Fatos & Crítica 66: A França em chamas

Um espectro ronda a Europa. Não se trata do espectro do comunismo, mas aquele produzido por uma profunda insatisfação social.

Antes da pandemia do coronavírus, os países da Zona do Euro já apresentavam um crescimento econômico anual medíocre, da ordem de 1,6%. No pior ano da Covid-19, o número chegou a ser negativo (-6,1%), porém em 2021 e 2022 houve recuperação econômica após a vacinação em massa, mas o crescimento não perdurou nos anos seguintes. A Guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, cortou as fontes de energia barata da Rússia para o continente e o que se observou depois foi um quadro de estagnação: 0,4% de crescimento em 2023, 0,9% em 2024, 1,4% em 2025 e uma previsão de 1,3% para 2026 (segundo o FMI).

A Europa revelou mais uma vez ser o elo fraco dentro do bloco imperialista ocidental. A um processo de desindustrialização – causado pela relocalização de indústrias em países de mão de obra mais barata e pela concorrência chinesa – somou-se a crise energética causada pelas guerras da Ucrânia e do Irã.

A subserviência do continente aos EUA apenas agravou o problema. A Alemanha aquiesceu quando foi destruído o sistema de gasodutos Nord Stream, que transportava gás natural russo barato para o país e aceitou que viesse a ser substituído pelo caríssimo gás natural liquefeito importado dos EUA. Além disso, os países europeus aderiram com entusiasmo às sanções econômicas contra a Rússia, mesmo sabendo que seriam uma das principais vítimas detal política. Mais recentemente, colocaram suas reservas estratégicas de diesel no mercado, para tentar barrar a alta dos preços do combustível, por exigência americana.

Interessada na expansão de suas fronteiras para o Leste e no enfraquecimento da Rússia para ter acesso a seus vastos recursos naturais, a Europa envolveu-se totalmente na Guerra da Ucrânia, por meio da OTAN, e agora necessita produzir mais armas e aumentar os seus efetivos militares, pois está perdendo a guerra. O seu objetivo é destinar 5% do Produto Interno Bruto (PIB) para fins militares até 2035.

Mas como fazer isso num quadro de estagnação econômica? A receita é simples: reduzir ou abolir benefícios sociais, gerando insatisfação geral e o acirramento da luta de classes. De um lado, aproveita-se aextrema direita, que cresce colocando a culpa da crise principalmente sobre os imigrantes; de outro, surgem diversos movimentos espontâneos, capitaneados principalmente pela juventude, lutando pela preservação de conquistas sociais ou por reivindicações específicas.Ainda não são movimentos revolucionários, mas podem representar a semente para uma mobilização futura emdireção a uma transformação social.

Em 2026 surgiram inúmeros movimentos de protesto em diferentes países. Na Bélgica, eles foram contra o aumento dos custos da educação e por melhores condições para as escolas e as universidades. Na Itália, houve protestoscontra o aumento do custo de vida. Na Espanha, o foco foi a crise habitacional provocada pelo aumento dos aluguéis, para o qual contribuem as plataformas de hospedagem para turistas. Diante da crise habitacional, é comum que haja em algumas cidades do continente gente morando em tendas ou em automóveis.

Em Portugal, houve protesto contra o aumento do custo de vida e contra o encarecimento da habitação. Na Albânia, o que era no início um protesto contra um projeto turísticodo genro de Trump, a ser erguido dentro de uma área protegida, evoluiu para a exigência de renúncia do primeiro-ministro, acusado de corrupção e de fraudes eleitorais.

Na Grécia, estudantes, professores e funcionários públicos protestaram contra o aumento do custo de vida, especialmente da energia e da habitação, e exigiram maiores investimentos em educação, com aumento dos salários dos professores, melhoria da infraestrutura escolar e fim da superlotação das salas de aula.

Na Alemanha, estudantes protestaram contra o serviço militar obrigatório, contra o aumento dos gastos militares e contra a conversão de instalações civis para fins militares. A luta pela moradia foi responsável pela vitória do partido de esquerda Die Linke nas eleições de Berlim.

Na Sérvia, os protestos estudantis produziram a queda de um governo que estava há 14 anos no poder, em decorrência da vitória da chamada “Lista Estudantil” nas eleições, conquistando 140 dos 250 assentos no parlamento, após meses de mobilização em que não faltaram formas de representação direta, como as “assembleias de cidadãos”.

O empobrecimento da França

Mas em nenhum país o movimento produziu tanta repercussão mundial como na França.

