Em janeiro e fevereiro deste ano, a Alemanha assistiu a diversas manifestações de massa antifascistas, que congregaram quase dois milhões de pessoas em todo o país. Antes das eleições legislativas de 23 de fevereiro, o país presenciou quatro atentados de autoria de simpatizantes do Exército Islâmico, o que deflagrou uma onda de ódio contra os imigrantes na Alemanha.
As manifestações antifascistas representaram uma reação a esse clima de xenofobia e as palavras de ordem nelas presentes deixaram isso muito claro: “Faltam 5 minutos para 1933” (referência à chegada de Hitler ao poder), “A ‘Alternativa para a Alemanha’ não é alternativa” (referência ao partido de extrema direita AfD) e “Nós somos o cordão sanitário” (referência à barreira contra a ascensão da AfD, prometida, mas que provavelmente não será cumprida no futuro, pelos partidos de centro-direita).
A crise política
O perigo de ascensão da extrema direita (AfD) ao poder na Alemanha de fato existe. O clima de insatisfação com a estagnação econômica e com as políticas de austeridade levadas à prática por todos os governos alemães nos últimos anos – sejam os liderados pelos socialdemocratas, sejam pela democracia cristã – forneceram o combustível para o crescimento da AfD, que escolheu os imigrantes como bodes expiatórios, da mesma forma que no passado os nazistas escolheram os judeus. Além disso, hastearam as bandeiras nacionalistas, prometendo abandonar o Euro e reduzir os pagamentos do país para a União Europeia.
No ano passado, a coalizão de governo, formada pelos socialdemocratas (SPD), democratas livres (FDP) e verdes, caiu porque o Ministro das Finanças, pertencente ao FDP, se recusou a aumentar a dívida pública para contrair empréstimos e exigiu o corte de gastos sociais e impostos para vencer a crise econômica.
Realizadas as eleições em fevereiro, os resultados apontaram o desgaste dos partidos burgueses tradicionais, que têm liderado todos os governos alemães do pós-guerra: os democratas cristãos obtiveram 28,5% dos votos, quando costumeiramente atingiam cifras entre 35% e 40%; os socialdemocratas perderam ainda mais: obtiveram 16,4%, em comparação com os 26% da eleição anterior. Os democratas livres, responsáveis pela queda da coalizão, sequer atingiram o mínimo de 5%, necessários para a representação no parlamento. Os verdes também diminuíram sua participação, passando de 15% na eleição anterior para apenas 11,6%.
O grande vencedor foi, sem dúvida, a AfD, que se tornou o segundo partido do país, conquistando 20,8% dos votos – o dobro dos 10,4% da eleição anterior – e superando os socialdemocratas.
No campo da esquerda o partido ‘Die Linke’ dobrou a sua força eleitoral para 8,8% e o partido resultante de uma fração sua, o BSW, obteve 4,7%, percentual insuficiente para obter representação no parlamento. Resumindo, a crise favoreceu o crescimento eleitoral da esquerda, mas favoreceu muito mais o crescimento da extrema direita, às expensas dos partidos burgueses tradicionais.
Assim, o democrata cristão Friedrich Merz tornou-se chanceler, com apoio do SPD e dos Verdes, reeditando a “Coalizão semáforo” e propondo ativar as políticas neoliberais de austeridade, caracterizadas pelos cortes de benefícios sociais. Além disso, acena com a diminuição da “burocracia” que as empresas estariam enfrentando para os seus negócios e o aumento dos gastos militares, sem excluir a possibilidade de obtenção de armas nucleares.
A estagnação econômica [1]
A Alemanha é responsável por 24,2% do Produto interno bruto (PIB) da União Europeia, o que confere ao país o título de “locomotiva da Europa”. É o maior exportador do continente, sendo seus principais itens os veículos automotivos, as máquinas e os equipamentos, os produtos das indústrias química e farmacêutica, além dos bens de alta tecnologia.
De 2003 a 2008, a Alemanha liderou o ranking global de exportações, mas, desde 2009, o país foi ultrapassado pela China. Se, em 1998, a Alemanha participava com 10,38% das exportações mundiais, em 2023 a participação diminuiu para 6,57%, como pode-se observar no gráfico a seguir.
Para se ter uma ideia da estagnação econômica do país, basta citar que, considerando o último trimestre do ano, a economia cresceu apenas 0,7% entre 2018 e 2024, tendo sofrido recessão mesmo em anos posteriores à pandemia (-0,3% em 2023 e -0,2% em 2024). [1]
A “Taxa de lucro”, medida sobre o estoque líquido de capital, que era de 15,9% em 1956, baixou para 8,0% em 1993, aumentou para 10,1% em 2007, com as reformas trabalhistas neoliberais, mas foi de apenas 6,6% em 2025. Para piorar, além da “Taxa de lucro”, também a “Massa de lucro” vem caindo, por conta do custo crescente de energia.
A “Formação bruta de capital fixo”, que representa a parcela do PIB que é destinada a investimentos, está em queda desde 2020: o investimento em máquinas e equipamentos diminuiu 0,8% em 2023 e 5,5% em 2024.2 Contribuiu para isso o “Freio da dívida” constitucional de 2009, que limita o déficit orçamentário a 0,35% do PIB.
