Escala 6×1 em pauta: limites e potencialidades

O ano de 2026 adentra o mês do trabalhador tendo na luta pelo fim da escala 6×1 a sua pauta central. Emerso do solo fértil da experiência cotidiana como o grito desesperado da nossa classe, cortando rente as pautas engomadas dos congressistas e ideólogos de plantão, “o fim da escala 6×1” foi ganhando espaço na sociedade até alcançar o terreno árido da política institucional.

No mês passado, com a criação de comissão especial na Câmara, o projeto de lei submetido pelo presidente da República, e a cobertura midiática constante, testemunhamos um avanço relevante da reivindicação pelas vias oficiais. Nesse trâmite, contudo, a crítica radical a uma forma concreta de exploração vai aos poucos sendo reconfigurada segundo as exigências da negociação, da viabilidade e do trânsito político. É nessa distância entre emergência social e tradução institucional que a pauta revela seus limites e potencialidades.

Breve histórico

A Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) aprovou recentemente (22/04/2026) a admissibilidade da PEC que visa acabar com a escala de trabalho 6×1. PEC esta resultante de um apensamento da PEC 8/2025, proposta por Erika Hilton (PSOL), à PEC 221/2019, proposta por Reginaldo Lopes (PT). Por norma regimental, a PEC mais nova deve ser anexada à PEC mais antiga, que se torna a “cabeça” da tramitação. O que a muitos surpreenderá, uma vez que apenas os mais antenados nas praxes congressuais hão de lembrar-se da proposta de Reginaldo Lopes em 2019, ignorada à época tanto pela grande imprensa quanto pelas próprias mídias de esquerda. Enquanto, por outro lado, todos se recordarão do vídeo viral de Rick Azevedo, denunciando a “escravidão moderna” da escala 6×1, que viria a resultar na proposta de Erika Hilton em 2025.

No vídeo postado em setembro de 2023, o atual vereador Rick Azevedo, então balconista de farmácia, faz um desabafo: “Quando é que nós, da classe trabalhadora, iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6×1? Gente, é uma escravidão moderna. Moderna, não: ultrapassada”. O vídeo ultrapassou a marca de 4 milhões de visualizações em poucos dias no TikTok. Na época da postagem, Rick tinha cerca de 40 mil seguidores; após a viralização, esse número saltou para centenas de milhares, chegando atualmente a mais de 380 mil seguidores e 9 milhões de curtidas em seu perfil. Diante dessa recepção, Rick criou grupos no Telegram e outras redes para organizar a luta, dando origem ao coletivo Vida Além do Trabalho (VAT), que, ato contínuo, lançou um abaixo-assinado que se tornou uma das maiores mobilizações digitais do país, acumulando milhões de assinaturas para pedir o fim da jornada 6×1.

No início de 2024, Rick se filia ao PSOL, e, logo em seguida, munido do vultoso abaixo-assinado, trava aliança com a deputada federal Erika Hilton. Juntos, eles levam a demanda ao Ministério do Trabalho, buscando transformar a indignação digital em uma estratégia legislativa concreta para uma nova PEC. Nas eleições municipais daquele ano, Rick se torna uma das grandes surpresas do pleito, sendo eleito por 29.364 votos (vereador mais votado do PSOL), numa campanha tão barata quanto eficiente, centralizada no trabalho, e tendo na pauta do fim da escala 6×1 seu carro-chefe. No início da nova legislatura, Erika Hilton protocolou a PEC 8/2025, focada na escala 4×3. Doravante, o tema passou a dominar o debate público, forçando o governo e a oposição a se posicionarem.

A reação burguesa teve inicialmente um caráter ambíguo. Parte da mídia tratou o fenômeno como curiosidade social ou fenômeno típico da “geração TikTok”. Reportagens enfatizavam a viralização, o caráter jovem do movimento, o desgaste emocional dos trabalhadores. A pauta aparecia mais como sintoma cultural do que como conflito entre classes. Mas conforme a reivindicação ganhou densidade política, especialmente após sua incorporação por Erika Hilton e o avanço da PEC, a abordagem dos prepostos burgueses mudou de qualidade. O eixo do debate deslocou-se rapidamente para o impacto econômico. O problema deixou de ser a vida do trabalhador e passou a ser o “custo” da mudança.

