibilidade dos meios de transporte coletivos lotados de trabalhadores no trajeto diário ao local de trabalho. E por opção própria, grande parte da pequena burguesia vem ignorando as regras sanitárias, seja em favor de seus negócios ou pela simples ignorância de suas convicções. Por consequência, a fila de pacientes graves com Covid-19à espera de um leito de tratamento intensivo já é a realidade em diversas cidades do país, como Senador Canedo (GO), Rio de Janeiro e nos estados do Ceará, Rio Grande do Sul. Temos em curso um significativo aumento de internações e mortes em São Paulo, Santa Catarina, Mato Grosso e em diversos outros estados. Destaca-se o Estado do Rio de Janeiro, que possui o maior número de unidades públicas de saúde, sucateadas, subutilizadas, e que apresenta uma das mais altas taxas de letalidade em proporção a sua população.

Não bastasse toda essa tragédia sanitária, o circo montado em torno do início da vacinação está submetido a lógica dos interesses da disputa por espaço político com vistas as eleições presidenciais de 2022. O país conta com um imenso parque bioindustrial e capacidade tecnológica de produção de vacinas em larga escala, dispõe de vacinas suficientes para iniciar a vacinação imediata que vem sendo postergada pela burocracia de uma agência reguladora recheada de militares ignorantes e que faz o jogo do governo Bolsonaro. Estes crimes ficarão registrados para história, para que no futuro os seus autores sejam julgados pelos tribunais da classe trabalhadora. Enquanto este dia de ajuste de contas revolucionário não chega, a mobilização de classe dos trabalhadores precisa impor sua força, inclusive com a importante ação coletiva dos trabalhadores da saúde que estão na linha de enfrentamento da pandemia e do governo criminoso e seus cúmplices.

LEIA EM PDF: Fatos & Crítica nº 26: Lutar contra a fome o desemprego e a ameaça à vida

O Fechamento da Ford no Brasil e a Luta da Classe Operária

Do portal do Cem Flores 15.01.2021

 

Em 11 de janeiro a Ford anunciou o fechamento de todas as suas fábricas no Brasil, após pouco mais de um século de atuação no país. Em todo esse tempo, esse que foi um dos primeiros monopólios imperialistas a abrir fábricas no Brasil se beneficiou de todo o tipo de incentivos e privilégios estatais e governamentais, juntamente com seus “rivais”. Nas duas primeiras décadas deste século, o conjunto das montadoras recebeu, apenas do governo federal e apenas de forma direta, incentivos de R$ 69 bilhões. Só nos últimos seis anos essas mesmas empresas já remeteram ao exterior US$ 36,9 bilhões como remessas de lucros e pagamento de dívidas com suas matrizes.

Foi anunciado o fechamento imediato da principal planta da marca no país, em Camaçari (BA), e também da de Taubaté (SP). A planta de Horizonte (CE) continuará operando até o final do ano. Como consequência, haverá a demissão de 5.000 operários/as da Ford, além de outros milhares ao longo da cadeia produtiva.

As razões estão no comunicado da empresa:

“… descontinuidade de produtos não lucrativos e a saída do segmento de caminhões … Além de reduzir custos em todos os aspectos do negócio … Esses esforços melhoraram os resultados nos últimos quatro trimestres, entretanto a continuidade do ambiente econômico desfavorável e a pressão adicional causada pela pandemia deixaram claro que era necessário muito mais para criar um futuro sustentável e lucrativo”.

“A Ford está constantemente avaliando seus negócios em todo o mundo, incluindo a América do Sul, fazendo escolhas e alocando capital de forma a avançar em seu plano de atingir uma margem corporativa EBIT de 8% e gerando um forte e sustentável fluxo de caixa”.

Ou seja, lucros, mais lucros, sempre os lucros! Mas também poderíamos dizer: exploração, mais exploração, sempre a exploração! No capitalismo uma coisa não vive sem a outra. A diferença é o ponto de vista das duas classes antagônicas e inconciliáveis: a burguesia e o proletariado.

 

Patrões não têm “sensibilidade social”! A única coisa que importa são os seus lucros!

