Em recente vídeo, o Departamento de Estado dos EUA declarou abertamente que o “domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”. Essa afirmação está em consonância com a “Nova estratégia de política externa dos EUA”, aprovada e divulgada amplamente pelo Governo Trump no final de 2025.
Os principais objetivos dessa “nova estratégia” são a afirmação do domínio econômico e militar do imperialismo sobre o continente americano – transformado em “centro das prioridades estratégicas” – e a contenção da influência da China e da Rússia na América Latina.
A perda gradativa do peso geopolítico dos EUA no mundo, revelada nos últimos anos pela humilhante retirada militar do Afeganistão e pelo fracasso em alcançar pela força os seus objetivos no Irã, fez com que a Doutrina Monroe voltasse a ser lembrada no século XXI pelo imperialismo americano, não apenas em palavras, mas sobretudo em ações que não deixam margem a dúvidas quanto à seriedade de seus propósitos.
As ameaças externas vindas dos EUA
Batizada oficialmente de “Coalizão das Américas contra os Cartéis”, também conhecida pelo nome simbólico de “Escudo das Américas”, os EUA reuniram sob seu comando 17 países da América Latina e do Caribe, a grande maioria governados pela direita ou pela extrema direita, sob o disfarce de combater os cartéis de drogas no continente.
Sua verdadeira intenção é, no entanto, a de criar as condições para impor pela força, por meio dessa aliança militar, seus interesses econômicos e políticos sobre os países do continente. Para isso, estão previstos o compartilhamento de inteligência, o treinamento e apoio militar dos EUA, a realização de operações conjuntas e o controle das fronteiras e de rotas estratégicas.
O objetivo maior do país que comanda a coalizão é o de conter o crescimento da influência econômica chinesa, especialmente na América do Sul. Atualmente, as importações dos países da América Latina provêm 22% dos EUA e 9,6% da China, porém as importações americanas cresceram apenas 4% no último ano, enquanto as chinesas cresceram 29%. Ou seja, gradativamente as mercadorias da China vão ocupando o espaço das americanas, o que é intolerável para o imperialismo dos EUA, ainda mais em se tratando de uma disputa que acontece dentro do seu próprio “quintal”.
Mas as intervenções não se limitam ao estabelecimento dessas estruturas de colaboração militar. Na Venezuela, a “Nova estratégia” foi inaugurada com o sequestro de Nicolás Maduro, sob a falsa acusação de narcoterrorismo, e teve como consequência a submissão do país, sem que fosse preciso invadi-lo. O resultado é o controle dos EUA sobre a produção petrolífera venezuelana e a expropriação descarada dos lucros de sua comercialização. Além disso, noticiou-se o confisco das 31 toneladas de ouro venezuelano, que se encontravam congeladas no Banco da Inglaterra, diretamente para os EUA.
Em relação a Cuba, os EUA aprofundaram o criminoso bloqueio econômico de mais de 60 anos e impedem a chegada de combustíveis à ilha, produzindo graves danos à economia e às condições de vida da população. Além disso, ameaçam invadir o país, o que serviria como uma compensação para o fracasso na guerra contra o Irã e como um troféu eleitoral para Trump nas eleições parlamentares de novembro.
Como, no caso de ousarem uma invasão, os EUA teriam que enfrentar a forte e inevitável resistência do povo cubano, por enquanto preferem a alternativa de asfixiar a economia do país, na expectativa de que isso force a sua rendição. Ao tentarem submeter Cuba, pretendem também destruir a ideia de uma revolução socialista continental na América Latina.
Diante da escassa solidariedade que recebeu do resto do mundo, Cuba implementa atualmente algumas reformas econômicas de caráter capitalista, de forma a tentar minorar as consequências imediatas do bloqueio. É evidente, entretanto, que essas medidas poderão ter consequências políticas adversas no futuro, ao fomentar o desenvolvimento de uma pequena burguesia no país com interesses próprios.
Outra faceta importante da intervenção do imperialismo americano na América Latina é o estímulo que fornece aos líderes e organizações de extrema direita dos diversos países, fornecendo-lhes apoio financeiro, intrometendo-se nos processos eleitorais, apoiando fraudes nas votações e na contagem dos votos.
Além disso, desenvolvem operações de desestabilização por meio de agências de inteligência a seu serviço (CIA, Mossad etc.), criando e amplificando acusações de crimes de narcoterrorismo e de corrupção dirigidas aos candidatos situados à esquerda nos espectros políticos locais. No caso do Brasil, os EUA chegaram ao ponto de instituir tarifas alfandegárias absurdas em 2025, em protesto contra a prisão e o julgamento de Bolsonaro, atendendo a um pedido de seus filhos.