As entidades patronais assumiram posição explícita contra a proposta. A Confederação Nacional da Indústria, federações empresariais e representantes do comércio passaram a argumentar que a redução da jornada provocaria aumento de custos, desemprego, inflação e perda de competitividade. A mídia corporativa, especialmente grandes veículos como Grupo Globo, passou então a operar um enquadramento relativamente estável. A pauta era reconhecida como legítima, mas imediatamente acompanhada de contrapontos empresariais, cálculos econômicos e debates sobre “viabilidade”. O trabalhador aparecia como testemunho emocional; e o empresário, como intérprete racional da realidade econômica. A questão era permanentemente traduzida da linguagem da vida concreta para a linguagem da gestão econômica.

Na linha da mídia hegemônica, a direita liberal concentrou-se nos argumentos econômicos. Defendeu flexibilização, negociação coletiva e liberdade contratual. Muitos retomaram diretamente o espírito da reforma trabalhista de 2017, argumentando que o problema deveria ser resolvido entre patrão e empregado, não por imposição legal. Já a extrema-direita oscilou. Uma parte tentou simplesmente denunciar a pauta como “populismo”, “utopia” ou ameaça aos pequenos empresários. Outra parte percebeu rapidamente o potencial popular da reivindicação e buscou disputar seu significado. A extrema-direita não podia rejeitar frontalmente uma pauta tão identificada com o cotidiano popular sem correr risco de isolamento. Por isso surgiram tentativas de reabsorver a questão dentro de uma retórica antiestablishment, culpando impostos, políticos ou “o sistema” de maneira genérica, sem tocar nas relações de exploração.

Enquanto isso, a esquerda institucional foi levada a incorporar a pauta. A incorporação ocorreu sobretudo via PSOL, depois por setores do PT e finalmente pelo próprio governo. Em 14 abril de 2026, o presidente Lula enviou ao Congresso Nacional o projeto de lei (PL) para o fim da escala 6×1.

Panorama atual

Perpassadas essas etapas, a pauta hoje aparece ao público como o debate hermético entre parlamentares e especialistas sobre os textos dos referidos projetos. A proposta original, de Reginaldo Lopes em 2019, teve como objetivo central reduzir a jornada constitucional máxima de 44 para 36 horas semanais, sem redução salarial. O ponto decisivo é que ela altera diretamente o artigo 7º da Constituição Federal. Isso significa que a mudança não seria apenas legal, mas constitucional, embora, por outro lado, preveja implementação gradual ao longo de até dez anos, justamente para enfrentar resistência patronal. Já no calor da repercussão de sua formulação atual (“o fim da escala 6×1”), articulada por Erika Hilton em diálogo com o movimento VAT, a PEC protocolada em 2025, além de defender a jornada máxima de 36 horas, bem como a manutenção salarial, propõe limitar a jornada semanal para 4 dias. A especificação da quantidade de dias de trabalho por semana é decisiva pois a redução da carga horária semanal não implica na redução de dias trabalhados. Uma empresa poderia manter seis dias trabalhados com jornadas diárias menores. Por isso, a discussão atual possui duas dimensões: a quantidade de horas, e a forma de distribuição do tempo semanal.

Já a proposta do governo Lula não é uma PEC, mas um projeto de lei (PL), o que altera profundamente o alcance jurídico da medida. O PL do governo propõe redução da jornada de 44 para 40 horas, garantia de dois dias de descanso semanal, e manutenção salarial. Ou seja, diferentemente das PECs em questão, ele não altera a Constituição, apenas a legislação infraconstitucional (CLT e normas relacionadas). Percebe-se de imediato a modéstia da proposta do governo. É evidente que o PL, por suas exigências mais recatadas, por sua tramitação mais rápida, por depender de maioria simples (a PEC exige 3/5 da Câmara e Senado em dois turnos), reflete em essência a estratégia eleitoral do PT de conseguir a sua aprovação antes das eleições, não importando muito que, do ponto de vista dos trabalhadores, o avanço seja pouco e mais facilmente reversível.

A mídia burguesa, por seu lado, tem conjurado seus especialistas para, com seus jargões técnicos, tentar nos convencer da alta periculosidade da matéria para a economia (leia-se: o capital), revolvendo normalmente em torno de três argumentos. O primeiro é o do aumento do custo da hora trabalhada. Se a jornada diminui sem redução salarial, o custo relativo da força de trabalho sobe. Esse argumento aparece diariamente em entrevistas empresariais e comentários econômicos. O segundo é o da suposta incapacidade das pequenas empresas de absorver a mudança. Restaurantes, padarias, mercados e pequenos comércios são constantemente mobilizados como exemplos dramáticos de um setor que “não suportaria” a redução da jornada. O terceiro argumento é o da produtividade nacional. Economistas liberais repetem insistentemente que o Brasil “ainda não alcançou” o nível produtivo necessário para sustentar jornadas menores, como se a superexploração histórica do trabalho brasileiro fosse consequência técnica inevitável e não resultado de uma forma específica de acumulação.

