Apresentação
A expressão “espaço vital” foi criada pelo geógrafo alemão Friedrich Ratzel, no século XIX, designando o espaço necessário para a expansão territorial de um povo, no caso, o povo alemão. O termo tornou-se o lema da unificação da Alemanha, em 1871. Anos depois, Hitler retomou o conceito de espaço vital e lhe deu um sentido político e racista para justificar o expansionismo alemão como um “direito da raça superior ariana”. Conquistar o “espaço vital” significava, então, reunir todos os povos germânicos sob a autoridade suprema de Hitler em um único território expandindo-o ao máximo. Tinha por lema “um guia, um império, um povo”
Fonte: StudHistória
No texto publicado a seguir Em Gaza, Israel constrói seu Auschwitz, Ruwaida Amer descreve o terrível e infinito terror em que vive o povo Palestino sob o império terrorista de Israel, onde morrer em silencio é uma forma racional de não gastar energia e corajosa de não incomodar os outros com a própria e inevitável dor.Muitos, com certeza, estão achando o título exagerado. Não é. É o título mais adequado para esse dramático acontecimento histórico.
Em 31 de julho de 1941, ou seja, a quase 84 anos os nazistas davam a ordem de girar a manivela da solução final contra os Judeus. Era o terceiro ano da Segunda Guerra Mundial, então Hermann Göring comandante da Wehrmacht, as Forças Armadas do Terceiro Reich, encaminhou o pedido (ordem de serviço) de Adolf Hitler com uma carta para o chefe geral da repressão Reinhard Heydrich, esse documento autorizava-o a conduzir os “preparativos necessários” para uma solução eficaz, definitiva e total da questão. O antissemitismo do Partido Nazista já havia até ali massacrado cerca de um milhão de judeus. A partir daquele momento, teria início o verdadeiro Holocausto que resultaria no extermínio de seis milhões de judeus – dois terços da população judaica europeia.
Juma (2024) informa que o ex-premiê israelense Ariel Sharon no final dos anos 80 teria dito no final da década de 1980 que:
Hoje em dia, não dá para colocar pessoas em caminhões e jogá-las para fora das fronteiras, como foi feito em 1948. Mas dá para criar condições positivas para convencê-las a ir embora. (JUMA, 2024)
Observe-se que a alocução acima contém um abrandamento próprio da linguagem usada no contexto do nazismo, denominada de LTI, isto é, “Lingua Tertii Imperii”. São eufemismos que que permitem soluções ótimas para o opressor sem que nem o oprimido, nem o estrangeiro compreenda. Veja-se a frase “criar condições para convencê-los a ir embora”. Morrer de fome é uma forma definitiva de “ir embora”. KLEMPERER (2009) mostra como essa linguagem cifrada permitia que a oficialidade nazista, em particular Hitler fornecesse ordens brutais e destrutivas em formas atenuadas, neutras ou positivas, como tomar banho quando as vítimas seriam gaseadas (mortas nas câmaras de gás)
Desde 2007 que a situação dos palestinos piora. Ou seja, as condições de vida em Gaza já são terríveis a 18 anos. Acreditar que a dor desse povo vem de outubro de 2023 é mais uma falsificação histórica, mais uma LTI sionista. Tentar difundir que a culpa é do Hamas é outra mentira deslavada, própria de quem aprendeu com afinco as lições de seus torturadores nazistas.
Para se ter uma ideia aproximada do significado de residir em Gaza, deve-se atentar para os seguintes números. São 2,3 milhões de pessoas vivendo em 360 km2, o que significa 6,4 milhões de pessoas por km2. Uma densidade populacional insuportável, resultante da política imperialista e Israel contra os territórios palestinos.
Destaque-se que se trata de uma região cercada e isolada e que o Estado terrorista de Israel controla tudo que entra ou sai de Gaza, principalmente comida. A comida que entra (melhor dizendo entrava) em Gaza é (era) controlada por Israel, de modo que as calorias são medidas em apenas o suficiente para as pessoas sobreviverem.
Pode-se observar que todos esses documentos listados acima, como a Ordem de Serviço de Adolf Hitler, a carta de Reinhard Heydrich, o discurso de Ariel Sharon e outros que podem passar por documentos de Civilização, mas são, também, documentos de Barbárie como já ensinou Walter Benjamin:
A luta de classes, que um historiador escolado em Marx tem sempre diante dos olhos, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não há coisas finas e espirituais. Apesar disso, estas últimas estão presentes na luta de classes de outra maneira que a da representação de uma presa que toca ao vencedor. Elas estão vivas nessa luta como confiança, como coragem, como humor, como astúcia, como tenacidade e retroagem ao fundo longínquo do tempo. Elas porão incessantemente em questão cada vitória que couber aos dominantes (BENJAMIN, 2005, p. 58).
