Notas sobre o momento histórico atual 2025 – Conjuntura internacional

  1. O mundo capitalista atravessa um período caracterizado por baixas e declinantes taxas de crescimento da economia, bem como dos investimentos e do comércio internacional. Segundo o Banco Mundial, a economia global (incluindo a China) passou de um crescimento anual de 5,3% na década de 80, para 4,0% na década de 90, 2,9% na década de 2000, 2,5% na década de 10 e apenas 2,4% entre 2020 e 2023. As taxas de crescimento dos investimentos globais (também incluindo a China) passaram nos mesmos períodos de 6,9% para 4,1%, 6,4%, 5,2% e 4,9%. A relação do comércio mundial com o PIB global, depois de ter atingido 61,0% em 2008, declinou para 56,5% em 2020 e, com a guerra de tarifas atualmente em curso, tende a diminuir ainda mais.[1]

2. A lei da tendência decrescente da taxa de lucro, formulada por Marx, é claramente observada tanto nos países imperialistas centrais, como nos países periféricos. Como pode ser visto no gráfico a seguir, a taxa de lucro nos países que compõem o G-20[2] experimentou uma “Idade de Ouro” de 1950 a 1967, quando alcançou o pico de 10,3%, levando um tombo a partir daí até chegar a 6,6% em 1982, no período que os autores do gráfico denominaram “Crise de Lucratividade”. A introdução das políticas neoliberais nos anos 80 foram capazes de elevar a taxa de lucro para 7,8% em 1997, mas, a partir daí ela voltou a apresentar uma tendência declinante, atingindo 6,4% em 2009 e 6,8% em 2019.

Taxa de lucro nos países do G-20 (%)

Fonte: Penn World Table 10.0, citado por Michael Roberts no seu artigo de 27/04/2022 intitulado “A globalização acabou?

3. A maneira tradicional que os capitalistas utilizam para a recuperação das taxas de lucro é o aumento da exploração dos trabalhadores. Isso pode ser alcançado pela extensão da jornada de trabalho, pela diminuição dos salários reais (por meio da corrosão inflacionária do seu poder de compra, por exemplo), pelo corte de benefícios sociais ou pela introdução de inovações tecnológicas poupadoras de mão de obra (como a Inteligência Artificial).  As corridas armamentistas e as guerras também são instrumentos tradicionais para a queima de capital e a retomada da acumulação.

4. Ao lado disso, constata-se que a hegemonia americana na geopolítica mundial encontra-se ameaçada nos terrenos econômico, tecnológico, político e militar. Hoje a China tornou-se uma superpotência econômica equiparável aos EUA, também no terreno tecnológico, como mostram os avanços em Inteligência Artificial, na fusão nuclear e nos carros elétricos. A Rússia apresenta inovações militares, como os mísseis ultrassônicos Oreshinik, e surgem em diversos âmbitos organizações de cooperação econômica internacionais, como os BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai e as Novas Rotas da Seda, que ameaçam a hegemonia do dólar como moeda de troca internacional.

5. O lema Make America Great Again (MAGA) de Trump é o reconhecimento implícito de que os EUA deixaram de ser “grandes” e que precisam recuperar o seu papel de liderança mundial. Uma das medidas do novo governo para reverter esse declínio é a do combate ao extraordinário déficit público americano (US$ 1,9 trilhão em 2024). Elon Musk, o burguês mais rico do mundo, foi encarregado de reformar a administração federal, com medidas de demissão de milhares de funcionários públicos e o fechamento de agências cujos objetivos de alguma forma se chocam com os interesses e a linha política direitista do atual governo, como é o caso do Departamento de Educação.

6. Além dessa redução da administração pública e do papel social do Estado, Trump pretende também implantar altas tarifas a produtos estrangeiros, de forma a introduzir uma espécie de programa de “substituição de importações”, que teoricamente beneficiaria a indústria local no médio e longo prazos. O aumento das tarifas também poderia melhorar no curto prazo a arrecadação de impostos federais, mas teria como consequência inevitável o imediato aumento da inflação interna, um dos motivos que levaram à derrota do Partido Democrata em 2024.

7. Dificilmente, o capitalismo americano será salvo de sua decadência com políticas nacionalistas, protecionistas e isolacionistas, que entram em contradição com as cadeias internacionais de produção e distribuição de mercadorias, desenvolvidas com o avanço da globalização. É provável que Trump venha a recuar dos aspectos mais caricaturais de sua política econômica, especialmente no que concerne ao aumento desenfreado das tarifas de importação, que se revelará danoso à produção e ao consumo em seu próprio país.  

8. No plano externo, os EUA pretendem também economizar com as despesas militares, especialmente aquelas que dizem respeito à segurança europeia, e exigem que os seus antigos aliados arquem com pelo menos 5% de seu Produto Interno Bruto para as despesas da OTAN. Adicionalmente, negocia diretamente com a Rússia a paz na Ucrânia, excluindo e humilhando os governantes europeus.