A reação dos pelegos da Força Sindical ao anúncio foi sintomática da sua subserviência aos patrões. Primeiro, criticaram a falta de “sensibilidade social” dos patrões. Depois, sentiram-se traídos por não terem sido informados em primeira mão do anúncio. Então eles, que são os maiores aliados dos patrões, reclamaram que “a Ford age sem diálogo”. Por fim, depositam todas suas esperanças não na categoria metalúrgica e na classe operária, mas no “governo Federal e [n]os governos estaduais de São Paulo, da Bahia e do Ceará” que, segundo esses pelegões, devem cobrar da Ford um tal de “compromisso produtivo com o País”. Fora pelegos traidores da classe! leia mais

Isso é capitalismo: Ford também se aproveita da pandemia para demitir milhares de trabalhadores

Do portal da Intersindical, instrumento de luta e organização da classe trabalhadora – 12 de janeiro de 2021

Direção da multinacional americana anunciou fechamento de suas fábricas no Brasil depois de muitos anos de lucro às custas do arrocho salarial, da retirada de direitos, da flexibilização das jornadas. É só na luta direta da classe trabalhadora que conseguiremos garantir empregos, salários e direitos

 

A direção da Ford, montadora de veículos americana anunciou no dia 11 de janeiro que encerrará suas atividades no Brasil, o que significa a demissão de milhares de trabalhadores, além dos mais de 5 mil trabalhadores efetivos na empresa em suas plantas de São Paulo, Bahia e Ceará serão mais milhares de trabalhadores nas empresas terceirizadas ligadas diretamente à montadora que também serão demitidos.

A Ford encerrou suas atividades em São Bernardo do Campo/SP em 2019 demitindo mais de 5 mil trabalhadores entre efetivos e trabalhadores nas empresas terceirizadas, antes disso foram vários acordos realizados com a direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em que salários foram reduzidos, direitos da Convenção Coletiva foram eliminados sempre com a promessa da “ manutenção do nível de empregos’. Em 1998 a empresa demitiu mais de 2 mil trabalhadores ao mesmo tempo em que abriu o caminho para ampliação desses acordos que além de não garantir emprego, atacaram direitos e salários.

A Ford ao demitir no estado de São Paulo foi atrás de outros lugares em que muito além da farta isenção fiscal concedidas pelos governos estaduais como no caso da Bahia procurava explorar ainda mais os trabalhadores, ou seja, desde que se instalou no Brasil há mais de um século a Ford à exemplo de outras empresas escancara  como funciona o Capital: a empresa não está fechando suas portas, depois de muitos anos de lucro no Brasil garantido às custas da exploração contra os trabalhadores, agora a empresa desloca sua produção para outros lugares buscando mais lucros. leia mais

Adeus ao velho ciclo

Carlos Mandacuru*

 

 

A lâmina da história

não perdoa nem pune.

Passa precisa e rente;

e serena e indiferente

ceifa, rasga e dilacera

toda carne vã, demente.

E tudo na história renasce

E segue pra próxima crise.

E a carne dilacerada

– classe desorganizada –

sofre, sangra, cicatriza,

e revigora, engrossa, reaviva,

e espera a próxima navalhada.

À classe trabalhadora, a pedagogia dos talhos!

Tomara que as cicatrizes

desvelem o fato central

apreendido na estrada:

tudo se transforma,

do seio do velho, vem o novo,

e o fundamental é não estar tão certo

a ponto de não enxergar

na realidade concreta

o momento propício

a estratégia adequada

perceber, libertar e se dispor

a construir

um novo ciclo.

…..

Perdemos o nexo com a classe

e o novo não vem de outra parte.

Não vem do radicalismo nem do pacifismo

da pequena burguesia de esquerda;

nem de gabinetes ou indivíduos,

por geniais que sejam!

Nem mesmo vem das ruas,

conforme gritamos.

Das ruas têm vindo o cancro

das saídas simplórias do senso comum

[a rua é o espelho do povo

olhai a Ucrânia,

a Venezuela

e nosso próprio umbigo]

O novo vem e virá da classe,

da base da sociedade produtora de mercadorias.

Virá dos produtores de tudo;

produtores sem produto, expropriados

dos meios e ferramentas de sobrevivência.

Nós, que oferecemos a vida em retalhos

aos proprietários privados dos meios de se viver.

Já soubemos este caminho

entre a teoria e a classe,

mas algo se perdeu.

……..