Necessário repetir que a política criminosa dos sionistas não teve começo em outubro de 2023, ela sempre existiu e sofreu um recrudescimento em 2007-2008. Neste último ano, Gaza foi massacrada durante um mês com ataques aéreos, bombardeio constante e milhares de mortos e milhares de feridos.
O que o texto da jornalista Ruwaida Amer, que pode ser lido abaixo diz é que Israel pretende exterminar todo o povo palestino é a fórmula é simples: a fome absoluta que destrói a vontade e o corpo de milhares de seres humanos. Os nazistas usavam o gás Zyklon-B, pela sua eficiência e relação custo-benefício. O desaparecimento dos corpos se dava nos fornos crematórios, como se nunca tivessem existido.
Esses são recursos impossíveis para os sionistas, pois atrairiam a atenção do mundo e as memórias do genocídio nazista continuam presentes, além do que, diferente dos judeus que caminhavam para a morte como gado manso, os palestinos poderiam reagir. Assim, o processo de extermínio ou solução final da questão palestina é a fome.
Glaudionor Barbosa
Economista e Historiador Econômico/Brasil
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Uma jornalista palestina vive e narra o horror. Encurralada num gigantesco campo de concentração, população definha e é humilhada. Quem busca comida, arrisca-se às balas. Os corpos se exaurem, em silêncio: falar consome energia demais
Estou com muita fome.
Nunca disse essas palavras com o significado que têm agora. Elas carregam uma humilhação que não consigo descrever por completo. A todo momento, me pego desejando: Se ao menos fosse um pesadelo. Se ao menos eu pudesse acordar e tudo tivesse acabado.
Desde maio passado, depois que fui forçada a fugir de casa e me abrigar com parentes no campo de refugiados de Khan Younis, ouvi essas mesmas palavras, ditas por incontáveis pessoas ao meu redor. A fome aqui parece um ataque à nossa dignidade, uma contradição cruel num mundo que se orgulha de progresso e inovação.
Toda manhã, acordamos pensando numa única coisa: como encontrar algo para comer. Meus pensamentos vão para nossa mãe doente, que fez cirurgia na coluna há duas semanas e agora precisa nutrir-se para se recuperar. Nada podemos oferecer a ela.

Palestinos tentam receber uma refeição quente preparada por voluntários, em Khan Younis, sul da Faixa de Gaza (20 de junho de 2025). Foto: Abed Rahim Khatib/Flash90
E há minha sobrinha e sobrinho pequenos — Rital, 6 anos, e Adam, 4. Pedem pão o tempo todo. Nós, adultos, tentamos aguentar nossa própria fome para guardar qualquer migalha para as crianças e os idosos.
Desde que Israel impôs um bloqueio total a Gaza, no início de março (só aliviado, marginalmente, no fim de maio), não provamos carne, ovos ou peixe. Ficamos sem quase 80% da comida que costumávamos comer. Nossos corpos estão se desfazendo. Nos sentimos constantemente fracos, desatentos e desequilibrados. Ficamos irritados com facilidade; mas na maior parte do tempo, em silêncio. Falar consome energia demais.
Tentamos comprar qualquer coisa disponível nos mercados, mas os preços não permitem. Um quilo de tomate agora custa 90 shekels (mais de R$ 125). Pepinos custam 70 shekels o quilo (cerca de R$ 95). Um quilo de farinha está 150 shekels (R$ 200). Os números parecem absurdos e cruéis.
Sobrevivemos com apenas uma refeição por dia: geralmente só pão, feito com qualquer farinha que consigamos. Se tivermos sorte, o almoço pode incluir um pouco de arroz, mas mesmo isso não sacia. Tentamos separar um pouco de comida para minha mãe — talvez alguns legumes – mas nunca é suficiente. Na maioria dos dias, ela está fraca demais para ficar em pé, exausta até para fazer suas orações.
Raramente saímos de casa agora, com medo de que nossas pernas cedam. Já aconteceu com minha irmã: enquanto procurava algo nas ruas, qualquer coisa para alimentar seus filhos, desabou no chão. Seu corpo não tinha mais forças para ficar em pé.
Começamos a sentir a profundidade da fome quando o padeiro Abu Hussein, conhecido por todos no campo, reduziu suas atividades. Costumava assar pão para dezenas de famílias por dia, incluindo a nossa – que não têm mais gás de cozinha ou eletricidade para assar em casa. Seus fornos a lenha ficavam ligados de manhã até a noite.

