“Israel fez o ‘trabalho sujo’ para o Ocidente.”
(Friedrich Merz – chanceler alemão)
As notícias na mídia sobre os horrores diários do genocídio sistemático e impiedoso perpetrado por Israel no território de Gaza – que produziu até o momento mais de 55.000 mortos pelas bombas, pela fome ou pelas doenças – foram brevemente eclipsadas pela eclosão da chamada “Guerra dos 12 dias”, entre Israel e Irã.
Cessadas as hostilidades entre os dois países, o governo de Netanyahu, com a aprovação aberta dos EUA, empenha-se agora com força total na criação de um campo de concentração gigantesco no sul de Gaza, que seria o destino para a população do território até sua transferência para algum país árabe que aceite recebê-la ou até sua aniquilação final.
Enquanto isso, continuam os bombardeios sobre Gaza e os que buscam desesperadamente alimentos nos centros de distribuição, controlados por Israel, são transformados em alvos fáceis para as balas dos soldados do governo sionista.
Apesar dessa brutalidade, que se assemelha aos métodos usados pelos nazistas contra os judeus no século passado, o Hamas não foi destruído, ao passo que a imagem de Israel se deteriorou grave e irremediavelmente em todo o mundo.
Entre as poucas forças que apoiam na prática, e não apenas verbalmente, os palestinos em Gaza, encontram-se os iemenitas do movimento Ansarallah, que continuam usando seus limitados recursos bélicos para atingir de alguma forma Israel, obrigando até mesmo o governo americano a recuar, quando percebeu o risco que corriam os seus navios de guerra no Mar Vermelho.
Além dos iemenitas, o Irã constitui a principal força regional que se contrapõe a Israel e ao imperialismo americano e apoia de forma decidida o movimento palestino, liderando o chamado Eixo da Resistência. Por isso, foi vítima do recente ataque de Israel, enquanto se encontrava em plenas negociações sobre o seu programa nuclear com os EUA, em Omã.
O contexto geopolítico
A Guerra dos 12 dias, entretanto, não pode ser explicada apenas por questões locais. O pano de fundo que orienta as principais ações dos países envolvidos é a decadência do império americano e a ascensão da China como potência econômica, política e militar.
O mundo unipolar comandado pelo Bloco Ocidental, sob a liderança dos EUA, existente desde o fim da União Soviética em 1991, está sendo desafiado pela formação de um novo bloco, liderado pela China e pela Rússia e pelo surgimento de potências regionais, como a Índia, o Paquistão, a Turquia e o próprio Irã.
As instituições internacionais criadas desde o final da II Guerra Mundial, como a ONU, revelaram-se mais do que nunca inoperantes e desacreditadas para a resolução de conflitos globais, além de serem dominadas pelos interesses do Bloco Ocidental. Exemplo disso foi a destituição em 2002, por pressão dos EUA, do diretor-geral da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), porque se recusava a endossar a tese falsa de que o Iraque possuísse armas de destruição em massa, motivo que viria a servir de pretexto para a invasão anglo-americana daquele país.
Já o atual diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) preferiu não correr o mesmo risco e emitiu um relatório afirmando que o Irã havia enriquecido sim urânio em proporções suficientes para a construção de armas atômicas, o que forneceu o motivo para Israel atacar o Irã.
Quando não atendem servilmente aos interesses do Bloco Ocidental, esses organismos internacionais são simplesmente esvaziados, como é o caso da Organização Mundial do Comércio (OMC), que deixou de funcionar depois que os EUA bloquearam a nomeação de novos juízes. Agora ela é incapaz de arbitrar disputas comerciais, como no caso das recentes tarifas impostas por Trump a diversos países.
Assim, a “ordem internacional baseada em regras”, que pretendia disfarçar o domínio velado das potências ocidentais sobre o mundo está agora sendo substituída pela “ordem internacional baseada na força”, que pretende exercer esse mesmo domínio, mas de forma aberta.