Mas talvez o elemento mais importante da reação burguesa atual seja o deslocamento do debate para a questão da “flexibilidade”. O empresariado percebeu que dificilmente conseguirá bloquear totalmente a pauta diante de seu enorme apoio social. A estratégia passou então a consistir em modular, condicionar e absorver a reivindicação. É nesse contexto que proliferam as propostas de “transição gradual”, “adaptação setorial” e “negociação coletiva específica”. Os representantes patronais insistem permanentemente que qualquer mudança deve preservar mecanismos como banco de horas, compensação de jornada e acordos flexibilizadores. Em termos concretos, trata-se de preservar o núcleo da reforma trabalhista de 2017 e a capacidade patronal de reorganizar continuamente o tempo de trabalho conforme as necessidades da valorização.

Esse movimento aparece claramente nas discussões travadas dentro da Câmara. As versões iniciais mais amplas (redução para 36 horas e semana de quatro dias) passaram rapidamente a sofrer pressão por moderação. Setores empresariais e parlamentares liberais defendem abertamente uma solução mais “realista”, centrada em 40 horas semanais, transição longa e ampla margem de negociação setorial. A própria linguagem parlamentar revela o processo em curso. A mídia empresarial acompanha esse movimento de maneira quase pedagógica. Reportagens e debates repetem continuamente a necessidade de “equilíbrio”, “responsabilidade” e “segurança jurídica”. A questão social reaparece permanentemente subordinada ao horizonte da estabilidade econômica. O trabalhador pode até ter direito a descansar mais; desde que isso não afete demasiadamente a rentabilidade do capital. E assim o conflito entre capital e trabalho é dissolvido na linguagem aparentemente neutra dos índices, das projeções e da competitividade internacional.

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O mais recente desdobramento, ocorrido nesta quarta-feira (13/05), aponta para um acordo entre Lula e Motta para votar o PL proposto pelo governo, em princípio sem prejuízo para a tramitação da PEC.

Fim da escala 6×1: limites

A luta pelo fim da escala 6×1 faz retornar ao palco principal da política nacional a luta de classes, mais especificamente, a bandeira histórica da classe trabalhadora pela redução da jornada de trabalho. Simples e direta, com base na realidade material vivida por multidões de trabalhadores, conectando-se diretamente com a sua experiência imediata, e assim granjeando com rapidez e facilidade o seu apoio massivo, a palavra de ordem formulada como o “fim da escala 6×1” apresenta, não obstante, limites intrínsecos.

Não se trata aqui de uma crítica da linguagem, ou da forma de comunicação. Pelo contrário, é precisamente a essa forma de linguagem e comunicação que a pauta deve a sua imensa popularidade inicial. Também se encontra fora de questão qualquer recuo ou tergiversação com relação ao apoio à pauta. Trata-se antes de compreender a dialética entre a manifestação imediata da denúncia da escala, e as mediações que explicitam as condições sociais que a engendraram em primeiro lugar; condições sem a superação das quais os trabalhadores forçosamente seguirão sendo superexplorados, embora sob outras formas.

A força da palavra de ordem “fim da escala 6×1” reside precisamente em sua imediaticidade. Ela não nasce de um gabinete parlamentar, de uma formulação acadêmica ou de uma elaboração abstrata da esquerda. Surge diretamente da experiência vivida da classe trabalhadora. Isso ajuda a explicar por que a PEC de redução da jornada apresentada em 2019 permaneceu praticamente sem repercussão social, enquanto a formulação simples e imediata do “fim da escala 6×1” adquiriu em poucos meses enorme potência política. O trabalhador submetido ao comércio exaustivo, ao serviço contínuo, à disponibilidade permanente, reconhece imediatamente nela sua própria condição. Sua formulação coincide quase perfeitamente com a forma sensível sob a qual a exploração aparece na vida cotidiana.

