Fatos & Crítica 60: Guerra do Irã: a hegemonia global americana em xeque

No sábado, dia 28 de fevereiro, os EUA e Israel desencadearam um ataque em larga escala contra o Irã, ignorando as negociações entre americanos e iranianos que se desenrolavam em Mascate, sob a mediação de Omã. Não foi, entretanto, a primeira vez que o imperialismo americano utilizou o artifício traiçoeiro de surpreender militarmente o Irã em meio a negociações.

Isso já havia ocorrido na chamada “guerra dos 12 dias”, em junho do ano passado, e em 2020, quando o General Suleimani – comandante da unidade de operações externas da Guarda Revolucionária do Irã – foi assassinado pelos americanos ao desembarcar no aeroporto de Bagdá, no âmbito de um processo de negociação com a Arábia Saudita promovido pelos EUA.

 

A agressão imperialista

Os primeiros ataques em 28 de fevereiro vitimaram importantes líderes do governo iraniano, inclusive o aiatolá Khamenei, atingiram alvos militares e foram, além disso, responsáveis pela morte de cerca de 175 crianças numa escola primária feminina em Minab, em mais um ato abominável a ser acrescentado à extensa lista de crimes de guerra de americanos e israelenses no Oriente Médio.

O objetivo principal do ataque foi o de derrubar o governo, substituindo-o por lideranças subservientes ao imperialismo americano e a Israel. Para esse propósito, chegou mesmo a ser convocado no seu exílio em Washington o filho do xá destronado pela revolução de 1979.

Muitos dizem que Donald Trump não tinha uma estratégia para a guerra, mas isso não é bem verdade. A tentativa de derrubar o governo iraniano foi planejada e começou com a decretação de sanções econômicas contra o país, que culminaram com a desvalorização do rial em relação ao dólar e o aumento da inflação, produzindo um descontentamento que repercutiu principalmente na pequena-burguesia urbana do Irã.

As manifestações da oposição iraniana contra o governo começaram pacificamente, mas sofreram um processo de radicalização em janeiro pela ação das agências de inteligência dos EUA e de Israel (CIA e Mossad), que operaram também para recrutar dissidentes dentro e fora do governo para organizar um golpe e assumir o poder. Os assassinatos de membros proeminentes do governo iraniano tinham como propósito facilitar a execução do serviço.

A guerra contra o Irã é um objetivo antigo de Israel, pois o país persa é o seu principal antagonista na luta pela conquista da hegemonia regional e um obstáculo político e militar para a expansão territorial do estado sionista na Palestina e em partes do Líbano e da Síria. Há ainda os desejos delirantes da extrema direita representada no governo Netanyahu de um “Grande Israel” ocupando toda a extensão territorial entre o rio Nilo (no Egito) e o rio Eufrates (no Iraque).

Porém, a guerra contra o Irã dependia fundamentalmente do apoio dos EUA, pois Israel sozinho, com seus pequenos recursos territoriais e demográficos (10 milhões de habitantes em 22 mil km²), não seria capaz de enfrentar um inimigo da magnitude do Irã (90 milhões de habitantes em 1,6 milhão de km²).

Mas os EUA não entraram na guerra apenas para ajudar Israel, seu representante maior no Oriente Médio. O Irã, por seus recursos naturais (especialmente gás e petróleo) e sua posição geográfica, é um país estratégico na luta que os EUA travam pela manutenção de sua hegemonia política e econômica mundial. A conquista do Irã representaria, antes de tudo, um bloqueio à expansão chinesa em direção ao oeste.

As manifestações de massa do início do ano no Irã, entretanto, produziram a interpretação (errônea) de que um ataque de decapitação de lideranças e contra alguns alvos militares, associado à ação da oposição interna, dentro e fora do governo, seriam suficientes para produzir a tão desejada “mudança de regime”, que resolveria o principal problema dos EUA e de Israel na região. A associação desses fatores internos e externos compunha uma chance única de derrotar em poucos dias a República Islâmica.

 

As armas do Irã

O imperialismo americano e o seu sócio israelense não poderiam estar mais enganados em relação às possibilidades de resistência do Irã. Esqueceram que o governo iraniano foi fruto de uma revolução com forte inspiração anti-imperialista e que movimentos dessa natureza não ocorrem nem se sustentam ao longo do tempo sem fortes bases sociais.

De fato, as imensas manifestações de rua a favor do governo, que ocorreram mesmo sob pesados bombardeios aéreos americanos e israelenses, provaram o quão distantes da realidade estavam os informes de inteligência colhidos pela CIA e pelo Mossad.

Outra subestimação importante diz respeito ao poder bélico do Irã. Este foi cuidadosamente concebido para travar uma guerra assimétrica com os EUA e Israel. Os iranianos não trataram de constituir uma força militar composta por caças, bombardeiros, destroieres, porta-aviões e outros armamentos convencionais que pudessem enfrentar de igual para o igual o poderio militar americano e israelense. Isso seria impossível.