O convés tem ratos mortos, muita ferpa e ferrugem,

mas parece mais limpo que em outros tempos.

No porão, entretanto,

sob a pressão de não parar o barco

a mesma multidão rema como desde sempre

e sobre seu lombo ardem as mesmas chibatadas.

Mas agora podem escolher

– a cada quatro anos –

o nome do feitor

pra aplicar-lhe a chibata.

Pode até indicar um companheiro

desde que cumpra bem o serviço.

…..

O que buscamos nas urnas?

O poder que não organizamos como classe?

Estarmos nós no comando do Estado burguês

– e não a burguesia em pessoa?

Nós quem, no caso?

O que nos aguarda e nos transforma,

na lógica intrínseca desse Estado?

O que de nós já foi moldado?

De que classe, mesmo, falamos?

…….

Em Roma, como os romanos.

Devagar se vai ao longe.

O momento é de descenso, recuo, acúmulo de forças.

E entre sofismas, consolos e lugares comuns,

perdemos a noção materialista mais simples:

a consciência caminha por onde os pés pisam.

E a pragmática

da política

do concílio

da correlação de forças

– sempre sempre desfavorável –

foi deixando nossa cara

(nossa tão cara

cara socialista)

cada vez mais

com jeito,

cheiro

e penteado

da velha socialdemocracia.

…..

Agora aprendemos a vencer

e vencemos

em todas as instâncias

do velho poder estatal.

Jogando o jogo dos abutres,

dos acordos, dos engodos, dos embustes.

Sovando a carne dura da classe explorada

a toques de trabalho e porrada.

Manipulando o sentimento popular

com pão, circo e sobras;

Contendo a revolta,

molhando os pavis,

evitando o perigo

de qualquer mudança.

…..

Conforme a música, é a dança;

Conforme as regras, o jogo.

Aprendemos a jogar

e vencemos

com as armas e os ardis

dos nossos inimigos.

2011/2012

*Jornalista. Militante da INTERSINDICAL – Instrumento de luta e Organização da Classe Trabalhadora. Recife – Pernambuco.

Fatos & Crítica nº 25: 2021: ano de miséria, fome e doença?

 

 

O ano marcado pela pandemia do novo coronavírus vai chegando ao seu final e fica a pergunta inevitável: o que esperar do ano de 2021?

 

Economia em baixa, desemprego e carestia

No plano econômico, o governo comemorou o crescimento do produto interno bruto (PIB) de 7,7% no terceiro trimestre deste ano, em relação ao trimestre imediatamente anterior, mas as estimativas oficiais para o ano de 2020 como um todo continuam apontando para uma retração econômica entre -4,5% e -5%, mais grave ainda que as observadas nos anos recordistas de 2015 e 2016.

Esse número só não foi pior, porque as medidas de auxílio emergencial e de complementação salarial dos trabalhadores afastados foram capazes de fazer girar minimamente a roda da economia, evitando também uma catástrofe social. Cedendo os anéis para não se arriscar a perder os dedos, o governo esqueceu momentaneamente suas convicções de controle dos gastos públicos e liberou valores equivalentes a 8,6% do PIB, elevando o déficit primário de 2020 aos níveis estratosféricos de 12,7% do PIB.

Com o fim em dezembro do auxílio emergencial para 60 milhões de trabalhadores desempregados ou do setor informal e da complementação salarial para os trabalhadores afastados de seus empregos, prevê-se que em 2021 o rendimento das famílias terá uma queda de -5,3% em relação a 2020.

Para agravar esse quadro, o preço dos alimentos e bebidas sofreu um acréscimo de 15,94% nos 12 meses terminados em novembro deste ano, o que deixará os trabalhadores empregados, desempregados ou ocupados em atividades informais em condições de subsistência ainda piores no próximo ano.

O quadro de desemprego só se agrava a cada mês em que as estatísticas são divulgadas. Com as medidas de flexibilização, que permitiram a muitas pessoas voltar a procurar emprego no 3º trimestre, o número de desempregados chegou a 14,1 milhões de pessoas, ou seja, 14,6% da força de trabalho.

Considerando também os subocupados e os desocupados que não procuraram emprego, a subutilização da força de trabalho no Brasil chegou a nada mais nada menos que 30,3%, segundo as estatísticas oficiais.