Assim, novas instituições vão aparecendo, promovidas especialmente pela China e pela Rússia, como o grupo dos BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai, principalmente com objetivos econômicos, desafiando a hegemonia do dólar nas transações internacionais e propondo alternativa ao sistema de pagamentos Swift, controlado pelo Bloco Ocidental. Acusando o golpe, Trump ameaçou sancionar os países que participem do BRICS ou que dele se aproximem.
Conforma-se, assim, um conflito global, tendo de um lado o Bloco Ocidental, comandado pelos EUA e representado pelo G-7, contra o bloco China-Rússia, ainda em formação, tendo como consequência uma militarização crescente do mundo. No caso europeu, os EUA não têm mais recursos para arcar com a defesa da Europa, na proporção que faziam no passado, e exigem agora que os países europeus comprometam 5% do seu PIB com gastos militares.
Apesar de descontentes com as ações de Trump na guerra comercial das tarifas, a Europa não pretende abdicar de sua vassalagem em relação aos EUA, aceitando aumentar as despesas militares e chegando mesmo a discutir a reintrodução do serviço militar obrigatório em países como a Alemanha e o Reino Unido. Ao chamar Trump de “papai”, apesar de todas as humilhações políticas e econômicas que os europeus vêm sofrendo dos EUA, o chefe da OTAN, Mark Rutte, revela, com o seu servilismo, que o conceito de “cooperação antagônica” permanece bastante vivo no interior do G-7.
Até agora, o Bloco Ocidental se caracteriza por dominar o capitalismo financeiro global, enquanto a China concentra o capital industrial praticamente em todos os setores. Com o governo Trump, os EUA tentam recuperar sua base industrial utilizando uma política de aumento generalizado de tarifas de importação, inclusive em relação aos seus principais aliados.
No momento, os dois blocos evitam o enfrentamento direto, mas a agressividade do imperialismo ocidental em decadência tem levado a situações de risco para uma guerra nuclear global. Até agora, o enfrentamento se dá em conflitos regionais e guerras por procuração, como entre a Ucrânia e a Rússia, entre Israel e o Eixo da Resistência, no Congo, no Sudão e, no futuro, entre a China e Taiwan. São também utilizados como arma pelos EUA e seus aliados as sanções econômicas e os bloqueios ou mesmo expropriações de depósitos de países como a Venezuela, a Rússia e o Afeganistão.
O conflito geopolítico atual guarda semelhança com a Guerra Fria entre os EUA e a URSS, no século passado, na medida em que as potências não vão para o confronto direto, que poderia causar uma guerra nuclear. Porém, chegou-se muito próximo disso, como na ameaça do Ocidente de ceder mísseis de longo alcance à Ucrânia e no ataque às bases de bombardeiros nucleares da Rússia, dentro de seu próprio território.
Há, entretanto, uma diferença qualitativa entre a Guerra Fria na época da URSS e a atual: antes havia um enfrentamento entre dois sistemas econômicos antagônicos: o capitalista e o socialista. Hoje os dois blocos são formados por economias capitalistas, que disputam mercados, matérias primas e espaços para a exportação de capital em diferentes países.
Apenas a classe trabalhadora organizada globalmente em todos os países envolvidos é capaz de deter essas disputas interimperialistas, que podem levar à extinção da humanidade.
A Guerra dos 12 dias
Se a guerra entre a Ucrânia e a Rússia é uma consequência da expansão do Bloco Ocidental em direção ao Oriente, visando enfraquecer, dividir e dominar a Rússia, apossando-se de seus enormes recursos naturais, seus mercados e espaços para a exportação de capitais, a guerra entre Israel e o Irã decorre da necessidade do Bloco Ocidental se expandir na Ásia, buscando, com a mudança do regime no Irã, trazê-lo de volta para a sua esfera de influência, neutralizá-lo militarmente e, finalmente, bloquear a expansão dos interesses chineses em direção ao Oeste.