Huda Abu Al-Naja, de 12 anos, acompanhada pela mãe, recebe tratamento para desnutrição no Hospital Nasser em Khan Younis, sul da Faixa de Gaza (25 de junho de 2025). Foto: Doaa Albaz/Activestills
Mas recentemente, foi obrigado a trabalhar cada vez menos dias por semana. Minha irmã chegava em casa e dizia: “O Abu Hussein fechou. Talvez, trabalhe amanhã.” Agora, conseguir massa e farinha tornou-se um sofrimento à parte.
Três gerações de fome
No campo, entendi a verdadeira crueldade desse genocídio: a sufocante superlotação, a massa de refugiados expulsos de suas casas e as histórias intermináveis de fome.
Nesses dias, estou na casa da minha tia, que nos acolheu depois que fomos deslocados e nos abrigou nos últimos dois meses. Como quase todas as construções do campo, sua casa foi quase totalmente destroçada pelos ataques de Israel. Seus irmãos trabalharam dia e noite para consertar o que podiam. Conseguiram deixar um cômodo habitável.
A casa está cheia de netos, cada um em sua própria luta contra a fome. Meu primo mais velho, Mahmoud, é pai de quatro deles. Perdeu quase 40 quilos nos últimos meses. Os sinais de desnutrição são visíveis em seu rosto pálido e corpo emaciado.
Todos os dias, antes de amanhecer, Mahmoud sai para os centros de distribuição de ajuda controlados pelos EUA. Arrisca a vida a cada tentativa, para que seus filhos famintos tenham alguma comida. Desde que cheguei, me conta as mesmas histórias angustiantes dia após dia.
“Hoje rastejei de quatro em meio a uma multidão de milhares”, disse recentemente, mostrando um saco com restos de comida que conseguiu catar. “Tive que pegar o que havia caído no chão — lentilhas, arroz, grão-de-bico, macarrão, até sal. Meus ossos doem de tanto ser pisoteado, mas preciso fazer isso. Não suporto o som da fome de meus filhos.”
Um dia, Mahmoud voltou sem nada. Seu rosto estava sem cor, e ele parecia prestes a desmaiar. Disse-me que o exército israelense havia aberto fogo sem aviso. “O sangue de um jovem ao meu lado respingou em minhas roupas. Por um instante, pensei que tinha sido baleado. Congelei — tinha certeza de que a bala estava no meu corpo.”

Uma mulher palestina deslocada alimenta crianças em Al-Mawasi, no sul da Faixa de Gaza (13 de julho de 2025). Foto: Doaa Albaz/Activestills
O jovem caiu no chão bem à sua frente, mas Mahmoud não pôde parar para ajudar. “Corri mais de seis quilômetros sem olhar para trás. Meus filhos estão famintos e esperando que eu leve comida”, ele disse, com a voz embargada, “Não ficarão felizes se eu voltar para casa morto.”
Meu outro primo, Khader, tem 28 anos. Tem uma filha de 2 anos, e sua esposa está grávida. Está consumido pela preocupação com o bebê por vir, que deve nascer em dois meses. Sua esposa não pode se alimentar direito, e todos os dias ele fica sentado em silêncio, atormentado pelas mesmas perguntas: Essa fome vai prejudicá-la? A criança será saudável ou doente?
Sua filha de 2 anos, Sham, chora o dia todo de fome. Implora por pão. Um dia, um amigo de Khader deu-lhe um punhado de uvas, para ela. Khader ajoelhou-se ao lado de Sham e ofereceu as uvas, mas ela só ficou olhando, brincando com elas nas mãozinhas e não ousando comê-las. Não as reconheceu: em seus dois anos de vida em Gaza, nunca tinha visto uvas antes. Só quando seu pai colocou uma em sua boca e sorriu, ela o imitou, hesitante. Mastigou. Depois, riu.
Corpos em colapso

Um palestino ferido recebe ajuda humanitária de organizações internacionais na Cidade de Gaza, norte da Faixa de Gaza (26 de junho de 2025). Foto: Yousef Zaanoun/Activestills
Muitas vezes fico parada na porta de casa, observando as crianças de Khan Younis. Passam a maior parte do tempo sentadas no chão, olhando para quem passa com expressão vazia. Se peço a uma delas que me compre um cartão de internet para eu trabalhar, ou que chame minha sobrinha na casa do vizinho, respondem com vozes baixas e cansadas. Dizem que estão com fome. Que não comem pão há dias.
