POLOP

Diríamos que todas as palavras básicas do discurso da esquerda estavam presas a grilhões, a um sentido prévio situado fora da órbita da experiência viva. Por exemplo, a singela e tão importante palavra « proletariado »: ela não continha determinações dinâmicas nem alusões a um conjunto de pessoas envolvidas numa modalidade específica de ação prática, vivendo tais ou quais problemas fundamentais de existência. O «proletariado», falado pela boca da velha esquerda oficial, era um conceito marcado por um idealismo objetivo, por uma determinação já contida em um ou outro manual traduzido de línguas estrangeiras. O ponto de partida era o conceito (…no princípio era o verbo…): certo grupo de pessoas, no Brasil, deveria forçosamente enquadrar-se nesse conteúdo límpido, apriorístico. O mesmo se poderia dizer da palavra «revolução». A palavra estava dicionarizada em manuais (também traduzidos do exterior) que a prognosticava em detalhes. Tanto que já não aparecia de forma solta (sugerindo dúvidas supostamente ociosas), pois vinha sempre com um complemento autossuficiente e esclarecedor: « revolução democrático burguesa » (quer dizer : revolução em etapas, determinadas alianças na primeira etapa, outras alianças na segunda etapa, o esquema era fechado e já dado). E o que dizer da palavra « socialismo »? Também estava nos manuais, ainda que para defini-la fosse necessário recorrer a toda uma gama de palavras previamente instituídas: o socialismo adviria como superação da revolução democrático burguesa, quando o proletariado firmasse aliança com os camponeses e se fizesse ao poder com um partido único, o partido comunista. A tarefa do revolucionário seria, em primeiro lugar, assimilar o estatuto já pronto dessas e de tantas outras palavras, que assim apareciam plenas, nítidas e… aprisionadas, inutilizadas.

Declaradamente marxista, de tal modo que se intitulava Organização Revolucionária Marxista, a POLOP encarava de uma maneira radicalmente distinta a sua relação com o pensamento de Marx. O marxismo, como afirma o documento Caminhos e Caráter da Revolução Brasileira, é sobretudo experiência humana pensada e aproveitada. Então era preciso pensar a experiência brasileira, e por esse caminho elevar-se a uma « análise concreta da situação concreta ». Nessa perspectiva, não haveria nenhum manual que nos aliviasse a tarefa, as palavras tinham que ser reelaboradas, ou seja, preenchidas de determinações trazidas de uma observação ativa da vida social brasileira. Em que sociedade vivíamos? Importava combater mitos (como o do feudalismo, como o da burguesia nacional) para chegar-se à conclusão de que o Brasil era uma sociedade capitalista industrial, cujo Estado era composto pela burguesia integrada ao capital internacional e internamente associada ao velho latifúndio, e que, nessas circunstâncias, a única transformação social duradoura seria de caráter socialista. Essa foi uma das primeiras conclusões levadas ao documento básico, o Programa Socialista para o Brasil.