Em vez disso, o Irã se especializou na produção de drones e mísseis de curto e médio alcance, cada vez mais potentes e precisos, com lançadores móveis ou protegidos em instalações profundas, enterradas dentro de montanhas de granito. Para guiá-los, contam também com o fornecimento de inteligência e cobertura por satélites da Rússia e da China.

Além disso, os iranianos aprenderam nos embates de 2024 e 2025 a como exaurir as três camadas de proteção antimíssil de Israel, com a utilização de salvas de drones e mísseis de pequeno custo, abrindo caminho para outros mísseis balísticos mais velozes (hipersônicos), potentes e precisos, tendo como endereço certeiro a infraestrutura crítica do inimigo.

Ao longo da costa montanhosa do seu lado do Golfo Pérsico, o Irã construiu também abrigos para lanchas rápidas e lançadores de mísseis e drones e, assim, pôde garantir militarmente que só passassem pelo Estreito de Ormuz petroleiros e outros navios devidamente autorizados.

Com isso, o Irã colocou em ação a sua arma mais contundente contra os EUA e o Bloco Ocidental: o fechamento do Estreito de Ormuz ao fluxo de petróleo (20% a 25% do fluxo mundial), gás natural liquefeito (20%), fertilizantes (33%), hélio (33%, insumo fundamental para a fabricação de semicondutores), produtos petroquímicos (6%) e enxofre (50% do comércio marítimo mundial).

 

Os impactos da resistência iraniana

A tática de exaustão utilizada pelo Irã contra Israel está esgotando rapidamente os estoques de interceptadores dos sistemas Arrow, Domo de Ferro e Estilingue de David. Estima-se que durarão alguns poucos dias, se os ataques iranianos se mantiverem no ritmo atual.

Em decorrência disso, há informações de que Israel estaria começando a racionar suas defesas aéreas, evitando acioná-las contra ameaças menores. Os EUA também estariam transferindo parte do seu arsenal antibalístico para Israel, ficando, assim sem interceptadores em outras regiões. Apesar da forte censura militar, aparecem agora vídeos mostrando muitos prejuízos de bombardeios iranianos sobre áreas urbanas de Israel.

Alvos mais importantes, como a refinaria de Haifa e as cidades de Dimona e Arad, próximas ao complexo nuclear de Dimona, foram bastante atingidos, assim como instalações militares estratégicas em Israel. Não é à toa que começam a surgir manifestações de oposição à guerra no país, embora ainda minoritárias.

Ao mesmo tempo, o Hezbollah luta no sul do Líbano contra o avanço das tropas israelenses e ataca o norte de Israel. Mais recentemente, os houthis do Iêmen se somaram à resistência e retomaram os ataques de mísseis contra o estado sionista, ameaçando interromper novamente a navegação no Estreito de Bab al-Mandab, bloqueando, assim, o acesso do Oceano Índico ao Canal de Suez.

Também os EUA e seus aliados sofrem muitos prejuízos com os ataques iranianos. Suas bases no Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão sendo permanentemente atacadas, com prejuízos avaliados até o momento em US$ 310 milhões, relativos a radares, pistas e edifícios. Numa base americana na Jordânia, apenas a destruição de um radar do sistema antimísseis THAAD causou um prejuízo de US$ 485 milhões. A destruição de radares tem como resultado imediato a fragilização do sistema de defesa de Israel.

Além disso, dois surpreendentes mísseis de longo alcance foram lançados em direção à base britânica de Diego Garcia, situada a cerca de 4.000 km do litoral iraniano, demonstrando que o programa de mísseis do Irã não cessa de progredir e inclui agora armamentos capazes de atingir até a Europa Ocidental.

Dois porta-aviões americanos também sofreram o impacto da guerra. O maior deles, o USS Gerald Ford, teve que seguir para reparos na ilha de Creta, no Mediterrâneo, em decorrência do que foi descrito como “falhas internas” (um incêndio na lavanderia e entupimento no sistema de esgotos sanitários). O seu irmão mais velho, o USS Abraham Lincoln, teria sido atingido por mísseis e drones, segundo informou o Irã.

No que concerne aos aviões, um caça furtivo F-35, “difícil de ser detectado”, foi atingido pela primeira na história, por um ataque iraniano, e teve que fazer um pouso de emergência numa base americana. Além disso, um avião-tanque KC-135 foi abatido e três caças F-15, “derrubados por engano” pela defesa aérea do Kuwait, segundo a informação oficial americana.

Tantos insucessos começam a repercutir dentro e fora do governo americano. Joe Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, afirmou ao se demitir do cargo que o Irã não representava uma ameaça iminente aos EUA e que o país entrara na guerra exclusivamente por pressão de Israel e do lobby sionista. Uma meia-verdade, como se os EUA não tivessem seus próprios interesses nos ataques, mas que vinda de um ex-membro do alto escalão do governo Trump possui um peso significativo.

