Trazemos a seguir um importante texto de Érico Sachs publicado no Jornal Política Operária n. 75, em setembro 1982. A clarividência dessa análise nos mostra a sua atualidade diante dos recentes fatos que envolvem os povos do Oriente Próximo, especialmente no tange ao papel que o Estado sionista representa para as potências capitalistas do Ocidente na região.
Sob o pretexto de ser um ataque preventivo, o Estado de Israel desencadeou ações de guerra contra o Irã em meio as negociações internacionais sobre o desenvolvimento do seu programa nuclear, atingindo a população civil, promovendo assassinatos de membros da cúpula militar iraniana e de vários cientistas do seu programa nuclear, entre os quais aqueles que participavam da mesa de negociações. Esses ataques não ocorreram absolutamente de improviso, com a alegação da iminente construção de uma bomba atômica iraniana. Considerando a permanente tensão regional movida pelo Estado de Israel, essa guerra mira em seus objetivos de longo prazo, o domínio da região pela Grande Israel, ao interesse das grandes potências que dão suporte econômico e militar às forças sionistas. Este novo front, portanto, se acresce às ações militares sistemáticas de cerco e bombardeio em Gaza com claro objetivo de genocídio do povo palestino, ataques ao Líbano, ataques e ocupação territorial na Síria.
Porém, o Irã não pode ser subestimado e as consequências deste conflito são imprevisíveis, visto que, confrontar militarmente o Irã tem um alcance maior do que o Oriente Médio. Faz parte da estratégia de cerco e aniquilamento da Rússia e da China enquanto potências imperialistas emergentes. Nesta linha de análise vale assistir a entrevista com Francisco Carlos Teixeira, que muito contribui para o entendimento da atual situação internacional.
Por último, se considerarmos a possível reação chinesa e russa, esse conflito nos arrasta para o limiar da 3ª Guerra Mundial. (CVM)
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Assistimos no Oriente Próximo, o espetáculo nada alentador de um exército relativamente pequeno, mas dispondo de armamento moderno e abundante, penetrar no país vizinho, sem encontrar resistência militar que possa diminuir o seu avanço. O único fator que os estrategistas israelenses têm de levar em conta são as relações de forças internacionais, isto é, concretamente, a atitude das grandes potências.
Na parte socialista do globo (e entre os povos subdesenvolvidos), Israel, há muito tempo é considerado uma cabeça de ponte do imperialismo. Para a União Soviética, o rápido avanço das tropas israelenses criou um fato consumado, que só poderia ser revertido, no momento, com uma intervenção militar direta e, esta, arriscaria provocar uma guerra mundial. Mas, embora a União Soviética tenha de se conformar temporariamente com um enfraquecimento da sua presença na região, os Estados Unidos têm de levar em conta as relações de forças globais. Assim, a diplomacia soviética conseguiu vetar uma intervenção unilateral de tropas norte-americanas em Beirute, forçando o Ocidente a recorrer: a uma força internacional para garantir a retirada dos guerrilheiros da OLP.
Para o Ocidente, Israel continua o aliado mais fiel no Oriente Próximo. A base “civilizada” num meio ambiente de povos “bárbaros”. Entrementes, Israel tornou-se um aliado incômodo, que coloca os seus interesses nacionais estreitos acima da estratégia ocidental. Além disso, a política expansiva de Begin ameaça radicalizar novamente toda a situação, pondo em perigo a política de “estabilidade” na região, que os Estados Unidos pretendiam introduzir com os acordos de Camp David.
De certo modo, o sionismo sob a liderança de Begin deixou cair a sua máscara. A luta “defensiva” do Estado Nacional transformou-se em expansão aberta contra os países vizinhos árabes. Acha o governo de Jerusalém ter chegado a hora de poder menosprezar as simpatias da opinião pública “democrática” da Europa, que exploraram o holocausto dos judeus sob o nazismo e que ate hoje representam um importante sustentáculo da existência do Estado de Israel. Passando para a expansão armada pura e simples, subjugando países vizinhos e travando uma guerra de extermínio contra a sua população civil, Israel está tomando, de certo modo, o papel que a Alemanha nazista teve na Europa e, a prazo, o desfecho poderá ser o mesmo.
