Lenin addressing vsevobuch troops on red square in moscow on may 25, 1919.

QUAL É A HERANÇA DA REVOLUÇÃO RUSSA?

As primeiras oposições

Pode-se dizer que as oposições no seio do Partido Bolchevique surgiram com a pró- pria revolução. A formação de um governo puramente bolchevique já encontrou resistência de uma parte do Partido e, se esse não passou de um episódio, deve-se sobretudo à atitude míope e arrogante dos mencheviques e sociais-revolucionários de direita, que não exigiram menos do que o afastamento de Lênin e Trotsky do governo como preço para a colaboração (os sociais-revolucionários de esquerda chagaram a integrar temporariamente o governo).

A primeira oposição de envergadura foi a de Bukharin, a dos chamados “comunistas de esquerda”, por ocasião do Tratado de Brest-Litowsk. Bukharin, que nesta ocasião podia contar com o apoio dos sociais-revolucionários de esquerda, exigia a guerra revolucionária contra a Alemanha, a fim de levar a revolução para o Ocidente.

A guerra revolucionária contra países capitalistas, em princípio, fazia parte da doutrina bolchevique da revolução proletária. Em 1920, Lênin e Trotsky tentaram materializá-la no conflito com a Polônia, mas o Exército Vermelho foi derrotado às portas de Varsóvia. Em princípios de 1918, entretanto, tanto Lênin como Trotsky sabiam que a jovem República Soviética não estava em condições de enfrentar a má- quina militar alemã, ainda intacta na Frente Oriental. Os camponeses russos, esgotados e cansados por quatro anos de guerra imperialista, desertavam em massa do Exército para não perder a vez na distribuição das terras. Havia divergências entre Lênin e Trotsky, mas não se podia falar naquela ocasião de uma oposição trotskista. As divergências giravam em torno da tática a seguir durante as negociações. Trotsky pretendia resistir ao máximo às exigências dos militares alemães, para mostrar à classe operária do Ocidente que a Revolução Russa não estava de jogo com cartas marcadas com a monarquia dos Hohenzoller e que Lênin não era “agente alemão”, como afirmavam os sociais-patriotas dos países aliados. Trotsky exagerou essa tática, mas finalmente, nas votações decisivas, aliou-se a Lênin contra Bukharin.

Seguiram-se os anos da guerra civil e de intervenção estrangeira. Não havia oposi- ção no seio do Partido. As poucas que surgiram, como a Oposição Militar de Stalin e Vonoshilov, se relacionavam com o emprego maciço de “especialistas militares” (oficiais do antigo Exército czarista), política defendida por Trotsky e endossada por Lênin, mas não tiveram conseqüências na vida partidária.

As Oposições que nos interessam aqui, isto é, aquelas que questionaram a estrutura econômica, social e política da República Soviética, e que marcaram profundamente o seu futuro desenvolvimento, surgem com o término da guerra civil, num momento em que as esperanças de uma revolução no Ocidente tinham passado. Foi justamente quando o PC soviético chegou a tomar consciência que tinha de solucionar o problema da manutenção do poder sem ajuda externa. E o que levamos em conta como Oposições não são meras divergências de opinião na cúpula ou nas bases do Partido, mas a existência de facções organizadas, com disciplina própria, que procuram sustentar os seus pontos de vista, apesar de derrotadas em Congressos, contra a maioria do Partido.

A primeira dessas oposições, a do “Centralismo Democrático”, surgiu em 1920, liderada por Osinsky e Sapronov. Sua formação se liga principalmente ao restabelecimento das direções responsáveis de um só homem nas empresas estatais. Até então, as fábricas e demais empresas industriais tinham sido dirigidas por conselhos compostos por representantes dos operários, sindicais e técnicos. O sistema não aprovou na tarefa da reconstrução e mais adiante veremos por que. Mas, o caso das direções das empresas só representava o cume de um fenômeno geral na sociedade soviética – a do restringimento da democracia socialista dentro e fora do Partido a favor das atividades dos “especialistas”. A facção do “Centralismo Democrático” representou a primeira forma de protesto organizado dentro do Partido, mas não estava em condições de apresentar uma alternativa viável. O que propunha era a conservação de métodos que, no passado, não tinham solucionado os problemas mais urgentes da sobrevivência da jovem República. Sua plataforma estava enriquecida ainda com reivindicações obviamente utópicas, como o abastecimento gratuito para os trabalhadores à base de um igualitarismo total, etc. Por isso mesmo, o “Centralismo Democrático” não sobreviveu ao 9° Congresso de forma organizada.

Repercussão maior dentro das fileiras do Partido obteve a “Oposição Operária” de Kollontai e Shliapnikov, que também se tornara conhecida no Ocidente.

A “Oposição Operária” procurara igualmente elaborar uma alternativa à tendência do restingimento da democracia socialista. O eixo de sua argumentação e plataforma se situava na exigência da entrega da reconstrução e da administração da economia soviética aos sindicatos. Argumentava que eram os sindicatos as organiza- ções de massa, que conglomeravam a classe operária e, portanto, eram os órgãos mais indicados para a realização da Ditadura do Proletariado e garantir, na prática, a democracia socialista.

Essa tentativa foi combatida frontalmente por Lênin, Trotsky e quase toda a liderança bolchevique. Embora tomassem posições diferentes na questão sindical, estavam uníssonos na argumentação sobre a incapacidade dos sindicatos soviéticos de assumir essas responsabilidades econômicas. Não negavam que, em princípio, os sindicatos tinham um papel de destaque na construção de uma sociedade socialista, mas a receita da “Oposição Operária” se chocava com a realidade soviética, com o despreparo cultural e técnico das massas, com seus sindicatos recém formados e sem tradições.

Foi Trotsky quem mais enfaticamente investiu contra a “Oposição Operária”, pois defendia justamente o extremo oposto na discussão. No passado, à procura de uma solução para os problemas econômicos candentes, tinha defendido a proposta de “militarização do trabalho”. Esbarrou com a resistência da maioria do Comitê Central e dos próprios sindicatos, evidentemente, e abandonou esse ponto de vista. Agora, no 10° Congresso do Partido, no qual a discussão sindical atingira o auge, e no qual também a “Oposição Operária” apresentara suas teses, defendia a posição de “Estatização dos Sindicatos”. Novamente não se impôs contra a maioria, que sob a liderança de Lênin rejeitou os dois extremos. É preciso ver, porém, que tanto a “Plataforma da Oposição” como as teses de Trotsky ainda partiam da premissa da continuação da política do comunismo de guerra. Esta, porém, recebeu logo em seguida o golpe mortal pelo levante dos marinheiros de Kronstadt. A revolta armada mostrou o quanto os bolcheviques estavam atrasados na solução dos problemas mais urgentes do país e varreu as teses opostas da mesa do Congresso. A “Oposi- ção Operária” caiu na passividade frente à realidade da NEP, instituída pelo Congresso. Deixou de atuar como uma facção dentro do Partido. Posteriormente, os seus remanescentes se cindiram em duas tendências. Uma, liderada por Kollontai, chegando à conclusão de que, nas condições russas, as suas concepções ideais de construção socialista não correspondiam à realidade, se colocou à disposição de Stalin. A outra ala, sob a liderança de Shliapnikov, nas lutas internas futuras iria juntar-se a Trotsky.

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