As políticas nacionais e internacionais de Donald Trump encontram, entretanto, oposição dentro dos próprios Estados Unidos. A insatisfação em relação ao seu governo cresce a cada nova pesquisa de opinião, acompanhando o seu fracasso na guerra contra o Irã, com o aumento do preço dos combustíveis, e o desgaste de sua política de repressão cruel aos imigrantes, sejam ilegais ou legais.
O caráter autoritário de seu governo foi denunciado nas manifestações “No kings” (sem reis) em todos os estados americanos e está surgindo até mesmo uma “esquerda socialista” dentro do Partido Democrata, responsável pela eleição do novo prefeito de Nova Iorque. É bastante provável que Trump perca a sua maioria parlamentar nas eleições de meio de mandato, que serão realizadas em novembro deste ano.
As ameaças internas vindas da extrema direita
A crise social e a incapacidade dos sistemas políticos democráticos burgueses de darem resposta a ela têm produzido o crescimento da extrema direita em todo o mundo. Isso não poderia ser diferente na América Latina, embora aqui haja uma particularidade importante.
Na Europa a política externa da extrema direita tem um conteúdo nacionalista, com questionamento da União Europeia e da política de subserviência aos EUA. Já na América Latina, os líderes da extrema direita revelam sua devoção por Donald Trump e pedem bênção seguidamente a Washington, manifestando desejo de atender a todas as demandas econômicas e políticas do imperialismo americano.
Apresentam-se como lideres “antissistema”, para canalizar a insatisfação social, mas professam uma ideologia ultrarreacionária que mistura a “teologia da prosperidade” das igrejas evangélicas neopentecostais, com a apologia do “empreendedorismo” e do individualismo. Para completar, defendem uma política de segurança pública punitivista, tendo como modelo as prisões em massa de Nagib Bukele em El Salvador.
São extremamente agressivos contra a esquerda, a quem responsabilizam pelo tráfico de drogas e pela corrupção, e são capazes de planejar atos terroristas que possam servir de pretexto para a instauração de uma ditadura aberta e velada da burguesia, de tipo bonapartista ou militar. Do ponto de vista econômico, defendem as privatizações, a concentração fundiária e a abertura total para o capital estrangeiro.
A extrema direita também é bastante hábil na dominação de códigos da comunicação pelas redes sociais, sendo auxiliada pelo apoio que recebem das big techs americanas e pelos mecanismos automáticos que inflam a divulgação de suas mensagens.
A base social da extrema direita na América Latina é semelhante àquela que forneceu a base de massas do fascismo e do nazismo europeus no século passado: uma parcela radicalizada da pequena burguesia, formada por pequenos proprietários de comércios e serviços, trabalhadores precarizados e membros do aparato repressivo do Estado.
Pelo menos no caso brasileiro, deve-se acrescentar também uma burguesia agrária, que se sente ameaçada pelas ocupações dos trabalhadores rurais sem terras e pelas políticas ambientais que freiam a expansão da pecuária e da agricultura sobre as áreas protegidas.
No Brasil a extrema direita não é um fenômeno novo. O integralismo dos anos 30, o lacerdismo dos anos 50 e 60, os apoiadores do golpe e da ditadura militar de 1964 constituíram fenômenos políticos de massa bastante parecidos com o bolsonarismo atual.
A extrema direita vem avançando na América Latina, tendo obtido vitórias eleitorais recentes na Colômbia, no Peru e em Honduras, que vieram a se somar a outras vitórias da direita na Argentina, Bolívia, Chile, Equador e El Salvador.
Essas vitórias da extrema direita também são facilitadas pelos limites que a esquerda reformista e os “governos progressistas” se impõem, privilegiando as ações institucionais, os processos eleitorais e a defesa das instituições da democracia burguesa, como se observa no Brasil. No nosso país, a esquerda desestimula as lutas dos trabalhadores, perdeu a conexão com a massa trabalhadora e não desenvolve as suas organizações de base.
Como resultado, os “governos progressistas” da América Latina se parecem cada vez mais com os governos de centro-direita, pois privilegiam a gerência dos negócios da burguesia e entregam apenas pequenos avanços sociais, causando decepção junto às massas e fracionamentos decorrentes desses desgastes, como ocorreu na Bolívia.