Mas é justamente aqui que começa o problema. Aquilo que surge como forma aparentemente mais concreta da experiência revela-se, num nível mais profundo de análise, ser a sua manifestação mais abstrata. Não porque seja falsa. Pelo contrário, ela é verdadeira exatamente enquanto expressão imediata do fenômeno. Mas permanece presa à aparência da relação social. Captura a figura visível da exploração sem explicitar as mediações essenciais que a produzem, sustentam e reproduzem continuamente. A escala 6×1 não é uma anomalia moral do capitalismo brasileiro. Não é um excesso ocasional produzido pela maldade de determinados empresários. Ela é forma concreta de manifestação de determinações mais profundas da acumulação capitalista na periferia do sistema. Surge da necessidade histórica do capital dependente de compensar sua inserção subordinada na economia mundial mediante a superexploração da força de trabalho, comprimindo o tempo da vida, degradando as condições de reprodução social do trabalhador e convertendo até mesmo suas necessidades mais elementares em matéria de valorização do capital.

Por isso a pauta não pode permanecer no nível em que nasce. Ela deve ser preservada enquanto ponto de partida real, mas precisa ser desenvolvida, mediada, suprassumida. A formulação imediata funciona como escada, não como horizonte final. Se não avançar para o desvelamento das mediações ocultas dentro da própria forma da pauta, ela corre o risco de converter-se em nova forma de mistificação. O trabalhador imagina então que o problema fundamental reside apenas na distribuição formal da jornada dentro de um emprego específico. Mas o capital opera como totalidade social. Ele não depende exclusivamente da escala 6×1 para subordinar a vida ao trabalho. Se uma forma de extração encontra limite, outras formas tendem imediatamente a ocupar seu lugar. O trabalhador pode permanecer menos horas numa empresa específica e continuar totalmente subordinado ao trabalho no conjunto de sua existência social. E isso por uma razão elementar: o salário continua insuficiente para reproduzir dignamente sua vida.

O próprio DIEESE já demonstrou repetidas vezes que o salário-mínimo brasileiro está muito abaixo do necessário para sustentar uma família trabalhadora. O que acontece então quando a jornada formal diminui sem transformação mais profunda das condições de reprodução social? O trabalhador recompõe sua renda. Faz bico. Dirige Uber. Entrega comida por aplicativo. Trabalha informalmente à noite ou nos fins de semana. Assume dois empregos. O capital perde algumas horas numa ponta e recupera o tempo social total em outra. A escala oficial diminui enquanto o tempo real de vida continua absorvida pelo trabalho. A ironia brutal da situação é que o trabalhador pode sair formalmente do 6×1 para retornar, socialmente, no 7×0.

E não se trata apenas da extensão quantitativa da jornada. Marx já demonstrava que o capital não depende exclusivamente da ampliação direta do tempo de trabalho (mais-valia absoluta), mas desenvolve continuamente formas mais sofisticadas de extração de mais-valia relativa, isto é, formas de ampliar a exploração dentro da própria jornada dada. O capital recompõe então sua acumulação pela intensificação do trabalho, pela reorganização técnica da produção, pelo aumento da produtividade, pela eliminação dos tempos mortos, pela vigilância permanente e pela captura crescente da subjetividade do trabalhador. Menos horas formais podem significar mais metas, mais pressão algorítmica, maior controle digital, polivalência funcional, gestão por desempenho, gamificação do trabalho e disponibilidade psíquica contínua. O trabalhador permanece menos tempo dentro da empresa, mas entrega ao capital quantidade ainda maior de energia física, nervosa e mental em cada unidade de tempo. A jornada diminui juridicamente enquanto a exploração materialmente se densifica. Mas não deverá nos surpreender se, no capitalismo dependente brasileiro, o resultado do processo for a combinação entre o aumento de mais-valia absoluta e relativa na extração de valor a partir do labor da classe trabalhadora. Jornada menor de um lado, mais jornadas, e maior intensificação do ritmo de trabalho de outro.

Neste ponto, parte significativa da própria defesa progressista da pauta revela seus limites. Na tentativa de responder ao catastrofismo patronal, muitos acabam aceitando o próprio terreno ideológico do inimigo. Passa-se então a defender o fim da escala 6×1 não apenas como limitação necessária da exploração e ampliação do tempo humano livre, mas como mecanismo capaz de tornar o capitalismo mais eficiente. Diz-se que trabalhadores descansados produzem mais, consomem mais, adoecem menos, movimentam melhor a economia. A pauta passa então a ser justificada porque favoreceria o crescimento, elevaria a produtividade e dinamizaria o mercado interno. O problema dessa formulação não está apenas em sua fragilidade política – afinal, se o capital concluir que a produtividade não compensa os custos, o argumento se volta imediatamente contra os trabalhadores – mas sobretudo em seu conteúdo teórico. Porque produtividade, sob o capitalismo, não é categoria neutra. Como o próprio Marx demonstra, o aumento da produtividade constitui precisamente um dos principais mecanismos de ampliação da mais-valia relativa. O trabalhador descansado aparece então não como sujeito da emancipação de seu tempo de vida, mas como força de trabalho mais eficiente para a valorização do capital. A crítica da exploração cede lugar à promessa de uma exploração mais racional, moderna e sustentável.