 

Pandemia volta a acelerar   

A flexibilização das medidas de isolamento social permitiu alguma recuperação econômica, mas também colaborou para o recrudescimento da pandemia: o número de mortes diárias voltou a se acelerar e a se aproximar das cifras observadas em maio, da ordem de 650 óbitos a cada 24 horas.

Ocorre que agora a disposição da população e dos governos locais para tomar as medidas de prevenção necessárias ao controle da pandemia é muito menor que nos meses iniciais, o que só propicia a difusão do vírus, lotando as unidades de atendimento do sistema de saúde. Pessoas aguardando vaga em UTI já são a apavorante realidade em muitas cidades do país.

A única medida que poderia minorar essa situação seria a vacinação em massa, mas para isso o governo de Bolsonaro não consegue, ou não deseja, articular minimamente os esforços para contar com o maior número possível de doses de vacina, a serem aplicadas segundo um plano de imunização nacional, em que todos os insumos estejam à disposição no local e no tempo devidos.

A demora em apresentar um plano deu ensejo a que um Ministro do STF o exigisse das autoridades sanitárias. Em resposta, o Ministério da Saúde encaminhou um documento genérico, assinado por cientistas que dele sequer tiveram prévio conhecimento. Mais tarde, divulgou um plano cujo cumprimento é bastante duvidoso.

Ocorre que o capitão na Presidência da República subestima a epidemia e nutre uma ojeriza por vacinas de um modo geral e pela Coronavac em particular – seja por ser chinesa, seja por ser patrocinada por seu adversário João Dória – e faz o que está ao seu alcance para criar obstáculos a sua distribuição, no que é cegamente obedecido pelo general à frente do Ministério da Saúde.

A própria entidade responsável pela aprovação da vacina – a ANVISA – chegou ao cúmulo de divulgar uma nota colocando em dúvida a seriedade do órgão chinês congênere, já que uma lei brasileira recente permitiria tomar seus resultados (ou de outras agências internacionais) como conclusivos e suficientes para a aplicação da vacina no Brasil.

Em mais um capítulo revelador da resistência de Bolsonaro ao programa de vacinação, ele divulgou a opinião de que quem se vacinasse teria que obrigatoriamente assinar um termo de responsabilidade. Com essa propaganda negativa em relação à imunização, não é à toa que o número de pessoas que dizem que não pretendem se vacinar no Brasil pulou de 9% para 22%, entre agosto e dezembro.

Ou seja, tudo indica que o programa de vacinação brasileiro sofrerá com a falta de coordenação, com a limitação dos insumos disponíveis, com a distribuição geográfica desigual e, principalmente, com o descrédito, resistência ou boicote por parte das autoridades que deveriam estar à frente do processo. O resultado disso será a elevação exponencial do número de vítimas da doença, hoje já ultrapassando a casa dos 190.000.

Resultado eleitoral ruim para o bolsonarismo

E no plano político, o que se pode esperar dos resultados das eleições municipais?

Os órgãos da mídia burguesa saudaram efusivamente os resultados eleitorais de 2020, porque – em sua avaliação – os “extremos” teriam sido derrotados, em favor de uma alternativa “equilibrada” de centro. Vão assim tentando tecer uma opção para 2022 que os livre, ao mesmo tempo, do PT e de Bolsonaro, cujo governo se mostra cada vez mais disfuncional em muitas dimensões importantes para a burguesia brasileira, como em sua política externa, no combate à pandemia e no ataque às pautas identitárias (mesmo que esterilizadas de qualquer conteúdo anticapitalista, como deseja a classe dominante).

É certo que a burguesia ainda mantém, apesar de tudo, a confiança de que o governo Bolsonaro venha a atender a suas expectativas no campo da política econômica e trabalhista. Segundo a Confederação Nacional das Indústrias, o ICEI (Índice de Confiança do Empresário Industrial) mostra que os empresários da indústria seguem confiantes em dezembro (pelo quinto mês consecutivo), mês este em que a indústria ultrapassou os níveis de produção de antes do início da pandemia.

Mas a classe dominante também se ressente de que o governo não vem se articulando suficientemente no Congresso para a aprovação mais rápida do programa hegemônico do capital financeiro, o que inclui a redução do funcionalismo público e da máquina estatal, as privatizações e a reforma tributária. leia mais