Mais antagonismo e menos cooperação: o capitalismo imperialista e suas misérias crescentes

Quais são os meios e caminhos que temos para mudar o nosso modo de lutar? Em um primeiro momento, precisamos empreender algumas correções nas práticas até agora empregadas. Se, há dois anos, um de nossos representantes no Reichstag explicava que nós, social-democratas alemães, apoiamos a Tríplice Aliança e a enxergamos como garantia da paz, tal posição conflita com as consequências do desenvolvimento. Não passa de utopia e ilusão perigosa imaginar que quaisquer alianças diplomáticas possam garantir a paz. (LUXEMBURGO, 1914, p. 1)

[…] as alianças “interimperialistas” ou, ultra imperialistas, no mundo real capitalista, e não na vulgar fantasia filistina dos padres ingleses ou do “marxista” alemão Kautsky – seja qual for a sua forma: uma coligação imperialista contra outra coligação imperialista, ou uma aliança geral de todas as potências imperialistas -, só podem ser, inevitavelmente, “tréguas” entre guerras. As alianças pacíficas preparam as guerras e por sua vez surgem das guerras, conciliando-se mutuamente, gerando uma sucessão de formas de luta pacífica e não pacífica sobre uma mesma base de vínculos imperialistas e de relações recíprocas entre a economia e a política mundiais. (LENIN, 1986, Vol. 1, p. 664)

  1. Introdução

Enquanto existiu, a União das Repúblicas Socialistas Soviética contribuiu para a existência de um sistema mundial em equilíbrio na medida em que os dois blocos, o capitalista liderado pelos Estados Unidos e o socialista liderado pela extinta União Soviética impunham-se mutuamente a lógica da guerra fria de manutenção da “paz possível” para que se evitasse o confronto direto e a destruição da vida planetária. Era o equilíbrio do terror, mas era um equilíbrio necessário. Por trás desse quadro existia, conceitualmente, um sistema onde os países capitalistas cooperavam entre si com receio de que o mundo socialista pudesse aproveitar as divisões do campo capitalista ou, mesmo, qualquer fortalecimento da União Soviética e seus parceiros.

Thalheimer (1946) entendia, com muito acerto, os Estados capitalistas centrais, imperialistas ao término da segunda Guerra Mundial e estabelecidos os limites geográficos e geopolíticos de cada um dos sistemas, era possível observar, segundo aquele Autor uma dialética baseada na polarização capitalismo versus socialismo e na necessidade de cada líder de bloco atuar na mais ampla esfera para preservar a cooperação interna. Essa nunca foi uma tarefa simples para nenhum dos dois lados, pois divergências e antagonismos nunca faltaram. No campo capitalista a situação era mais séria, dada seus conflitos mais arraigados (como exemplo, pode-se citar França e Alemanha) e da luta na luta pela massa do lucro mundial.

O problema da pesquisa é identificar como se encontra o mundo atualmente dentro de uma geopolítica de guerras regionais de alto impacto que redesenham uma outra ordem mundial a partir do referencial teórico da Cooperação Antagônica.

 

  1. Marco teórico: a tese da cooperação antagônica

Thalheimer (1946), produz em texto sobre a política internacional após a II Guerra Mundial. Trata-se de minucioso estudo que capta as relações entre os Estados capitalistas, em um primeiro plano, aqueles ditos centrais, portanto, imperialistas depois do final da Segunda Guerra. A base da argumentação de Thalheimer era uma nova configuração geopolítica e geoeconômica mundial, onde a União Soviética havia rompido o isolamento e constituído um campo próprio e oposto ao campo imperialista, comandado pelos Estados Unidos. Desse modo, uma variável fundamental determinava as relações internacionais, de modo que os conflitos intercapitalistas não podiam serem administrados sem considerar essa nova realidade.

Outro elemento de muita força que alterou o quadro mundial foi a estupenda vitória soviética sobre o nazifascismo e seu fortalecimento militar e estratégico com vários países vizinhos como aliados. Isso logicamente levou a uma bipolaridade real com ambos os campos buscando realizar processos expansivos, contudo freados pela oposição do outro campo.

No lado capitalista e suas infindáveis disputas que levaram as duas guerras mundiais do século XX permaneceram, porém precisavam ser contidas pelo mecanismo de cooperação. Essa dualidade complexa pode ser elucidada com o conceito de cooperação antagônica. Cooperação entre os países do bloco capitalista sob a direção da potência mais forte, os Estados Unidos.

A Guerra Fria acontece tendo como linhas de contorno a cooperação antagônica. Essa situação criou alguma imobilidade no sistema capitalista mundial, pois os blocos estavam consolidados e a alteração de riqueza ou poder dentro do campo capitalista provocaria novas e prejudiciais disputas.

