Lenin: Palestra sobre a Revolução de 1905

A Rússia conheceu pela primeira vez um movimento revolucionário contra o czarismo em 1825, e esse movimento foi obra quase exclusiva da nobreza. Desde então e até 1881, ano em que Alexandre II foi abatido por terroristas, os intelectuais da classe média estiveram à cabeça do movimento. Deram provas do maior espírito de sacrifício e o seu heróico modo de luta terrorista espantou o mundo inteiro. Decerto não caíram em vão e o seu sacrifício contribuiu, diretamente ou não, para a educação revolucionária posterior do povo russo. Mas não atingiram de modo nenhum, nem podiam atingir, o seu objetivo imediato: o despertar de uma revolução popular.

Só a luta revolucionária do proletariado o conseguiu. Só as greves de massas desencadeadas por todo o país, conjugadas com as cruéis lições da guerra imperialista russo-japonesa, arrancaram as massas camponesas à sua letargia. A palavra “grevista” adquiriu para os camponeses um significado completamente novo: designava uma espécie de rebelde, de revolucionário, aquilo que outrora se exprimia pela palavra “estudante”. Mas, na medida em que o “estudante” pertencia à classe média, aos “letrados”, aos “senhores”, era estranho ao povo. Pelo contrário, o “grevista” provinha do povo, contava-se entre os explorados; expulso de Petersburgo, voltava frequentemente à aldeia onde falava aos seus companheiros do incêndio que estava a deflagrar na cidade e que devia destruir tanto os capitalistas como os nobres. Um novo tipo de homem surgiu nos campos russos: o jovem camponês consciente. Estava em contacto com os “grevistas”, lia jornais, contava aos camponeses o que se passava nas cidades, explicava aos companheiros da aldeia o alcance das reivindicações políticas, chamava-os para a luta contra a grande aristocracia fundiária, contra os padres e os funcionários.

Os camponeses juntavam-se em grupos para examinar a sua situação e envolviam-se pouco a pouco na luta: atacavam em multidão os grandes proprietários fundiários, incendiavam os seus palácios e domínios ou apoderavam-se das suas reservas, do trigo e outros víveres, matavam os polícias, exigiam que as terras imensas pertencentes aos nobres fossem entregues ao povo.

Na Primavera de 1905, o movimento camponês era apenas embrionário: estendia-se aproximadamente a um sétimo dos distritos, ou seja uma minoria. Mas a combinação da greve proletária de massas nas cidades com o movimento camponês foi suficiente para abalar o mais “firme” e o último apoio do czarismo. Refiro-me ao exército.

Estalam revoltas militares na marinha e no exército. Cada nova vaga de greves e de movimentos camponeses no curso da revolução é acompanhada de revoltas militares em toda a Rússia. A mais célebre destas revoltas é a do couraçado Príncipe Potemkin da frota do Mar Negro, que, caído nas mãos dos insurretos, tomou parte na revolução em Odessa e, após a derrota da revolução e de tentativas infrutíferas de tomar outros portos (por exemplo Teodósia na Crimeia), se rendeu às autoridades romenas em Constanza.

Permitam-me que vos conte em pormenor um pequeno episódio desta rebelião da frota do Mar Negro para vos dar um quadro concreto dos acontecimentos no seu ponto culminante:

Reuniões de operários e de marinheiros revolucionários; tornaram-se cada vez mais frequentes. Como era proibido aos militares assistirem às reuniões dos operários, estes começaram a comparecer em massa nas dos militares. Juntavam-se aos milhares. A ideia de uma ação comum encontrou um enorme eco. As companhias mais conscientes elegeram delegados.

As autoridades militares decidiram então tomar medidas. Alguns oficiais tentaram pronunciar discursos “patrióticos” nas reuniões, mas os resultados foram desastrosos: experientes na discussão, os marinheiros obrigaram os seus superiores a uma fuga vergonhosa. Perante estes fracassos, decidiram uma interdição geral das reuniões. Na manhã de 24 de Novembro de 1905, uma companhia em estado de alerta foi colocada à porta da caserna. O contra-almirante Pissarevski ordenou publicamente: “Não deixar sair ninguém da caserna! Atirar em caso de desobediência!” O marinheiro Petrov saiu das fileiras da companhia que recebera esta ordem, carregou ostensivamente a sua espingarda, abateu com um tiro o segundo capitão Stein, do regimento de Bielostok, e com um segundo tiro feriu o contra-almirante Pissarevski. Um oficial ordenou: “Prendam-no!” Ninguém se mexeu. Petrov atirou a espingarda para o chão e gritou: “De que estão à espera? Prendam-me!” Foi preso. Vindos de todos os lados, os marinheiros exigiram imperativamente a sua liberdade e declararam constituir-se como caução do colega. A excitação estava no seu cume.

– “Petrov, o teu tiro foi disparado por acaso, não foi?” perguntou um oficial, procurando uma saída para a situação

– “Como, por acaso! Saí da fileira, carreguei a arma e apontei, foi por acaso?”

– “Eles reclamam a tua liberdade…”

E Petrov foi posto em liberdade. Mas os marinheiros não ficaram nisso. Todos os oficiais de serviço foram presos, desarmados e conduzidos para os gabinetes… Os delegados dos marinheiros, cerca de quarenta, deliberaram toda a noite. Decidiram libertar os oficiais, mas proibiram-lhes a partir de então o acesso à caserna. . . “

Esta pequena cena ilustra da melhor maneira os acontecimentos tal qual se desenrolaram na maior parte das revoltas militares. A efervescência revolucionária do povo não podia deixar de ganhar também o exército. Fato característico: os elementos da marinha de guerra e do exército, recrutados sobretudo entre os operários da indústria e a quem era exigida uma sólida formação técnica, como os sapadores por exemplo, forneceram os chefes ao movimento. Mas as grandes massas eram ainda demasiado ingênuas, demasiado pacíficas, demasiado plácidas, demasiado cristãs. Inflamavam-se facilmente; uma injustiça qualquer, a grosseria demasiado flagrante dos oficiais, uma má refeição, etc., podiam provocar uma revolta. Mas faltavam-lhes a perseverança e a clara consciência das tarefas: ainda não compreendiam que só a mais enérgica luta armada, só a vitória sobre todas as autoridades militares e civis, só ao derrubada do governo e a tomada do poder em todo o país, poderiam garantir o sucesso da revolução.

A grande massa dos marinheiros e dos soldados revoltava-se facilmente. Mas cometia também facilmente a cândida tolice de devolver à liberdade os oficiais presos; deixava-se acalmar por promessas e exortações das autoridades, que assim ganhavam um tempo precioso, recebiam reforços e esmagavam os motins, após o que o movimento era ferozmente reprimido e os seus chefes executados.