Notas marginais sobre bonapartismo, fascismo, nazismo e bolsonarismo ou como evitar confusões histórico-conceituais

Nem todo felino preto é um jaguar, porque o termo “pantera negra” não descreve uma espécie única, mas sim uma condição genética chamada melanismo, que afeta múltiplos tipos de felinos. Assim, um felino preto pode ser um gato doméstico dessa cor.

  1. Evitando as confusões conceituais

Sabe-se que as chamadas confusões histórico-conceituais ocorrem quando categorias analíticas, teses, ideias ou teorias são retirados de seu contexto original com seu leque de forças sociais determinantes e aplicados incorretamente a outras épocas ou realidades. Isso efetivamente produz sérias distorções tanto na compreensão histórica do passado quanto na análise do presente. Pode-se ter os seguintes tipos de confusão: (a) conceitos sem nenhuma correlação com o tempo histórico que se analisa, como se falar do capitalismo de Roma; ou do socialismo de Atenas; (b) anacronismo, julgar tempo do passado com o olhar, os valores e os conceitos do presente; (c) conflito no uso de conceitos correlatos, ou seja, parecidos mas com conteúdos diferentes.

A antiga Roma foi um império importante, porém não era capitalista porque sua estrutura socioeconômica estava baseada no escravismo e não na indústria, no trabalho assalariado generalizado e na acumulação de capital através da exploração da força de trabalho. Então, embora Roma tivesse mercados bem amplos, uso de moeda, comércio de longa distância e o conceito de propriedade privada, ela carecia dos pilares que definem o capitalismo moderno.

Os conceitos têm sua própria historicidade e são sempre, o resultado de uma múltipla determinação. Confundir o bolsonarismo com o fascismo histórico não ajuda, antes prejudica a luta do proletariado. Prejudica por confundir uma orientação com outra, prejudica por levar a esquerda ao apoio incondicional a uma coalizão burguesa (o leque de forças dirigida pelo PT) contra o bolsonarismo tomado como o monstro nazifascista. Quando Trotski afirmou que: “na luta contra o fascismo, estamos prontos a fazer acordos práticos de luta com o diabo, com a sua avó e mesmo com Noske[1]“, o dirigente do proletariado estava falando da Alemanha de 1933 e anos seguintes e não do Brasil de 2026. Possuir traços fascistas ou estética ou mentalidade fascista não é ser estruturalmente fascista. Por fascismo histórico entenda-se, principalmente o caso italiano de Benito Mussolini e a sua hipertrofia (fascismo se transformando em nazismo) no caso alemão de Adolf Hitler.

  1. Bonapartismo: derivações e paralelismo

Segundo Marx (1852) no clássico o Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte, o bonapartismo é uma forma de governo autoritária, onde o Estado tende a assumir uma forma aparentemente autônoma e acima das classes sociais, atuando como árbitro dos conflitos sociais. Não é sem razão que ele é geralmente preventivo e reflete um certo “empate” entre as classes principais da sociedade, a saber, há uma crise de hegemonia, pois a burguesia perdeu a capacidade de governar dentro de sua democracia, enquanto o proletariado ainda não tem força suficiente para fazer a revolução.

De acordo com Marx, o bonapartismo aparenta se deslocar da base da sociedade capitalista. O poder executivo sofre uma contundente hipertrofia, o Parlamento perde poder e a direção efetiva é exercida pela burocracia e pelas forças armadas. O afastamento estratégico das classes fundamentais exige a sustentação em outras classes, como o campesinato conservador e o lumpemproletariado, uma escória social marginalizada e que está sempre aberta ao chamado de qualquer cretino ambicioso. Por fim, a função da liderança bonapartista é garantir a continuidade da ordem capitalista, ou seja, é um serviçal que finge ser o dono.

O fascismo acreditava e colocou em prática a direção da economia pelo Estado. Na lógica fascista e muito mais, no nazismo, o governo deve controlar os sindicatos e direcionar as indústrias para servir aos interesses e à expansão da nação; enquanto o bolsonarismo defende e pratica uma agenda econômica neoliberal agressiva, centralizada nas privatizações, na redução e no teto para os gastos públicos, mercados desregulados e redução incisiva dos direitos trabalhistas.

O fascismo tinha como objetivo central a destruição imediata e total da democracia liberal, substituindo-a por regimes totalitários explícitos, eliminando por completo a competição eleitoral e banindo partidos de oposição. Tanto Mussolini quanto Hitler viam a democracia liberal com profundo desprezo, consideravam-na um sistema decadente, ineficiente e corrompido; o bolsonarismo, apesar de tensionar as instituições democráticas, e da proximidade com as políticas de exceção, dos ataques ao Judiciário e de aspirações golpistas, disputou e continuou operando dentro das regras do jogo democrático burguês  sem nenhuma tentativa séria de fechamento do Congresso ou abolição formal da Constituição.

