Após o final da Segunda Guerra Mundial, o revolucionário alemão August Thalheimer utilizou o conceito de “cooperação antagônica” para descrever as relações entre os Estados Unidos e as antigas potências imperialistas dentro do chamado Bloco Ocidental. O conceito se assentava em dois pilares: a situação de destruição em que se encontravam as potências capitalistas após a guerra, com a exceção dos Estados Unidos, e a conformação do Bloco Socialista em torno da União Soviética.
Thalheimer observava que a derrota sofrida por Alemanha, Itália e Japão e a destruição produzida pela guerra também na França e no Reino Unido tornavam as potências imperialistas tradicionais incapazes de desafiar militarmente, ou em qualquer outro plano, a liderança dos Estados Unidos dentro do mundo capitalista.
Por outro lado, a existência do Bloco Socialista representava um desafio à velha ordem social, o que impulsionava as potências imperialistas à cooperação. O antagonismo entre esses países na disputa por mercados, matérias primas e espaços para a exportação de capital continuou existindo, porém, a cooperação sempre predominou. A criação da OTAN, a aliança militar ocidental, é um exemplo dessa cooperação no plano militar, assim como fez o Plano Marshall no plano econômico para a reconstrução da Europa capitalista.
Com o fim da União Soviética em 1991 e a restauração do capitalismo no Bloco Socialista, um dos pilares da cooperação antagônica ruiu e o mundo ficou na expectativa do ressurgimento dos antagonismos entre os países imperialistas. Porém, os vínculos econômicos, políticos e militares construídos dentro do Bloco Ocidental durante a Guerra Fria mantiveram-se relativamente intactos e a expansão transnacional do capitalismo nas décadas seguintes ajudou a preservar essa arquitetura, cujas maiores expressões são a OTAN, no plano militar, o G-7, no plano político, e o Fórum Econômico Mundial de Davos, no plano ideológico.
É certo que o fim do Bloco Socialista ofereceu aos Estados Unidos, a potência hegemônica incontestável do Bloco Ocidental, maior liberdade para a defesa de seus interesses próprios diante de seus aliados, mas foi apenas com a chegada de Donald Trump ao poder em 2025 que essa liberdade foi exercida em toda a sua plenitude e com todas as suas consequências.
Escravos infelizes
A imposição pelos EUA de pesadas tarifas de importação à Europa e outros países aliados, as exigências de aumento dos gastos dos países europeus na manutenção da OTAN e as ameaças à anexação da Groenlândia revelam que os Estados Unidos têm hoje prioridades mais importantes, como, por exemplo, fazer frente à expansão econômica da China, recuperar o atraso bélico em relação à Rússia, reverter o déficit orçamentário e estancar a perda da influência do dólar nas transações financeiras e do comércio internacional.
Incomodado com a mudança de postura dos EUA dentro do Bloco Ocidental, o primeiro-ministro belga Bart De Wever queixou-se no Fórum de Davos de 2026 que “ser um vassalo feliz é uma coisa; ser um escravo infeliz é outra bem diferente.” Já o primeiro-ministro canadense denunciou o fim da ordem internacional do pós-guerra e descreveu que na situação de hoje “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”.
Cinicamente, admitiu que a antiga “ordem mundial baseada em regras” era uma “ficção confortável”, aplicada desigualmente pelos mais fortes, conforme a situação. Faltou apenas acrescentar que na antiga ordem o Canadá tirava proveito de sua posição de “vassalo feliz” dos EUA e que agora estava na iminência de se tornar mais um dos muitos “escravos infelizes” que existem pelo mundo.
Para não deixar margem a dúvidas, o governo Trump publicou sua “Nova estratégia de segurança nacional”, na qual consolida a ideia de que os interesses próprios dos EUA estão acima de qualquer outra consideração, inclusive das necessidades militares de seus aliados europeus.
Nesse documento, a China é caracterizada como a maior ameaça estratégica e problema econômico para os Estados Unidos, sublinhando a necessidade de seu país alcançar a segurança econômica, energética, industrial e militar, neste caso com a construção de uma estrutura de defesa antimísseis denominada “domo dourado”. Ao mesmo tempo, pretende alcançar uma “estabilidade estratégica” com a Rússia, ou seja, afastá-la ao máximo da China, e caracteriza o resto do continente americano como uma “prioridade existencial”, reeditando a Doutrina Monroe (“América para os americanos”).