O Irã, desde a Revolução de 1979, tornou-se uma ameaça à hegemonia americana no oeste da Ásia e é o principal pilar do Eixo da Resistência contra Israel, em Gaza, no Líbano, no Iêmen, na Síria e no Iraque. O Irã merece toda a solidariedade por ter sido vítima de ataques do imperialismo americano, seja por meio de Israel (seu principal representante na região), seja diretamente pelos próprios EUA, contra suas instalações nucleares. O chanceler alemão Merz resumiu muito bem o papel que Israel desempenhou no conflito em prol do Bloco Ocidental: “Israel fez o ‘trabalho sujo’ para o Ocidente”, deixou escapar.
Cabe observar que o Irã é peça importante no projeto chinês e russo de expansão da infraestrutura de transportes da Eurásia, como parte das “Novas Rotas da Seda”, permitindo a ligação norte-sul da Rússia com o Irã e a Índia. Esse projeto é contrário aos interesses do Bloco Ocidental, que pretende implementar um corredor entre a Índia e a Europa passando pela Arábia Saudita e Israel.
Assim, a guerra contra o Irã é também a guerra contra a expansão da China e contra o grupo dos BRICS, do qual o Irã é membro efetivo desde o ano passado. Além disso, o Irã continua a ser um grande produtor de petróleo, cobiçado pelos dois blocos antagônicos.
Aos interesses expansionistas do Bloco Ocidental em direção ao Oriente e contra a China, somam-se também os interesses israelenses de criação do Grande Israel, abarcando partes da Síria, Jordânia e Iraque. Mas esse é um interesse secundário. Israel é um instrumento dos EUA e do Bloco Ocidental e não o contrário (é “o cachorro que abana o rabo e não o rabo que abana o cachorro”).
As hostilidades e seus resultados
Após vitórias parciais no Líbano, com os assassinatos de lideranças do Hezbollah, e na Síria, com a derrubada de Bashar al-Assad e sua substituição por um ex-membro da Al-Qaeda, Israel se sentiu encorajado a levar a cabo um antigo objetivo: atacar o Irã e mudar o regime islâmico lá existente desde 1979.
Para isso, utilizou o fator surpresa, atacando o país na sexta-feira 13 de junho, dois dias antes das negociações previstas entre EUA e Irã sobre o programa nuclear iraniano, que ocorreriam no domingo seguinte. Após um ataque de hackers ao sistema de comunicações militares iraniano, utilizou caças e mísseis, a partir do Azerbaijão ou com o emprego de pessoal cooptado dentro do próprio Irã, para assassinar de madrugada importantes lideranças militares e científicas iranianas, enquanto dormiam com suas famílias em seus apartamentos. Com isso, matou centenas de civis que estavam nas imediações dos alvos, repetindo o padrão de total desprezo à vida humana já praticado em Gaza, no Líbano e em outras ocasiões.
O objetivo principal não era o programa nuclear iraniano, mas sim a mudança do regime. Imaginavam que a supressão da liderança iraniana (faziam parte dos alvos também o aiatolá Khamenei e o presidente Pezeshkian, que escaparam) propiciaria a deposição do regime e a sua substituição por um títere do Bloco Ocidental. Pelos movimentos de sua mídia corporativa, pode-se deduzir que se preparava um golpe para levar ao poder o filho do antigo Xá do Irã.
Mas o objetivo não foi alcançado. Os ataques israelenses e americanos levaram a um isolamento político da oposição interna no Irã e à formação de um ambiente propício à união nacional, em resposta às agressões estrangeiras.
Por outro lado, a proteção antimísseis de Israel (Domo de Ferro, Estilingue de Davi etc.) mostrou-se insuficiente para deter os mísseis iranianos (alguns hipersônicos) e Israel perdeu a sua aura de invulnerabilidade, produzindo um efeito psicológico adverso para a sua população. Inúmeras instalações críticas militares e de infraestrutura foram atingidas, obrigando a censura de Israel a bloquear as informações sobre os danos causados e a ameaçar de prisão quem postasse o resultado dos ataques iranianos nas redes sociais.
