POLOP

Entretanto, enquanto o grupo organizado se desfazia, parecia que o PT, em suas posições iniciais, em seus documentos programáticos, assumia – se bem que de forma contraditória – as linhas gerais de uma tese que, já nos idos de 1961, fora defendida isoladamente pela POLOP: a perspectiva de independência dos trabalhadores frente à burguesia, a defesa de uma política independente contra as diluições populistas e os pactos sociais da velha esquerda reformista antes dominante, a reafirmação (implícita, é verdade) de um núcleo duro representado pela classe operária industrial no interior de um amplo e multiforme movimento de trabalhadores (esboço de uma Frente dos Trabalhadores da Cidade e do Campo?). Essa realidade era, certamente, contraditória: pois, se parecia verdade que o PT assumia uma perspectiva de independência dos trabalhadores frente à burguesia, apoiado, sobretudo no núcleo operário do ABC paulista, era também verdade que esse núcleo agia de forma pragmática, afastando-se de um posicionamento ideológico mais definido, recusando discussões mais sistemáticas sobre as perspectivas de longo prazo.

Nos espaços em aberto mantidos por essa indefinição, passaram a se desenvolver, dentro do novo partido, facções políticas e ideológicas posicionadas num espectro muito amplo: não faltando, inclusive, uma forte corrente socialdemocrata, que via valores universais ali onde a tradição da esquerda revolucionária entendia existir um inconciliável antagonismo social; tampouco faltando, em dimensão nacional e até aqui com grande êxito arregimentador, uma tendência ao acomodamento institucional, presente numa opção preferencial pelas práticas eleitorais.

A POLOP propugnava já na sua fundação, em 1961, que a emergência de um proletariado como classe, em meio a uma ampla frente de trabalhadores, abalaria a correlação de forças secularmente calcada numa dominação burguesa-latifundiária incontestada. Em 1964, um possível movimento contestatório de massas foi abortado pela intervenção militar. Mas o aprendizado dos trabalhadores prosseguiria sob a superfície, e iria se impor às claras em 1978, daí decorrendo o indisfarçável desconforto desde então revelado pelas classes dominantes brasileiras. Os movimentos de 1978-80 não representavam, ainda, uma ação de classe bem clara em sua plataforma política: a linguagem dominante no movimento tinha, ainda, as ambiguidades de um horizonte muito imediato. Mas, embora dentro desses limites, representavam uma manifestação de ruptura com a tradição de várias décadas de conciliação de classes. As classes dominantes brasileiras sentiram o fato novo e mergulharam numa instabilidade política recorrente nos anos posteriores, entremeada por surtos de estabilidade muito efêmeros, fazendo sobressair-se de forma intermitente um impulso bonapartista.