O país europeu também sofre com a desaceleração do seu crescimento econômico, que passou de 2,80% em 2022 para apenas 0,89% em 2025, com previsão de 0,41% em 2026. Essa diminuição do crescimento foi acompanhada por uma desaceleração do crescimento anual dos investimentos, que passou de 1,8% ao ano na primeira década do século, para 1,7% nos anos 2010 e apenas 0,6% nos anos 2020. A taxa de retorno sobre o ativo líquido imobilizado diminuiu de 12,6% em 1959 para apenas 7,3% em 2025, apontando para uma diminuição progressiva da taxa de lucros.

Como consequência, o desemprego variou de 7,3% a 7,7%, entre 2022 e 2023, mas aumentou para 8,3% no segundo trimestre de 2026. O salário real médio em 2026 chega a ser inferior ao de 2021, a renda familiar média decresceu neste século e 9,8 milhões de pessoas encontram-se abaixo da linha de pobreza. A desigualdade da distribuição da riqueza pessoal é crescente: os 10 % mais ricos detêm 57,7% da riqueza (em 1983, detinham50%) e os 50% mais pobres detêm apenas 5,1% da riqueza.

A crise habitacional também é significativa na França: atualmente há 2.000.000 de pedidos não atendidos de moradia social, os aluguéis continuam a aumentar de valore milhões de franceses são obrigados a viver em seus próprios carros.

Paralelamente, a dívida pública francesa representa 119% do PIB do país e o déficit fiscal atingiu 5,4% do mesmo PIB, sendo o maior da Zona do Euro. Em função disso, os juros dos títulos públicos franceses chegaram a 5% ao ano, enquanto na Alemanha atingem 3,6%. Assim, em 2025 o país pagou 64,7 bilhões de euros com juros da dívida, o que corresponde a 2,2% do PIB.

A implantação de uma “política econômica de austeridade” passou então a ser uma prioridade para a burguesia francesa, com previsão de cortes de 43 bilhões de euros no orçamento, inclusive na educação, extinção de 1.500 vagas no funcionalismo público, fixação de um teto de 5 bilhões de euros para os gastos com a saúde, redução do seguro-desemprego, cortes nos regimes de previdênciasocial e, até mesmo, a eliminação de dois feriados nacionais.

Mas existe um item do orçamento sobre o qual não são previstos cortes, muito pelo contrário: os gastos militares. Para cumprir as determinações da OTAN, o orçamento militar na França chegará a 64 bilhões de euros até 2027, de forma a permitir a continuidade do financiamento europeu à Guerra da Ucrânia e da política de enfrentamento com a Rússia.

A crise da educação francesa

Desde 2017, o orçamento da educação por aluno na França caiu 20%. As condições de ensino são precárias. Os prédios das escolas não têm manutenção adequada: os tetos estão desabando, há infestação de ratos, vazamentos e água contaminada com fezes. Os prédios também estão despreparados para as mudanças climáticas: o calor extremo vem provocando desmaios de professores e alunos e o fechamento de escolas em dias mais quentes. Cerca de 40 milhões de euros foram cortados no orçamento para o combate às mudança climáticas.

As escolas do ensino fundamental vêm se ressentindo da falta de professores e de funcionários, o que provocafrequentes cancelamentos de aulas. Os professores se sentem desvalorizados pelos baixos salários, inferiores àmédia dos países da OCDE, e muitos resolvem simplesmente abandonar a profissão. Para mitigar a evasão, uma reforma reduziu as exigências para o recrutamento de novos professores, contribuindo para a baixar ainda mais a qualidade do ensino.

Soma-se a isso a desigualdade entre as escolas públicas situadas em bairros proletários e as escolas situadas nos bairros burgueses. Os jovens professores são enviados primeiramente para as escolas dos bairros pobres e, à medida que ganham experiência, têm o direito de se transferirem para as escolas situadas nos bairros ricos. Assim, produz-se uma alta rotatividade dos professores nas escolas públicas da periferia. Além disso, 50% dos professores nessas escolas proletárias não são funcionários públicos estáveis, mas sim profissionais contratados para cobrir as carências, que entram em sala de aula às vezes com apenas quatro dias de treinamento. Porém, nas escolas dos bairros burgueses, os contratados compõem apenas 10% do corpo de professores.

Outro problema são as turmas superlotadas, apesar de o número total de alunos ter diminuído com o envelhecimento da população. Acontece que o governo prefere cortar o número de turmas a diminuir o número de alunos por turma, por causa da política de austeridade fiscal.

