POLOP

E o proletariado? Certamente não seria aquele, o da mitologia dos manuais. Sua importância política no Brasil não aparecia como mera dedução a partir de um destino transcendental já concebido, mas sim como conclusão retirada da análise específica das contradições presentes na vida nacional. E, além disso, o proletariado brasileiro tampouco era uma classe já formada como tal, em condições de exercer os papéis que lhe reservavam os manuais existentes. Na ótica da POLOP, havia no Brasil um operariado em tortuoso movimento prático, que há décadas regredira de uma organização livre, datada dos primórdios da industrialização, para uma atitude de reboque em suas relações com o populismo burguês; regredira à condição de um operariado sem objetivos políticos próprios e sem uma organização própria, pois os sindicatos faziam parte do aparelho do Estado. Então o proletariado, enquanto classe independente, simplesmente não existia ainda no Brasil. Foram esses elementos de uma análise concreta que forneceram a matéria constitutiva dos conceitos estratégicos levados ao Programa Socialista para o Brasil: qualquer transformação duradoura na sociedade brasileira exigiria antes a formação do proletariado como classe – com ideologia, ação política e organização independente das classes dominantes.

Críticos precipitados objetavam quanto ao caráter inexpressivo do contingente numérico da classe operária brasileira. Objeção descabida, pois a análise da POLOP prosseguia em suas considerações fundamentais. Desdenhando as teses transpostas de outras realidades, que mencionavam uma esquemática « aliança operário-camponesa », o Programa Socialista para o Brasil constatava, pela via da análise histórica, que aqui se delineavam as condições para uma ampla frente dos trabalhadores. Ainda não se conheciam, como hoje, movimentos interclasses de grande envergadura, tais como as mobilizações e organizações populares de bairros, o Movimento dos Sem-Terra, dos Sem-Teto, de desempregados, etc. Mas a experiência viva já permitia concluir pela existência de uma gigantesca camada de trabalhadores proletarizados, em sua maioria assalariados, embora também havendo os pequenos-proprietários em proletarização, nas cidades, nos campos e na confluência cidade-campo. A história das ligas camponesas e dos sindicatos rurais, assim como a história do movimento estudantil, dos bancários e outros, já esboçavam essas potencialidades, tão evidentes aos olhos do observador de hoje, mais de 30 anos depois. Debruçada sobre a radicalização das lutas no período imediatamente anterior ao golpe de 64, o documento Caminhos e Caráter da Revolução Brasileira via no precedente de um movimento de operários e marinheiros, no Rio de Janeiro, um exemplo ilustrativo, ainda que isolado, da possibilidade futura de hegemonia do proletariado numa frente constituída pela ampla maioria da sociedade brasileira, pelos trabalhadores da base da pirâmide social criada pelo capitalismo. O Programa Socialista para o Brasil não se dirigia apenas à classe operária: divisava a organização das massas em seu sentido mais amplo, através da consigna da Frente dos Trabalhadores da Cidade e Campo.

Fazia-se necessário, contudo, levar ainda mais longe o combate aos chavões. As concepções mais gerais acerca do movimento comunista mundial apareciam no Brasil demasiadamente presas a um dilema entre fórmulas, das quais a mais forte era, notoriamente, a retórica estalinista ou, talvez, àquela altura, neoestalinista. Havia um modelo de revolução solidamente implantado pelo PC, transposto da União Soviética. A alternativa seria um esquema de fórmulas antigas trazidas diretamente do discurso de Trotski, o que não seria tampouco uma solução, por mais que parecessem positivas muitas das posições em seu tempo defendidas pelo fundador do Exército Vermelho. Ademais, naquele contexto já de crise da hegemonia soviética dentro do comunismo mundial, os dilemas propostos pela esquerda majoritária apareciam no Brasil com nuances variadas, já ultrapassando os antigos termos da luta interna do Partido Comunista da União Soviética. Da distante China, chegavam as ideias maoístas, arrastando com elas todo um conjunto de palavras-acorrentadas, de chavões: libertação nacional, unidade do povo, combate ao Estado Fantoche, etc. Por último, o fascínio da revolução cubana estimulava, em outra direção, um idioma centro-americano, o mito do Estado Títere e de uma luta democrática tal como sugerida por uma sociedade rural-oligárquica.