Para além dessas formas de mais-valia relativa, a própria informalidade estrutural brasileira integra esse mecanismo de recomposição do capital. Quase 40% da população ocupada permanece fora da proteção formal clássica. Para essa massa de trabalhadores precarizados, a redução da jornada legal pode sequer alterar diretamente suas condições reais de existência. O capital preserva, assim, amplas zonas de superexploração onde a recomposição da acumulação continua operando sem maiores obstáculos. Zonas estas que fatalmente receberão um contingente maior de trabalhadores uma vez aprovado o fim da escala 6×1.

Neste sentido, a questão decisiva do debate atual não está apenas na redução formal das horas semanais, mas nos mecanismos pelos quais o capital poderá recompor aquilo que eventualmente perder. Nenhum dos projetos em discussão enfrenta diretamente, por exemplo, o núcleo da reforma trabalhista de 2017, isto é, a lógica do “acordado sobre o legislado”. Permanecem intactos os instrumentos que permitem reintroduzir a exploração por outras vias: banco de horas, compensações de jornada, escalas especiais, acordos coletivos flexibilizadores. Não por acaso, tudo indica que a tendência predominante dentro da Câmara é moderar progressivamente a proposta original.

Por isso é tão importante proceder a uma análise dialética da pauta. O concreto não é a imediaticidade sensível do fenômeno. O concreto é a totalidade das relações e mediações que produzem o fenômeno. A aparência imediata da escala 6×1 parece extremamente concreta porque coincide com a experiência vivida. Mas, isolada de suas determinações mais profundas, ela permanece abstrata. Ela precisa ser desenvolvida até revelar suas conexões internas com salário, informalidade, uberização, intensificação do trabalho, política monetária, desemprego estrutural e reprodução ampliada do capital. Sem esse movimento, a pauta permanece confinada dentro da própria lógica que pretende combater. O trabalhador luta contra uma forma específica da exploração enquanto a estrutura geral da valorização reorganiza continuamente novos mecanismos de captura de seu tempo de vida.

A tarefa da crítica não é, portanto, rejeitar a pauta em nome de alguma pureza doutrinária. A tarefa é precisamente partir da força real da experiência imediata da classe e desenvolver suas mediações até que o próprio trabalhador possa perceber que a questão não é apenas a escala, mas o poder social do capital sobre o tempo humano. Porque o problema fundamental nunca foi simplesmente quantos dias se trabalha. O problema fundamental é que, sob o domínio do capital, todo o tempo da vida tende permanentemente a converter-se em tempo potencial de valorização.

Fim da escala 6×1: potencialidades

A força social alcançada pela pauta do fim da escala 6×1 revela uma contradição profunda do momento histórico atual. Poucas reivindicações recentes conseguiram atingir tamanho grau de identificação popular em tão pouco tempo. As pesquisas de opinião indicam apoio majoritário à redução da jornada. A rápida ascensão eleitoral de Rick Azevedo demonstra que a pauta encontrou enorme ressonância entre trabalhadores comuns. Nas redes sociais, milhões reconheceram imediatamente naquela formulação simples (“fim da escala 6×1”) a expressão direta de sua própria experiência cotidiana de exaustão. E, no entanto, essa força social difusa convive com uma fragilidade organizativa igualmente evidente. A pauta tornou-se popular sem produzir um correspondente nível de mobilização coletiva autônoma. As manifestações de rua seguem frequentemente restritas aos círculos habituais da militância de esquerda, estudantes, ativistas e setores politizados já tradicionais. A classe trabalhadora apoia massivamente a reivindicação, mas permanece majoritariamente desorganizada enquanto sujeito político ativo da própria luta.

Esse dado expressa um longo processo histórico de refluxo da organização operária e de deslocamento da própria esquerda para longe da centralidade do trabalho. Durante décadas, a pauta do trabalho foi progressivamente rebaixada no interior da esquerda institucional e acadêmica. Na esteira das teorias pós-modernas e de sua tradução política nas diversas formas contemporâneas de identitarismo, a questão do trabalho deixou de funcionar como eixo organizador da totalidade social e passou a aparecer como apenas mais uma pauta entre tantas outras. A fragmentação das formas de opressão converteu-se, frequentemente, em fragmentação da própria estratégia política. As diferentes lutas deixaram de ser articuladas a partir de sua inserção comum nas relações sociais de produção e passaram a coexistir como campos relativamente autônomos de reivindicação parcial.