Nas universidades, o problema também é grave: elastiveram um déficit orçamentário este ano que alcançou 8 bilhões de euros. Faltam vagas para a admissão dos que terminam o ensino médio e muitos estudantes acabam sendo encaminhados para cursos superlotados. Começa-sea observar a expansão de universidades privadas pagas no país.

Além disso, a plataforma de pré-inscrição para o ensino superior (o Parcoursup), que analisa currículos e candidaturas e emite propostas de admissão é um algoritmo opaco e incompreensível, que deixa todo ano 100.000 estudantes sem vaga, provocando estresse e a inscrição do estudante em todo tipo de curso, na busca desesperada por uma vaga.

A situação é tão grave que cerca de 20% dos estudantes franceses chegaram a pensar em suicídio e outros 23% relataram ter renunciado a uma refeição, por motivos financeiros.

O movimento estudantil francês

Assim como a crise social francesa vem de longe, suas consequências sobre a educação pública também, o que produziu sucessivas ondas de protesto estudantil nas últimas décadas.

Em 1986 os estudantes lutaram contra a reforma que previa diferentes tipos de acesso ao ensino superior; em1990, lutaram nos subúrbios de Paris por escolas mais seguras, mais professores e pela reforma dos prédios; em 1998, por mais professores e turmas menores; em 2005,contra cortes orçamentários; e em 2018, contra o Parcoursup e por mais vagas nas universidades.

Em 2026, os estudantes iniciaram a luta em Paris com obloqueio das escolas e evoluíram para manifestações que congregaram 500.000 participantes em 110 cidades do país, provocando intensa e violenta repressão policial. Os manifestantes responderam com o incêndio de lixeiras e a depredação de lojas, prédios e veículos. É provável que tenha havido a influência de agentes provocadores nos episódios de violência, mas o fato é que a repressão policial e a raiva com as condições sociais foram a força motriz fundamental para essas ações.  O resultado foi a prisão de milhares de estudantes e a decretação do toque de recolher em alguns bairros e cidades.

Os estudantes secundaristas receberam o apoio dos universitários e dos sindicatos, em especial o dos professores, que lutam contra o congelamento salarial, os baixos salários (no início de carreira, os professores franceses ganham a metade dos seus colegas alemães), longas jornadas de trabalho e turmas superlotadas. Também os sindicatos de funcionários públicos apoiaram o movimento, inclusive o dos bombeiros.

Somando-se às mobilizações estudantis, as centrais sindicais convocaram uma rodada de greves e manifestações para o dia 5 de novembro, para protestar principalmente contra o aumento do custo de vida, atraindo para isso a participação dos “coletes amarelos”. O partido de esquerda LFI (França Insubmissa) também dá apoio ao movimento, defendendo a abolição do Parcoursup e o aumento do financiamento à educação. Já a principal preocupação da extrema direita, representada pelo Reagrupamento Nacional (RN), como não poderia deixar de ser, é a “restauração da ordem”.

A eleição presidencial de 2027

Diante do desgaste das forças de centro e de direita que sustentam o governo francês, é provável que o segundo turno das eleições presidenciais na França, a ser realizadoem maio de 2027, coloque frente a frente os candidatos da esquerda (LFI) e da extrema direita (RN).

A RN está à frente nas pesquisas eleitorais e prometecortes de 136 bilhões de euros no orçamento, privatizações e fechamento de estatais, redução da imigração, aumento de penas contra certos crimes, construção de prisões, aumento dos gastos militares e diminuição das contribuições à União Europeia. Ou seja, defende um programa populista de direita, com aumento da repressão e uma política econômica neoliberal.

Já a LFI promete aumentar o salário-mínimo, indexar os salários à inflação, aumentar os impostos sobre o capital e sobre as grandes fortunas, defender os imigrantes, melhorar os serviços públicos, substituir o sistema institucional francês por mecanismos de democracia direta (referendos de iniciativa cidadã, referendos revogatórios, assembleias cidadãs, iniciativa popular no processo legislativo) e cancelar a parte da dívida pública detida pelo Banco da França.

A perspectiva socialista ainda está fora do horizonte político na França, mas não há dúvida de que a mobilização da juventude francesa e de outros países é um sinal auspicioso de que as lutas de classes no continente europeu renasceram e poderão levar futuramente à reabilitação da bandeira da socialização dos meios de produção.

Coletivo do Centro de Estudos Victor Meyer

03/11/2026

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