Com isso, os gastos com a infraestrutura são decrescentes, correspondendo atualmente a apenas 0,8% do PIB, enquanto são de 4,8% na China. Como consequência, os trens não circulam mais no horário na Alemanha, a cobertura de internet e de telefonia móvel é irregular e as estradas e pontes encontram-se em péssimo estado de conservação.
Para completar o cenário econômico adverso, a produtividade caiu 0,6% em 2023 e 0,1% em 2024 2, a produção industrial decresceu 4,5% no mesmo ano e o número de falências corporativas chegou a 2.000 no segundo semestre de 2024. A Alemanha vive uma onda de fechamentos de fábricas em indústrias intensivas em energia, como a química, e mesmo a Volkswagen anunciou cortes de empregos.
Os salários reais dos trabalhadores permanecem abaixo dos níveis pré-pandemia (2018) e hoje existe um duplo mercado de trabalho na Alemanha: o dos trabalhadores temporários e de meio período, com baixos salários, convivendo com o dos trabalhadores permanentes. Estima-se que um quarto da população não tenha rendimentos suficientes para cobrir suas despesas.
Em 2025, prevê-se que o número de desempregados atinja 3 milhões. Em um ano foram extintas 101.000 vagas na indústria de transformação e 30.000 na construção civil. 2
O modelo econômico alemão está em crise estrutural?
São muitas as causas que levaram a economia alemã à situação em que se encontra atualmente. De um lado, hoje existe menos áreas para a exploração de mão de obra barata em outros países pelo capital alemão, como na Europa Oriental e na Ásia. A força de trabalho do país está envelhecida e ele sofre com a concorrência da Ásia sobre seus produtos de exportação, em função das novas cadeias globais de produção.
A China em particular passou de maior cliente para maior concorrente e hoje fabrica produtos com menor custo e melhor qualidade tecnológica que a Alemanha, impactando especialmente a sua indústria automobilística.
Mas a Alemanha sofre particularmente com uma crise energética e a causa para isso é de origem geopolítica. Ao apoiar a guerra por procuração do imperialismo americano na Ucrânia, o país teve que se conformar com a destruição dos gasodutos (Nordstream) que levavam a energia barata da Rússia para as indústrias alemãs e substituí-la pelo caríssimo gás natural liquefeito americano, perdendo competitividade.
Essa decisão não se deve somente ao servilismo alemão diante dos Estados Unidos e ao seu status de país ocupado militarmente pelos americanos. A burguesia alemã continua a ter interesse na expansão em direção ao leste e mais uma vez iludiu-se com a possibilidade de impor uma derrota à Rússia, que propiciasse o acesso do capital alemão ao mercado e aos recursos naturais daquele país.
Por isso, continua insistindo para que a Ucrânia combata até o último ucraniano e que o apoio militar dos Estados Unidos seja mantido, apesar da derrota iminente no front. A ideia do Lebensraum (espaço vital) a leste, criada pelo III Reich, parece que ainda está viva, pelo menos do ponto de vista da expansão do capital.
Seja como for, o custo da energia disparou para fabricantes e consumidores alemães e a produção do setor eletrointensivo, que em 2022 tinha um índice de 104, em 2025 foi de apenas 84.
Além disso, o renascimento do protecionismo americano, com os tarifaços de Trump, afeta as exportações alemães e trará prejuízos, mesmo após as negociações entre os Estados Unidos e a União Europeia, ocorridas em julho, que fixaram as tarifas em 15%, afetando principalmente os automóveis, as máquinas e os produtos da indústria química alemães.
Reações do movimento sindical[2]
Entre o final de 2024 e o início de 2025, ocorreram greves de advertência de 4 a 5 horas em fábricas da Volkswagen (Osnabrück), Rolls Royce (Oberursel) e Audi (Ingolstadt), conduzidas pelo sindicato nacional metalúrgico IG Metall.
As principais reivindicações foram aumento salarial de 7%, acordo coletivo de 1 ano (tendo em vista o ritmo da inflação), melhores condições para os trabalhadores temporários e a proteção contra as demissões e o fechamento de fábricas.
Como resultado da mobilização, foi alcançado um aumento salarial de 5,1% (2% em abril de 2025 e 3,1% em abril de 2026) e acordo coletivo de 2 anos, considerado insuficiente para fazer frente à inflação e à precarização do trabalho.
O sindicato Verdi, que reúne também nacionalmente 2,5 milhões de trabalhadores do setor público (educação, saúde e serviços) organizou greve de 24 horas, em março de 2025, em onze aeroportos, incluindo Frankfurt e Munique, afetando 510.000 passageiros. Além disso, houve também uma greve de 24 horas no transporte público de Berlim, em janeiro de 2025, com a participação de 16.600 trabalhadores.