A direção que o exército israelense tomou – para o Norte, ocupando o Líbano até a sua capital – poderá, todavia, enganar sobre o sentido do expansionismo sionista. O objetivo dos estrategistas israelenses não é Beirute e, sim o Leste, nas margens do Rio Jordão. Beirute só representa para eles um rodeio necessário para a subjugação da Cisjordânia e sua incorporação no Estado de Israel. Trata-se de uma aspiração presente desde a fundação do Estado, que teve de ser adiado em virtude de una conjuntura internacional desfavorável.
No decorrer dos últimos dois anos cerca de 30.000 “colonos” – israelenses – foram transferidos para a Cisjordânia onde vivem em acampamentos fortificados. A meta estabelecida pelo governo Begin era a transferência de 100 mil colonos em posições estratégicas entre a fronteira oriental de Israel e o Jordão. Esse objetivo sofreu atraso devido à resistência surda e tenaz da população árabe da Cisjordânia, que defende suas terras e que sabe que a ocupação de fato será seguida pela simples anexação.
Acontece que a resistência árabe na Cisjordânia é fomentada, orientada e frequentemente armada pela OLP, a Organização de Libertação da Palestina, que até há pouco tinha a sua base no Líbano e seu QG em Beirute. Isso explica o movimento do exército Israelense para o Norte. É evidente que os israelenses, antes de se retirarem farão tudo para estabelecer um Governo fantoche em Beirute e para isso contam com a colaboração das facções cristãs no Líbano, com o apoio dos aliados ocidentais. Mas, para os objetivos expansionistas de Israel, a guerra do Líbano representa um meio para atingir o fim. Queremos lembrar, todavia, que o fim, expansão das fronteiras do Estado de Israel, não se esgotaria com a anexação da Cisjordânia. Os sonhos reacionários dos expoentes do sionismo vão mais longe. Reivindicam todas as terras habitadas em tempos históricos e pré-históricos pelo “povo bíblico” e uma vez atingidos as margens do Rio Jordão, a próxima vítima seria a própria Transjordânia.
Não há dúvida que Israel conseguiu quase todos os seus propósitos militares na campanha do Líbano. Destruiu as bases e a infraestrutura da OLP, encurralou os guerrilheiros em Beirute e forçou a sua retirada do país. Dispondo de um armamento superior — basta dizer que as Forças Armadas de Israel dispunham de um número maior de tanques e aviões do que o exército alemão-ocidental — e de uma tropa disciplinada e educada dentro de padrões técnicos do capitalismo europeu, não podiam os guerrilheiros enfrentá-las em campo aberto. Tampouco, os exércitos regulares dos países árabes vizinhos, ainda presos em grande parte a estruturas e tradições pré-capitalistas, não estavam em condições para isso. Principalmente por que não dispunham de preparo técnico para tirar proveito do armamento sofisticado, que lhes foi entregue.