Venezuela sob ataque
O ataque realizado pelos EUA à Venezuela para sequestrar Nicolás Maduro e Cilia Flores enquadra-se perfeitamente nos postulados da “Nova estratégia” de Trump. Em nenhum momento a operação foi apresentada como uma ação para restaurar a “democracia” no país, para a infelicidade de Maria Corina Machado e os oposicionistas de direita no país, que pretendiam se aproveitar da situação.
Desde o início, ficou claro que o assunto em questão era o controle do petróleo venezuelano. A Venezuela possui as maiores reservas provadas de petróleo do mundo (300 bilhões de barris) e vinha comercializando parte de sua produção com a China à margem do dólar, seja por trocas diretas por amortização de dívida ou pagamentos em yuan. A partir das novas imposições americanas, os EUA passaram a controlar as exportações de petróleo venezuelano e qualquer venda só pode ser realizada com a autorização de Washington e sob o sistema financeiro do dólar.
Os EUA não necessitam imediatamente do petróleo venezuelano para sua segurança energética, ainda mais por se tratar de uma produção pequena, em função das inúmeras sanções americanas ao país sul-americano, mas não podem admitir que a China venha a controlar, de alguma forma, as reservas e a comercializar a produção às margens do dólar. Além disso, a Venezuela pertence ao continente americano, que é considerado “prioridade existencial” para os EUA, segundo o “Corolário Trump” da Doutrina Monroe. Outra grande pedra no sapato do imperialismo norte-americano é Cuba Socialista. Os EUA vêm aumentando o cerco econômico e energético à ilha por meio de sanções e ameaças de bloqueio naval com o claro objetivo de destruir a chama revolucionária na América Latina.
Ainda não se sabe exatamente quais foram as circunstâncias que tornaram possível o sequestro de Maduro numa fortaleza situada dentro de Caracas. Sabe-se que um ataque cibernético cortou a energia em pontos chave da capital e que o bombardeio aéreo de baterias de defesa antimísseis venezuelanas possibilitou a aproximação dos helicópteros das forças especiais americanas e o ataque terrestre.
Sabe-se também que os invasores conheciam em detalhes o local da ação, o que aponta para a existência de traição, no mínimo dentro do esquema de segurança imediato de Maduro. Mas começam a aparecer também relatos de fortes baixas nas forças invasoras, o que era presumível.
Os EUA não ousaram a ocupação terrestre da Venezuela, apesar de contarem com uma força aeronaval expressiva no Caribe, para “evitar o caos” que causaria, prevendo a reação das organizações de base dos trabalhadores venezuelanos, como os Conselhos Comunais e as milícias bolivarianas. Tiveram que preterir Maria Corina Machado e manter no poder, sob ameaça, a vice de Maduro, Delcy Rodríguez. Com isso têm conseguido impor sua vontade no que concerne à exploração do petróleo venezuelano.
A nova lei dos hidrocarbonetos permite às empresas privadas explorar, extrair, transportar, armazenar e comercializar o petróleo sem a participação da companhia estatal PDVSA. Além disso, diminuiu a carga fiscal e estabeleceu que os contratos com empresas americanas serão regidos pela legislação americana e as disputas, resolvidas em tribunais americanos. Todas os pagamentos serão realizados por meio de contas bancárias controladas por Washington. Assim, o objetivo dos EUA foi alcançado, com o mínimo de perdas.
O Irã será a próxima vítima?
Outro importante produtor de petróleo encontra-se na mira do imperialismo americano e os motivos são muito semelhantes aos que levaram à intervenção na Venezuela: controlar as reservas de petróleo do país, que são da ordem de 157 bilhões e o colocam na quarta posição no ranking mundial, além de neutralizar a maior ameaça aos interesses de Israel, ponta de lança dos EUA no Oriente Médio.