O fascismo era dependente de um único partido de massas, muito burocratizado e absolutamente centralizado, como o Partido Nacional Fascista da Itália e o Partido Nazista da Alemanha, ambos absorviam e controlavam todas as instituições sociais e políticas daqueles dois países; o bolsonarismo é e continua sendo um movimento fragmentado e centrado na figura de Jair Bolsonaro e seus filhos, que opera de maneira pragmática dentro das coalizões políticas tradicionais brasileiras, agora, 2026, tendo como partido de referência  o PL, o que não tem sentido, pois é um partido liberal.

O nacionalismo fascista clássico, política e geograficamente europeu, era definido pelo conceito de nação, possuía um componente fortemente contrário aos Estados Unidos e profundamente avesso aos imperialismos ocidentais, buscava a autossuficiência e a expansão imperialista própria; o bolsonarismo apresenta um nacionalismo que, na prática, é profundamente alinhado aos Estados Unidos e a outras potências ocidentais, desde que conservadoras, frequentemente exaltando símbolos estrangeiros, principalmente os estado-unidenses e os israelenses, duas forças imperialistas e racistas da atualidade.

O bolsonarismo é um movimento político de extrema-direita que se organizou em torno da figura inexpressiva de um Capitão do Exército exonerado por indisciplina, Jair Bolsonaro. Esse fenômeno combina características como conservadorismo político, forte apelo militarista, nacionalismo retórico e apoio à extrema-direita trumpista, linguagem e interação religiosa e políticas econômicas liberais.

O governo de Jair Bolsonaro ocorreu dentro do sistema democrático, mesmo que o discurso fosse sempre carregado de ameaças e de simbologia nazifascista. A economia capitalista subdesenvolvida seguiu suas rotinas e as propostas sempre eram de defesa irrestrita do mercado e de políticas neoliberais extremadas. O fascismo deve-se repetir, se apodera do Estado e promove uma forte intervenção na economia.

O bolsonarismo não se expressa com um partido único de massas, aliás não possui um partido político com a sua marca, o fascismo histórico nunca teria uma organização denominada de Partido Liberal. O bolsonarismo sempre teve por característica diversas passagens partidárias, até que tentou seu próprio partido (a Aliança pelo Brasil) e fracassou, isto é, “a montanha pariu um sopro malcheiroso”.

O nacionalismo bolsonarista “é para inglês ver”, pois nunca se lambeu tanto as solas dos pés de um presidente norte-americano. É uma retórica que tenta esconder a sabujice de lacaios. É uma escumalha do pior tipo. O alinhamento automático e vergonhoso difere totalmente do nacionalismo fascista, onde alguns países, também fascistas, eram amigos, contudo os demais eram inimigos de morte.

O governo bolsonarista mesmo que tensionando ao máximo a institucionalidade, manteve-se dentro do respeito à Constituição Federal, enquanto o fascismo atuou no sentido de, uma vez atingido o poder, suprimir a institucionalidade e construir a sua própria, claro que isso depende de correlação de forças, mas é exatamente disso que se trata esta contribuição.

  1. A crise econômica das décadas de 1920 e 1930 e a crise brasileira da década de 2020

A grave crise econômica do capitalismo mundial nas décadas de vinte e trinta do século XX desempenhou um papel fundamental de catalizador na eclosão e na ascensão do fascismo italiano e no nazismo da Alemanha. Em ambos os países o colapso econômico e financeiro desestabilizou as democracias liberais recentes, gerando um cenário de desespero social que a extrema-direita soube aproveitar muito bem.

Mesmo tendo saído vitoriosa da Primeira Guerra Mundial, a economia italiana foi devastada, gerando um período de forte ascensão dos movimentos sociais, que ficaram conhecidos como o biênio russo ou os anos vermelhos de 1919-1920. Diante do aumento espetacular da pobreza, ocorreu uma multiplicação de greves operárias e de ocupações de terras. O pano de fundo era formado pelo grande desemprego e pela persistente inflação, tudo agravado pela desmobilização de milhões de militares que encontraram-se ociosos.

Verdade é que o impacto psicológico da hiperinflação alemã de 1923 foi tão profundo que traumatizou gerações e deixou cicatrizes no imaginário popular que duraram décadas. Ela pesou tanto quanto o desemprego. O monstro inflacionário atingiu níveis absurdos. Em meados daquele ano, um dólar americano equivalia a mais de 4 trilhões de marcos alemães. O dinheiro perdeu sua função básica de troca.

É verdade que a República de Weimar sobreviveu à hiperinflação alemã de 1923, mas a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 e seu seguimento na Grande Depressão (1929-1939) foi o golpe que se somou aos problemas do período de transição do pós primeira guerra para a destruição daquela frágil democracia. As dificuldades de reconstrução da Alemanha eram supridas por recursos dos Estados Unidos e com a crise de 1929, o sistema financeiro norte-americano cobrou as dívidas e retirou os capitais do território alemão.  O desemprego na Alemanha, em 1932, atingiu a marca catastrófica de aproximadamente 6 milhões de pessoas ou cerca de 30%/33% da força de trabalho.