9. Seria o fim da “cooperação antagônica” no interior do Bloco Ocidental? Tudo indica que não. Depois do período em que prevaleceu a “cooperação servil” da Europa em relação aos EUA, no governo Biden, entra-se agora numa fase em que o antagonismo predomina e é exercido pela potência líder, com o objetivo de reduzir suas despesas militares e fomentar a sua “substituição de importações”, com a instituição de tarifas de importação sobre produtos europeus. É provável que nada disso venha culminar com a desmobilização das bases militares e do escudo nuclear dos EUA em solo europeu ou transformar a Europa em um novo bloco imperialista com interesses próprios: os problemas políticos e as divisões internas entre os países que compõem a União Europeia não facilitam esse passo. A Europa depende da energia russa barata e do comércio com a China, mas o fracasso da sua expansão para leste via Ucrânia e os obstáculos geopolíticos atuais colocam em xeque essas possibilidades, apontado para um horizonte de baixo crescimento e declínio de sua importância global.  

10. Quer atenda à imposição americana de elevação dos gastos militares para 5% do PIB, quer venha a colocar em prática a criação de um exército próprio com algum grau de independência em relação aos americanos, qualquer das alternativas para a Europa só poderá se viabilizar em detrimento dos gastos sociais, ou seja, às custas da diminuição do padrão de vida ao qual os trabalhadores europeus se acostumaram durante décadas. Assim, o horizonte europeu é o de crescimento da crise política e social[3]. Atualmente, a extrema direita está capitalizando essa insatisfação, mas abre-se também um campo para a classe operária superar o reformismo e o seu conformismo em relação ao capitalismo, reabilitando a bandeira socialista.

11. Fora do campo da cooperação antagônica imperialista da Aliança Ocidental, a Guerra da Ucrânia, provocada pela fracassada expansão da OTAN em direção à Rússia, levou à aproximação econômica e política dos russos com a China, formando um bloco próprio, antagônico à Aliança Ocidental. As iniciativas de Trump em relação a um acordo de paz com a Rússia e de aproximação política com Putin têm como objetivo atrair os russos novamente para o seu bloco, do qual aliás fizeram parte até 2014, quando foram expulsos do G-8 após a anexação da Crimeia. Isolar a China, considerada a principal adversária dos EUA, e dispor da vastidão dos recursos minerais e oportunidades de investimento na Rússia parece ser o plano americano. Pesa também a realidade no terreno, ou seja, a iminência da derrota da OTAN na sua guerra por procuração em território ucraniano.

12. Na América Latina, a investida contra os salários e as conquistas sociais dos trabalhadores se generaliza. A campanha da imprensa burguesa pelo “corte de gastos” governamentais no Brasil tem como objetivo central a diminuição de direitos previdenciários e das verbas de saúde e educação. Assim como ocorreu no Brasil com Bolsonaro, países como a Argentina, o Equador e El Salvador elegeram governos de extrema direita, como saída para as crises em que vivem. O objetivo desses governos é retomar a acumulação do capital, por meio do aumento da exploração dos trabalhadores e da deterioração radical de suas condições de vida, fazendo uso, inclusive, de violenta repressão política.

13. Os fenômenos climáticos atípicos tornam-se cada dia mais típicos e estão associados ao aumento da temperatura do planeta produzido pelas emissões de gases do efeito estufa. Na busca de preservar ou aumentar os seus lucros, a economia capitalista como um todo agrava as condições de vida sobre o planeta. Mas os incêndios devastadores na Califórnia e as inundações na Carolina do Norte não foram suficientes para alterar a visão de mundo do capitalista Trump, que retirou pela segunda vez o seu país do Acordo de Paris, cujo objetivo (pelo menos no papel) era exatamente o de frear o aumento da temperatura global. Em consequência do aumento médio da temperatura global e dos fenômenos extremos como secas, enchentes e incêndios, a produção de grãos vem sendo afetada, especialmente na África, América Latina, e sul da Ásia e Europa. A França, por exemplo, registrou em 2024 a queda de 22% da produção de grãos, comparado a média dos cinco anos anteriores. Este cenário representa um impacto no aumento do custo de alimentos e redução do poder de compra dos trabalhadores.

14. Em resumo, a conjuntura internacional pode ser caracterizada da seguinte forma: 1) tendência global à diminuição das taxas de lucro; 2) estagnação ou diminuição dos salários reais dos trabalhadores pela inflação; 3) disseminação de relações de trabalho com restrição de benefícios sociais (“uberização”, “pejotização”); 4) corte de conquistas sociais nas áreas de previdência, saúde e educação ; 5) utilização de tecnologias poupadoras de mão de obra (robotização, Inteligência Artificial); 6) aumento da miséria; 7) agressões crescentes ao meio ambiente; 8) crescimento dos movimentos políticos de extrema direita; 9) formação de regimes autoritários que podem evoluir para ditaduras abertas da burguesia; 10) armamentismo e guerras.