Fizeram parte das reivindicações o aumento salarial de 8% (com mínimo de 350 Euros), contrato de 1 ano e 3 dias extras de descanso. O governo ofereceu aumento de 2% em outubro de 2025, 2% em julho de 2026 e 1,5% em julho de 2027, com proibição de greves por 3 anos. As negociações chegaram a um impasse e o dissídio foi levado a arbitragem, com a suspensão das greves. Como resultado da mediação, foram estabelecidos pagamentos únicos de € 1.240 em junho de 2025, € 220 mensais até fevereiro de 2026 e 5,5% de aumento mais € 200 em março de 2026.
Como se observa, a distância entre as reivindicações e os resultados alcançados ainda são muito grandes, apontando para a necessidade de movimentos mais fortes e organizados no futuro.
Movimentos políticos
Além dos movimentos antifascistas mencionados no início, deve-se destacar que cresceram na Alemanha em 2025 as demonstrações de solidariedade aos palestinos, diante do genocídio conduzido em Gaza por Israel.
Em 27 de setembro, cerca de 100.000 pessoas protestaram em Berlim contra o bombardeio de Gaza e contra o bloqueio de alimentos, água, energia e medicamentos ao território.
Na Alemanha, os meios de comunicação e o próprio governo defendem incondicionalmente Israel e rotulam qualquer crítica aos sionistas de “antissemitismo”. O governo chegou mesmo a ameaçar os imigrantes que participassem das manifestações pró-Palestina de cassação do visto de permanência na Alemanha e de retirada da cidadania. Além disso, utiliza a polícia de choque para reprimir as manifestações.
Mesmo a esquerda, como é o caso do partido Die Linke, evita caracterizar Israel como genocida e vacila em apoiar os palestinos. Porém, a ala jovem, que foi atraída para o Partido em decorrência da luta pela moradia e, com isso, propiciou o seu crescimento eleitoral, forçou a entidade a se posicionar e a apoiar a manifestação.
Outro movimento político importante na Alemanha é a luta pela paz e contra o militarismo. Em recente reunião, os delegados do IG Metall Hanau/Fulda decidiram apoiar o movimento pela paz e convocar a população para participar da manifestação nacional de 3 de outubro em Stuttgart.
Segundo discurso de Ulrike Eifler[3] na Conferência Sindical pela Paz em Saltzgitter, publicado no site do CVM, a crise sistêmica do capitalismo leva a conflitos geopolíticos, corrida armamentista, colapso climático, crise de representação e ascensão de líderes de extrema direita.
Segundo Ulrike, a Alemanha prepara-se para a guerra com diversas medidas, como a conversão da economia em economia de guerra (quando o Estado determina a produção e viola os direitos trabalhistas e sociais, institui o trabalho compulsório e a proibição de greves), reestrutura para a guerra os serviços públicos de saúde e educação, aumenta os gastos com defesa em detrimento dos gastos sociais e restringe a democracia, reprimindo qualquer crítica. Por isso, é necessário construir um movimento pela paz de base ampla em oposição à militarização.
Perspectivas
A situação da Alemanha não é um caso único na Europa. Outros países também sofrem problemas econômicos semelhantes, no continente europeu e fora dele, e a principal consequência é o descrédito geral em relação ao sistema político vigente e o desgaste das lideranças e partidos burgueses tradicionais.
É nesse ambiente que prosperam os partidos de extrema direita, que criam bodes expiatórios e propugnam soluções fáceis para a crise, como a expulsão dos imigrantes. O acirramento das contradições também estimula o protecionismo econômico e o nacionalismo, promovendo conflitos interimperialistas, o rearmamento e a preparação para as guerras.
Mesmo o Japão, derrotado no último conflito mundial e vítima de duas bombas atômicas, tem hoje um governo que levanta dúvidas sobre a manutenção dos princípios tradicionais de não possuir, não produzir e não permitir armas nucleares em seu território, ao mesmo tempo que aponta mísseis para a China. Também na Alemanha, o governo propõe discutir uma cooperação nuclear com a França e o Reino Unido, visando uma guerra contra a Rússia.
Enquanto a extrema direita surfa na crise do sistema e o militarismo apresenta-se com toda a sua força, a esquerda ainda sofre as consequências do prejuízo causado às ideias socialistas pelo fim da União Soviética. Alguns partidos europeus de esquerda têm conseguido recuperar o apoio das massas ao abraçar as lutas pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores, em especial no que se refere à habitação e à saúde, mas os avanços são pequenos.
O aguçamento das contradições geradas pela crise do capitalismo, entretanto, abre espaço para que o socialismo volte a ser considerado como a única opção possível. Mais uma vez o mundo se vê diante da alternativa: socialismo ou barbárie!
Coletivo do CVM, 25/11/2025
Notas:
[1] “Alemanha: sem poder; der Kraft beraupt” e “Alemanha flerta com o abismo”, Michael Roberts, ambos artigos de 24.02.2025
[2] Romaric, Godin – “A Alemanha está mergulhada numa profunda crise econômica” – Mediapart, Esquerda.net
[4] Ulrike Eifler, “O ‘ponto de virada’ histórico é um ataque frontal aos interesses dos trabalhadores” – discurso publicado pelo grupo Arbeiterpolitik. Ulrike é jornalista, escritora, membro do IG Metall e faz parte da direção do partido Die Linke.
Leia em PDF: CADERNO F&C 57
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