O imperialismo americano jamais aceitou a derrota que sofreu com a vitória da Revolução Cubana. Além das tentativas de invasão militar, do fomento a movimentos contrarrevolucionários internos e dos planos de assassinato de lideranças cubanas, os EUA implementaram há 74 anos um odioso bloqueio, com o objetivo de estrangular economicamente a ilha. Apesar das terríveis consequências geradas por essa política asfixiante, que tem um efeito cumulativo ao longo do tempo e deixa Cuba em tensão permanente, a resistência histórica do povo cubano tem impedido que o imperialismo americano obtenha sucesso em restabelecer o domínio que exercia no país até 1959.
Efeitos do bloqueio
O bloqueio atual, entretanto, chegou a um nível máximo. Após o sequestro de Nicolás Maduro em janeiro, Donald Trump e Marco Rubio bloquearam o envio de petróleo venezuelano a Cuba e ameaçaram outros fornecedores com sanções secundárias e uso de força militar. O objetivo é impedir o abastecimento da ilha e, com isso, prejudicar o funcionamento das centrais termoelétricas do país, gerando uma crise aguda no fornecimento de energia elétrica.
Além disso, providenciaram acusações contra Raúl Castro na justiça americana, relacionadas à derrubada há 30 anos atrás de um avião do grupo de exilados contrarrevolucionários denominado “Irmãos ao Resgate”, que voava sobre o território cubano. E, com o objetivo de amedrontar, os EUA repetiram a mesma prática utilizada na Venezuela e no Irã, estacionando um porta-aviões, o USS Nimitz, nas proximidades do litoral da ilha.
Como consequência, os blecautes por falta de combustível vêm ocorrendo em todo o país e prejudicam seriamente a infraestrutura de saúde, afetando tratamentos médicos e cirurgias e deixando os hospitais em situação de guerra. O bloqueio também afeta a produção e a importação de insumos e medicamentos importantes, dificultando o combate às epidemias de dengue, chicungunha e febre oropouche.
A crise energética causada pelo bloqueio prejudica também as atividades de educação e cultura, a coleta do lixo e provoca insegurança nas ruas.
Mudanças econômicas em Cuba
Não é a primeira vez que Cuba enfrenta situações extremamente difíceis. Com o fim do bloco socialista e da União Soviética em 1991, a integração da economia cubana com o mercado comum socialista terminou e o país teve que encontrar formas de geração de divisas em moedas fortes, que pudessem sustentar o comércio com os países capitalistas.
A atividade econômica mais apta a preencher esse papel foi a indústria do turismo, que trouxe investimentos estrangeiros em grandes estabelecimentos hoteleiros e reintroduziu a iniciativa privada em algumas atividades de menor porte, como restaurantes, pousadas, transporte por táxis etc. A partir da reforma constitucional de 2019, a propriedade privada foi legalizada como uma das formas de propriedade no país, classificação que passou a incluir também as moradias.
Cuba tinha poucas alternativas para garantir sua sobrevivência após o fim do bloco socialista e foi obrigada a implantar reformas de cunho capitalista em setores específicos, mas isso trouxe inevitáveis consequências internas. Emergiu na sociedade cubana uma camada social pequeno-burguesa e uma ideologia individualista, naturalmente adversária do socialismo e propícia ao desenvolvimento da corrupção.
Segundo Josué Veloz Serrade, membro da revista digital cubana La Tizza, dedicada à reflexão sobre o socialismo e a Revolução, o burocratismo e a corrupção no Estado geram imobilismo e o sufocamento do potencial revolucionário interno. Para ele, “um partido fiel a si mesmo é um instrumento para produzir insubordinações criativas, não para gerenciá-las ou neutralizá-las”. Prossegue, afirmando que a liderança cubana deveria se apegar menos a símbolos e mais à substância do processo revolucionário, de forma a fazer a transição socialista voltar à ofensiva.
Onde está a solidariedade internacional?
Apesar de seu tamanho e da escassez de recursos, Cuba Revolucionária sempre se caracterizou pela prática do internacionalismo, em diversas partes do mundo. Cerca de 2.100 soldados cubanos morreram em Angola em sua luta pela independência e contra a intervenção militar do regime de apartheid da África do Sul naquele país.
Cuba também ficou célebre por suas missões médicas internacionais, que atuaram no Paquistão, na epidemia de ebola na África Ocidental, no terremoto do Haiti e no combate à Covid-19 em mais de 40 países. No Brasil, a participação dos médicos cubanos no “Programa mais médicos” levou a assistência à saúde a centenas de municípios brasileiros, situados nas regiões mais remotas do país onde a medicina orientada pelo lucro não chegava.
Muitos países deveriam ter uma dívida de gratidão com Cuba e socorrê-la num momento tão difícil. Mas apoiar Cuba significaria elevar a tensão com Washington e se sujeitar a riscos comerciais e sanções secundárias. Assim, Brasil e México, que poderiam enviar petróleo a Cuba, preferem mandar uma “ajuda humanitária”, limitada a alimentos e medicamentos, por temor da reação dos EUA.
Mesmo as grandes potências, como a China e a Rússia, procuram não enfrentar abertamente os EUA, em meio às Guerras da Ucrânia e do Irã, oferecendo apenas ajudas limitadas: um petroleiro russo conseguiu aportar em Cuba, mas somente após obter permissão explícita dos EUA; e os chineses estão instalando 2.500 painéis solares, de forma a minorar um pouco a situação de abastecimento de energia elétrica na ilha. Porém nada disso compensa a carência aguda de combustível para as centrais termoelétricas.
Revolução em risco?
Uma situação tão grave como a produzida pelo bloqueio imperialista acaba por fomentar a disputa ideológica interna e a propaganda anticomunista no país, com o objetivo de fazer Cuba retornar à condição de colônia dos EUA.
A geração que fez a Revolução Cubana está envelhecendo e os jovens não possuem a memória dos tempos pré-revolucionários e da própria Revolução. Muitos preferem hoje em dia as saídas individuais, como o êxodo para o exterior, e, com isso, a Revolução não se renova.
Che Guevara falava sobre a necessidade da revolução em nível internacional para a sobrevivência de Cuba, o que é certo. Mas também é certo que a derrota de Cuba representaria uma derrota para toda a humanidade e para o socialismo.
Hoje não existe um bloco geopolítico que possa desobedecer frontalmente a Washington e vir em auxílio de Cuba e a as instituições internacionais, como a ONU, estão falidas. Assim, Cuba só pode contar com ela mesma e com os movimentos em sua solidariedade ao redor do mundo.
Na hipótese de uma invasão imperialista, Cuba teria que estar preparada para combater uma guerra assimétrica integral, a exemplo do que fizeram o Irã, os iemenitas e o Hezbollah, visando converter vitórias táticas em derrota política do imperialismo.
A nós que estamos no Brasil, cabe fomentar, organizar e fortalecer todos os movimentos de solidariedade ao povo cubano!
Coletivo do CVM, 02/06/2026
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