15. Mas a luta de classes não para e o aguçamento das contradições tem levado a importantes movimentos de resistência dos trabalhadores, inclusive em países do centro capitalista. Nos Estados Unidos, pela primeira vez na história, uma greve organizada pelo sindicato United Auto Workers (UAW) afetou simultaneamente as três principais montadoras da indústria automobilística americana: General Motors, Stellantis (antiga Fiat Chrysler) e Ford. Os trabalhadores exigiram aumento salarial, aumento dos dias de férias e uma semana de trabalho de 32 horas, com 40 horas pagas.

16. Na Alemanha, em janeiro de 2024, ocorreu a mais longa greve ferroviária de sua história, organizada pelo sindicato dos maquinistas de trem. A paralisação durou cerca de seis dias e afetou linhas de longa distância, regionais e locais. A greve foi motivada por aumento salarial, para compensar as perdas inflacionárias, e pela melhoria das condições de trabalho, tendo chegado a afetar as cadeias de abastecimento do país.

17. No Reino Unido aconteceu uma significativa greve de ferroviários em abril de 2024, liderada pelo sindicato Aslef e abrangendo cinco empresas do setor. A greve deu-se em várias etapas, afetando linhas férreas importantes e ligações com os principais aeroportos. A reivindicação principal foi a de aumentos salariais, já que desde 2019 não havia reajustes, em contraste com o aumento incessante do custo de vida. A insatisfação dos trabalhadores no país expressou-se também por meio dos movimentos grevistas nos setores da saúde e educação.

18. Em fevereiro de 2025 uma greve geral de 24 horas paralisou os trens e outros meios de transporte na Grécia, além dos serviços públicos de saúde e educação. O movimento foi em memória do segundo aniversário do desastre ferroviário de Tempe, que vitimou 57 pessoas e teve como principal causa os cortes de pessoal produzidos pelo processo de privatização das ferrovias gregas, em 2017. Esse desastre tornou-se o símbolo da atual ofensiva do capital contra os trabalhadores. 

19. Na Itália, ocorreu em novembro de 2024 uma greve geral reunindo cerca de 500 mil trabalhadores, convocada pelas centrais sindicais, em protesto contra a proposta orçamentária do governo de extrema direita. Os trabalhadores reivindicaram aumento real dos salários e pensões, bem como do financiamento à saúde, educação e serviços públicos. A paralisação afetou especialmente os transportes, as escolas e os hospitais, ocorrendo grandes manifestações em Roma, Turim, Gênova e Milão.

20. Na França, em dezembro de 2024, os funcionários públicos realizaram uma greve contra as precárias condições de trabalho e os cortes no orçamento, determinados pelas políticas econômicas e sociais do governo de Macron. Isso ocorreu pouco depois de uma moção de censura ter derrubado o governo.

21. Cabe também mencionar o resultado das recentes eleições federais alemãs. Elas apontaram para o crescimento da extrema direita (AfD), com 20,8% dos votos, mas, por outro, indicaram que a esquerda, por meio de seus dois partidos (Die Linke e BSW), obteve 13,7%, representando um aumento significativo em relação às últimas eleições, com grande concentração junto ao eleitorado jovem. Isso revela que a esquerda possui condições de atrair a insatisfação com a ordem social existente e evitar que as massas trabalhadoras sejam enganadas pelo discurso simplificador dos neofascistas. Também na Bélgica e na França, os partidos de esquerda lograram avanços eleitorais expressivos, em contraposição à extrema direita.

22. No dia 12 de março último, aposentados protestaram na Argentina contra a perda de direitos e a diminuição no valor das aposentadorias, agravadas pelas políticas econômicas do governo Milei. As manifestações ganharam força com o apoio de torcidas organizadas de futebol e de outros movimentos sociais, terminando em confrontos violentos com as forças da repressão, centenas de prisões e dezenas de feridos, alguns em estado grave.  

Coletivo do CVM – 24/03/2025


Notas:

[1] Michael Roberts no artigo “Revisitando a teoria das depressões longas”, publicado em 22/12/2024.

[2] Os países que compunham o G-20 em 2022, compreendendo cerca de 85% do Produto Interno Bruto (PIB) global, eram: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Reino Unido, Rússia e Turquia, além da União Europeia.

[3] Em seu artigo “Como a Europa deve responder enquanto Trump e Putin esmagam a ordem do pós-guerra”, de 20/02/2025, a revista “The Economist”, porta-voz do capital financeiro europeu, ao se referir ao aumento dos gastos militares, declara praticamente a guerra aos trabalhadores: “Pagar por esse rearmamento exigirá uma revolução fiscal. A nova meta exigirá gastos extras de mais de € 300 bilhões por ano. (…) Para suportar isso, a Europa terá que cortar o bem-estar: Angela Merkel, ex-chanceler da Alemanha, costumava dizer que a Europa representava 7% da população mundial, 25% de seu PIB, mas 50% de seus gastos sociais. Para aumentar o crescimento, a Europa deve avançar com reformas óbvias, mas infinitamente atrasadas, desde a unificação dos mercados de capitais até a desregulamentação.”