Nas últimas pesquisas, a popularidade de Trump chegou a 36% e somente 27% dos americanos consultados apoiavam a guerra contra o Irã. No dia 28 de março, milhões de participantes em mais de 3.000 manifestações nos EUA realizaram nacionalmente a terceira rodada do movimento denominado “No Kings” (não mais reis), em protesto contra as políticas de Donald Trump.

A guerra também afetou as relações dos EUA com os seus aliados do Bloco Ocidental. Por sua recusa em participar de uma aventura militar destinada a liberar a navegação no Estreito de Ormuz, Trump acusou seus aliados europeus de “covardes” e ameaçou se retirar da OTAN.

Agrega-se a isso o fato de militares britânicos, franceses e italianos das forças da OTAN terem decidido abandonar suas posições numa base situada na Zona Verde de Bagdá, junto à embaixada americana, devido aos elevados riscos de ataques iranianos ao local.

 

Trump vacila: recuar ou escalar a guerra?

O fechamento do Estreito de Ormuz para navios “hostis” levou o preço do petróleo cru a subir entre 30% e 40% e o gás natural na Europa, a cerca de 50%, obrigando os governos ocidentais a planejar o uso de suas reservas estratégicas. Se o Estreito de Bab al-Mandab também for fechado pelos houthis, o fluxo global de petróleo sofrerá outro golpe e os preços subirão ainda mais, produzindo inflação e recessão no mundo inteiro.

Também as restrições às exportações dos fertilizantes produzidos pelos países do Golfo Pérsico terão um impacto importante na agricultura, primeiramente no hemisfério norte e, daqui a alguns meses, também no hemisfério sul, afetando tanto os países produtores (como o Brasil) quanto os consumidores de alimentos.

O Irã, entretanto, ofereceu a liberação da passagem pelo estreito a navios de terceiros países, desde que houvesse coordenação prévia, fosse pago um pedágio e a carga, comercializada em yuans chineses e não em dólares, em mais um golpe contra a hegemonia financeira americana.

Entre os países mais dependentes do petróleo do Golfo Pérsico estão o Japão, Taiwan, Coreia do Sul e Índia. No caso japonês, 70% do petróleo importado pelo país passa pelo Estreito de Ormuz, o que levou a negociações com o Irã para permitir a passagem dos seus petroleiros. A Índia também foi bem-sucedida em negociações desse tipo.

Outro insólito resultado do controle do Estreito de Ormuz pelos iranianos foi o levantamento das sanções americanas sobre a exportação do petróleo produzido na Rússia e no próprio Irã. Entre beneficiar os seus inimigos ou prejudicar a si próprio e ao resto do mundo, o governo Trump preferiu a segunda opção, a menos ruim.

Não há dúvida de que a principal arma do Irã na guerra tem sido o bloqueio às exportações de petróleo do Golfo Pérsico, que ameaça a economia mundial com uma recessão e pressiona Trump para uma solução rápida para o conflito.

Alguns países, como o Paquistão, Turquia e Egito, estão promovendo negociações indiretas entre os iranianos e os EUA, mas as exigências de Trump sobre seus oponentes correspondem praticamente a uma rendição incondicional, pois incluem: limitações severas ao programa nuclear; redução do arsenal de mísseis; fim do apoio ao Hezbollah, ao Hamas, aos houthis e outros grupos; e abertura do Estreito de Ormuz à navegação, sob controle do Bloco Ocidental.

Já o Irã exige: o reconhecimento da soberania de seu país e o seu direito à defesa; garantias internacionais de segurança que impeçam novos ataques; e o pagamento de reparações de guerra pelos países agressores (EUA e Israel).

Como o Irã não apresenta disposição para aceitar as exigências de Trump e se render incondicionalmente, mesmo porque ainda dispõe de um arsenal significativo de mísseis e drones que permitem a sustentação da guerra de desgaste, o presidente americano alterna o seu discurso entre anunciar pretensas negociações ou dar seguidos prazos para a rendição, ameaçando com o desembarque em terra e com a destruição das centrais de energia do Irã.

Uma escalada militar com desembarque terrestre levaria os EUA a um atoleiro do qual dificilmente sairão e o mundo, a uma recessão econômica acompanhada de inflação generalizada. A continuidade dos bombardeios iranianos a Israel, num quadro de fragilidade crescente de suas defesas aéreas, levará a prejuízos jamais sofridos pelo estado sionista. Isso poderia colocar na mesa a possibilidade de uma retaliação nuclear por parte de Israel.

Por isso, muitos afirmam que a melhor opção para Trump seria a de “cantar vitória” e se retirar do teatro de operações. Em qualquer das alternativas, retirada ou escalada militar com grandes chances de insucesso, a hegemonia global americana estará em xeque.

Coletivo do CVM, 02/04/2026

*   *   *

LEIA EM PDF: CADERNO F&C 60