Israel conseguiu quase todos os propósitos militares no Líbano, menos um, e este é essencial. Desde Clausewitz qualquer aspirante ao oficialato aprende que a guerra só está ganha de definitivamente com a destruição das forças armadas inimigas. Não basta derrotá-las ou expulsá-las. O objetivo maior é o cerco, aniquilamento ou a prisão das forças inimigas. Israel o tentou em Beirute Oeste, mas com a retirada dos guerrilheiros o quadro militar da resistência palestina fica conservado. Mesmo dividida em frações, para países diferentes, conserva-se o quadro para um futuro exército, cujos recrutas virão dos campos de refugiados espalhados pelo Oriente Próximo. Esse fato explica o desespero do governo de Jerusalém, que arriscou choques abertos com os Estados Unidos na tentativa de impedir a execução do plano da retirada. Esses choques só não se transformaram num confronto, porque a dependência do Estado de Israel dos EUA impõe limites a qualquer tentativa de rebelião contra a tutela. Qual é o interesse dos EUA na retirada dos guerrilheiros de Beirute? Em princípio nenhum. Washington tem tantos motivos para a eliminação dos guerrilheiros palestinenses como Jerusalém. Segundo a imprensa norte-americana, Washington foi informada com antecedência dos planos de invasão do Líbano. As dúvidas só começaram a surgir, quando Israel se mostrou incapaz de aniquilar os guerrilheiros antes de chegar a Beirute. O sítio e a destruição de uma capital árabe mudaram o panorama. Haig, o Secretário de Estado, não queria conformar-se com a nova situação e esse foi um dos motivos da sua demissão. Pois uma coisa está clara para Washington, sem a cooperação dos Países árabes (Arábia Saudita, Egito, Kuwait, etc.) seria muito difícil manter a ordem existente na região e assegurar o abastecimento de petrolífero do Ocidente.
Muitos desses governos árabes (senão quase todos) desconfiam dos guerrilheiros da OLP e do seu radicalismo político, mas ao mesmo tempo não podem assistir passivamente a expansão sionista e a existência da OLP ainda é um obstáculo para Jerusalém. Na década de 70 os países árabes usaram a arma do petróleo contra o apoio aberto do Ocidente a Israel e assim contribuíram para desencadear a maior crise econômica do capitalismo pós-guerra. Evidentemente, o boicote petrolífero visava também outras finalidades, como o reajustamento dos preços. Este aspecto da questão não é atual na presente conjuntura econômica e os xeques, por isso, não dispuseram dessa arma – mas ameaçaram – e a ameaça pode se tornar real, se os EUA não impuserem um limite à ação dos israelenses. Desde o boicote petrolífero, nos anos 70 tanto os Estados Unidos como a Europa procuram seguir uma política de equilíbrio de poderes no Oriente Próximo, política que obrigou Israel a devolver a Península do Sinai e levou a um fornecimento limitado de armas à Arábia Saudita e ao Egito. Com a saída de Haig, que tinha se comprometido demasiadamente com Israel, as portas do Departamento de Estado foram abertas a ex-funcionários da multinacional norte-americana Bechtel, que opera principalmente em países árabes e que tem as melhores relações com seus governos. Isso diz respeito tanto ao novo Secretário de Estado, George Shultz, como ao mediador norte-americano em Beirute, Philip Habib. O dilema da política norte-americana no Oriente-Próximo persiste e não há perspectiva de superação das contradições. Os EUA não podem abandonar Israel, sua base militar, econômica e política mais segura na região. Não podem, todavia, antagonizar abertamente com os países árabes, na tentativa de resguardar a região para o imperialismo. Portanto, os EUA serão obrigados a continuar a política na corda bamba. Finalmente, queremos lembrar que obviamente não se pode afirmar que os combatentes da OLP, a população civil atingida e, não por último, a resistência da Cisjordânia, tenham recebido pelo menos gestos de solidariedade por parte do proletariado dos países desenvolvidos. Isso é, evidentemente, resultado de uma política reformista, que domina o proletariado há mais de três décadas, política que leva o proletariado a reboque das suas classes dominantes. Hoje, mesmo esse reformismo está estarrecido perante o quadro da crueldade (não velada) que a expansão sionista está oferecendo.
Nós não sofremos esse impacto. Conhecemos há muito os métodos do imperialismo e dos seus sequazes. A OLP, apesar das suas fraquezas e frequentes incoerências, para nós é uma força anti-imperialista e aliada; que nesta hora crítica merece todo o apoio do proletariado combatente do mundo inteiro.
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Publicado no Jornal Política Operária n.º 75, setembro 1982.