O amortecimento dos graves conflitos (polo antagônico) com vista a uma cooperação “imposta” pelo receio de ações desestabilizadoras do bloco soviético, ajuda no entendimento dos chamados anos dourados e de suas taxas de lucro altas, constantes e relativamente uniformes nos países centrais; explica, também, o estado de bem-estar social e certa acomodação nas lutas operárias. Para tanto, a cooperação interestatal entre os países capitalistas centrais que correspondia a uma subordinação dos países subdesenvolvidos no sentido de garantir a integridade da cadeia sistêmica do capitalismo mundial, a saber, sua estabilidade interna.

A questão da estabilidade interna ou estabilidade sistêmica é fundamental e leva a análise do vácuo de hegemonia em um período de queda no papel de liderança da Grã-Bretanha e isolacionismo dos Estados Unidos. Segundo Kindleberger (1973) se a economia mundial se comportasse simetricamente, não haveria depressões econômicas mundiais.

O problema maior da simetria[1] é que ela não é um fundamento dos mercados[2]. Na quadra histórica entre 1873 e 1913, a simetria do sistema econômico mundial foi mantida devido aos esforços de manutenção por parte do Estado britânico, responsável por manter os empréstimos estrangeiros e o investimento em contraponto contínuo.

Quando Bretton Woods entrou em crise e deixou de atender os interesses dos Estados Unidos, iniciando-se a transição do padrão dólar-ouro para dólar-flexível, nas décadas de 1960 e 1970, juntamente com a estupenda derrota militar e moral dos estadunidenses no território vietnamita, acrescido do primeiro choque do petróleo, coloca-se em xeque a hegemonia estadunidense. Nessa encruzilhada histórica, Kindleberger (1973) constrói a Teoria da Estabilidade Hegemônica (TEH), elaborando um papel central para uma potência hegemônica controlar o risco de uma crise. O papel dessa potência seria de garantir os instrumentos fundamentais para o bom funcionamento do sistema capitalista.

De acordo com a Teoria da Estabilidade Hegemônica, a potência hegemônica mundial deve fornecer bens público globais, como (a) segurança, mantendo uma força militar para garantir a ordem mundial e reprimir dissidências; (b) sistema de livre comércio, ou seja, livre circulação de mercadorias; (c) moeda internacional forte que garanta um meio de pagamento confiável e uma reserva de valor; (d) normas e instituições internacionais que regulem as relações entre os estados, promovendo a cooperação e evitando os conflitos.

 

  1. O fim da URSS e o interregno unipolar ou o falso fim da história

Quando Fukuyama (1992) decretou o fim da História, ele o fez sustentando a vitória final e definitiva do liberalismo econômico, dado que este seria o ápice da evolução econômica da sociedade contemporânea. Finalmente, um mundo capitalista a-histórico com democracia plena e de absoluta igualdade de oportunidades. Todos seriam livres e capazes de conquistar os seus objetivos. Contudo, a democracia apenas seria possível para os países desenvolvidos economicamente com um processo de industrialização já consolidado. Os demais países, subdesenvolvidos e pobres, estariam vulneráveis aos regimes totalitários, ou ainda, aos regimes democráticos dependentes dos países desenvolvidos.

Engana-se quem pensou que o cientista político estadunidense retirou o fim da história de alguma cartola, na verdade ele foi buscar ajuda no maior adversário da exploração e opressão do capitalismo:

Tanto para Hegel quanto para Marx a evolução das sociedades humanas não era ilimitada. Mas terminaria quando a humanidade alcançasse uma forma de sociedade que pudesse satisfazer suas aspirações mais profundas e fundamentais. Desse modo, os dois autores previam o ‘fim da História’. Para Hegel seria o estado liberal, enquanto para Marx seria a sociedade comunista. (FUKUYAMA, 1992, p. 12)

Segundo Fukuyama (1992) a globalização tem criado uma cultura e mentalidade de um mundo sem fronteiras e apresenta a democracia liberal como o melhor modelo de governo, onde oportunidades, status, e riqueza estariam disponíveis para todos. Não se encontra escrito do pensador estadunidense sobre o declínio dos Estados Unidos, a ascensão da China, a crise infinita do capitalismo e os bairros de lata e papelão no país onde o capitalismo e a democracia, segundo este e outros autores atingiu o ápice.