O grave empobrecimento destruiu a confiança nos partidos do centro, ocorreu forte polarização política entre o Partido Comunista (KPD) e o Partido Nazista (NSDAP). A liderança nazista, Hitler à frente conseguiu canalizar este descontentamento da população culpando o famigerado Tratado de Versalhes, os comunistas e os judeus. As promessas de pleno emprego, expresso na consigna da Batalha do Emprego, forte nacionalismo e estabilidade econômica aglutinou desde os desempregados até as elites financeiras.

Desse modo, a crise econômica funcionou como a fagulha que fez o combustível arder destruindo a legitimidade das instituições democráticas, transformando o radicalismo de franja em uma alternativa viável e desejada por amplas fatias de sociedades, desesperadas por ordem e sobrevivência material.

Confrontando os dados de desemprego da Itália em 1919-1921 de 2 milhões de desempregados, o que representa 10-15% da força de trabalho; da Alemanha de 1932-1933, de 6 milhões de desempregados, ou seja, 30-33% da força de trabalho, há um contraste vertiginoso visto que atualmente no Brasil, a taxa de desemprego está em 5,3%, enquanto a inflação medida pelo IPCA acumulada está em 4,58% nos últimos 12 meses. Seria saudável lembrar que eram necessários de 4 trilhões de marcos alemães para comprar um dólar[2].

  1. As causas da insistência no conceito de fascismo para a extrema-direita brasileira

Conceituar o bolsonarismo como fascismo não aumenta nem diminui sua perversidade e os prejuízos que ele pode impor as classes trabalhadoras. Contudo, é preciso evitar a banalização conceitual, se não fosse por motivos de precisão no entendimento da realidade, seria por ao antecipar um processo histórico de menor impacto e, geralmente, preventivo com o fenômeno verdadeiro, perde-se o direito de uso do conceito quando o último surge na cena histórica.

O conceito de fascismo tem sido usado com tanta irresponsabilidade política e intelectual que até inventaram um fascismo de esquerda. O uso frequentemente repetido por parcelas da esquerda para ofender a direita e a extrema-direita esvazia o conceito de densidade teórica. Usar um rótulo pejorativo generalizado para desqualificar qualquer adversário conservador confunde quando deveria explicar.

Espalhar que um gato é um jaguar ajuda a assustar quem nada entende de felinos. Entretanto, assim, como os felidólogos precisam conhecer os diversos tipos de felinos, os marxistas devem saber identificar sociedades humanas, regimes políticos e formas de poder. A ira de classe é valiosa demais para ser desperdiçada.

O aumento da disputa política torna algumas chaves retóricas importantes no combate cotidiano. Os termos fascista e fascismo são excelentes chaves pelo apelo subjetivo e moral, por delimitar uma linha divisória entre eles e nós, entretanto essa não pode ser nossa política. Não queremos confundir, queremos esclarecer.

  1. Isso não é uma conclusão

Ontem, 25 de outubro de 2026, Lula foi eleito presidente do Brasil pela quarta vez. A virada só foi possível graças a uma ampla mobilização social, em particular da juventude. Esse fato é mais importante do que a eleição em si. Quem foi derrotado? Derrotou-se a extrema-direita, o bolsonarismo e não o fascismo. Quem venceu? Saiu-se vitoriosa uma alternativa de centro-esquerda com tendencia pendular para o centro. Possivelmente o governo continuará sendo de centro-direita e atendendo plenamente os interesses gerais da burguesia. Pode esse governo deslocar-se mais para a esquerda? Pode a depender de mobilizações das classes trabalhadoras, dos movimentos sociais e da juventude.

A terra, certamente se tornará fértil novamente. O verdadeiro agricultor sabe que antes da colheita é preciso muito trabalho, incluído a semeadura. A esquerda deve aprender a ser um bom agricultor. Há tempo para a semeadura e haverá tempo para uma colheita abundante. Todos ao trabalho!

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Notas:

[1] Gustav Noske (1868-1946): Um dos dirigentes oportunistas do Partido Social-Democrata da Alemanha, social-chauvinista durante a primeira guerra mundial (1914-1918). Em Fevereiro de 1919–Março de 1920 foi ministro da Guerra. Organizador do assassínio dos chefes do proletariado alemão e fundadores do Partido Comunista da Alemanha, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht em Janeiro de 1919 e um dos principais organizadores do terror branco em Janeiro-Março de 1919.

[2] 4 trilhões de marcos alemães = 4.000.000.000.000 = 4 × 10¹² ou em peso médio = 4 toneladas ou em volume médio = 4,8 metros cúbicos