O problema não está na existência dessas lutas. Racismo, opressão das mulheres, violência contra pessoas LGBTQIA+, opressões nacionais e diversas formas de dominação social possuem realidade concreta e não desaparecem por decreto economicista. A questão decisiva é outra. Sem o reconhecimento da centralidade do trabalho enquanto mediação organizadora da totalidade social, e, por conseguinte, sem uma estratégia revolucionária que tenha no trabalho o eixo que articula todas essas lutas, elas tendem a dissipar-se em múltiplas pautas fragmentadas, frequentemente absorvidas pela institucionalidade liberal e desconectadas de um horizonte de superação da ordem existente.

É precisamente por essa razão que o retorno de uma pauta diretamente vinculada ao trabalho possui significado histórico importante. Pela primeira vez em muitos anos, uma reivindicação econômica imediata da classe trabalhadora volta a ocupar o centro do debate político nacional. A esquerda institucional não produziu esse movimento. Foi obrigada a acompanhá-lo. E esse dado, ao mesmo tempo que revela uma potencialidade, revela também uma limitação profunda. A pauta retorna porque a própria realidade social impõe violentamente a centralidade da exploração do trabalho. Mas ela retorna num contexto em que grande parte da esquerda já se encontra profundamente institucionalizada, eleitoralizada e afastada das formas mais orgânicas de organização da classe trabalhadora.

Isso ajuda a explicar por que a reivindicação sobe tão rapidamente ao terreno parlamentar sem passar por um ciclo mais robusto de organização coletiva independente. A política reaparece imediatamente sob forma institucional. Comissões, projetos de lei, negociações legislativas, disputas de tramitação. A luta econômica conecta-se diretamente ao Estado antes de reconstruir formas próprias de força social organizada.

Ainda assim, seria um erro profundamente sectário desprezar o significado desse retorno da pauta trabalhista. O simples fato de jornada, salário e tempo de vida voltarem a ocupar o centro da discussão pública já representa um avanço real diante do período anterior. Mas é igualmente necessário compreender o caráter elementar desse avanço. O entusiasmo produzido pela retomada da luta econômica revela também o quanto o horizonte político da esquerda havia recuado. Estamos diante da reemergência de questões que pertencem ao nível mais básico e clássico da luta operária moderna.

E aqui retorna toda a atualidade das palestras que Marx fizera no Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), transcritas e intituladas “Salário, Preço e Lucro”. Marx ali insistia que a luta econômica é necessária. A classe trabalhadora que não luta por salário, jornada e condições mínimas de existência sequer resiste à degradação absoluta imposta pelo capital. Mas insistia igualmente no caráter insuficiente dessas lutas quando mantidas em seus próprios limites imediatos. As conquistas econômicas possuem caráter necessariamente provisório dentro do capitalismo. O capital recompõe continuamente suas perdas por outras vias: intensificação do trabalho, inflação, desemprego, informalização, flexibilização, novas formas de precarização e reorganização da acumulação. A luta econômica, isolada, move-se permanentemente dentro do terreno da reprodução do próprio sistema.

Mais ainda. A própria luta sindical e econômica desempenha, até certo ponto, função reguladora no interior do capitalismo. Ao impor limites parciais à voracidade imediata da acumulação, ela ajuda a estabilizar o sistema, reduz tensões explosivas e produz acomodações temporárias entre capital e trabalho. O trabalhador conquista respiros reais, melhora parcialmente suas condições de vida e continua submetido à lógica geral da valorização.

A potencialidade histórica aberta pela pauta do fim da escala 6×1 depende de sua capacidade de ultrapassar seus próprios limites imediatos. A luta econômica precisa desenvolver-se até a compreensão política da totalidade das relações sociais que produzem continuamente a exploração. Caso contrário, a tendência é que a pauta seja progressivamente absorvida, moderada e reinscrita dentro dos limites normais da acumulação capitalista. O retorno da centralidade do trabalho constitui condição necessária para qualquer reorganização consequente da esquerda e da classe trabalhadora. Mas permanece apenas como ponto de partida. O problema decisivo para o campo socialista e revolucionário continua sendo transformar a experiência imediata da exploração em consciência política organizada da totalidade social.

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