Dois fatos marcam a última década do século XX, a queda da União Soviética e o fim da Guerra Fria, acontecimentos que levam a uma reorganização do imperialismo global e toda a geopolítica mundial. A crença na paz perpetua de Kant[1] mostrou-se um autêntico fiasco, pois desconsiderou a lógica interna do imperialismo, seu caráter expansivo, sua permanente fome de lucros e seu militarismo. No final da primeira década do século XXI, os Estados Unidos estiveram envolvidos em guerras constantes e agora têm uma concepção militar baseada no princípio da “guerra permanente”.

O Governo dos Estados Unidos definiu, depois da queda da União Soviética, o objetivo central de evitar o reaparecimento de um novo rival. Esta é uma consideração dominante subjacente à nova estratégia de defesa regional e requer que máximo empenho para evitar que qualquer potência hostil venha a dominar qualquer região cujos recursos seriam, sob controle consolidado, suficientes para gerar poder global.

Para se garantir o objetivo geral, exposto acima, três objetivos parciais seriam necessários: (a) os EUA deveriam demonstrar a liderança necessária para estabelecer e proteger uma nova ordem que garanta aos Estados concorrentes em potencial de que eles não precisam aumentar seu poder relativo global ou buscar um papel estratégico maior ou praticar uma postura mais agressiva para proteger seus interesses legítimos; (b) nas outras áreas (de não defesa), deve-se contar suficientemente com os interesses das nações industrializadas avançadas para desencorajá-las a desafiar nossa liderança ou a tentar derrubar a ordem política e econômica estabelecida; (c) deve-se manter os mecanismos para dissuadir concorrentes potenciais de até mesmo aspirar a um papel regional ou global mais amplo.

O programa de supremacia dos Estados Unidos nada tinha (nada tem) de democrático e visava conter a rivalidade interimperialista (em uma declaração pública que o fim do campo soviético aumentava o antagonismo e reduzia a cooperação) e evitar que outras “nações industriais avançadas” desafiem a liderança dos EUA, para tornar o equilíbrio geopolítico mundial mais complacente, seria necessário criar um espaço para que essas potências perseguissem seus interesses em “áreas de não defesa”. Em outras palavras, que os outros imperialistas tenham permissão para enriquecer dentro da atual ordem mundial.

Os conflitos e guerras que recrudesceram muito neste primeiro quartel do século XXI foram sempre colocados na conta de grupos anti-imperialistas, denominados de terroristas, como se fosse possível ser mais terrorista que os Estados Unidos ou Israel. Em outros momentos, a acusação torna-se cômica quando se culpabiliza o Dr. Strangelove ou o Dr. Death ou o idiota do General Nervous Hand.

A condução da guerra imperialista foi, e continua a ser, o produto da classe capitalista em busca de seus interesses. Os motivos econômicos dos imperialistas que Lenin bem destacou continuaram presentes e ativos nesta nova rodada de guerras na era unipolar. Isso incluiu o controle de recursos naturais essenciais, a expansão de mercados abertos, a estabilidade das rotas de comércio e a subordinação dos estados-nação às normas ​imperialistas das finanças globais.

 

  1. Crise do capitalismo, o agravamento das guerras imperialistas e o despontar de uma nova ordem mundial

A crise de longa duração do capitalismo mundial que se arrasta desse a década de 1970, foi potencializada em 2007-2008 seguindo firme e resistente até os dias de hoje. Classificada por muitos autores de crise financeira, o que é uma meia-verdade, pois o capitalismo é um modo de produção monetário e com predominância financeira, assim, toda crise terá um caráter financeiro. Entretanto, não é a verdade inteira, dado que a crise é de queda na taxa de lucro. O capitalismo do século XXI sofre de dificuldade de reprodução ampliada.

Gráfico 01
ECONOMIA DO G7
TAXA INTERNA DE RETORNO SOBRE O CAPITAL
(PONDERADA PELO PIB)
(1950-2019)


Fonte: Roberts (2020)

O Gráfico 01 acima apresenta dados indiscutíveis. A curva total é decomposta em quatro segmentos e por consequência o mesmo número de fases: (a) a primeira de 1948 até o final da década de sessenta, retrata a chamada Era Dourada do capitalismo, onde o Estado de Bem-Estar Social baseado em um modelo de capitalismo keynesiano-fordista gerou altos lucros nos países desenvolvidos e bons salários com a promessa de evitação de greves, ocorreu uma clara tentativa de harmonização das relações entre capital e trabalho; (b) a segunda está denominada de crise de lucratividade vai do final da década de sessenta até 1982-1983, a queda na Taxa de Lucro é imensa, ou seja, de um coeficiente de ponderação de 0,103 para 0,060; (c) a recuperação neoliberal de 1983 até 1997 é bastante fraca apesar de arrochar os ganhos do trabalho, reduzir ou acabar direitos sociais, destruir instrumentos de regulação do capitalismo ou melhor, de seus excessos, e de incorporar todo o ativo social produzido pelo mundo soviético, a saber, o coeficiente de ponderação sobe de 0,060 para 0,080, voltando portanto ao valor do ano de crise de 1975; (e) no período da grande depressão que começa em 2007-2008  e se estende até os dias atuais, o capitalismo entra em queda livre e passa a um coeficiente de ponderação de 0,55; (f) o ajustamento de todo o período gera uma reta  com declividade fortemente negativa.