Para isso, o meio empregado foi tentar mais uma “revolução colorida” no território iraniano, combinada com a ameaça de uma invasão terrestre. Tudo começou com um movimento especulativo produzido externamente contra a moeda do país, que provocou a súbita desvalorização do rial e desencadeou uma revolta dos comerciantes do bazar de Teerã.
A insatisfação com a piora das condições de vida pela inflação e por uma seca severa que já dura cerca de seis anos deflagrou um movimento de massas em diversas cidades, que se iniciou pacífico, mas foi crescendo em violência com a atuação de franco-atiradores a serviço do Mossad e da CIA e de grupos separatistas internos (curdos, balúchis, árabes do Cuzistão), resultando em milhares de mortes em diversas cidades do país.
Trump incentivou o movimento e prometeu apoio direto, mas o governo conseguiu debelá-lo, com o bloqueio da internet e do sistema Starlink, impedindo a comunicação no seio das forças insurgentes. Além disso o governo convocou grandes manifestações de massas em seu favor e, assim, mais essa tentativa de derrubada do governo iraniano foi abortada.
Mas a situação permanece bastante grave. O deslocamento de tropas americanas na direção do Golfo Pérsico está em curso e coloca o Irã em alerta máximo diante da possibilidade de uma intervenção militar direta dos EUA e de Israel.
A Rússia também sob ameaça
A política americana de “estabilização” das relações com a Rússia, visando afastá-la da China e permitir o restabelecimento dos negócios entre os países, sofreu um retrocesso significativo com o ataque frustrado de drones à casa de Putin em Novgorod, cujo objetivo evidente era assassiná-lo.
Não se sabe se a ação foi iniciativa exclusiva da Ucrânia e de seus aliados europeus, mas o governo russo apresentou ao americano provas de que, sem o apoio fundamental dos EUA, a ação não teria sido possível.
A retaliação russa foi imediata e deixou as cidades ucranianas sem aquecimento durante um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos. Enquanto isso, negociações tripartites entre Rússia, Ucrânia e EUA continuam ocorrendo, mas sem chances de que venham a produzir um acordo de paz no curto prazo.
O tempo conta a favor da Rússia, que avança lentamente no campo de batalha, dando ensejo a ações desesperadas por parte de seus adversários.
Cooperação antagônica em xeque
A ameaça dos EUA de anexação da Groenlândia, o deslocamento de tropas europeias para a ilha e a ameaça tarifária de Trump aos países que enviaram os soldados revelam que a “ordem mundial baseada em regras”, como denunciou o primeiro-ministro do Canadá, chegou ao seu final.
Para a Europa e o Canadá, a cômoda situação de “vassalos felizes” dos EUA terminou, restando-lhes a opção de rearmarem-se para evitar que venham a se transformar em “escravos infelizes”. Daí o apelo de Mark Carney para a união das “potências médias”, ou seja, dos países que compõem o G-7, menos os Estados Unidos.
Seria muito melhor para as burguesias europeia, canadense e japonesa que a cooperação no Bloco Ocidental fosse restaurada, mas a defesa escancarada dos interesses próprios dos EUA praticada por Trump, diante das ameaças a sua hegemonia mundial, é a tendência dominante no momento. O antagonismo está prevalecendo não apenas em relação à Rússia e à China, potências emergentes fora do Bloco Ocidental, como também em relação aos próprios aliados tradicionais dos EUA.
Como consequência, as despesas com armamentos crescem — e, com elas, a possibilidade de que um conflito se transforme em confronto nuclear —; os gastos sociais diminuem para comportar o novo orçamento militar; eleva-se o custo de vida da classe trabalhadora; assim como aumenta a repressão interna aos movimentos de protesto dos trabalhadores, fortalecendo-se a tendência à constituição de ditaduras abertas. Nessa situação, a extrema direita cresce apresentando falsas soluções para a crise, como a expulsão dos imigrantes.
Nos EUA, Trump domina o Legislativo e o Judiciário, despreza o direito internacional e conduz uma repressão interna por meio das tropas de assalto do ICE, que já causaram duas vítimas fatais e geraram movimentos de protesto em todo o país.
Nessa situação, e mais uma vez, socialismo ou barbárie continuam sendo as duas únicas alternativas para o mundo.
Coletivo do CVM, 31/01/2026
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