O governo Netanyahu, que já estava abalado internamente pela incapacidade de vencer o Hamas e recuperar com vida os prisioneiros israelenses, ficou ainda mais enfraquecido politicamente, diante das perdas militares e econômicas resultantes da guerra. De tal forma que, hoje é mais provável uma mudança de governo em Israel do que no Irã.
Voltando ao lado iraniano, também não é conhecida do público a extensão dos danos causados pelas bombas americanas nas suas instalações nucleares, mas é certo que o ataque não será capaz de impedir o avanço do programa atômico, uma vez que o país conservou o conhecimento para enriquecer o urânio e, provavelmente, para produzir a bomba nuclear. Além disso, também é certo que os equipamentos importantes e o urânio enriquecido foram transferidos de lugar antes do ataque, evitando sua destruição em Fordow e nas demais instalações.
Outro fato digno de nota é que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) mostrou, como já mencionado, o seu caráter de instrumento a serviço do Bloco Ocidental, destinado a impedir o desenvolvimento nuclear para a defesa dos países mais fracos e não terá permissão para voltar a fazer inspeções dentro do Irã. Além de fornecer o pretexto para o ataque de Israel, a AIEA não condenou o bombardeio das instalações nucleares iranianas, em flagrante contradição com as suas próprias finalidades e, assim, o Irã tem agora as mãos livres para desenvolver seu programa nuclear, inclusive para fins militares.
A Guerra dos 12 dias mostrou que as baterias antiaéreas iranianas e sua força aérea foram insuficientes para neutralizar os ataques de Israel e dos EUA e esse deve ser agora um assunto prioritário para os iranianos, que deverão reforçá-las com a aquisição de caças chineses e baterias antiaéreas russas.
Foi Israel quem buscou a cessação das hostilidades, diante das graves perdas econômicas e militares que sofreu, mas isso também foi de interesse do Irã, que procurou não escalar o conflito nem enfrentar diretamente os EUA. Assim, na retaliação ao ataque americano a suas instalações nucleares, os iranianos lançaram a mesma quantidade de mísseis à maior base dos EUA na região, que é sede do estratégico Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), mas com o cuidado de avisar antes o que fariam, evitando com isso que houvesse baixas entre os 10.000 soldados americanos ali aquartelados.
Fazendo um balanço geral, Israel e o Bloco Ocidental não alcançaram nesses doze dias de conflito os seus principais objetivos: não derrubaram o regime iraniano nem destruíram a sua capacidade nuclear. A oposição iraniana se retraiu e os traidores internos foram revelados. No lado oposto, Israel expôs a sua vulnerabilidade aos ataques dos mísseis iranianos e viu o seu estoque defensivo se esvaziar perigosamente, obrigando-o a propor uma pausa na guerra. A situação política e econômica do governo Netanyahu se agravou.
Mesmo nos EUA, há perdas a contabilizar. A base social de Trump, que constitui o movimento MAGA, é majoritariamente contrária ao envolvimento dos EUA em novas guerras, como ele prometeu na campanha eleitoral, e criticou o bombardeio do Irã. Trump agora tenta manipular os fatos e aparecer como “pacificador”.
Para tornar (involuntariamente) ainda mais ridícula essa pretensão, Netanyahu, que tem uma ordem de prisão emitida pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, exibiu para Trump uma carta que ele próprio endereçou ao comitê gestor do Prêmio Nobel, apoiando a candidatura do americano para o Prêmio Nobel da Paz… Isso, na remota hipótese de ser levado a sério, teria como resultado agregar ainda mais uma camada de desmoralização a um prêmio já suficientemente desmoralizado.
Tudo indica, entretanto, que estamos vivendo um intervalo e que a guerra será reiniciada, assim que Israel se rearme, pois as contradições que a geraram estão longe de terem desaparecido.
Coletivo do CVM, 15/07/2025
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Leia em PDF o CADERNO F&C 53