Essa crise infinita acentuou os conflitos e as dificuldades de funcionamento do capitalismo globalmente. A queda na taxa de lucros provocou uma corrida em busca de alternativas. Antigos aliados tornaram-se inimigos ferrenhos. O mundo vivencia dezenas de guerras sendo que duas chamam a atenção: aquele que opõe o Ocidente a Rússia usando a Ucrânia como instrumento e o genocídio israelense contra o povo palestino. Acrescente-se a esta guerras “convencionais” a guerra comercial promovida por Donald Trump e outras guerras híbridas para se compreender o alcance do esforço dos Estados Unidos e seus aliados para manter sua hegemonia e derrotar a ascensão chinesa.

*   *   *

Notas:

[1] Após a guerra entre a Prússia e a França, houve a ratificação do Tratado de Paz da Basileia, fato que inspirou ao filósofo alemão Immanuel Kant a idealização de uma paz universal e eterna. Nesse contexto, esse ilustre doutrinador expôs ao mundo vertentes jusfilosóficas com o intuito de evitar a guerra, mesclando deveres políticos com prospecção econômica e social. Por conseguinte, criou, em 1795, a obra intitulada “A paz perpétua, um projeto filosófico”, com a finalidade de unir nações por meio de tratados entre os povos. Todavia, grande parte da doutrina e dos historiadores discutiam sobre a impossibilidade de concretude desses ideais, diante da aparente erosão normativa do Direito Internacional e a falsa aparência de autonomia entre os Estados. (Fonte: https://www.migalhas.com.br/depeso/371651/a-paz-perpetua-de-kant–analise-teleologica)

[1] A simetria supõe condições de igualdade, onde os atores envolvidos possuem capacidades e recursos comparáveis, permitindo-lhes negociar em termos mais equitativos; simetricidade facilita a colaboração e a cooperação, pois as partes se sentem mais confiantes na capacidade de alcançar seus objetivos sem serem subjugadas por outras; a procura pela simetria é um esforço para manter um equilíbrio de poder nas relações internacionais, evitando que um ator domine sobre os demais.

[2] Além de não ser possível a obtenção da simetria através dos mecanismos de mercado, a hipótese é heroica demais, pois defendo o contrário, a saber, que nenhum ator tenha poder suficiente para determinar a configuração do poder global. Seria mais adequado a hipótese de uma simetria fraca e resultante de um conjunto de forças (os atores globais) sob a determinação em última instância da potência hegemônica.

Referências:

COX, R. W. (2007). Gramsci, Hegemonia e Relações Internacionais: Um ensaio sobre o método. In: GILL, S. (org) Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ.

FUKUYAMA, Francis. O fim da História e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

GILL, S. (org) Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ

GILPIN, Robert. A economia política das relações internacionais. Brasília: Editora UNB, 2002.

KINDLEBERGER, C. P. (1973). The world in depression, 1929-1939. Berkeley: University of California Press

LARY, Hal. The United States in the world economy — The International Transactions of the United States During the Interwar. Economic Series — No. 23. U. S. DEPARTMENT OF COMMERCE, 1943

LENIN, Vladimir Ilyich Ulyanov. O Imperialismo, fase superior do capitalismo. Obras Escolhidas vol. I, Ed. Alfa-Ômega, 1986.

LUXEMBURGO, Rosa. (1914) Imperialismo. Disponível em:  https://www.marxists.org/portugues/luxemburgo/1914/mes/40.htm Acesso em: 10 de julho de 2025.

ROBERTS, Michael. Pandemic economics, International Socialism – A quarterly review of socialista theory. (July, 2020). Disponível em. https://isj.org.uk/pandemic-economics/ Acesso em: 10 de fevereiro de 2025

THALHEIMER, August. (1946) Linhas e conceitos básicos da política internacional após a II Guerra Mundial. Disponível em: https://centrovictormeyer.org.br//wp-content/uploads/2010/04/Linhas-e-conceitos-basicos-da-politica-intern.-apos-a-II-guerra.pdf Acesso em: 15 de maio de 2025