Últimos acontecimentos
Na Colômbia, o presidente eleito da extrema direita, Abelardo de la Espriella, é cidadão americano e já prometeu romper relações com Cuba e Nicarágua, além de recusar a ajuda de países “progressistas” da região às vítimas do recente terremoto. Tudo indica que muito dinheiro foi despejado na campanha eleitoral e para a fraude na apuração dos votos, pois o sistema eleitoral permite a manipulação da contagem e da totalização das cédulas de papel.
Para se ter uma ideia, na última eleição parlamentar um milhão de votos foram recuperados e tudo indica que, na eleição presidencial os votos do exterior foram manipulados para dar a vitória ao candidato da extrema direita, por escassa margem. A divulgação do resultado da contagem amostral dos votos foi utilizada para atropelar o resultado definitivo e sacramentar a vitória do candidato da extrema direita.
Não há dúvida que o novo presidente será uma ameaça aos movimentos sociais e é possível que atentados possam ser atribuídos à esquerda para dar pretexto a um golpe bonapartista. Diante desses fatos, Gustavo Petro defende a desobediência civil e denuncia a fraude eleitoral, propondo a organização de brigadas populares contra os prováveis ataques da extrema direita.
No Peru, a líder da extrema direita, Keiko Fujimori, também venceu as eleições presidenciais por pequena margem, havendo suspeitas de fraudes semelhantes às da Colômbia. Também no Peru as eleições são bastante custosas, tanto na fase da propaganda eleitoral, quanto na fase de fiscalização das urnas e das atas, o que permite à direita empregar abundantes recursos financeiros para a manipulação dos resultados.
Na Argentina houve importantes movimentações de massa contra uma Lei do governo Milei que visava “proteger” ainda mais a propriedade privada no país, permitindo a liberação da venda de terras para estrangeiros. No Chile, também ocorreram movimentos contra a política educacional do novo governo de extrema direita.
Na Bolívia, a profunda crise econômica que se abateu sobre o país se agravou quando o novo governo de direita implantou o corte dos subsídios aos preços dos combustíveis, seguindo as recomendações neoliberais clássicas do FMI. Isso produziu escassez e adulteração de combustíveis, além de ocasionar um aumento dos custos de transporte e da inflação.
Duas outras medidas causaram uma indignação adicional: a cessão de recursos naturais (lítio e hidrocarbonetos) ao imperialismo e a promulgação da nova lei agrária (Lei 1720), que ameaçava a propriedade camponesa. Segundo essa lei, as pequenas propriedades poderiam ser reclassificadas como “propriedades medianas” e, assim, seria possível usá-las como garantia de empréstimos e facilitar a sua venda para investidores privados e para a exploração em bases capitalistas.
Ocorre que os camponeses e trabalhadores bolivianos são bastante organizados há muito tempo, cabendo apenas citar os exemplos da Confederação Operária Boliviana (COB) dos mineiros e os movimentos dos camponeses e das nacionalidades indígenas. Isso propiciou a eclosão de uma rebelião popular contra o governo neoliberal de Rodrigo Paz, com a realização de bloqueios de estradas em mais de 50 pontos pelas organizações sociais.
Assim, Paz foi obrigado a retroceder nos seus decretos e a Lei 1720 foi revogada. A grande disposição de luta dos trabalhadores bolivianos, que chegaram a se armar contra as milícias de direita, não produziu, entretanto, uma insurreição, pois faltou para isso uma vanguarda que defendesse uma estratégia unificadora para o movimento. A existência de ordens de prisão contra Evo Morales e o fracionamento das lideranças, das reivindicações e das organizações de massa levaram o movimento a um impasse.
Mas a mais importante medida de resistência às ações do imperialismo americano por meio das eleições, vem da Nicarágua. Lá o governo de Daniel Ortega propôs uma mudança constitucional à Assembleia Nacional permitindo a prorrogação dos mandatos e novas regras eleitorais que impediriam a participação de “golpistas, traidores da pátria, pessoas que não dão valor à soberania, violadores dos princípios constitucionais”. A medida tem como objetivo óbvio impedir que a oposição favorável ao imperialismo americano participe do processo eleitoral.
Na América Latina vemos os resultados das ações externas do imperialismo americano, apoiadas pelas classes dominantes locais, mas vemos também que cresce a resistência a elas em diferentes países e sob diferentes formas. Essas ações do imperialismo e de seus sócios atentam inevitavelmente contra as condições de vida dos trabalhadores e, por isso, geram movimentos de protestos que variam de manifestações de massa localizadas a verdadeiras rebeliões, como no caso da Bolívia.
A história não para. A luta dos trabalhadores latino-americanos prossegue!
Coletivo do Centro de Estudos Victor Meyer
18/08/2026
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Leia em PDF: CADERNO F&C 64