Greves selvagens estouram na Itália exigindo fechamento de fábricas durante pandemia do coronavírus

ESPECIAL CORONAVÍRUS

 

 

Por Will Morrow e Alex Lantier

 

Enquanto o número de mortos aumentava na Itália na quinta e sexta-feira em decorrência da pandemia global do coronavírus, greves selvagens estouraram em toda a península, lutando para deter a propagação da doença mortal. Ao mesmo tempo que o governo do primeiro-ministro Giuseppe Conte pede aos trabalhadores administrativos que evitem sair às ruas e que trabalhem de casa, os trabalhadores das fábricas estão exigindo que o contágio seja contido através do fechamento das plantas industriais cujas operações não são essenciais para o combate ao vírus.

Eles estão desafiando a burocracia sindical corrupta da Itália, que tem trabalhado de mãos dadas com os bancos e o governo Conte para exigir que os trabalhadores da produção permaneçam em suas empresas e continuem trabalhando – apesar da doença ameaçar acabar com milhões de vidas. Esse movimento é parte de uma crescente onda internacional de greves operárias contra a indiferença criminosa da aristocracia financeira à pandemia do coronavírus. Já ocorreram greves de trabalhadores dos correios em Londres, de motoristas de ônibus particulares em Paris e de trabalhadores da Fiat Chrysler (FCA) no Canadá.

Aparentemente, a onda de greves na Itália teve início na fábrica da FCA na cidade de Pomigliano, em Nápoles, que emprega 6.000 trabalhadores. Os operários automotivos, mantidos na linha de montagem para produzir carros de luxo da marca Alfa-Romeo para os super-ricos, cruzaram os braços espontaneamente no início do turno da tarde, às 14h de terça-feira, protestando contra as condições inseguras de trabalho.

Na quarta-feira, a FCA anunciou o fechamento da planta de Pomigliano, assim como das instalações em Melfi, Atessa e Cassino, até sábado. No entanto, a administração da FCA alegou que as fábricas seriam “higienizadas” para, em seguida, tentar forçar os trabalhadores a voltar ao trabalho – demonstrando seu desprezo criminoso pelo perigo de contágio entre os operários e outros funcionários das fábricas.

Naquela noite, o primeiro-ministro Conte foi forçado a anunciar medidas de emergência reforçadas para enfrentar o contágio: o fechamento de todos os restaurantes, museus, lojas não essenciais, proibições de reuniões públicas, maiores restrições de viagem e pedidos a todos os cidadãos para permanecerem dentro de casa sempre que possível.

Não foram impostas quaisquer restrições às operações das grandes empresas, que continuam mandando os trabalhadores para as abarrotadas linhas de montagem e sugando os lucros da força de trabalho, enquanto os trabalhadores e suas famílias são infectados por uma doença intratável e potencialmente fatal.

De quarta a sexta-feira, a onda de greves se multiplicou pela Itália, atingindo todas as grandes indústrias. “Os trabalhadores estão em greve contra o coronavírus, ou melhor, contra o governo que mantém as fábricas funcionando apesar do coronavírus”, escreveu o Corriere della Sera.

A onda de greves foi silenciada quase por completo pela mídia corporativa internacional: a classe dominante está apavorada que a mesma explosiva raiva esteja crescendo em toda parte e que o exemplo dos trabalhadores italianos seja seguido em todo o mundo.

Em Brescia, na Lombardia, uma das regiões que mais está sofrendo com a doença, o Secolo d’Italia escreveu na quinta-feira que “os trabalhadores de algumas fábricas iniciaram mais de uma greve selvagem. Um surto [de greves] também está ocorrendo em Grottaglie, na província de Taranto”, no sul da Itália.

Os trabalhadores do estaleiro Fincantieri, na região da Ligúria, paralisaram o trabalho após um operário ter sido testado positivo para o coronavírus, e a greve se espalhou rapidamente para outros estaleiros na península lígure.

Segundo a publicação sindical stalinista Rassegna Sindicale, trabalhadores entraram em greve na quinta-feira na Scotsman Ice em Pogliano Milanese, que produz unidades de refrigeração, e na fabricante de componentes automotivos Bitron, em Cormano.

Na sexta-feira, mais de 700 trabalhadores da Electrolux em Solaro, na sua maior parte mulheres, se recusaram a ir ao trabalho. Trabalhadores da Lobo di Cornaredo (que produz parafusos industriais) e da Tecnomagnete de Lainate entraram em greve. Mais de 450 operários da indústria têxtil Corneliani, em Mântua, paralisaram o trabalho “para protestar”, segundo o jornal La Voce di Mantova, “contra o fracasso do governo … em ordenar o fechamento das empresas que não estão envolvidas na luta contra o vírus”. Em Pistoia, na Toscana, os trabalhadores da fábrica de trens Hitachi iniciaram ontem uma greve de uma semana, até 21 de março.

