POLOP

A POLOP endureceu os métodos de segurança para se salvaguardar no cerco imposto pela ditadura. Desfalcada pelas quedas, renovando-se com quadros cada vez mais jovens, na medida em que as lideranças mais antigas conheciam a prisão e a tortura, a sigla mantinha se em integridade apenas aparente. Por trás da capa da continuidade, a organização concretamente refazia-se numa instabilidade ininterrupta. Novas cabeças, que emergiam e saiam de cena como em ondas, tinham que decifrar o dilema vital entre a teoria e a prática. Pois a elaboração teórica e os êxitos práticos que tanto sensibilizaram o grupo na década anterior abriam expectativas bem definidas quanto ao que deveria ser feito; mas, por outro lado, as novas condições traziam um dado fundamental imprevisto: os trabalhadores não se manifestavam, fazia-se um pesado silêncio no Brasil.

Imersa naquele mundo, dentro da POLOP se perdeu um elo fundamental com a tradição metodológica que presidira a elaboração do Programa Socialista para o Brasil. O enigma em que então se transformara a relação entre a teoria e a prática foi resolvido pelo apelo às meras deduções da teoria. Esquecendo-se de que a realidade, mesmo que sob aquela forma especial de uma inóspita paralisia, sugeria suas próprias verdades, a Organização operou um giro sobre si própria e passou a tomar como referencial a própria teoria acumulada nas elaborações pretéritas. Impactada pelo vazio aparente do movimento real, voltou-se para os textos. Paradoxalmente, repetia-se o problema que combatia desde o seu surgimento: as palavras desligaram-se do campo das experiências sociais para auto alimentar-se em si próprias. Perderam a dimensão da liberdade, tornaram-se os grilhões que iriam aprisionar a Organização durante longos anos. Assim voltada para dentro de si, todo consenso obtido internamente seria precário. O referencial arbitrário da pura teoria somente poderia suscitar a cizânia, e esse foi o destino da POLOP durante quase toda a década de 70.

O movimento de volta às raízes partiu do Grupo no Exílio, onde estava Eric Sachs, o Ernesto Martins. Os primeiros documentos de crítica lembravam que a codificação das conclusões teóricas no corpo de um programa, como foi o caso do Programa Socialista para o Brasil, apenas indicava uma possibilidade para o curso da vida prática. As meras possibilidades não podiam validar-se por si mesmas nem ser elevadas automaticamente ao status de guia para a prática imediata. O conhecimento das necessidades, por outro lado, tinha que apoiar-se numa reflexão da prática social efetiva e não na mera interpretação da teoria. Dessa forma, o Grupo no Exílio voltava aos pontos de partida dos tempos da fundação. Os textos clássicos do marxismo foram novamente retomados numa outra perspectiva: não como conclusões, mas como premissas. Lembrou-se de Marx: não basta que a ideia exija a sua realização, é preciso, sobretudo que a realidade aceite a ideia. Lembrou-se de Lenin: não se pode substituir o primado da prática pelos conceitos históricos universais: a verdade é concreta. O grupo começou um lento movimento de recusa às letras mortas. Mas já era muito tarde para refazer uma organização nos padrões passados, dadas as novas circunstâncias históricas. O ano já era o de 1978.