POLOP

A história dos « rachas » da POLOP nos anos 70 tornou-se motivo de anedotas em alguns círculos da esquerda. Essa atitude de escárnio se explica, em parte, por um certo espírito autofágico então criado, aqui e ali, pelo isolamento da clandestinidade; e, em parte, porque não poucos segmentos da esquerda já então começavam a transitar explicitamente para fora do marxismo e precisavam de argumentos fáceis para mostrar-se superior à bêtise dos marxistas. De uma forma ou de outra, a demolição da memória da militância não seria uma ação dirigida unicamente contra a POLOP, mas contra toda a esquerda revolucionária brasileira. Criou-se uma quase unanimidade, esmagadora e hostil, um rolo compressor contrário a todos os signos de um passado recente, de uma ação política organizada que, em seu devido tempo, parecia heroica. Gerações mais generosas, quem sabe, poderão fazer a crítica da crítica, decompondo e desmistificando, por sua vez, o sentido geral dessa unanimidade condenatória que se abriu contra a esquerda revolucionária dos anos 70. O pensamento da contra-militância poderá talvez ser visto, por sua vez, como mera expressão de um rebaixamento das pretensões humanas, simples reação contra o férreo compromisso com o futuro da humanidade, tão presente na militância revolucionária. E, afinal, onde a reação anti-militância vê o infantilismo da ação concreta da esquerda revolucionária dos anos 70, outros talvez possam ver o « errar criador do pensamento crítico ». Os julgamentos não são nem serão jamais definitivos (mas tudo aquilo que foi feito persiste intocável, em sua irreversibilidade).

No entanto, voltando à POLOP dos anos 70, parece que nem tudo foi confusão. A organização teria conseguido, naqueles anos trevosos, pelo menos uma elaboração fecundamente original: as teses de crítica que sustentou frente ao movimento pelas liberdades democráticas.

Não se tratava de mais uma volta aos textos para a reafirmação de princípios. A organização argumentava que o movimento pelas liberdades democráticas, tal como desenvolvido na segunda metade dos anos 70, estava limitado ao terreno da ordem constituída, não representava uma plataforma revolucionária de crítica à ditadura e, nessa medida, apenas ajudava a oposição burguesa a retirar « suas castanhas do fogo », livrando-se dos seus tutores fardados, cuja rigidez e código de continências já eram, então, indesejados.