As paralisações estão também afetando toda a indústria siderúrgica italiana. A maioria das metalúrgicas está encerrando suas operações até 22 de março. Em meio à rebelião crescente dos trabalhadores de base, os principais sindicatos metalúrgicos nacionais foram obrigados a publicar uma declaração na sexta-feira alertando que, se as empresas não encerrassem suas operações, as greves atingiriam toda a indústria até 22 de março.

Os sindicatos fizeram um vago apelo para que os salários sejam “cobertos em primeiro lugar por instrumentos contratuais, ou por qualquer rede de segurança social, conforme exigido por lei”, escreveu o Il Riformista. Isso quer dizer que os trabalhadores não tiveram nenhuma garantia real de que receberão seu salário integralmente durante a pandemia.

Os dirigentes sindicais, que ajudaram a manter os operários trabalhando até as greves estourarem, e só chamaram greves onde os trabalhadores já iriam iniciá-las de maneira independente, estão tão aterrorizados quanto o governo e as corporações com as greves e determinados a encerrá-las. Francesca Re David, a secretária geral do stalinista Sindicato dos Metalúrgicos Italianos (FIOM), apelou para que o governo realize uma “consulta” emergencial para impedir que as greves selvagens continuem se espalhando pelo país.

Ontem, o primeiro-ministro Conte realizou uma teleconferência de emergência com os sindicatos e associações patronais. O comunicado do governo sobre a reunião saudou os representantes dos sindicatos e das empresas por sua “máxima colaboração para chegar a uma solução comum”. Conte “apreciou muito a responsabilidade assumida por todos os parceiros sociais e seguiu enfatizando o ambiente muito construtivo que caracterizou o encontro”. Uma outra reunião foi realizada ontem à noite, “confiante de que todos estarão prontos a dar continuidade ao trabalho o mais rápido possível”.

O governo, os sindicatos e as corporações estão trabalhando “construtivamente” para forçar os trabalhadores a arriscar suas vidas, voltando para as fábricas em meio à pandemia, e garantir aos super-ricos que nada do que será feito durante a pandemia ameaçará suas fortunas de alguma forma. Como o WSWS observou em seu artigo publicado ontem, “O lema da oligarquia capitalista é: ‘Se a acumulação de nossos bilhões requer a morte de milhões, que assim seja’.”

Os trabalhadores não podem confiar nessas manobras sujas. Em nome da saúde e da sobrevivência da população, as lutas da classe trabalhadora, que estouraram contra o governo Conte, devem agora ser tiradas das mãos de seus lacaios dos sindicatos. Na Itália e no mundo, é a classe trabalhadora, e não os mercados financeiros e seus representantes políticos e sindicais, que deve decidir quais fábricas irão funcionar e sob quais condições.

Isso exige a criação de comitês de ação de trabalhadores, independentes dos sindicatos e controlados pela base. Eles podem coordenar as lutas da classe trabalhadora, opor-se às tentativas de levar os trabalhadores de volta ao trabalho, supervisionar o fechamento das fábricas, assegurar que os trabalhadores que estiverem em isolamento permaneçam recebendo seus salários integralmente e, em última instância, supervisionar a reabertura e o funcionamento seguro das fábricas após o fim da pandemia.

Para manter esse trabalho contra a oposição dos sindicatos e da classe dominante, eles precisam de uma perspectiva revolucionária contra o governo Conte e seus apoiadores nos mercados financeiros internacionais e na União Europeia (UE).

A pandemia do coronavírus é uma prova inquestionável de que a classe capitalista é incapaz de governar. Esta manhã, um Conte em pânico prometeu fornecer “equipamento de proteção pessoal, incluindo máscaras, grátis a todos os trabalhadores”, para que eles possam ser forçados a voltar ao trabalho. Ele saudou todos aqueles nas plantas afetadas que irão trabalhar – assim como suas famílias, amigos e entes queridos – por estarem realizando “um ato de grande responsabilidade para com toda a comunidade nacional”.

Quanta besteira! Esse “ato de grande responsabilidade nacional” só garantirá que os bancos continuem contando seus lucros, os burocratas sindicais, seus salários gordos, e os trabalhadores, a morte de seus entes queridos.

Chegou a hora de uma revolução. É preciso derrubar as políticas de austeridade que reduziram os gastos com saúde, os salários e condições de vida na UE e internacionalmente. A infraestrutura necessária deve ser erguida e financiada através da expropriação das riquezas da aristocracia financeira. Na Itália e em todo o mundo, a vida de incontáveis milhões de pessoas depende da transferência do poder político para a classe trabalhadora, assim como da substituição do capitalismo pelo socialismo.

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