Tenho só 30 anos, mas não sou mais a mulher cheia de energia que um dia fui. Costumava trabalhar longas horas ensinando ou escrevendo, mas desde que a guerra começou não tive um momento de descanso. Lido com tarefas domésticas exaustivas — cuidar da minha mãe e da família — enquanto tento continuar documentando e escrevendo sobre tudo o que acontece a meu redor.
Há cerca de um mês, porém, perdi a capacidade de acompanhar as notícias. Minha concentração está falhando. Meu corpo desmorona. Sofro anemia por comer apenas lentilhas e outros legumes há meses. Nos últimos dois dias, não consegui engolir nada devido a uma inflamação grave na garganta — consequência de depender de dukkah e pimentas vermelhas picantes para tentar saciar minha fome.
Mahmoud, um fotógrafo de 28 anos que trabalha comigo em reportagens em vídeo, também está sofrendo. “Não comi nada em dois dias, exceto sopa”, ele me disse recentemente. “Não tenho energia para trabalhar.” Ninguém tem. Trabalhar durante um genocídio exige um nível de força impossível de sustentar. A fome destruiu a produtividade de todos os trabalhadores em Gaza.
Ontem, acompanhei minha mãe ao Hospital Nasser para uma sessão de fisioterapia após sua cirurgia. No caminho, vimos dezenas de pessoas que não conseguiam andar mais do que alguns metros sem precisar descansar. Minha mãe estava como elas: as pernas fracas demais para sustentá-la. Sentou-se em uma cadeira de plástico à beira da estrada, reunindo o pouco de energia que conseguia para continuar.

Uma mulher palestina deslocada faz pão em sua tenda, Al-Mawasi, sul da Faixa de Gaza (13 de julho de 2025). Foto: Doaa Albaz/Activestills
Enquanto continuávamos a caminhar, ouvimos gritos. Jovens corriam em nossa direção, gritando em júbilo: “Tem caminhões de farinha na rua!” Uma multidão enorme se formou. As pessoas corriam desesperadamente em direção a eles pela chance de conseguir um saco de farinha.
Era o caos. Ninguém estava escoltando os caminhões para garantir que todos pudessem receber sua parte em segurança. Vimos a multidão correr para áreas perigosas sob controle do exército israelense, tudo por farinha.
Alguns voltaram com sacos. Alguns foram mortos. Vimos corpos carregados nos ombros de homens, baleados nos mesmos lugares onde a ajuda deveria salvá-los.
18 mortes por fome em 24 horas

Palestinos carregam um homem ferido atingido por fogo israelense enquanto tentavam obter ajuda alimentar na Rua Al-Rashid, no norte da Cidade de Gaza (16 de junho de 2025). Foto: Yousef Zaanoun/ActiveStills
Após a sessão de fisioterapia, saímos do hospital e passamos por mulheres chorando sobre seus filhos famintos, morrendo diante de nossos olhos. Uma mulher, Amina Badir, gritava, agarrando sua filha de 3 anos.
“Digam como salvar minha filha Rahaf da morte”, ela chorou. “Há uma semana ela não come nada além de uma colher de lentilhas por dia. Sofre de desnutrição. Não há tratamento, não há leite no hospital. Tiraram dela o direito de viver. Vejo a morte em seus olhos.”
Segundo o ministério da Saúde em Gaza, o número de mortos por fome e desnutrição subiu para 86 pessoas, 76 das quais crianças. Ontem, anunciou-se que 18 pessoas morreram de fome apenas nas últimas 24 horas. Profissionais de saúde fizeram protesto no Hospital Nasser para pedir intervenção internacional antes que mais pessoas morram de fome.
Não consegui encontrar um táxi para nos levar para casa. Minha mãe esperou no portão do hospital enquanto eu procurava transporte, mas o combustível é escasso e os táxis praticamente não existem. Passei uma hora tentando.
Quando voltei, estava tonta e fraca. Desmaiei. Tentei me manter forte por minha mãe, mas não havia mais ninguém conosco. Ao meu redor, vi mais pessoas desmaiando. Um homem me disse: “Se houvesse comida adequada, sua mãe não teria ficado tão doente.”
Estamos todos tentando confortar uns aos outros, nessa fome sem fim. No Facebook, as pessoas desabafam sua raiva, escrevendo post após post sobre a política de fome que colocou Gaza de joelhos. Não conseguimos mais fazer as coisas mais básicas que pessoas em todo o mundo fazem todos os dias. A fome nos tirou tudo.
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Foto de capa: Ahmed Jihad Ibrahim Al-arini/Anadolu via Getty Images